Meditação

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Estátua do Buda em Kamakura, Japão, sentado e com os olhos entreabertos em meditação

A meditação pode ser definida como uma prática na qual o indivíduo utiliza técnicas para focar sua mente num objeto, pensamento ou atividade em particular, visando alcançar um estado de clareza mental e emocional.[1][2]. Sua origem é muito antiga, remontando às tradições orientais, especialmente a ioga[3], mas o termo também se refere a práticas adotadas por alguns caminhos espirituais ou religiões, como o budismo e cristianismo, entre outras.[4] Textos orientais consideram a meditação como instrumento que leva em direção à libertação.[5]

Meditando na natureza

Etimologia[editar | editar código-fonte]

O termo em páli utilizado para referir-se a meditação é bhavana, que significa "cultivo".[6] O termo meditação foi utilizado como palavra para traduzir práticas espirituais orientais, referidas pelo termo dhyana no budismo e hinduísmo.[7][8] Estudiosos notaram que o termo "meditação" no uso contemporâneo é paralelo ao significado do termo "contemplação" no cristianismo.[9]

História[editar | editar código-fonte]

Os Vedas hinduístas estão entre as primeiras referências escritas sobre meditação. Outras formas surgiram associadas ao confucianismo e taoísmo na China, assim como no hinduísmo, jainismo e budismo no Nepal e Índia. No terceiro século depois de Cristo, Plotino havia estabelecido técnicas para a meditação. No ocidente, mesmo 20 anos a.C., dentro do Império Romano, Fílon de Alexandria nomeou práticas espirituais que envolviam atenção e concentração.[10] Já no século XII, o sufismo utilizava de palavras sagradas e métodos específicos para meditação, como o controle da respiração.[11] A existência de interação com indianos, nepaleses ou sufis pode ser uma indicação da abordagem cristã ortodoxa ao hesicasmo, desenvolvida principalmente na Grécia entre os séculos X e XIV, mas não foram encontradas provas concretas.[12][13][14]

A meditação cristã praticada desde o século sexto foi definidas pelo monge Guigo II século XII com os termos "leitura, reflexão, oração e contemplação," e teve seu desenvolvimento continuado no século XVI em diante por Inácio de Loyola e Teresa de Ávila.[15][16][17][18]

Sri Chinmoy na meditação de abertura do Parlamento Mundial de Religiões em Barcelona, 2004

Definição[editar | editar código-fonte]

A definição de meditação pode variar de acordo com o contexto em que se encontra, variando de qual religião tem origem ou se é usada de maneira secular. Em meio acadêmico, a meditação já chegou a ser dividida em dois tipos de abordagem. A "atenção focada" compreende a concentração voluntária num objeto, respiração, imagem ou palavras. O outro tipo, o "monitoramento aberto", envolve uma observação não-reativa do conteúdo da experiência que ocorre num dado momento.[19]

Algumas definições do que é meditação estão relacionadas a uma prática ou técnica, outras vezes estão relacionadas a uma explicação de um estado de consciência ou simplesmente são usadas como um verbo.[20]

Algumas distintas definições que normalmente são usadas para meditação são:

  • prática de focar a mente em um único objeto (por exemplo: em uma estátua religiosa, na própria respiração, em um mantra);[21]
  • uma abertura mental para o divino, objetivando a orientação de um poder mais alto;[22]
  • um estado de silêncio que é vivenciado quando a mente se torna vazia e sem pensamentos;[21]
  • contemplação da realidade e seus aspectos, (como a impermanência, por exemplo),
  • desenvolvimento de uma determinada qualidade mental, como energia, concentração, plena atenção, bondade, etc e[23][24]
  • pensamento sustentado e aplicado em um tema (como na meditação cristã)

Ainda que algumas definições da palavra 'meditação' usadas por diferentes religiões sejam bem diferentes e até mesmo contraditórias, é ponto comum que apontem para uma realidade interior e o desenvolvimento/compreensão desta realidade. A compreensão de o que é a meditação deve ser feita sempre dentro do contexto em que é apresentada, da religião ou da escola que a apresenta, caso contrário as distintas explicações podem se tornar contraditórias.[24]

Ábade do templo Watkungtaphao sentado de pernas cruzadas e mãos sobrepostas no colo.

Objetivos[editar | editar código-fonte]

A meditação pode ser praticada por diversos motivos: desde a simples concentração dos pensamentos, até a busca pelo nirvana. Desde tempos antigos, as tradições orientais consideram a meditação como um passo em direção à libertação.[5] Há praticantes da meditação que relataram melhora na concentração, consciência, autodisciplina e equanimidade.[25] Segundo dicionários modernos, é vista uma prática onde o indivíduo utiliza técnicas para focar sua mente num objeto, pensamento ou atividade em particular, visando alcançar um estado de clareza mental e emocional.[1][2]

Um banco especial para facililtar sentar-se em seiza(ajoelhado).

Prática[editar | editar código-fonte]

A prática de meditação pode ter inúmeras variantes quanto à postura do corpo, objeto de meditação.

Postura[editar | editar código-fonte]

A meditação pode ser realizada sentado, em pé ou andando, variando pelo contexto onde é ensinada. A posição sentada é adotada normalmente por ser considerada a mais fácil, onde o corpo se encontra em repouso mas ainda alerta. A famosa posição de lótus se difundiu muito como sinônimo de meditação por ser usada no ioga como uma posição ideal de meditação, onde mantém o corpo estável, mas pode ser difícil de alcançar e não é recomendada caso traga desconforto ou distraia o praticante do objeto da sua prática ou técnica. Inúmeras posições de meditação podem ser usadas como de pernas cruzadas, de joelhos (seiza), meio-lótus (com uma perna em cima da outra), birmanesa, etc.[21] Na tradição budista é comum se encontrar a prática da meditação andando, que é vista como uma postura onde se desenvolve concentração em movimento, energia para a mente e vitalidade para o corpo.[26]

Métodos[editar | editar código-fonte]

Em linhas gerais, pode-se descrever dois grupos de técnicas de meditação. A "atenção focada" compreende a concentração voluntária num objeto, respiração, imagem ou palavras. O outro tipo, o "monitoramento aberto", envolve uma observação não-reativa do conteúdo da experiência que ocorre num dado momento.[19]

Duração[editar | editar código-fonte]

Normalmente, não há um tempo mínimo preestabelecido. Pode-se iniciar com um período de poucos minutos e, conforme se aperfeiçoa, esse tempo pode aumentar até para horas, dias, ou em casos excepcionais, até 21 dias (o samadhi). É importante ressaltar que a frequência da prática também influencia muito os resultados.[21]

Aprendizado[editar | editar código-fonte]

Nas tradições espirituais ou religiosas de meditação, o professor realizado é aquele que consegue ensinar o aprendiz em silêncio, através da sua própria consciência interior ou pelo olhar silencioso (iniciação). Ele não precisa explicar exteriormente como meditar ou ensinar uma técnica específica.[27]

Meditação e saúde[editar | editar código-fonte]

Historicamente, a meditação foi sempre usada e associada à prática espiritual e de autodescobrimento. No entanto, desde 1970, a psicologia e psiquiatria desenvolveram técnicas de meditação para diversos distúrbios psicológicos.[28] Práticas de "monitoramento aberto" (vide 'definição' acima) são utilizadas na psicologia para reduzir problemas mentais e físicos,[29][30] bem como dependência química. A evidência é insuficiente sobre o efeito da meditação no humor, atenção, alimentação, sono ou peso corporal.[31]

Pintura oriental de uma pessoa meditando no jardim.

Ver também[editar | editar código-fonte]

O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Meditação

Leituras adicionais[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b «Definição de meditação» 
  2. a b SHAPIRO, D. (1981). Meditation: Clinical and health-related applications. The Western Journal of Medicine, 134(2), 141-142 apud MENEZES, Carolina Baptista; DELL'AGLIO, Débora Dalbosco. Os efeitos da meditação à luz da investigação científica em Psicologia: revisão de literatura. Psicol. cienc. prof., Brasília, v. 29, n. 2, p. 276-289, 2009. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932009000200006&lng=en&nrm=iso>. access on 17 June 2016.
  3. LEVINE, M. (2000). The positive psychology of buddhism and yoga: Paths to a mature happiness. New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates apud MENEZES, Carolina Baptista; DELL'AGLIO, Débora Dalbosco. Os efeitos da meditação à luz da investigação científica em Psicologia: revisão de literatura. Psicol. cienc. prof., Brasília, v. 29, n. 2, p. 276-289, 2009. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932009000200006&lng=en&nrm=iso>. access on 17 June 2016.
  4. NARANJO, C. (2005). Entre meditação e psicoterapia. Rio de Janeiro: Vozes apud MENEZES, Carolina Baptista; DELL'AGLIO, Débora Dalbosco. Os efeitos da meditação à luz da investigação científica em Psicologia: revisão de literatura. Psicol. cienc. prof., Brasília , v. 29, n. 2, p. 276-289, 2009. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932009000200006&lng=en&nrm=iso>. access on 17 June 2016.
  5. a b Zen Buddhism : a History: India and China by Heinrich Dumoulin, James W. Heisig, Paul F. Knitter 2005 ISBN 0-941532-89-5 pages 15
  6. «etimologia 2» 
  7. Feuerstein, Georg (2006). «Yoga and Meditation (Dhyana)». Moksha Journal 
  8. Macdonell, Arthur Anthony (1971 [reimpresso de 1929]). «A practical Sanskrit dictionary with transliteration, accentuation and etymological analysis throughout». Oxford University Press  Verifique data em: |data= (ajuda)
  9. Kristeller, Jean L. (2010). «Spiritual engagement as a mechanism of change in mindfulness- and acceptance-based therapies». Assessing mindfulness and acceptance processes in clients: Illuminating the theory and practice of change: p. 152–184. ISBN 978-1-57224-694-2 
  10. Hadot, Pierre; Arnold I. Davidson (1995) Philosophy as a way of life ISBN 0-631-18033-8 pages 83-84
  11. Spiritual Psychology by Akbar Husain 2006 ISBN 81-8220-095-4 page 109
  12. An introduction to the Christian Orthodox churches by John Binns 2002 ISBN 0-521-66738-0 page 128
  13. «Hesychasm». OrthodoxWiki. Consultado em 12 de maio de 2010. 
  14. Archived from the original Arquivado em julho 29, 2010[Erro data trocada], no Wayback Machine. on February 11, 2014.
  15. Christian Spirituality: A Historical Sketch by George Lane 2005 ISBN 0-8294-2081-9 page 20
  16. Christian spirituality: themes from the tradition by Lawrence S. Cunningham, Keith J. Egan 1996 ISBN 0-8091-3660-0 page 38
  17. The Oblate Life by Gervase Holdaway, 2008 ISBN 0-8146-3176-2 page 109
  18. After Augustine: the meditative reader and the text by Brian Stock 2001 ISBN 0-8122-3602-5 page 105
  19. a b Lutz, Antoine; Slagter, Heleen A.; Dunne, John D.; Davidson, Richard J. (abril de 2008). «Attention regulation and monitoring in meditation». Trends in Cognitive Sciences. 12 (4): 163–169. PMC 2693206Acessível livremente. PMID 18329323. doi:10.1016/j.tics.2008.01.005. The term ‘meditation’ refers to a broad variety of practices...In order to narrow the explanandum to a more tractable scope, this article uses Buddhist contemplative techniques and their clinical secular derivatives as a paradigmatic framework (see e.g., 9,10 or 7,9 for reviews including other types of techniques, such as Yoga and Transcendental Meditation). Among the wide range of practices within the Buddhist tradition, we will further narrow this review to two common styles of meditation, FA and OM (see box 1–box 2), that are often combined, whether in a single session or over the course of practitioner's training. These styles are found with some variation in several meditation traditions, including Zen, Vipassanā and Tibetan Buddhism (e.g. 7,15,16)....The first style, FA meditation, entails voluntary focusing attention on a chosen object in a sustained fashion. The second style, OM meditation, involves non-reactively monitoring the content of experience from moment to moment, primarily as a means to recognize the nature of emotional and cognitive patterns 
  20. «O que é Meditação?». NANDAN. 25 de julho de 2018 
  21. a b c d Chinmoy, Sri (2008). Meditação: a Perfeição-Homem na Satisfação-Deus. São Paulo: Pensamento. 270 páginas. ISBN 9788531515316 
  22. Chinmoy, Sri. «O que é meditar». Meditação Brasil. Consultado em 22 de março de 2018. 
  23. «Acesso ao Insight - Budismo Theravada - meditacao». www.acessoaoinsight.net. Consultado em 18 de junho de 2016. 
  24. a b Sri Chinmoy (2008). «Os Ramos da Árvore-Deus». As Asas da Alegria. São Paulo: Pensamento. ISBN 9788531515552 
  25. Jair de Oliveira Santos. MEDITAÇÃO: fundamentos científicos. Salvador: Faculdade Castro Alves, 2010. (Apostila) pdf
  26. «Acesso ao Insight - Budismo Theravada - andando». www.acessoaoinsight.net. Consultado em 18 de junho de 2016. 
  27. Fishman, Aparajita (1984). «A Truth Must be Lived». The Committee on the Study of Religion, Harvard College. Consultado em 22 de março de 2018. 
  28. Harrington A. Dunne JD. (outubro de 2015). «When mindfulness is therapy: Ethical qualms, historical perspectives». American Psychologist. 70 (7): 621–31. PMID 26436312. doi:10.1037/a0039460 
  29. Strauss C, Cavanagh K, Oliver A, Pettman D (abril de 2014). «Mindfulness-Based Interventions for People Diagnosed with a Current Episode of an Anxiety or Depressive Disorder: A Meta-Analysis of Randomised Controlled Trials». PLoS ONE. 9 (4): e96110. Bibcode:2014PLoSO...996110S. PMC 3999148Acessível livremente. PMID 24763812. doi:10.1371/journal.pone.0096110 
  30. Khoury B, Sharma M, Rush SE, Fournier C (junho de 2015). «Mindfulness-based stress reduction for healthy individuals: A meta-analysis». J Psychosom Res. 78 (6): 519–528. PMID 25818837. doi:10.1016/j.jpsychores.2015.03.009 
  31. Chiesa A (abril de 2014). «Are mindfulness-based interventions effective for substance use disorders? A systematic review of the evidence». Subst Use Misuse. 49 (5): 492–512. PMID 23461667. doi:10.3109/10826084.2013.770027