Meditações Metafísicas

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Meditações metafísicas.

Meditações metafísicas, ou, em outras traduções, Meditações sobre a filosofia primeira, que tem como subtítulo nas quais são demonstradas a existência de Deus e a distinção real entre a mente e o corpo, é o nome da obra de René Descartes escrita e publicada pelo autor pela primeira vez em 1641. Nesta obra encontra-se o mesmo sistema filosófico cartesiano introduzido no Discurso do Método.

O livro é composto por seis meditações, nas quais Descartes põe em dúvida toda crença que não seja absolutamente certa, real, factível, e a partir daí procura estabelecer o que é possível saber com segurança.

Na primeira meditação encontram-se quatro situações que podem confundir suficientemente a percepção, a ponto de invalidarem, seguramente, uma série de enunciados sobre o conhecimento. O principal destes quatro argumentos é o do gênio[desambiguação necessária] maligno que tem a capacidade de confundir a percepção e plantar dúvidas sobre tudo o que podemos conhecer acerca do mundo e suas propriedades. Porém, mesmo podendo falsear a percepção, não pode falsear a crença nas percepções - ou seja, ele pode contra-argumentar contra a percepção mas não contra a crença que incide sobre as percepções. Descartes também conclui que o poder de pensar e existir não podem ser corrompidos pelo gênio maligno.

Na Segunda Meditação encontra-se o argumento de Descartes acerca da certeza da própria existência, certeza que prevalece sobre qualquer dúvida:

Convenci-me de que não existe nada no mundo, nem céu, nem terra, nem mente, nem corpo. Isto implica que também eu não exista? Não: se existe algo de que eu esteja realmente convencido é de minha própria existência. Mas existe um enganador de poder e astúcia supremos, que está deliberada e constantemente me confundindo. Neste caso, e mesmo que o enganador me confunda, sem dúvida eu também devo existir… a proposição "eu sou", "eu existo", deve ser necessariamente verdadeira para que eu possa expressá-la, ou para que algo confunda minha mente.

Em outras palavras, a consciência implica a existência,logo nesse instante ocorre a descoberta do Cogito (ser pensante) – em uma das réplicas às objeções que faz no livro, Descartes resumiu a passagem acima em sua hoje famosa sentença: penso, logo, existo (em latim: cogito, ergo sum) –, essa é a primeira certeza,segundo Descartes,clara e distinta que o permitirá seguir adiante,todavia mesmo encontrando essa certeza,aparece o problema do solipsismo , o qual se emerge no instante em que a única certeza real que Descartes possui é o ser pensante, logo ele se encontra só e toda realidade exterior,em um primeiro instante,poder-se-ia considerar ilusória – mas no entanto não é pois Descartes prova a veracidade do mundo exterior a partir do argumento ontológico de Deus.

Resposta ao Solipsismo : Deus é a base de todo o conhecimento[editar | editar código-fonte]

A descoberta do cogito ,como base para todo o conhecimento, por ser a certeza mais segura e clara alcançada ao renegar as opiniões, faz com que Descartes encontre uma série de problemas como:

  1. Se foi necessário por todas as coisas exteriores em dúvida – ou seja a própria realidade , o mundo – e a única coisa a qual se pode ter certeza é a res cogitan, ou seja, o meu pensamento que pôs todas as coisas em dúvida e alcançou o cogito, como pode-se explicar as res extensa, ou seja, as coisas exteriores?
  2. Se as coisas exteriores não podem ser explicáveis ,o mundo,o qual vivemos, se torna incerto e o indivíduo se encontra sozinho em seu pensamento e toda realidade é fruto de uma “projeção” do ser pensante (res cogitans) e,por isso, ele se encontra só ,já que tudo é uma projeção sua, e nada é real suficiente, somente seu pensamento é uma realidade firme e segura – como um terreno firme de onde parte as certezas.
  3. O próximo problema é decorrente dos dois primeiros: se o sujeito se encontra só em seus pensamentos, e se a realidade é fruto de uma projeção do mesmo, como um projetor de cinema que transmite uma suposta realidade, uma imagem, e se esse mesmo pensamento,que projeta, que “cria” a realidade como uma imagem,um quadro,pode falhar em seus raciocínios,se atrapalhar em suas ideias , errar em operações matemáticas ( que parecem ser tão certas) e até criar sonhos e ilusões como quimeras, como não pode, esse mesmo pensamento, iludir e ludibriar o ser pensante? Como pode tudo que eu penso,não ser fruto de um mero devaneio,fruto de uma enganação?

Descartes se vê obrigado , partindo do sujeito pensante,recorrer a uma origem de algo exterior a ele: A Deus.Todavia,aqui,Deus,para Descartes,não funciona somente como um “ente mágico” ou “cheio de poderes” sobre o mundo mas como um conceito apriorístico para à existência ,ou seja, Deus é ,na mesma medida, o Ser – pois ele deve existir para haver existência;é um conceito que abarca em si propriedades de existência absoluta e infinita – ,pois Descartes entende que somente um ser absoluto,isto é, que sempre é e nunca muda, e infinito , ou seja ,sem limites ,finito,não tem término de existência , pode ser um ser perfeito,logo o Ser – pois não contém em si o traço da imperfeição que é a limitação –, contrário as todos imperfeições da existência humana.Descartes,em outras palavras,diz que há um Ser perfeito e anterior ao ser pensante.Ele é anterior pois na medida que é a priori, ou seja, alcançado pela meditação, pela experiência do pensamento , e não por uma abstração, como uma experiência exterior com as coisas sensíveis,isto é,Deus como ser tem sua existência de forma anterior a experiência física e, inclusive , ao próprio ser pensante. Assim como as operações matemáticas (como a soma e a adição) são anterior ao próprio ato da operação matemática ,ou seja é uma existência que precede qualquer ato,pois é uma realidade que sustenta toda a realidade mundana e por isso Deus é a realidade a priori do pensamento. Só Deus pode ser a origem dos nossos pensamentos ao passo que temos a ideia de perfeição,pois sabemos quando erramos ao deduzir alguma conclusão errada,ou seja, quando temos consciência do erro – como por exemplo,identificar que um quadrado não é um triângulo – , é porque há em nós a ideia de perfeição ; a ideia de perfeição antecede a de imperfeição. E a origem da ideia de perfeição só pode resistir em Deus que é em sua natureza perfeito. Logo a resposta ao solipsismo do ser pensante está na anterioridade da ideia de Deus e na sua origem exterior ao ser pensante. A ideia de Deus é necessária para sustentar a própria existência do ser pensante como na passagem :

“E assim reconheço muito claramente que a certeza e a verdade de toda ciência depende do só conhecimento do verdadeiro Deus; de sorte que ,antes de o conhecer,eu não podia saber perfeitamente nenhuma outra coisa. E agora que o conheço ,tenho o meio de adquirir uma ciência perfeita no tocante a uma infinidade de coisas ,não só daquelas que estão nele, mas também, daquelas que pertencem à natureza corporal” [1]

Descartes então enfatiza que todo conhecer,logo toda ciência, toda construção de conhecimento ( epistemologia ),só é verdadeiro quando, no ato desse reconhecimento do cogito ,nessa experiência de solipsismo, nesse caminho percorrido das meditações,que reconhecemos que o nosso ser, o nosso pensamento,sozinho, é muito incerto,muito imperfeito, pois ele erra e ,com isso, para nos dar as certezas sobre o mundo real , é necessário recorrer a algo perfeito e verdadeiro, logo a Deus. Mas Descartes enfatiza: não é qualquer Deus que sustenta o pensamento e que a ele recorre, como um Deus bíblico castigador,mas o verdadeiro Deus que é o Deus absoluto e infinito,logo perfeito,o Deus que nos permite enxergar os nossos erros e enganos. E por isso que é a partir de Deus que Descartes reconhece que é possível conhecer as coisas,não só do pensamento – logo que estão ligadas de forma mais íntima a Deus,pois é pela via da meditação, ou seja, pelo espírito e com isso de forma a priori –, mas como as coisas exteriores,ou seja , como ele coloca “a natureza corporal” pois é a ideia de Deus ,contida no espírito, que permite reconhecer que o mundo exterior não é fruto de uma ilusão do pensamento.

O restante do livro, que não difere muito do precedente Discurso do Método, sendo porém mais acessível, dá continuidade as certezas alcançadas por Descartes e analisa a suposta prova do dualismo entre mente e corpo.

Ver também[editar | editar código-fonte]

  1. “Meditações metafísicas” , Quinta meditação, p 107. Martins Fontes.2011. São Paulo.