Meme

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Um meme, termo criado em 1976 por Richard Dawkins no seu bestseller O Gene Egoísta, é para a memória o análogo do gene na genética, a sua unidade mínima. É considerado como uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro ou entre locais onde a informação é armazenada (como livros). No que diz respeito à sua funcionalidade, o meme é considerado uma unidade de evolução cultural que pode de alguma forma autopropagar-se. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida como unidade autônoma. O estudo dos modelos evolutivos da transferência de informação é conhecido como memética.

Quando usado num contexto coloquial e não especializado, o termo meme pode significar apenas a transmissão de informação de uma mente para outra. Este uso aproxima o termo da analogia da "linguagem como vírus", afastando-o do propósito original de Dawkins, que procurava definir os memes como replicadores de comportamentos.

A chave de todo ser humano é seu pensamento. Resistente e desafiante aos olhares, tem oculto um estandarte que obedece, que é a ideia ante a qual todos seus fatos são interpretados. O ser humano pode somente ser reformado mostrando-lhe uma ideia nova que supere a antiga e traga comandos próprios.
Ralph Waldo Emerson

Etimologia[editar | editar código-fonte]

O termo meme provém do grego μιμἐομαι ("mimema", que tem a mesma raiz de mimese, e significa portanto "imitação"), através de sua forma em inglês mimeme, por aférese.1 Como o mesmo étimo grego dá em português palavras como "lema", "teorema", "morfema" ou "problema",2 seria defensável a forma "mimema", ou sua aférese "mema", como em inglês, para traduzir "meme". No entanto, Dawkins cunhou o termo também pela semelhança com as palavras "gene" e "memória", e o empréstimo do termo inglês consolidou-se em português, como se percebe pelo uso dessa forma na tradução do livro de Dawkins feita por Rejane Rubino.3

A tese de Dawkins[editar | editar código-fonte]

Segundo Dawkins, possuímos dois tipos de processadores informativos distintos:

  • O genoma ou sistema genético situado nos cromossomas de cada indivíduo é determinante do genótipo. Este DNA constitui a natureza biológica vital em geral e humana em particular. Mediante a reprodução, os genes transmitem-se por generações.
  • O cérebro e o sistema nervoso permitem processar a informação cultural (recebida pelo ensino, por imitação (mímesis) ou assimilação) divisível em ideia, conceito, técnica, habilidade, costume etc. - os chamados "memes".

A tese mais importante de Dawkins é que os traços culturais ou memes também se replicam. Por analogia com o agrupamento genético nos cromossomas, diz-se que os memes também se agrupam em dimensões culturais, que podem ser incrementadas com novas aquisições culturais. A grande diferença é que, enquanto os cromossomas são unidades naturais independentes de nossas ações, as dimensões culturais são construções nossas. Então, a cultura não é tanto o conjunto de formas de conduta, mas a informação que as especifica.

Transmissão dos memes[editar | editar código-fonte]

O conjunto de todos os memes possui as características próprias de qualquer processo evolutivo: fecundidade (algumas ideias são especialmente efetivas), longevidade (persistem durante muito tempo) e fidelidade na reprodução (conservadorismo tradicional, especialmente no ensino, como parte da educação infantil).

Por sua vez, os memes dão-se em um amplo campo de variação, replicam-se a si mesmos por mecanismos de imitação e transmissão de cérebro a cérebro, e geram um amplo leque de cópias que subsistem nos meios mais diversos. Assim sendo, temos o marco geral de um processo evolutivo que Dawkins compara com a evolução biológica, e prega que os memes devem ser considerados como estruturas viventes não somente metaforicamente, mas também tecnicamente. Os memes alternativos, que podem servir para efetuar a mesma função, são chamados alelomemes ou memes homólogos. Por sua vez, os memes podem agrupar-se formando macromemes, que constituem um sistema de muitos memes estruturados e inter-relacionados que formam um objeto cultural complexo, tal como uma língua, uma teoria, uma mitologia. Em geral, a maior parte das construções que sustentam a teoria da evolução das espécies, são aplicadas pelos defensores das teses de Dawkins à teoria dos memes.

Da mesma forma que os genes se autocopiam (ergo, 'inconscientemente'), os memes tendem a se replicar; as boas ideias não o serão propriamente se forem incapazes, ao mesmo tempo, de se replicarem bem. Assim, os memes são indiferentes à verdade, como os genes são estranhos a qualquer classificação. Este mecanismo de auto-reprodução não é exclusivo dos sistemas vivos, como o DNA e o RNA: certos polímeros e cristais, e os vírus informáticos mostram este comportamento, assim, não deveria ser ilógico em algo inerte como um meme, já que, como vemos, trata-se de um padrão visível em muitos elementos naturais. Os genes de um ser vivo, conforme passam as gerações, alcançam proporções insignificantes em seus descendentes.

Deste modo a equipe ou coleção de genes de um indivíduo tende a desaparecer. Entretanto, uma boa ideia ou um invento podem perdurar quase intactos durante séculos. Os memes e os genes frequentemente reforçam-se uns aos outros, mas isto nem sempre é assim; por exemplo, um gene do celibato seria erradicado rapidamente do acervo genético pois estaria condenado ao fracasso, por outro lado, um meme do celibato pode ter muito êxito no acervo de memes. O meio de transmissão é a influência humana de diferente índole, a palavra escrita/falada, o exemplo pessoal.

Evolução memética[editar | editar código-fonte]

A evolução memética, tal como o seu equivalente genético, pressupõe a possibilidade de mutações e de um mecanismo darwiniano de seleção natural para que possa ter lugar. As mutações são o fator responsável pela emergência de variações essenciais; as que são mais eficazes ao em replicar-se tornam-se, por definição, mais comuns, possuindo uma maior probabilidade de continuar a replicar-se. No entanto, diferentemente da evolução genética, a evolução memética não se sustenta em algo exterior, análogo ao genótipo. Se um roedor perde a sua cauda, ou um fisiculturista levanta pesos, por exemplo, a informação no ADN do seu genótipo permanecerá a mesma, e quando se replicar não irá passar essas características adquiridas. Na memética, por outro lado, o fenótipo coincide com o genótipo e dessa forma as mudanças no último são transmitidas quando for replicado.

Dessa forma, a memética pode ser vista como lamarckiana, o que possui a sua dose de ironia, já que consideráveis esforços e debates vieram a provar que a evolução genética não era. Não é contudo esta a perspectiva original de Dawkins, que se assume como um neodarwiniano, e que portanto nega a possibilidade de transmissão de características adquiridas nos memes tanto quanto nos genes, explicando o que superficialmente pode ser uma replicação de tipo lamarckiano como resultado de mutações.

É de admitir que as mutações dos memes (e o seu diferencial reprodutivo) tenham conduzido a linguagem a uma evolução cultural que, começando com umas poucas sílabas primitivas, a permitiu tornar-se hoje uma profusão de idiomas e dialetos, já para não mencionar as várias possibilidades de variação simbólica no interior de cada dialecto. O mesmo raciocínio pode ser aplicado aos sistemas de linguagem: a escrita, o Braille, as linguagens de sinais como a gestual etc. Para tomar um exemplo recente, o frequentemente citado meme "All your base are belong to us" produziu variações como "all your vote are belong to us", enquanto outras falas do diálogo do videojogo que esteve na origem deste meme, caso de "Someone set us up the bomb", ainda que também replicadas pela Internet, obtiveram menor sucesso. O número de resultados de um questionário efetuado nos sistemas de busca da Internet podem, até certo ponto, servir como medida imperfeita da popularidade de várias expressões meméticas.

A cultura evolui?[editar | editar código-fonte]

Dawkins observou que as culturas podem evoluir de modo muito similar ao das populações de um organismo. Entre as gerações podem ser passadas ideias que podem aumentar ou diminuir a sobrevivência dos indivíduos que as obtêm e usam. A esse processo vem associado um mecanismo de seleção das ideias que continuarão a ser passadas às gerações futuras. Por exemplo, cada cultura pode possuir métodos e designs únicos para a construção de determinadas ferramentas, mas a que possua métodos mais eficazes - assumindo que todas as outras variáveis se conservam inalteradas - irá provavelmente prosperar sobre as outras culturas. Isso leva a que prospere a adoção desses métodos, que serão usados por uma fração maior da população com o passar do tempo. Cada design de ferramenta funciona então da mesma forma que um gene biológico (que pode existir em algumas populações mas não em outras): a presença desse mesmo design nas gerações futuras é diretamente afetada pela sua eficácia enquanto meme.

Uma característica chave do meme é que ele é propagado por imitação, conceito proposto pelo sociólogo francês Gabriel Tarde. Quando a imitação surgiu evolutivamente nos humanos, isso veio a revelar-se um bom "truque", pois aumentava a capacidade individual de se reproduzir geneticamente. Talvez a seleção sexual dos melhores imitadores tenha levado a um aumento genético na capacidade dos cérebros para imitar. "Imitar" aqui significa basicamente levar informação do ambiente até ao cérebro por algum órgão sensorial. O elemento ambiental pode ser inanimado (como é o caso dos livros), mas, mais tipicamente, é um outro humano a partir de quem a informação de um certo comportamento é obtida e posteriormente praticada. As fontes inanimadas de informação são designadas pelo termo "sistemas retentores". Uma vez que os memes se propagam de um indivíduo a outro por imitação, não podem existir sem que cérebros que sejam suficientemente potentes para analisar os aspectos relevantes dos comportamentos a serem imitados (o que deve ser copiado e por que razão deve sê-lo) bem como seus benefícios potenciais. Os memes (ou comportamentos adquiridos e propagados por imitação) apenas podem ser observados num reduzido número de espécies terrestres, caso dos hominídeos, dos golfinhos, e de aves que aprendem a cantar por imitação dos seus progenitores. Pode no entanto ser alegado que existem memes menos complexos noutras espécies - por exemplo, comportamentos imitativos artificialmente induzidos em cefalópodes e ratos.

Uma outra característica que os memes partilham com os genes é o fato de sobreviverem para além dos indivíduos que os transportam. Um gene bem sucedido (como é o caso dos genes para dentes fortes numa população de leões) pode conservar-se sem mutações no conjunto de genes de uma população por centenas de milhares de anos. Da mesma forma, um meme bem sucedido pode propagar-se de indivíduo para indivíduo para muito além do momento em que teve origem.

Analogias biológicas[editar | editar código-fonte]

Assim como o conceito de egoísmo genético pode ser usado como auxiliar para uma melhor compreensão do modo como funciona a evolução biológica, o conceito de meme pode ser igualmente usado para compreender alguns aspectos da cultura humana (bem como comportamentos aprendidos de outros animais) que de outra forma careceriam de uma explicação suficientemente adequada. Em qualquer dos casos, se esta "explicação adequada" não for sustentada por testes empíricos, permanecerá a discussão em torno da cientificidade do conceito. A memética pode então ser considerada como uma ciência ainda na sua infância, uma protociência, ainda que muitos críticos do conceito a considerem tão-só uma pseudociência. Em todo o caso, muitas destas acusações podem provir duma interpretação literal da expressão "gene (ou meme) egoísta", que Dawkins sublinha que deve ser tomada como mera metáfora: um meme, assim como um gene, não faz ou deseja qualquer coisa intencionalmente. Simplesmente é (ou não) replicado, e isto de forma passiva.

Evolução dos memes[editar | editar código-fonte]

Para que ocorra a evolução, não basta a existência de mecanismos de hereditariedade e de seleção natural; é igualmente necessária a possibilidade de mutação, propriedade que também é atribuída aos memes. As ideias que são transmitidas de cérebro em cérebro podem sofrer modificações que se acumulam ao longo do tempo. Essas modificações no "fenótipo" (a informação nos cérebros ou sistemas retentores) são então transmitidas sob uma nova forma. Por outras palavras, de modo algo distinto da evolução genética, pode alegar-se que se propagam de forma tanto darwiniana quanto lamarckiana, pelo menos no sentido popular do último termo. Por exemplo, os contos populares e mitos são frequentemente adornados quando recontados com o objectivo de serem mais bem recordados -- aumentando dessa forma a probabilidade de serem recontados. Ilustrações mais contemporâneas podem ser encontradas nas várias lendas ou mitos urbanos e trotes (ou hoaxes) que circulam na internet, de que são exemplo os falsos avisos de vírus como o "goodtimes vírus".

Contrariamente à história dos genes, que sofrem mutações aleatórias, as mutações nos memes geralmente são intencionais. São "pessoas" que alteram os contos na intenção de melhorá-los, ou de que eles sejam recontados, apresentando ou não sucesso. Um outro exemplo bem oportuno: o leitor deste artigo graças ao "wiki-software" é encorajado a alterá-lo e melhorá-lo. Se esta "mutação" melhorar o texto na opinião dos leitores, ele continuará publicado nesta enciclopédia. Caso contrário ele será modificado ou eliminado.

Um outro aspecto da evolução dos memes é que pode-se criar mecanismos que facilitem, ou dificultem, o processo de mutação, como no exemplo descrito acima, e em iniciativas como a proteção de copyright e mecanismos de bloqueio de alterações que não facilitam sua evolução.

Forças evolutivas que afetam os memes[editar | editar código-fonte]

O sucesso de um gene ou de um meme é determinado apenas pelo número de cópias existentes (e por onde essas cópias residem). Há uma forte correlação entre genes bem sucedidos e genes que têm um efeito positivo no organismo que contém esses genes. Voltando a atenção para o caso dos memes que normalmente são interpretados como alegações de fatos, pode postular-se uma correlação análoga entre os memes bem sucedidos e os que são verdadeiros. Similarmente, haverá uma correlação entre memes de natureza tecnológica ou económica bem sucedidos e aqueles que têm um efeito positivo na economia. No entanto, este não é o único fator a ter em conta: há genes e memes cujo sucesso se deve a outros fatores e cujo efeito pode inclusive ser negativo.

O sucesso de um gene num corpo pode dever-se à sua capacidade de esquivar-se da loteria sexual, tendo para tal de estar presente em mais do que 50% dos zigotos de um organismo. Outros genes são selecionados positivamente pela via sexual. Assim, a evolução dos genes é influenciada por vários fatores que não exclusivamente o sucesso da espécie como um todo. Similarmente, as pressões evolutivas nos memes não são apenas a verdade e o sucesso econômico. Entre estas outras incluem-se:

  1. Experiência: Se um meme não apresenta uma correlação com o universo de experiência de um indivíduo, então será menos provável que este acredite nesse meme.
  2. Felicidade: Se um meme faz com que um indivíduo se sinta mais feliz, então será mais provável que acredite nele (ex.: a ideia de que se será recompensando depois da morte pelos atos cometidos em vida --- "faça assim e irá para o Paraíso depois da morte").
  3. Medo: Se um meme constitui uma ameaça, os indivíduos podem ser levados a crer nele pelo medo. (é o exemplo oposto ao anterior: "se você fizer isso, irá arder eternamente no Inferno).
  4. Economia: Se um meme tende a ser portado por pessoas ou organizações que têm influência econômica, então o meme provavelmente beneficiará uma maior audiência. Se um meme tende a aumentar as riquezas de um indivíduo portador, provavelmente irá disseminar-se pela mesma razão. Entre os memes deste tipo incluem-se ideias tão simples quanto a de que "o trabalho duro é bom" e "as coisas mais importantes devem vir em primeiro lugar".
  5. Censura: se uma grande e poderosa organização penaliza pessoas que expressam a crença nalgum meme em particular ou queimam livros que contenham esse meme, então ele será colocado numa situação de desvantagem seletiva. (A este propósito, deve contudo notar-se que existe o meme "é errado censurar". Seria interessante especular se esse meme teria prosperado pelo aumento da riqueza de algumas nações que o aplicaram, dessa forma aumentando a influência do meme em si).
  6. Conformidade e inovação: os memes, de forma um pouco diferente dos genes (mas não muito diferente dos genes presentes em vírus), podem aumentar em frequência simplesmente por serem populares. É o caso do apego ao tradicional e do repúdio ao novo - algo que se relaciona com um outro fator de seleção, a felicidade relativa que decorre do nível de aceitação social. Noutros casos, mais notoriamente na moda e em várias formas de arte memes podem tornar-se populares pela razão oposta, isto é, por serem incomuns ou inovadores. Pode neste caso haver uma relação mais ou menos direta com o mecanismo de seleção sexual.

Troca de vírus meméticos?[editar | editar código-fonte]

Uma controversa aplicação desse paralelo "egoísmo memético" é a ideia de que certos grupos de memes podem agir como "vírus meméticos": conjuntos de ideias que comportam-se como formas de vida independentes, e continuam a ser transmitidos mesmo que à custa dos seus hospedeiros simplesmente porque eles são bons em se fazerem ser transmitidos. Foi sugerido que as religiões e os cultos comportam-se dessa maneira; por incluir o ato de transmitir suas crenças como uma virtude moral, outras crenças da religião são passadas juntamente mesmo que elas não sejam particularmente valiosas para o crente.

Outros notam que a larga prevalência da adoção humana de ideias religiosas e defendem que isso prova que elas devem ter algum valor ecológico, sexual, ético ou moral. Por exemplo, a maioria das religiões urge por paz e cooperação entre seus seguidores ("Não matarás"), o que pode tender a promover a sobrevivência biológica de grupos sociais que carregam esses memes. Certamente os defensores das religiões alegam que há esses valores em se seguir suas regras e princípios - mas como isso está relacionado com o que eles sentem ser divino?

Há uma tendência na memética para criticar-se memes religiosos. De qualquer forma, algumas autoridades especulam que as religiões tradicionais agem como sistemas imunológicos mentais para suprimir novos memes que podem ser nocivos. Por exemplo, o cristianismo proíbe assassinato e suicídio, suas definições precisas de heresia garantem que novas religiões que advoquem essas ações não podem ser aceitas por pessoas educadas no cristianismo.

Ainda assim, a história nos mostra que não ocorre sempre exatamente isso, e verdadeiros massacres foram feitos com embasamentos religiosos, como guerras santas ou caça às bruxas. Ainda que religiões contenham memes que possam ter seus aspectos positivos, há um considerável grau de plasticidade individual da expressão dos memes, bem como influências de outros memes particulares de diversas localidades ou períodos na expressão de conjuntos de memes como a bíblia ou outros livros religiosos. Isso basicamente resulta nas diferentes interpretações ao longo do tempo, originando novas correntes religiosas a partir de uma base em comum. No decorrer dessa evolução muito do que pode ser considerado positivo pode deixar de ser expresso.

Muito disso está relacionado com os memes propagados pelas religiões que não estão diretamente, logicamente, associados aos valores morais e éticos, associações descartáveis de ideias sobre o sobrenatural como justificativa moral. Esses memes podem evoluir independentemente e influenciar negativamente na expressão dos memes considerados positivos.

Seleção não-natural[editar | editar código-fonte]

Quão "natural" é esse tipo de seleção? Talvez tão natural quanto a atração sexual ou hábitos éticos. A relação do meme com outras ideias de evolução, como essas que separam fatores ecológicos, sexuais, éticos e morais e não reservam um lugar especial ou separado para a "cultura" além desses, parecem ser "pretendentes do trono" - fingindo explicar essas ideias mais específicas de evolução e cultura, mas sem qualquer modelo para teste. Isso causa a alguns cientistas e outros a desdenharem a cultura como algum tipo de fator na vida humana.

Uma famosa observação desse tipo é a de que Margaret Thatcher, quem diretamente disse "não há essa coisa de sociedade" - evidentemente ela se referia a um conjunto de fatores de sobrevivência, sedução e escolha moral específicos dos indivíduos, casais e famílias e não como uma "cultura" ou "sociedade" unificadas de algum modo.

Exemplo de isolamento reprodutivo na 'especiação' memética[editar | editar código-fonte]

Na genética populacional tradicional, a variação genética normal, seleção, e deriva não levam a formação de novas espécies sem alguma forma de 'isolamento reprodutivo'; isso é, para dividir uma única espécie em duas, as duas subpopulações da espécie original devem de alguma forma ser impossibilitadas de intercruzar-se, o que iria normalmente manter sua heterogeneidade. No entanto, após separadas, a seleção natural e/ou apenas deriva genética agindo na variação genética normal das duas subespécies irá eventualmente modificar características suficientes entre os dois subgrupos que eles não poderão mais intercruzar-se, o que por definição significa que eles irão compor duas diferentes espécies. Exemplos de isolamento reprodutivo incluem isolamento geográfico, onde o surgimento de uma montanha ou rios separa dois subgrupos; isolamento temporal, onde um subgrupo torna-se totalmente diurno em seus hábitos enquanto o outro torna-se totalmente noturno; ou até mesmo apenas isolamento "comportamental" como visto em lobos e cães domésticos: eles poderiam intercruzar-se, biologicamente falando, mas normalmente eles simplesmente não o fazem.

Um fenômeno similar pode ocorrer com memes; normalmente, a população dos indivíduos portadores de um meme em suas consciências é heterogênea e mistura-se suficientemente para manter o meme intacto, ainda que isso cubra uma grande amplitude de variações. Mas de qualquer forma, se a população divide-se, sem contato suficiente entre os dois subgrupos de variações do meme para equilibrarem-se, eventualmente em cada grupo irá evoluir sua própria versão desse meme, diferindo suficientemente do outro grupo para ser considerado uma entidade distinta.

Um exemplo disso ocorrendo na internet é o meme Kellerman. Uma busca na rede e/ou Usenet pela palavra 'Kellerman' irá resultar num grande número de citações, descrevendo extensivamente o covarde comportamento de um 'Dr. Arthur Kellerman', quem, com a assistência voluntária do centro de controle de doenças e do 'poderoso lobby da saúde pública' fabricou falsos estudos tentando implicar armas de fogo (e por extensão os seus donos) como uma ameaça à segurança pública, para propósitos de controle estatal da população que de outra forma seria frustrado pela segunda emenda da Constituição dos Estados Unidos da América, o direito de ter e portar armas. Os autores dessas páginas e postagens descrevem aparentes maquinações, ciência propagandista, ou um subsequente arrependimento do Dr. 'Kellerman', e o uso de seu trabalho por proponentes do controle de armas.

Na realidade, é claro, não há um 'Dr. Arthur Kellerman', ao menos não em qualquer conexão com a descrição acima. Há, no entanto, um Dr. Arthur Kellermann (com "duplo" n), que de fato publicou vários artigos estimando o impacto geral na saúde pública quanto a disponibilidade de, e vários aspectos de, armazenamento de armas de fogo etc, como parte de uma robusta e saudável carreira na saúde pública e medicina de emergência e trauma. Como qualquer série de estudos desse tipo, há pontos fortes e fracos no trabalho de Kellermann que são rigorosamente debatidos tanto na literatura quanto na internet; de qualquer forma, mesmo após eliminar questões de opinião e afirmações que não são 100% sustentados, os fatos restantes facilmente verificáveis das publicações, carreira, os detalhes de cada estudo, etc de Kellermann são virtualmente irreconhecíveis na descrição do maligno Dr. Kellerman.

O que aconteceu é um exemplo do meme original de Kellermann e seu trabalho sobre ferimentos violentos relacionados às armas tendo gerado um novo meme, 'o mentiroso, maligno, antiarmas Dr. Kellerman inimigo da liberdade' por um fenômeno análogo à clássica deleção genética. A subpopulação envolvida era aquela com ações extremamente negativas contra o trabalho de Kellermann bem como uma falta de familiaridade com seus estudos, carreira, etc. Por causa de 'isolamento reprodutivo' devido à total ausência de interseção dos resultados de busca por "Kellerman" de "Kellermann", o meme "Kellerman" derivou ainda mais na direção da negatividade, independentemente da realidade. Como esse grupo encontra novos indivíduos de mentalidade geral similar, eles são introduzidos apenas ao mito 'Kellerman', e vão reproduzi-lo em seus próprios websites e postagens ampliando o rápido progresso desse meme dentro do intervalo da existência da internet.

Esse fenômeno também demonstra duas outras características de memes: o 'complexo de memes': um conjunto de 'co-memes' mutualmente ajudantes que co-evoluíram uma relação simbiótica, e a estratégia de infecção 'Vilão versus Vítima'.4

A forma assumida pelos memes no cérebro[editar | editar código-fonte]

Em 1981 os biologistas Charles J. Lumsden e Edward Osborne Wilson publicaram uma teoria de co-evolução de genes e cultura no livro Genes, Mind, and Culture: The Coevolutionary Process (em português:"Genes, mente, e cultura: o processo co-evolutivo"). Eles apontaram que as unidades fundamentais biológicas da cultura devem corresponder a redes neurais que funcionam como conexões de memória semântica. Wilson depois adotou o termo "meme" como o melhor nome existente para a unidade fundamental de herança cultural e elaborou sobre o papel fundamental dos memes em unificar as ciências naturais e as sociais no seu livro A unidade do conhecimento: consiliência.

Exemplos de memes[editar | editar código-fonte]

As seguintes declarações são (grosso modo) versões de alguns memes comuns:

  • Tecnologia é o exemplo maior, carros, grampeadores etc. Tecnologia claramente demonstra mutação, a qual também é essencial para o progresso memético (ou genético) ser feito. Existiram muitos desenhos de grampeadores ao longo da história, por exemplo com variáveis graus de longevidade, fecundidade, fidelidade (ie. "sucesso" memético).
  • Jingles, músicas em propagandas políticas e comerciais e slogans.
  • "Earworm", canções, em especial refrões, que você não consegue parar de cantarolar ou pensar.
  • Piadas; ou melhor, piadas conhecidas por serem engraçadas.
  • Provérbios e aforismos (e.g., "Deus ajuda quem cedo madruga").
  • Canção de ninar; são propagadas por pais para filhos por várias gerações, muitas vezes associada a ações e movimentos específicos.
  • Memes portugueses - por vezes existem frases, interjeições e até mesmo sketches que se massificam numa cultura ou sub-cultura.
  • Poema épico; como importantes memes para preservar a história oral, apesar de eles terem sido há muito tempo mortos pela escrita.
  • Corrente de correspondência; "Você deve mandar esta mensagem para cinco outras pessoas, ou algo ruim vai acontecer com você."
  • Religiões são memes complexos, e religiões, incluindo crenças folclóricas, podem até mesmo se espalhar como um vírus (como a Oração de Jabez)
  • Teorias da conspiração.
  • "Eu sou uma pessoa de sorte. Aqui estão algumas histórias da minha sorte. Se você acredita em boa sorte, você pode se tornar tão sortudo quanto eu" (e sua observação: veja sorte).
  • Fenômenos na internet como gíria de internet e humor de internet (como All your base are belong to us).
  • Susan Blackmore teorizou que o "eu" é meramente uma coleção de histórias meméticas que ela chama de "euplexo".
  • O conceito de memes é em si um meme. Até mesmo a ideia de que o conceito de memes é um meme se tornou um meme muito difundido. Entretanto, a ideia de que os conceitos de memes são em si memes, não é particularmente comum como um meme.
  • Filmes são muito meméticos devido à replicação em massa, causando nas pessoas a vontade de imitar um grande número de coisas que eles observam, como "Você não aguenta a verdade" de A Few Good Men ou "entããããããão tá", de Ace Ventura, mesmo que eles não tenham visto o filme em si.
  • Memes políticos que se estendem como "regra da máfia" e "república não democrática".
  • Todos os tipos de fanatismo baseado em grupos, do antissemitismo e do racismo para cultos de carregamento.
  • Paradigmas de programação, de Programação estruturada para Programação extrema.
  • A Lei de Moore tem uma interessante e particular forma de auto-replicação. A convicção de que a "complexidade do semicondutor dobra a cada 18 meses" se tornou mais do que uma observação preditiva mas sim um alvo de performance de toda uma indústria uma vez que foi acreditado extensivamente. Manufatureiros agora brigam para que a próxima geração de tecnologia de semicondutores recriem o ganho de performance da geração anterior para manter a crença na lei de Moore.
  • Wikis: A proliferação de sistemas edição colaborativa seguindo o exemplo da Wiki em suas múltiplas edições. Wikipédia, Wikicionário etc.
  • Conceitos como Liberdade, Justiça, Propriedade, Código aberto ou Altruísmo

O "dicionário memético" é uma lista de atributos a cerca de memes que foi compilado por Glenn Grant sob uma licença de "divisão". Os exemplos demonstrados oferecem ajuda para se focar no conceito, para um leitor que não é familiar com o termo "meme". O dicionário está circulando desde o começo dos anos 90, e está atualmente em sua terceira edição.4

Os memes "sê feliz" e "faça os outros felizes"[editar | editar código-fonte]

Algumas práticas espirituais, por exemplo o Budismo, promovem claramente metas ecológicas e morais reconhecíveis pela maior parte das pessoas. Por exemplo o Nobre Caminho Óctuplo dá importância ao consumo limitado, à redução da crueldade, à não-violência ou participação em sistemas violentos e ao afastamento de processos sexuais e éticos que não tenham um claro interesse ecológico ou moral para o praticante - independentemente do valor que possam ter para os outros.

As religiões judaico-cristãs, da mesma forma, concentram-se principalmente na devoção a uma divindade transcendente e na adoção de normas morais para o comportamento, incluindo normas sociais e éticas que afetam todos os aspectos da vida, desde o amor altruísta, ao comércio e à atividade sexual. As pessoas são encorajadas a se devotarem às necessidades dos outros. O contraste entre o "sê feliz" e o "faça os outros felizes", apesar de não ser tão brilhante na prática, ou teoria, como o debate tradicional sugere, pode satisfazer contrastes de normas sexuais ou ecológicas diferentes em alguma forma não-óbvia.

Religião[editar | editar código-fonte]

Uma pessoa considera a própria religião como um meme ou, mais exatamente, um grupo de memes associados - um memeplexo. Certos movimentos cristãos fundamentalistas são notáveis por apenas agirem para aumentar os seus próprios números. Os movimentos em questão devotam quase 100% do seu tempo à atividade evangélica, não servindo a qualquer outro propósito. Isto possibilita que sejam considerados simplesmente como um vírus autocentrado e, em alguns casos, particularmente eficiente.

A direita religiosa americana tem uma mensagem construída nos dogmas religiosos. Ao anexar políticas conservativas para evangelismo religioso cristão (meme) eles estão associando um grupo de ideias políticas/memeplexos com um grupo de ideias religiosas/memeplexos que durante a história se "repetiram" de forma muito eficaz. Isto é, a Cristiandade conseguiu converter por séculos; Agora em muitos casos uma conversão política é, em parte, por causa da conversão religiosa.

Resistência ao Meme[editar | editar código-fonte]

Karl Popper defende isso nos termos mais fortes possíveis: "o valor de sobrevivência da inteligência é que ela permite que nós extinguamos uma má ideia antes que ela nos extingua."

Resistência à ciência e à cultura tem sido um meme comum (ou antimeme ou a-meme) guiando a evolução cultural e cognitiva do homem para longe de caminhos destrutivos - por exemplo os Estados Unidos e a URSS armazenaram mas não utilizaram armas nucleares no período da Guerra Fria. A ignorância tem sido considerada como uma virtude em algumas culturas - em particular a ignorância de certas tentações que a cultura acredita que seriam desastrosas se adotadas por muitos indivíduos.

A internet, talvez o maior vetor de memes, parece estar englobando os dois lados do debate. Embora possa parecer verdade, para um observador ingênuo, que nenhum adulto pode impedir que outro adulto que acesse a internet, isso não acontece de fato, baseado em vários valores éticos tentando disseminar a resistência contra hackers ou pornografia.

A Principia Cybernetica Web mantém um léxico de conceitos meméticos compreendendo uma lista de diferentes tipos de memes.5 Também faz referência a um ensaio de Jaron Lanier:"A ideologia dos totalistas intelectuais cibernéticos"6 , crítico do "meme totalists" que afirma os memes acima dos corpos.

História do conceito de Meme[editar | editar código-fonte]

O conceito de ideias espalhadas por regras genéticas prediz o neologismo do termo; por exemplo, William S. Burroughs assertou que "Linguagem é um vírus".

John Laurent no The Journal of Mimetics até mesmo sugeriu que o termo meme pudesse ter vindo do trabalho de um biólogo alemão pouco conhecido chamado Richard Semon. Em 1904 Semon publicou Die Mneme (publicado em Inglês como The Mneme em 1924). Seu livro discutia a transmissão cultural de experiências com critérios paralelos aos de Dawkins. Laurent achou o uso do termo mneme em The Soul of the White Ant (1927) de Maurice Maeterlinck e sublinha os paralelos com o conceito de Dawkins:

Agora, a frase que Maeterlinck usa - onde ele discute várias teorias que tentam explicar 'memória' em termos como outros insetos 'sociais' (formigas, abelhas, etc.) - é "engrammata em cima do mneme individual" (Maeterlinck, 1927, p.198), e de acordo com meu dicionário (Webster's Collegiate), um anagrama é "um traço de memória; especif.: Uma mudança protoplasmática no tecido neural hipoteticamente contanto para a persistência da memória." Pelo que vale, Maeterlinck explica que ele obteve sua frase do "filósofo alemão" Richard Semon.[3]

Laurent sugere que as raízes etimológicas do termo meme estão em mimneskesthai, o termo grego para memória, em vez do comumente aceito mimeishtai, ou imitação.

Everett Rogers foi o pioneiro em teoria da difusão de inovações, explicando como e por que pessoas adotam novas ideias. Rogers foi influenciado por Gabriel Tarde, que fez as "leis da imitação" que explicavam como as pessoas decidiam se deveriam copiar o comportamento. Francis Heylighten do Centro Leo Apostolo para Estudos Interdisciplinares chegou ao que ele chama de Critérios de seleção memética. Estes critérios abriram o caminho para um campo especializado de aplicação de meméticas para descobrir se estes critérios de seleção poderiam aguentar uma análise quantitativa. Em 2003 estes testes foram feitos por Klass Chielens em uma tese de Mestrado sobre a testabilidade do critério de seleção.

Referências[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Dawkins, Richard. O gene egoísta. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. Tradução de Rejane Rubino.
  2. Dicionário Eletrônico Houaiss, v. 1.0. [s.l.]: Instituto Antônio Houaiss / Editora Objetiva, 2001. CD-ROM
  3. Dawkins, Richard. O gene egoísta. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. Tradução de Rejane Rubino.
  4. a b Dicionário memético
  5. [1]
  6. [2]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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Sociobiologia

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