Milagre do Reno

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Centro financeiro de Frankfurt, Alemanha. A cidade hospeda a Bolsa de Frankfurt e tornou-se o centro financeiro da Alemanha Ocidental, como um prelúdio para o seu papel na construção europeia.

A expressão milagre do Reno[1][2] (em alemão: Wirtschaftswunder , milagre econômico, pronúncia ajuda · ficheiro · ouvir) descreve a rápida reconstrução e o desenvolvimento da economia da Alemanha Ocidental e Áustria após a Segunda Grande Guerra.[3] O termo em alemão Wirtschaftswunder foi usado pela primeira vez pelo Jornal The Times em 1950. Iniciando-se com a substituição do Reichsmark pelo Marco alemão como moeda oficial (uma reforma similar foi adotada na Áustria com o Xelim austríaco), um duradouro período de baixa inflação e rápido crescimento industrial foram supervisionados pelo Chanceler Konrad Adenauer e seu Ministro das finanças Ludwig Erhard, que ficou conhecido pela história como o "pai do milagre econômico alemão".[3] Na Áustria, as práticas eficientes de trabalho levaram o país a um período de crescimento econômico parecido. A era do crescimento econômico elevaram a Áustria e a Alemanha de um período de total devastação no pós-guerra a modernos países desenvolvidos.[3] Com a fundação do Mercado Comum Europeu, o crescimento econômico alemão ascendia em contraste ao esforço econômico que se estabelecia no Reino Unido.

República Federal da Alemanha[editar | editar código-fonte]

Crianças alemãs em um campo de refugiados, Alemanha Ocidental, 1945.

O milagre econômico alemão é a chave para descrever o rápido desenvolvimento econômico de forma inesperada na República Federal da Alemanha (Alemanha Ocidental) após a Segunda Guerra Mundial.[4]

O começo é a reforma monetária de 1948,[4] o fim se dá em duas escalas: em 1958 como o cessar de um ciclo, preliminar de integração na economia global, com a plena convertibilidade da Alemanha na CEE (Comunidade Econômica Europeia), e em 1967 com a primeira grande recessão depois da guerra. As razões fundamentais para a rápida recuperação econômica da Alemanha Ocidental podem ser encontradas no modelo de crescimento exógeno. A Alemanha Ocidental tinha uma força de trabalho qualificada e um elevado nível tecnológico em 1946, mas o seu capital social fora amplamente destruído durante a guerra.

Recessão do pós-guerra[editar | editar código-fonte]

O pequeno estoque de capital, bem como a conversão de problemas monetários e de regulamentação levou a uma rápida recessão econômica durante os primeiros anos do pós-guerra. Estes problemas iniciais foram superados com a reforma monetária de 1948, que substituiu o Reichsmark pelo Marco alemão como moeda, impedindo a inflação galopante.[5]

Este ato para fortalecer a economia alemã havia sido expressamente proibido durante os dois anos em que as Forças aliadas estavam dirigindo a ocupação na Alemanha. Os aliados desmantelaram a produção do carvão e de indústrias siderúrgicas na Alemanha Ocidental e decidiram na conferência de Potsdam que todos os equipamentos industriais e fábricas no oeste deveriam ser desmontados e a capacidade de produção de aço reduzida a somente 6,7 milhões de toneladas.[6]

Barreiras à recuperação econômica[editar | editar código-fonte]

Alemanha Ocidental continuou seu esforço depois de 1948 para reconstruir rapidamente seu capital social e, assim, aumentar a sua produção econômica. A elevada taxa de investimento de capital, graças ao baixo consumo e uma necessidade muito pequena de investimentos em substituição de capital (devido ao estoque de capital ainda pequeno) dirigiu esta recuperação durante a década de 1950.[7]

Além das barreiras físicas que tiveram de ser superadas para a recuperação econômica na Alemanha houve também desafios intelectuais. Os Aliados confiscaram toda a propriedade intelectual e patentes de grande valor,[8] tanto na Alemanha como no exterior, e as usou para fortalecer sua competitividade industrial e licenciá-las para as empresas aliadas. Durante os mais de dois anos que esta política vigorou, nenhuma pesquisa industrial na Alemanha pode ter lugar, como qualquer resultado teria sido automaticamente posto à disposição dos concorrentes estrangeiros, que foram incentivados pelas autoridades de ocupação para acessar todos os registros e instalações científicas.

Plano Marshall[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Plano Marshall
O Volkswagen Fusca foi um ícone da recuperação econômica da Alemanha Ocidental.

O Plano Marshall deu um grande impulso, contudo deu pouca assistência financeira real até que a recuperação já estivesse em pleno andamento. O Plano, que havia sido estendido para incluir também a Alemanha Ocidental suprimiu a economia da alemã inicialmente, e por consequência, travou a recuperação do resto da Europa.[5]

Algo que ajudou na construção do milagre econômico alemão foi a presença das tropas aliadas ocupando o território, demandando bens e serviços em toda a Alemanha. Os produtos consumidos no interior da Alemanha geravam renda e estimulavam a acumulação de capital das pequenas fábricas. Durante os exercícios militares os soldados aliados consumiam desde carros e alimentos até bens de luxo e cervejas.

O montante da ajuda monetária recebidos pela Alemanha por meio do Plano Marshall foi de cerca de US $ 1,4 bilhão,[5] entretanto tal valor era ofuscado pela quantidade encargos e custos que os alemães tiveram de reparar as nações aliadas (cerca de 2,4 bilhões dólares americanos por ano).[9] Em 1953, foi decidido que a Alemanha pagaria 1,1 bilhões dólares da ajuda que recebeu. A última devolução foi feita em junho de 1971.[10][11]

Recuperação[editar | editar código-fonte]

Nos anos de 1952 a 1960, o investimento aumentou na Alemanha Ocidental 120% e o PNB 80%. A política de reconstrução alemã não só abriu o caminho para o retorno da Alemanha à comunidade internacional, mas permitiu já em 1954 que o parque industrial na Alemanha Ocidental voltasse a ter o mesmo nível estrutural do período pré-segunda guerra (1938). Este ritmo superou as expectativas, que previam que reconstrução das cidades alemãs duraria 40 ou 50 anos.

Em 1953 a Alemanha estava operando com suas indústrias em plena capacidade e todas estavam na vanguarda do investimento em tecnologia. Apesar dos déficits de capital a economia da Alemanha Ocidental adquiriu uma moderna tecnologia e desenvolveu de uma indústria competitiva internacionalmente através da pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias.[12]

Em 1955 a economia da Alemanha Ocidental cresceu 10,5%, com os salários reais também crescendo a 10%, e a produção de automóveis aumentou neste mesmo ano 19%. O termo milagre até então utilizado apenas como um fator econômico passou a ser utilizado como um termo político, pois, no mesmo ano a soberania nacional foi devolvida aos alemães ocidentais.[13]

A guerra da Coreia (1950-1953) gerou um aumento da demanda mundial de bens, e a escassez resultante ajudou a superar a resistência persistente à compra de produtos alemães. No período da guerra a Alemanha teve um grande salto de mão de obra qualificada, em parte como resultado das deportações e das migrações que afetaram até 16,5 milhões de alemães. Isso ajudou a Alemanha Ocidental a dobrar o valor de suas exportações durante e logo após a guerra. Além destes fatores, as grandes jornadas de trabalho e a plena capacidade em que a indústria trabalhava forneceram uma base fundamental para a sustentação da retomada econômica.[14]

Desde o final de 1950, a Alemanha Ocidental tinha uma das economias mais fortes do mundo. A economia da Alemanha Oriental também mostrou um forte crescimento, mas não tanto como na Alemanha Ocidental, devido ao sistema burocrático, e a emigração de alemães em idade de trabalhar para a Alemanha Ocidental. O índice de desemprego, na parte ocidental da Alemanha, atingiu o nível mais baixo nos anos de 1961-1966 e 1970-1971 quando oscilou entre 0,7 e 0,8%.[15]

Áustria[editar | editar código-fonte]

A Áustria assim como a Alemanha Ocidental estava devastada no pós-guerra, fato este que também foi necessário incluí-la no Plano Marshall e, portanto, é posta como participante direta do milagre econômico (Wirtschaftswunder).[16] A recuperação econômica austríaca se deu através da nacionalização de algumas indústrias estratégicas (principalmente metalúricas), da manutenção da política industrial que valorizava longas jornadas de trabalho, e o uso da capacidade econômica plena.

Usando a Alemanha Ocidental como referência, a moeda foi estabilizada quando o Schilling (Xelim austríaco) foi reintroduzido no lugar do Reichsmark. Essa política econômica foi conhecida nos círculos jornalísticos como o plano Raab-Kamitz-Kurs, em homenagem ao chanceler Julius Raab e seu ministro das Finanças, Reinhard Kamitz semelhante ao plano econômico alemão Adenauer-Erhard-Kurs.[17]

Na década de 1950 o desemprego chegou a níveis muito baixos, sendo necessário o governo austríaco incentivar a emigração dos Gastarbeiter (Trabalhadores do sul), primeiro vindos do sul da Itália e depois da Grécia e Turquia, na medida em que mais mão de obra era necessária para manter o crescimento econômico.[18]

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Referências

  1. Fortes, Débora (6 de novembro de 2011). «Inovação na marra». Revista Época Negócios. Editora Globo. Consultado em 29 de abril de 2017 
  2. DA SILVEIRA, EVANILDO (4 de setembro de 2014). «O exemplo da Coreia do Sul». www.sescsp.org.br. Consultado em 29 de abril de 2017 
  3. a b c Der Brockhaus Zeitgeschichte (1999). Vom Vorabend des Ersten Weltkrieges bis zur Gegenwart, 2003. Berlim: Enciclopédia Brockhaus. ISBN 3-7653-0161-2 
  4. a b «Alemanha lembra 60 anos do marco, símbolo do milagre econômico no pós-guerra». Uol Economia. Consultado em 1 de outubro de 2011 
  5. a b c «1948: Reforma monetária alemã». DW World 
  6. Gareau, Frederick H. (1961). «Morgenthau's Plan for Industrial Disarmament in Germany». University of Utah. Western Political Quarterly. 14 (2): 517–534. JSTOR 443604. doi:10.2307/443604 
  7. «Wilhelm Hankel, arquiteto do 'milagre econômico' da Alemanha, diz que o fim do euro está próximo». O Globo Economia 
  8. «Secrets By The Thousands». Harper's Magazine/C. Lester Walker. Outubro de 1946 
  9. «Pas de Pagaille». Time.com. 28 de julho de 1947 
  10. «German Economic Miracle». Econlib/David R. Henderson 
  11. «Marshall Plan 1947-1997». A German View 
  12. «O novo milagre econômico alemão». Notícias BOL 
  13. «O Sistema Financeiro». DW World 
  14. «Alemanha comemorou 60º aniversário do seu modelo económico». A página da educação 
  15. «A reforma monetária de 1948 na Alemanha». IPEA 
  16. «Wiederaufbau in Österreich» (em alemão). Gimnasium 
  17. «Wirtschaftswunder» (em inglês). Economy point.org 
  18. «Wirtschaftswunder — The Economic Miracle In Post-War Germany» (em inglês). My German City 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]