Milarepa

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Milarepa
རྗེ་བཙུན་མི་ལ་རས་པ
Estátua de Milarepa num mosteiro budista de Helambu, Nepal
Outros nomes • Jetsün Milarépa
• U-Jetsun Milarepa Mila
• rJe-btsun Mi-la-ras-pa
• Mid-la
• Mila Thö-pa-Ga
Nascimento 1040
Kyansa-Tsa, Ngari, Tibete
Morte 1123 (83 anos)
Etnia tibetana
Religião budista

Jetsün Milarepa ou U-Jetsün Milarepa (em tibetano: རྗེ་བཙུན་མི་ལ་རས་པ; Wylie: rJe-btsun Mi-la-ras-pa; n Kyansa-Tsa, Ngari, 1040 — m. 1123), [nt 1] mais conhecido simplesmente como Milarepa, nascido Mila Thöpaga ou Mila Thö-pa-Ga,[nt 2] foi um mágico, iogue, poeta tibetano, um mestre do budismo tibetano. Juntamente com Padmasambhava, outro mestre tibetano do século VIII, é um dos santos budistas mais venerados pelos tibetanos.

Foi discípulo Marpa, o Lotsawa,[nt 3] que por sua vez foi discípulo de Naropa. No século XI, Marpa foi uma figura central na segunda e mais importante difusão do budismo no Tibete (Sarma-pa) e Milarepa é considerado um dos principais mestres históricos da tradição Kagyüpa, que ainda hoje inclui numerosas linhagens espirituais tibetanas. Os seus discípulos mais célebres são Gampopa (também conhecido como Dhagpo Lhaje, Dhakpo Rinpoche e Sönam Rinchen) e Rechungpa (ou Retchung-pa, também conhecido como Rechung Dorje Dragpa e Rechung Dorje Drakpa). No Tibete, é o padroeiro dos atores e saltimbancos ambulantes.

A sua vida e ensinamentos são relatados no Namtar ("Vida de Milarepa") e no Gourbum (“Cem Mil Cânticos”), duas hagiografias em forma de lendas cuja importância para o budismo tibetano as faz comparar aos evangelhos cristãos.

Milarepa na cultura tibetana[editar | editar código-fonte]

No budismo tibetano, Milarepa é considerado um grande iogue, poeta e santo do Tibete. Segundo alguns relatos que constam nas suas biografias, ele aprendeu feitiçaria na juventude e, por vingança, usava magia negra contra os seus inimigos. No entanto, impulsionado pelos remorsos e purificado pelas provas impostas por Marpa, a quem pediu para ser discípulo, conseguiu atingir a iluminação graças aos ensinamentos recebidos e a uma vida de eremita. O seu percurso de vida inspirou numerosas pessoas ao longo dos séculos.[7][8]

Fontes[editar | editar código-fonte]

Milarepa é conhecido no Ocidente principalmente através de várias traduções de duas obras reputadas: o Namtar ("Vida de Milarepa"), datado de 1488 e o Gurbum (“Cem Mil Cânticos”). No entanto, há outros documentos tibetanos com valor histórico aos quais alguns estudos fazem referência. Há ainda uma tradição oral, que foi iniciada no Tibete por Marpa e o seu discípulo Milarepa, a qual se trata de um conjunto de ensinamentos espirituais, doutrinários e técnicos, considerados esotéricos, nos quais as informações são raras.[9]

O Namtar ou “Vida de Milarepa”[editar | editar código-fonte]

Pintura thangka retratando Milarepa, da autoria do pintor mongol Otgonbayar Ershuu; 2008

O Namtar ou Rnam-thar "a mais célebre das Vidas de Milarepa"[3] é a principal fonte biográfica escrita publicada no Ociente. A tradução do seu nome varia conforme os autores: "a vida", "a biografoa" ou "a história duma vida"[nt 4] O seu sentido exato é "completa realização", que significa que uma vida exemplar e completa leva a uma realização espiritual total.[nt 5] O Namtar de Milarepa é por vezes chamado Jetsum Kabhum (“As Cem Mil Palavras do Venerável [Milarepa]”), da mesma forma que os “Cem Mil Cânticos” (Gurbum ou mGur-'gum) é o título da recolha dos poemas de Milarepa.[3][nt 6]

Conteúdo[editar | editar código-fonte]

O Namtar de Milarepa discorre sobretudo sobre a infância, a busca espiritual e à morte de Milarepa. Os últimos trinta anos da sua vida, passado a ensinar, só são abordados num único capítulo. Essa fase da biografia é o tema principal dos Cem Mil Cantos. O Namtar está dividido num prólogo e duas partes, que compreendem doze "Grandes Atos" ou "Altos Feitos". Desta forma é criado um paralelo com o relato da vida do Buda histórico[nt 7] A primeira parte tem três atos: nascimento, juventude e vingança. A segunda parte está dividida em nove atos; sete discorrem sobre o seu arrependimento, as provações e as "terríveis austeridades" a que ele se sujeitou para obter a iluminação; o oitavo informa, sob a forma de enumeração, os locais (grutas e eremitérios) onde durante trinta anos ele conhece, converte os seus discípulos[nt 8] e prepara o Gurbum. Por fim, o último ato, o 12.º do Namtar e 9.º da segunda parte, diz respeito à morte e ao nirvana de Milarepa.

Caraterísticas e génese da obra[editar | editar código-fonte]

Estátua de Milarepa na gompa de Samye, Tibete

O texto tibetano está escrito do início até ao fim sem estruturação; nada separa as questões dos discípulos das respostas de Milarepa ou dos poemas, nada há que individualize as duas partes ou os doze atos. Os diferentes tradutores incorporaram capítulos e uma paginação, de forma mais ou menos arbitrária, a fim de melhorar a legibilidade.[nt 9] Os capítulos seguem geralmente as divisão dos "Altos Feitos", mas variam de autor para autor.

À exceção do último capítulo (a morte) e do penúltimo (o anúncio do Gurbum), o texto do Namtar está escrito sob a forma do relato da sua vida, feito pelo próprio Milarepa numa caverna perto do glaciar Lapchi, na parte ocidental do Tibete, perto do monte Everest. O Mestre, tendo já atingido o estado de Buda, está rodeado por um grupo importante de discípulos, humanos e não humanos, e responde às perguntas que lhe coloca o seu principal aluno, Rechungpa, numa narrativa de "experiência de vida". Alguns tradutores antigos, como Jacques Bacot et Walter Evans-Wentz, consideraram por isso a obra como uma autêntica autobiografia transcrita por Rechungpa, que remonta ao século XI.[3]

Os estudos mais recentes, como a “História e Filologia Tibetana” da académica Ariane Spanien, onde também é citada a opinião concordante de Rolf Stein,[3] mostram que o verdadeiro autor do texto como o conhecemos é, de facto, Tsang Nyön Heruka (1452–1507), um monge budista, mestre da tradição Kagyüpa, que também redigiu a biografia de Marpa, o Tradutor. O Namtar foi composto e completado, sob a forma de xilografia, em La-stod Lho em 1488, ou seja, «365 anos depois da morte de Milarepa».[3]

Para A. Spanien, não há qualquer dúvida que o material usado para essa obra provém principalmente de documentos escritos anteriores[nt 10] que o autor do Namtar reorganizou sob a influência de um mestre espiritual "aparecido em visão pura".[nt 11] A forma de autobiografia seria, quanto a ela, uma ficção adotada por Heruka. No seu trabalho de 2006, M.J. Lamothe segue esta atribuição, bem como a importância de fontes antigas escritas,[nt 12] mas não deixa de sugerir que Nyön Heruka não faz mais do que respeitar uma autobiografia mais antiga escrita por Rechungpa.[nt 13]

Valor[editar | editar código-fonte]

Como grande mestre da tradição de Kagyüpa, Heruka, que alguns discípulos gostariam de ver como uma encarnação de Retchung-pa, conferiu à sua versão do Namtar uma importância religiosa e mística que a distingue das versões anteriores.[18][nt 11]

Os diferentes tradutores e historiadores destacaram o aspecto lendário e hagiográfico desta biografia de Milarepa e apreciaram de diferentes formas o valor histórico deste documento em algumas de suas partes,[nt 14] por vezes deixando para o leitor a avaliação da veracidade dos factos que são relatados.[22][nt 15] O aspeto lendário ou mítico do texto e do herói que é descrito é uma das caraterísticas frequentemente salientadas pelos diferentes autores que abordaram o Tema.[nt 16][nt 17]

O Gurbum ou “Os Cem Mil Cânticos”[editar | editar código-fonte]

Trecho do Gurbum

Prosterno-me aos pés do Gracioso Marpa
Estou feliz de ter rompido as relações com os meus próximos,
De ter renunciado à ligação ao país;
Feliz pois estou livre dos deveres oficiais.
Não me carreguei com acessórios de um monge
[…]
Interrompi as idas e vindas do intelecto,
Pelo que sou feliz.
[…]
Sou um iogue que canta de alegria
E não desejo outra alegria. [28]

Manuscrito tibetano do Gurbum

“Os Cem Mil Cânticos” constituem uma importante recolha de poemas atribuídos a Milarepa. Os cânticos (ou canções, poemas ou hinos, conforme as traduções) estão referenciados cronologicamente e geograficamente e estão ligados entre eles por textos, descrições ou diálogos. O conjunto forma 72 capítulos divididos em três partes, onde são descritos os ensinamentos de Milarepa durante os trinta anos que durou a vida de mestre espiritual. Esta obra é assim o complemento bibliográfico direto do Namtar,[nt 18] que se intercala cronologicamente ente o 11.º "Grande Ato" e 12.º (a morte).[nt 19]

Mais imponente e menos narrativo que o Namtar, o Gurbum foi também menos frequentemente traduzido de forma integral. Marie-José Lamothe publicou em 2006 uma tradução em francês feita diretamente a partir do tibetano. Em inglês, a tradução de Garma C.C. Chang é muito citada.[30] Como no Namtar, o texto é apresentado em tibetano sem qualquer divisão interna e deve-se aos tradutores a divisão em diferentes livros e capítulos, com as opções tipográficas pondo em evidência a parte em verso. Nas edições integrais tibetanas, o texto dá seguimento ao Namtar sem qualquer corte ou separação.

As três partes do Gurbum são apresentadas no início do último capítulo do Namtar da seguinte forma: «a secção que diz respeito à submissão dos demónios não humanos. Aquela que conta como ele [Milarepa] introduziu os seus discípulos na via da libertação. E aquela que conta como ele rodou a roda da lei para os espectadores e discípulos em diversos lugares e momentos.»[14][nt 20]

O Gur é um poema com refrão, cujos versos são geralmente compostos por sete sílabas, embora haja alguns mais longos. As rimas, repetições e aliterações conferem aos poemas um ritmo vivo e tocante.

Enquanto Marpa Lotsawa, o seu guru, era um sábio erudito e mundano, Milarepa abandonou tudo para viver nu, como um perfeito anacoreta, nas cavernas dos Himalaias. Ele negligenciou e chegou mesmo a rejeitar as especulações filosóficas para se dedicar exclusivamente à experimentação prática. Nos Cânticos, os ensinamentos originados por essa contemplação exprimem as bases da via tântrica para o "Despertar". O Gurbum é assim um «texto fundador tibetano» que vai dar a sua doutrina a uma «corrente budista chamada Linhagem de Transmissão Oral ou Linhagem da Prática».[32] Os novos tantras[carece de fontes?] ligados ao budismo indiano tardio introduzidos no Tibete por Marpa e outros tradutores-comentadores tibetanos de textos sânscritos (lotsawas)[nt 3] devem muita da sua audiência à forma que Milarepa lhes soube conferir nos seus cânticos.[33] Juntando à mística das melodias indianas o fundo cultural do seu país, a sua obra foi adotada pelos saltimbancos e contadores de histórias errantes que se reclamam da sua tradição, que o fizeram seu padroeiro e que afirmam que cantam e dançam seguindo a tradição expressa por Milarepa nos seus Cem Mil Cânticos.[34][35]

Outras fontes[editar | editar código-fonte]

Gampopa, discípulo de Milarepa, escreveu uma das suas primeiras biografias.[36] Nos últimos anos têm vindo a ser encontradas outras biografias antigas de Milarepa e do seu discípulo Rechungpa que se consideravam perdias, como as dos lamas Donmo Ripa (don mo ri pa; século XIII),[37] Gyaltangpa Dechen Dorje (rgya ldang pa bde chen rdo rje; século XIII),[38] Montsepa Kunga Palden (mon rtse kun dga' dpal ldan), Zhang Yudrakpa Tsöndru Drakpa (1123–1193) e Rangjung Dorje (rang byung rdo rje; 1284–1339)[37][39][40] Os Anais Azuis (em tibetano: Depter Ngonpo ou deb ther sngon po), escritos alguns anos antes do Namtar pelo historiador Gö Lotsawa Zhönnu Pel, um documento exaustivo de grande valor histórico, contém também uma biografia curta mas completa de Milarepa. Nesta obra, Milarepa é chamado Mid-la-ras-pa, Mid-la ou rJe-btsun (Jetsün, que significa "o Venerável").[41]

À exceção dos Anais Azuis, aparentemente não há versões traduzidas publicadas desses documentos.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Família e juventude[editar | editar código-fonte]

Estatueta tibetana de Milarepa do século XVIII em exposição no Museu Linden de Estugarda, Alemanha

Na sua obra La Civilisation tibétaine, Rolf Stein relata que um antepassado de Milarepa era um feiticeiro duma tribo de pastores do norte do Tibete. Após ter curado um doente que estava possuído por um demónio (mi-la) particularmente arisco, a sua família tomou o nome de Mila. Mas a sua fortuna, assegurada pelas suas curas, foi delapidada pelo seu filho (avô de Milarepa) num jogo de dados em que perdeu todos os bens da família. O pai e os filhos partiram então para a fronteira do Nepal, onde reconstituíram a fortuna dedicando-se ao exorcismo e ao comércio de lã.[nt 21] O filho casou com uma boa família local e comprou um grande terreno, onde transformou a casa que lá existia num palácio. O pai de Milarepa casou com uma filha do clã nobre de Myang.[42]

Segundo Igor Kononenko, o pai de Milarepa chamava-se Mila Sherab Gyaltsen e a mãe Nyangtsa Kargyen.[nt 22] A família do pai era da tribo Khyungpo e um dos seus ancestrais era um iogue e mágico chamado Josay Khyungpo. Milarepa recebeu o nome de Thöpaga ("Boa Voz")[43] ou Mila Thöpaga ("aquele que se ouve com alegria";[carece de fontes?] Mila o nome de família) quando nasceu na aldeia de Kya Ngatsa (Tsa), na região de Mangyül Gungthang, no Tibete Ocidental, junto ao Nepal. Quando Milarepa tinha quatro anos, nasceu uma irmã, chamada Peta Gonkaj.[43]

Quando tinha sete anos, o pai morreu e as propriedades da família foram tomadas por um tio e uma tia, deixando-os na miséria.[43] Embora dissessem que iriam devolver as propriedades a Milarepa quando este atingisse a maioridade, ele, a mãe e a irmã passaram a ser criados domésticos dos tios e foram maltratados. Apesar da sua pobreza, Nyangtsa Kargyen organizou uma receção onde pediu publicamente a restituição dos seus bens mas acabou sendo humilhada pelos tios. Foi então que decidiu vingar-se, enviando o filho para aprender magia negra com um bruxo Bön, jurando a si própria que se suicidaria à frente dele se o jovem Thöpaga não conseguisse tornar-se um poderoso feiticeiro.[carece de fontes?]

Nos Anais Azuis, a história é ligeiramente diferente. Segundo esta obra, o pai de Milarepa morreu pouco depois do filho nascer e o tio queria que a mãe casasse com um primo (detalhe que não é mencionado no Namtar). Como Nyangtsa Kargyen se recusou a casar, o tio enfureceu-se e ficou com todos os seus bens, deixando a família de Milarepa na miséria.[41]

Convencido pela mãe, quando tinha 17 anos, Thöpaga foi aprender magia com o bruxo Yungton Trogyel durante um ano. Quando voltou, usou os seus poderes mágicos para que uma tempestade destruísse a casa do tio, provocando a morte aos tios e à maior parte dos seus familiares.[43] A destruição da casa ocorreu durante a festa de casamento do filho dos tios e provocou a morte a 35 pessoas. Além disso, Milarepa provocou uma tempestade de granizo que destruiu todas as colheitas dos inimigos. Para escapar à fúria dos habitantes da aldeia, o jovem bruxo teve que fugir para longe, antes sequer de ter-se encontrado com a mãe, que nunca mais viu.[carece de fontes?]

Procura do mestre[editar | editar código-fonte]

Marpa, o Lotsawa, mestre de Milarepa, numa pintura tibetana

Thöpaga sentiu remorsos de ter causado tanto infortúnio e tanta destruição. Deixando de comer, de dormir e de ter gosto pela vida, procurou então um mestre budista capaz do ajudar a transformar o carma negativo que tinha acumulado. Tornou-se discípulo dum mestre Nyingmapa chamado Lama Rongtön que, pensando que ele tinha afinidades com Marpa, o mandou ir ter com esse tradutor tibetano a Lhodrak (região do Tibete a norte do Butão). No seu périplo pela Índia, Marpa tinha recolhido os ensinamentos do mestre indiano Naropa (1016–1100), que traduziu para tibetano. Por sua vez, os ensinamentos de Naropa tinham-lhe sido transmitidos pelo sábio indiano Tilopa (988–1069).[carece de fontes?]

Marpa teve a intuição que estava a lidar com alguém predestinado a ser excecional que se tornaria o seu sucessor. Não obstante, nada disse sobre isso e, conhecendo os feitos maléficos de Thöpaga, testou a vontade do seu aluno com um método de ensino tradicional e procurou purificá-lo dos seus crimes passados. Impôs assim a Milarepa provas consideráveis a fim do preparar para receber as instruções e ensinamentos posteriores. O teste mais famoso consistiu em pedir-lhe para construir sozinho várias torres em pedra, com formas variadas (redondas, quadradas, triangulares, etc.) e repreendê-lo sempre que encontrava um defeito na construção. Cada vez que isso acontecia, o discípulo era obrigado a destruir a obra, colocar as pedras no local onde estavam originalmente e recomeçar a construção. Enquanto isso, Marpa continuou a ensinar os seus alunos, excluindo Milarepa. Este tentou obter os ensinamentos junto doutro mestre e de Damema, a esposa de Marpa, mas em vão. Perante a insistência de Marpa em ensiná-lo, Milarepa decidiu por fim à sua vida de miserável e pensou suicidar-se. Marpa parou-o no último momento, por considerar uqe Milarepa já tinha purgado todos os seus pecados e doravante estava apto para receber os seus ensinamentos.[carece de fontes?]

Marpa transmitiu os ensinamentos que ele próprio tinha recebido de Naropa e doutros mestres durante as suas viagens na Índia. Quando terminou de transmitir todos os ensinamentos, mandou Milarepa praticar em retiro solitário nas grutas do Tibete.[carece de fontes?]

O retiro[editar | editar código-fonte]

Gompa na gruta de Milarepa, no atual distrito tibetano de Nyalam, onde o iogue terá passado vários anos em meditação

Segundo a lenda, Milarepa passou muitos anos em retiro de meditação na região de Lapchi.[44][45] Fê-lo em grande isolamento, em grutas de alta montanha, até dominar completamente os ensinamentos que lhe tinham sido transmitidos. Viveu completamente despojado, vestindo apenas roupas de algodão (de onde vem o seu nome, já que repa significa iogue vestido de algodão)[46] e alimentando-se urtigas dos Himalaias (Girardinia diversifolia), ao ponto do seu corpo ter adquirido um tom esverdeado, como se vê em muitas das suas representações.[47] Foi então que leu um documento do seu mestre Marpa, com instruções sobre a meditação e a exigência de ter uma boa alimentação. Seguiu os conselhos do mestre e a sua meditação atingiu um estado de completa realização.[48]

Ensino e morte[editar | editar código-fonte]

Depois de ter adquirido os poderes e realizações espirituais através da meditação prolongada, Milarepa começou a ensinar, antes de ter-se tornado popular graças aos “Cem Mil Cânticos”, dos quais se diz que contêm a essência dos seus ensinamentos. São-lhe atribuídos numerosos discípulos célebres. Entre eles, dstacam-se Gampopa e Rechung Dorje Drakpa. Este último recebeu de Milarepa os ensinamentos que este tinha recebido de Marpa e prosseguiu a tradição dos iogues laicos (Ngagpa ou Ngakpa), enquanto que Gampopa fundou a escola Kagyüpa du budismo tibetano.

O historiador tibetano do século XVI Gö Lotsawa Zhönnu Pel relata que a vida de Milarepa foi utilisada nos centros de ensino do Tibete central durante o período Phagmodrupa, em meados do século XII, algumas décadas depois da sua morte.[49] Segundo Changling Rinpoche, Milarepa teria escrito ensinamentos sobre o mahamudra com a ajuda de Rechungpa, os quais ainda não estão traduzidos.[50]

Segundo a tradição, Milarepa foi morto por envenamento por Tsaphuwa, um lama invejoso, quando tinha 24 anos,[51] em Chuwar, onde, no fim da década de 1620, o décimo Karmapa, Chöying Dorje,[52] fundou um centro de meditação chamado Chuwar Gompa.[53]

Legado[editar | editar código-fonte]

Há diversos autores que traçam paralelismos entre o percurso de Milarepa e o de Jesus.[54][55][56][nt 23] Para certos budistas, a história de Milarepa reveste-se da mesma importância que o Novo Testamento para os cristãos.[43]

Não chegaram aos nossos dias quaisquer relíquias de Milarepa. A biografia Jetsun-Kahbum, transmitida pelo seu discípulo Rechungpa, relata que ele não deixou mais do que um açúcar que se renovava constantemente como único vestígio da sua presença após a sua morte, para grande desespero de todos os seus discípulos.[57]

Notas[editar | editar código-fonte]

  1. Segundo o calendário tibetano, Milarepa nasceu no "ano do dragão macho de ferro" e morreu no "ano da lebre aquática fêmea", correspondentes, respetivamente, a 1040 e 1123 no calendário gregoriano.[1][2][3][4]
  2. Thö-pa-ga significa "boa nova"[5] ou "aquele que se ouve com prazer".[6] As datas frequentemente apontadas de 1052 e 1135 são as que constam no Namtar (biografia espiritual ou hagiografia tibetana) e não são registadas pelas fontes mais fiáveis históricas ou enciclopédicas.
  3. a b Lotsawa ("tradutor" em tibetano) é um título dado aos tradutores para tibetano das escrituras sagradas budistas indianas, dos quais o expoente máximo foi Marpa.
  4. Estas designações, que se aplicam a uma biografia em geral, correspondem a um género literário tradicional do Tibete. Marpa Lotsawa escreveu um Namtar de Tilopa[10] e Jacques Bacot fala do Namtar de Marpa (escrito por Tsang Nyön Heruka).[11] Este género é comparado ao das hagiografias no Ocidente.
  5. «O foco principal duma biografia (tibetana) é a sua qualidade libertadora. Porque o Namtar expõe sempre uma prática ligada à experiência budista». Marie-José Lamothe[12]
  6. "Cem mil" não se refere a um número preciso, antes pretende salientar a imensa importância e o alcance metafísico desses textos.
  7. A propósito deste paralelismo, Marie-José Lamothe escreve: «O Buda histórico, Shakyamuni, nasceu na Índia. Representativo da Índia, o seu percurso espiritual é um arquétipo da Índia. Milarepa encarna o Buda tibetano. A sua história, o seu caminho para a iluminação, a sua iluminação em si mesma, não poderiam ter-se passado noutro local que não fosse o Tibete.».[13]
  8. É o Ato pelo qual se tornou útil aos seres e à Doutrina graças ao fruto da sua meditação mística, segundo o colofão da obra.[14]
  9. A divisão da obra é abordada nas introduções das traduções de J. Bacot[15] e de W. Y. Evans-Wentz[16]
  10. «Para nós […] a Vida de Milarepa de Gtsang-smyon […] apoia-se evidentemente em fontes anteriores, mas de acordo com a literatura tibetana que lemos, trata-se na maior parte de fontes escritas e não de uma tradição oral[3] […] […] Ele [Heruka] não foi o primeiro a ter escrito um relato no qual Milarepa era o herói central».[17]
  11. a b Tsang Nyön Heruka declarou: «Embora existam muitas biografias (de Milarepa) no Tibete e recolhas dos seus cânticos, como a linhagem de transmissão deste Rnam-thar e coleções de suas músicas, como a linhagem de transmissão deste Rnam-thar (saído da boca do mestre) estava cortada, eu dei-a a conhecer (literalmente "deixei-a clara") ao redigi-la para benefício dos meus discípulos dotados dum bom carma». A propósito dessa "visão pura", A. Spanien salienta que ela é «a forma usual dada pelos tibetanos à inspiração criativa».[18]
  12. «Para compor a sua obra, Tsang Nyön Heruka certamente fez uso de capítulos isolados, de versões ou de compilações de cânticos já elaborados por discípulos pessoais de Milarepa, que circulavam no país desde aquela época. A finalidade não é enumerar todas as versões reportadas até à data, que teriam que ser lidas a fim de se descobrirem as diferenças.»[12]
  13. «Foi ele (Rechungpa) que transcreveu a biografia de Milarepa, antes dela ter sido mais tarde codificada por Nyön Heruka».[12]
  14. A. Spanien: «É uma obra de um historiador? Certamente que não.».[3]

    A. Macdonald: «a 'vida de Milarepa' não faz parte propriamente da literatura histórica tibetana, como seria natural ter tendência a pensar-se, mas da literatura de ficção».[19]

    No sentido contrário:
    J. Bacot: «uma parte da infância de Milarepa tem algo que não sugere dúvidas»[20]

    W. Y. Evans-Wentz: «esta biografia […] pode ser considerada como um relato fiel dos atos e ações de Jetsün […] o seu valor histórico é talvez tão exato como o dos livros do Novo Testamento, se não mais»[21]

  15. W. Y. Evans-Wentz: «quanto ao valor histórico dos factos, cada leitor deve julgar por ele mesmo depois de dar o devido peso às contribuições da tradição e da fé popular»[23]
  16. Magazine littéraire: «O caráter encantatório da obra, bem como o tempo que separa o relato da existência de Milarepa, dão a este livro uma dimensão sonhadora. Nada é realmente certificado,e nada escapa a uma espécie de definição de mito, se assim se pode dizer.»[24]

    Gary Snyder: «Repare em Milarepa: os cânticos são como contos populares na forma de lenda ou de mito.»[25]

    P.T. Mistlberger: «[…] como todos os mitos e lenda, é o que as histórias 'representam' que, acima de tudo, tem peso e significado […] independentemente de terem ou não acontecido na realidade física ou apenas na imaginação de algum escritor […] (as histórias) aponta, para a 'mensagem' intemporal, que é sempre mais substantiva do que o mensageiro […] Milarepa, independentemente de quão puramente mítico ou lendário possa ter sido, não é nem mais nem menos real do que eu ou você o somos»[26]

  17. Alguns relatos sobre Milarepa são idênticos aos das lendas do século VI dos xamãs gurungs do Nepal — Stan Mumford: «A lenda de Milarepa e do caçador (cap. 26 do Gurbum] partilha o mesmo núcleo mitológico da história do caçador gurung que persegue um veado no outro mundo, mas a mensagem é claramente inversa: renúncia ao mundo em vez de harmonia com o mundo.»[27]
  18. Rolf Stein, na sua obra “A Civilização Tibetana”, chama "biografia de Milarepa" tanto ao Namtar como ao Gurbum, estando ambas referenciadas com o mesmo número (134) na bibliografia.[29]
  19. Marie-José Lamothe, na sua edição integral do Namtar e Gurbum de 2006, escolheu essa apresentação, colocando o Gurbum entre os dois últimos capítulos do Namtar.
  20. Lamothe usou os seguintes títulos: Livro Primeiro, "onde os espíritos mistificadores serão subjugados"; Livro Segundo, "onde os filhos espirituais serão reconhecidos"; Livro Terceiro, "um florilégio para suscitar a paixão dos discípulos".[31]
  21. Segundo os Anais Azuis, a família era do clã Khyungpo, chamava-se Mid-la e era originária da região onde Milarepa nasceu. O antepassado que se instalou perto do Nepal, em Ko-ron-sa, fê-lo quando regressou à região natal depois de perder a fortuna em lNag-stag-ris.[41]
  22. Segundo os Anais Azuis, o pai de Milarepa chamava-se Mid-la Ser-rgyal e a mãe Myan-gza dKar-rgyan.[41]
  23. O monge japonês Ekai Kawaguchi (1866–1945), que visitou quatro vezes o Nepal e duas vezes o Tibete, registou na sua obra “Três Anos no Tibete” que o proselitismo do frade franciscano Odorico de Pordenone (1286–1331) falhou no Tibete porque ele percebeu que nada tinha a ensinar aos tibetanos, pois os seus sacerdotes eram capazes de fazer tantos milagres como Jesus Cristo, sendo Milarepa a prova disso, pois curava doentes, ressuscitava mortos e caminhava sobre a água.Lambert 2006, p. 160

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Gö Lotsawa Zhönnu Pel 2007, pp. 427, 436
  2. Chang 1962, p. 690, nota 2.
  3. a b c d e f g h Spanien 1982, p. 247
  4. «Milarépa», Encyclopædia Britannica, Encyclopædia Universalis (em inglês), 2009 
  5. Tsang Nyön Heruka & Bacot 1925, p. 43
  6. Tsang Nyön Heruka et al. 1928, p. 87
  7. Sogyal Rinpoche, p. 139
  8. Lamothe 2001.
  9. Tiso 2014.
  10. Marpa Lotsawa 2010
  11. Bacot 1937
  12. a b c Lamothe 2006, Cap. Préface au Namthar, Un seul corps, une seule vie
  13. Lamothe 2006, Cap. Préface au Gourboum, Quand chante Milarépa, sec. 3
  14. a b Spanien 1982, p. 248
  15. Bacot 1925
  16. Evans-Wentz 1928
  17. Spanien 1982, p. 249
  18. a b Spanien 1982, p. 250
  19. Macdonald 1970, p. 667
  20. Bacot 1925, p. 17
  21. Evans-Wentz 1928, p. 31
  22. Bacot 1925, p. 21
  23. Evans-Wentz 1928, p. 32
  24. Magazine littéraire 1995, p. 84
  25. Snyder & McLean 1980, p. 19.
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Bibligrafia[editar | editar código-fonte]