Milton Schwantes

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa

Milton Schwantes (Tapera, 26 de abril de 1946São Paulo, 1 de março de 2012) foi um teólogo-biblista brasileiro e pastor luterano.[1] Natural de Tapera, povoado do município de Carazinho no Rio Grande do Sul, filho dos agricultores Delfino Schwantes e Eugênia Graeff, ascendência polonesa-alemã, sendo o quarto filho do casal.

Formação fundamental[editar | editar código-fonte]

Seus estudos escolares fundamentais foram realizados nas cidades de Lagoa dos Três Cantos, Nova Petrópolis e São Leopoldo. Ao ingressar no Instituto Pré-Teológico (IPT) em São Leopoldo, onde sua mãe passou a trabalhar depois de tornar-se viúva, sua vocação pastoral começou a despertar. Recebeu forte formação humanística, com destaque para as línguas (latim, grego, português, alemão e inglês). Destacou-se como estudante e também especializou-se em línguas como hebraico, ugarítico, aramaico e grego.

Formação teológica[editar | editar código-fonte]

Seu ensino confirmatório na Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil se deu aos catorze anos, em 23 de outubro de 1960. Durante os estudos foi dedicado aos esportes, chegando a presidir o Grêmio Estudantil do IPT e no penúltimo ano de seus estudos ocorreu o golpe militar (1964), que desarticulou todos os movimentos estudantis do país.   Em março de 1966, aos dezenove anos,  ingressou na Faculdade de Teologia da IECLB. Pertencia à geração de descendentes de imigrantes alemães no pós-guerra, que se esforçava na assimilação cultural da realidade brasileira e no seu caso, também latino-americana.

Com outros colegas, criou o "Ratio Club" do IPT, uma sociedade de estudantes escolhidos a dedo  para discutir temas diversos da política, filosofia e religião. Ideais como os de Dietrich Bonhoeffer, Richard Shaull e Jurgen Moltmann alimentaram sua formação teológica, enquanto outros regimes militares na América Latina enfrentavam resistência dos modelos propostos por Alvarado no Peru (1968), Lanusse e Perón na Argentina, Torres na Bolívia, todos a partir de 1971 e Salvador Allende no Chile (1970-73).

O contato com a Teologia da Libertação[editar | editar código-fonte]

Em 1962 fora convocado o Concílio do Vaticano II, pelo Papa João XXIII, e seu discurso sobre  "Igreja dos Pobres" foi grande estímulo para a formulação das teses da Teologia da Libertação difundidas por sacerdotes católicos a partir de 1965. Tais ideais ajudavam o povo do continente a sobreviver com esperança em relação ao Reino de Deus a despeito de toda opressão política, social e econômica deste contexto. Seu trabalho de conclusão de curso comparou o decreto sobre o ecumenismo do Vaticano II (1964)  com as declarações sobre a unidade da conferência de Nova Delhi (1961) do Conselho Mundial de Igrejas.

Foi indicado para realizar seus estudos de pós-graduação na Universidade de Heidelberg, tendo como tutor o prof. Dr. Hans Walter Wolff, teólogo alemão que também deixou importante legado no campo da Antropologia Bíblica. O direito dos pobres na literatura profética foi o tema de sua tese, identificando os pobres como o verdadeiro Povo de Deus.

Proporcionou uma releitura da mensagem bíblica no contexto brasileiro e latino. A partir dos congressos sobre Teologia da Libertação que ocorreram entre 1970 e 1975 o movimento se tornou popular. O trabalho bíblico-exegético passou a ser mais voltado para este segmento popular que lia e interpretava a Bíblia. Neste contexto bíblico os exegetas da teologia da libertação mais conhecidos são: Carlos Mesters, José Comblin, Jorge Pixley, Gilberto Gorgulho, Ana Flora Anderson e Milton Schwantes, chamado de "mestre" por Carlos Mesters em vários textos escritos.

Regressando ao Brasil em 1974, foi designado pelo Conselho Diretor da IECLB para exercer o pastorado na cidade de Cunha Porã em Santa Catarina, onde realizou o pastorado e teve participação em conferências e na criação textos de auxílios homiléticos da série Proclamar Libertação. Em 1978 foi convidado para ser professor na Faculdade de Teologia da IECLB em São Leopoldo, hoje designada Escola Superior de Teologia (EST), onde lecionou disciplinas do Antigo Testamento e Exegese Bíblica. Seu intenso engajamento ecumênico o levou a viver em São Borja, um bairro simples de São Leopoldo, fazendo teologia em diálogo com seus vizinhos, igualmente simples.

Interação com a Teologia da Libertação[editar | editar código-fonte]

Suas falas, aulas, conferências e textos exerciam magnetismo entre os estudiosos da Bíblia por todo o continente, e ao mesmo tempo, muita polêmica entre os setores conservadores da liderança eclesiástica. Durante os anos 70 e 80 a iniciativa de publicar cadernos de estudos exegéticos que foi evoluindo para revistas, comentários bíblicos e livros de linguagem simples que auxiliassem os assessores no ensino da Bíblia no seu trabalho e estendem-se por incontáveis ramificações em todo o continente, sendo a Revista de Interpretação Bíblica Latino Americana - RIBLA seu eixo central.

Em 1987 mudou-se para a cidade de Guarulhos no estado de São Paulo, passando a exercer o pastorado conjugado com a docência na Universidade Metodista de São Paulo a partir de 1988 onde foi professor até o ano de 2012.

No programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião Schwantes orientou dezenas de alunos. Em 2001 foi descoberto um tumor benigno na hipófise, que provocou dificuldades na visão.  Após a cirurgia de extração do tumor e do período de recuperação, retomou gradativamente sua docência das cadeiras de Bíblia e Exegese do Programa de Pós Graduação em Ciências da Religião da UMESP, ingressando numa intensa produção literária  e releitura de sua própria teologia bíblica, sempre engajada com a vida da comunidade, do povo, da Igreja.

A ponte entre a Teologia Bíblica Latino-Americana e a Europa[editar | editar código-fonte]

Em 2002 a Universidade de Marburg na Alemanha concedeu-lhe o título acadêmico de Doutor Honoris Causa tendo seu trabalho sido considerado na Europa como uma ponte entre a Teologia Bíblica Latino-Americana e a Teologia na Europa. Foi idealizador e editor da Revista de Interpretação Bíblica Latino Americana - conhecida como RIBLA, que passa da septuagésima edição e continua em franca publicação no Brasil e América Latina.

Diversos de seus amigos e ex-alunos tomaram a iniciativa de publicar a  coletânea "Profecia e Esperança: um tributo a Milton Schwantes" como homenagem pelo seu 60o. aniversário. Nesta obra, no capítulo intitulado: Milton Schwantes: um perfil biográfico, Martin Dreher menciona: "Sua produção teológica desde então não pode mais ser mencionada com o arrolamento de alguns poucos títulos... seria necessário arrolar as centenas de títulos de orientações de dissertações, teses e conferências ... sua produção o coloca entre as mais expressivas personalidades do mundo acadêmico brasileiro, entre os grandes da exegese internacional".[2]

Falecimento[editar | editar código-fonte]

Faleceu em São Paulo no dia 1 de março de 2012.[3] Deixou um legado de centenas de títulos que foram catalogados até 2005 por Carlos Dreher na coletânea Profecia e Esperança, e depois de sua morte seus livros continuaram sendo publicados por sua esposa.

Obras[editar | editar código-fonte]

Algumas das obras mais recentes e republicações antigas:

  • O direito dos pobres [tese doutoral em português];
  • A terra não pode suportar suas palavras – Reflexão e estudo sobre Amós[4];
  • As monarquias no Antigo Israel.[5];
  • Breve história de Israel.[6];
  • Da vocação à provocação – Estudos e interpretações em Isaías 6-9 no contexto literário de Isaías 1-12.[7];
  • Deus vê, Deus ouve! Gênesis 12-25. São Leopoldo: Oikos [8];
  • Figuras e coisas – Meditações e ensaios para viver;
  • História de Israel – vol. 1: local e origens.[9];
  • Projetos de esperança – Meditações sobre Gênesis 1-11[10];
  • Salmos da vida: A caminho da justiça -  Salmos 120-134;
  • Sentenças e Provérbios[11];
  • Sofrimento e esperança no exílio[12].

Referências

  1. Milton Schwantes. [lattes.cnpq.br/0005966445256837 «Milton Schwantes»] Verifique valor |URL= (ajuda). Plataforma Lattes - CNPQ - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Consultado em 29 de julho de 2015 
  2. DREHER, et all (orgs), Carlos (2006). Profecia e esperança: um tributo a Milton Schwantes. [S.l.: s.n.] ISBN 8589732401 
  3. «Falece o biblista Milton Schwantes». Brasil de Fato. 2 de março de 2012. Consultado em 29 de julho de 2015 
  4. SCHWANTES, Milton (2004). A terra não pode suportar suas palavras. [S.l.: s.n.] ISBN 9788535614343 
  5. SCHWANTES, Milton (2006). As monarquias no Antigo Israel: um roteiro de pesquisa histórica e arqueológica. [S.l.: s.n.] ISBN 9788589000925 
  6. SCHWANTES, Milton (2008). Breve História de Israel. [S.l.: s.n.] ISBN 9788589732819 
  7. SCHWANTES, Milton (2008 (2a ed.)). Da vocação à provocação: estudos e interpretações em Isaías 6-9 no contexto literário de Isaías 1-12. [S.l.: s.n.] ISBN 9788578430092  Verifique data em: |ano= (ajuda)
  8. SCHWANTES, Milton (2013). Deus vê, Deus ouve! (Gn12-25). [S.l.: s.n.] ISBN 9788578431020 
  9. SCHWANTES, Milton (2008). História de Israel vol 1: local e origens. [S.l.: s.n.] ISBN 9788589732963 
  10. SCHWANTES, Milton (2002). Projetos de Esperança: meditações sobre Gênesis 1-11. [S.l.: s.n.] ISBN 9788573118445 
  11. SCHWANTES, Milton (2009). Sentenças e Provérbios: sugestões para a interpretação da Sabedoria. [S.l.: s.n.] ISBN 9788578430689 
  12. SCHWANTES, Milton (2007). Sofrimento e esperança no exílio: história e teologia do povo de Deus no século VI aC. [S.l.: s.n.] ISBN 9788535619713