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Mitologia guarani

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Para os guaranis, o centro do mundo, Yvy Mbyté (“meio da terra”), fica no que é hoje o Departamento de Caaguazú (“mata grande”) no Paraguai, lugar de eventos mitológicos fundamentais, da criação do mundo ao surgimento do Sol e da Lua.

A mitologia guarani compreende o conjunto de narrativas sagradas, concepções cosmológicas, entidades espirituais e tradições religiosas dos povos guaranis da América do Sul. Essas tradições são compartilhadas, com variações regionais, por diferentes grupos guaranis contemporâneos, incluindo os mbiá, nhandeva (avá-guarani) e pãi-taviterã/caiouá, distribuídos principalmente pelo Brasil, Paraguai, Argentina, Bolívia e Uruguai.

A religião guarani caracteriza-se por uma cosmologia complexa centrada na criação do universo, na existência de múltiplos planos celestes, na busca da perfeição espiritual e na relação entre os seres humanos e as divindades criadoras.[1] Embora compartilhem muitas entidades e narrativas com a mitologia tupi, com a qual formam o conjunto maior da mitologia tupi-guarani, os mitos guaranis desenvolveram características próprias, incluindo entidades e narrativas únicas.

Cosmologia

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Boa parte da cosmologia guarani é conhecida através dos mitos mbiás coletados pelo etnólogo paraguaio León Cadogan, segundo o relato oral de nativos como o chefe Pablo Verá e outros, no Ayvú Rapyta.[2] O escritor tapuia Kaká Werá fez uma adaptação poética em seu livro Tupã Tenondé (2001).[3]

Segundo a cosmologia guarani, o universo foi criado por uma divindade primordial denominada Nhamandu (identificado também como Nhanderu, “Nosso Pai”, ou Nhanderuvusu, “Nosso Pai Grande”, em algumas tradições), que se desdobra como um grande sol antes do nosso Sol atual, que ainda vai nascer, desabrochando como uma flor brilhante no meio do nada absoluto. Antes da existência da Terra, Nhamandu/Nhanderu teria criado a si mesmo a partir das trevas primordiais e estabelecido os fundamentos do cosmos por meio de sua sabedoria e de sua palavra criadora.[4]

Para os caiouás, da substância primordial, djasukávy, originaram-se todas as coisas por um princípio de emanação. Do djasukávy partem todos os deuses e a própria humanidade,[5] a começar por Nhané Ramõi Papá (“Nosso Avô Eterno”), deus supremo para os caiouás, que dizem que do orvalho primitivo (Ysapý) se originou o "embrião da terra" (Yvý Reñõi).[6]

Após a criação primordial, outras divindades passaram a participar da organização do universo. O universo é estruturado em múltiplos céus sobrepostos. O Criador (Nhanderu) habita o céu mais elevado, enquanto os céus intermediários e a Terra são povoados por deuses assistentes e ancestrais espirituais:[1]

  • Yvy Vai: "Terra Má", a terra em que vivemos.
  • Céus:
    • Yvy Anhã: "Terra dos Anhã", a terra de espíritos canibais, que representam as formas destrutivas do universo. Nós, os humanos, não somos capazes de enxergar esse céu.
    • Yvy Djú: "Terra Amarela/Dourada", o céu azul que enxergamos, acima de Yvy Anhã. É o céu no qual correm os “rios” que para nós são nuvens. É neste plano que Sol (Quaraí) e Lua (Jaci) vêm passear, criando o dia e noite.
    • O plano seguinte é a terra de Sol e Lua, o céu em que eles moram com as estrelas visíveis.
    • Os céus acima da terra de Sol e Lua nós não podemos enxergar. Nelas vivem os outros sóis, que são os deuses criadores do universo, além de estrelas que também não somos capazes de enxergar.

Como a humanidade foi criada por esses deuses superiores, que também criaram Quaraí, o Sol, e Jaci, a Lua, nós somos considerados irmãos destes. A Terra foi criada pelos Nossos Pais (Nhanderus) para a criação de seus filhos, havendo, assim, uma relação de parentesco entre os seres celestes e os habitantes terrenos.[1]

O centro da Terra, a partir do qual o nosso mundo foi criado, é chamado pelos guaranis de Yvy Mbyté (“Meio da Terra”) e fica localizado no atual Departamento de Caaguazú (no sudeste do atual Paraguai), onde o Criador e sua consorte Nhandeci geraram Quaraí,[7] e de onde este e seu irmão Jaci ascenderam ao céu como Sol e Lua.[8]

A palavra sagrada ocupa papel central na religião guarani. Em muitas tradições, a linguagem é entendida não apenas como meio de comunicação, mas como princípio criador e fundamento da existência.[9]

A Terra sem Males

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Um dos conceitos mais conhecidos da religião guarani é o da Yvy Marã Ey, a “Terra sem Males”.

A Terra sem Males é descrita como um lugar de perfeição espiritual (aguyjé), abundância e ausência de sofrimento. Diferentemente de um paraíso exclusivamente pós-morte como o Guajupiá, algumas tradições a concebem como um lugar real e acessível por meio da purificação espiritual, de migrações rituais ou da intervenção divina.[10]

O pai e a mãe dos deuses na religião e mitologia guaranis, Nhanderu/Nhamandu e Nhandeci, têm residência em Yvy Marã Ey. Nhandeci, em especial, recepciona os recém-chegados com comida e bebida e pede, entre lágrimas, para não mais voltarem para o mundo de cá, cheio de dor e morte.[11]

O primeiro homem a alcançar a Terra sem Males foi, também, o primeiro incestuoso, caraí Jeupié, por cujo crime a Primeira Terra foi destruída por um dilúvio.[12]

O conceito desempenhou papel importante em diversos movimentos religiosos e migratórios guaranis registrados historicamente.[13]

Divindades

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Os guaranis chamam os seus deuses maiores, não só o Criador (Nhanderu Tenondé), mas também seus quatro grandes deuses auxiliares (Nhamandu, Caraí, Jacairá e Tupã) e os gêmeos astrais (Quaraí e Jaci), de Nhanderus (“Nossos Pais”),[14][15] e as deusas de Nhandecis (“Nossas Mães”), ou Nhanderu kuery e Nhandexy kuery na forma plural do guarani,[16] enquanto os deuses, em conjunto, são chamados de Nhande Aryguá, ("Aqueles Situados Acima de Nós") ou Nhande Ru Jukuéry (ju, "amarelo, dourado, áureo", e kuéry, designativo de plural, "Nossos Pais Áureos").[17] Também se pode referir a uma deidade masculina como Xeru ou Xe Ru (“Meu Pai”).[18]

As vestes dos deuses são amarelo-claro (ju), a cor do Sol, e azul-claro (ovy), a cor do céu limpo. Essas cores são, portanto, consideradas sagradas e emblemáticas da Divindade.[19]

Como forma de preservar sua imortalidade, diz-se que, assim que chega a primavera (ára pyau), os Nossos Pais Áureos rejuvenescem junto com a natureza. O rejuvenescimento periódico dos deuses e de toda a natureza ocorre graças à tatachina, a "névoa vivificante" sob o encargo de Jacairá.[20]

Nhane Ramõi e Nhane Jari

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Nhane (ou Nhande) Ramõi Jusu Papa (“Nosso Grande Avô Eterno”) se constituiu a si próprio do “jaçucá/jaxucá” (jasuka/jachuka), uma substância originária, vital e com qualidades criadoras. Foi quem criou os outros seres divinos e sua esposa, Nhane (ou Nhande) Jari (“Nossa Avó”), alçada do centro de seu jeguaká (espécie de diadema que perpassa, como ornamento, testa e cabeça), o adorno ritual. Criou também a Terra que então tinha o formato de um mbeju-guasu (“beiju grande”)[21], estendendo-a até a forma atual, e levantou também o céu e as matas. Viveu sobre a terra por pouco tempo, antes que fosse ocupada pelos homens, deixando-a, sem morrer, por um desentendimento com a mulher. Tomado de profunda raiva causada por ciúmes, quase chegou a destruir sua própria criação que foi a terra, sendo impedido, contudo, por Nhane Jari com a entoação do primeiro canto sagrado realizado sobre a terra, tomando como acompanhamento o takuapu, instrumento feminino feito de taquara, com aproximadamente 1,10m, que é golpeado no solo produzindo um som surdo que acompanha os maracás masculinos, espécie de chocalho de cabaça e sementes específicas.[22]

O Avô (Таmої, “Avô”, ou Che Ramoї/Xe Ramoї, “Meu Avô”) dos guaraios, povo guarani da Bolívia, é Abaangui, ao mesmo tempo considerado o criador da Lua e pai dos heróis que se tornam Sol e Lua. Para os tupis, Che Ramoї/Xe Ramoї é como eles chamam o criador Monã.

Nhande Ru e Nhande Ci

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O filho de Nhane Ramõi, Nhande Ru Paven (“Nosso Pai de Todos”), também conhecido como Nhanderu Eté (“Nosso Pai Verdadeiro”), Nhanderu Tenondé (“Nosso Pai Primordial”), Nhanderu Guasu ou Nhande Ruvusu (“Nosso Pai Grande”), Nhanderu Ymã[23] (“Nosso Pai Velho/Antigo”) e Che Ru/Xe Ru/Xiru (“Meu Pai”), e sua esposa Nhande Ci (ou Nhande Sy, “Nossa Mãe”), também conhecida como Nhandeci Eté (“Nossa Mãe Verdadeira”) e Nhande Jarỹi ("Nossa Avó"),[24] ficaram responsáveis pela divisão política da terra e o assentamento dos diferentes povos em seus respectivos territórios, criando montanhas para delimitar o território guarani.

A palavra guarani ymã ou ymuã, de "Nhanderu Ymã", vem do tupi umûã/umûan/umûana, origem do nome do deus criador tupi Umuana, Munhã ou Monã, com o mesmo significado de "velho/antigo".[25][26][27]

Nhande Ru roubou o fogo dos urubus e o entregou aos homens (façanha que, nos mitos tupis-guaranis, é realizado por diferentes heróis ou deidades); criou a flauta sagrada (mimby apyka) e o tabaco (petÿ) para os rituais. Da mesma forma que seu pai, decidiu abandonar a terra em função de um desentendimento com sua esposa que estava grávida de gêmeos, sendo um bebê filho seu, e o outro de um deus obscuro de nome Nhanderu Mbaecuaá (“Nosso Pai Conhecedor de Todas as Coisas”), seu auxiliar, e fixou sua casa no zênite do Yvaga, o céu e morada dos deuses guaranis.[22]

Assim, Nhande Ci saiu de seu lar no centro do mundo (yvy mbyté)[24] em busca de seu marido e com frequência perguntava ao filho, que ainda não havia nascido, qual o caminho a ser seguido. Quaraí, o filho em seu ventre, chegou a indicar o caminho errado para sua mãe, que lhe havia negado uma flor que queria para brincar durante o percurso, e Nhande Ci chegou à morada dos jaguares. A avó destes seres ferozes tentou em vão salvar a vida da mulher, mas seus filhos, ao voltarem famintos, devoraram Nhande Ci, deixando vivos apenas os pequenos gêmeos, Quaraí e Jaci, que eram indestrutíveis. Nhande Ci é posteriormente revivida e levada ao Yvaga por Nhande Ru, quando então eles geram Tupã[28] (na versão nhandeva) e onde Quaraí e Jaci irão reencontrá-la depois de crescidos.[29] Nhanderu deu-lhe também por morada a “terra sem mal”, Yvy marã e'ỹ, o paraíso além do mar, onde a arara e o sabiá de Nhandeci recepcionam os recém-chegados e ela, em seguida, os acolhe.[30]

Para os mbiás, Nhande Ru teve também o papel atribuído a Nhane Ramõi em outras versões, criando-se a si mesmo da substância jaçucá/jaxucá e desdobrando-se nos outros quatro deuses criadores: Nhamandu (com o qual às vezes se confunde), Caraí, Jacairá e Tupã.[31][32]

O pajés guaranis, homens e mulheres, são distinguidos com os títulos de “nhanderu” e “nhandeci”.[33]

Nhamandu (Ñamandu, “Origem, Princípio Primordial”) é o deus da luz e da palavra criadora, associado ao Sol, ou considerado o Sol primordial antes do nosso Sol, Quaraí. Ele é geralmente tido como a principal divindade criadora da cosmologia guarani, descrito como o ser primordial que emergiu antes da existência do mundo material e que estabeleceu as bases da ordem cósmica.[34] Nhamandu é às vezes considerado uma emanação de Nhanderu ou é o próprio Nhanderu.[35]

Sua morada é na região Sul do Yvaga,[32] com sua esposa Jaxucá ou Jaçucá (Jachuká, Jasuká, nome do adorno feminino de plumas e flores e também da substância primordial, o princípio feminino),[36][37] deusa da luz e do sol, ao seu lado no Sudoeste.[38]

Nas tradições registradas por León Cadogan entre os paĩ tavyterã e mbiá, Nhamandu aparece como fonte da sabedoria, da linguagem sagrada e da vida espiritual.[9]

Caraí (Karaí, “Senhor”, “Homem Sábio”, “Homem Sagrado”) é o deus do fogo e do ruído do crepitar das chamas sagradas,[39] uma importante divindade associada à palavra inspirada e à autoridade espiritual (por isso os grandes xamãs dos guaranis são chamados também de caraís [karaí]). Em algumas tradições, é considerado um dos primeiros seres criados por Nhanderu para auxiliar na sustentação da ordem cósmica.[9][32]

Sua morada é na região Leste do Yvaga,[32] com sua esposa Querexu (Kerechu, nome associado com fogo, chamas e iluminação),[37] deusa do fogo, ao seu lado no Sudeste.[38]

Jacairá (Jakairá, etimologia ignorada) é o deus do ar, do vento e da neblina, associado ao ar vital e à fertilidade. Algumas tradições o relacionam à vitalidade da natureza e à preservação da vida, sendo o responsável por trazer a primavera.[40][32] Ele também é o patrono dos xamãs,[41] pois a neblina é a fonte das palavras inspiradas.[39]

Sua morada é na região Norte do Yvaga,[32] com sua esposa Içapi (Ysapy, “Orvalho”),[37] deusa do orvalho e da neblina, ao seu lado no Nordeste.[38]

Tupã (“Trovão”) é o deus das águas, do mar e de suas extensões, das chuvas, dos relâmpagos e dos trovões.[32][39]

Ao contrário da interpretação difundida na cultura popular brasileira, Tupã não ocupa a posição de divindade suprema na cosmologia guarani tradicional, nem na tupi. Em muitas versões dos mitos registrados por etnólogos, Tupã aparece como uma divindade importante relacionada aos fenômenos atmosféricos, mas subordinada à estrutura cosmológica mais ampla estabelecida por Nhanderu/Nhamandu.[9][32]

A identificação de Tupã como criador supremo foi amplamente influenciada pela ação missionária cristã durante o período colonial.[42]

Na versão nhandeva, ele é filho de Nhanderu e Nhandeci, nascido depois que ela fora revivida e levada ao Yvaga pelo marido, sendo Tupã, assim, o irmão mais novo de Quaraí (Sol) e Jaci (Lua) e é considerado o filho favorito de sua mãe.[28]

Sua morada é na região Oeste do Yvaga,[32] com sua esposa Pará (“Mar”),[37][43] deusa das águas e do mar, ao seu lado no Noroeste.[38] Quando ele vai visitar sua mãe no leste, na ilha mística de Yvy marã e'ỹ, ele cria as tempestades, lançando raios de seu longo tembetá no lábio inferior.[44]

Quaraí e Jaci

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Quaraí ou Quará (Kuarahy, Kuaray ou Kuara), o Sol, e Jaci (Jasy, Jachy ou Jaxy), a Lua, são, para os povos tupis-guaranis, irmãos gêmeos do sexo masculino.[45][46][32] Entre os tupis eles são conhecidos como Quaraci (Kûarasy, “origem deste dia”[47]) e Jaci (Îasy, “origem dos vegetais/frutos”).

Na tradição guarani do mito, eles são filhos de Nhandeci, sendo Quaraí filho de Nhanderu Eté ou Nhamandu e Jaci é filho de um deus obscuro de nome Nhanderu Mbaecuaá (“Nosso Pai Conhecedor de Todas as Coisas”), auxiliar do primeiro.[48] Na versão mbiá, Quaraí criou Jaci de uma folha de kurupika'y, e em outra foi a partir de alguns ossos de sua mãe.[49] Assim, Jaci ficou também conhecido como Tyvyra'i ("Irmão Mais Novo" [de um homem]) ou Che Kyvy’i, (“Meu Irmão Mais Novo”), enquanto Quaraí seria chamado Nhande Ryke'y, "Nosso Irmão Mais Velho" [de um homem]) ou Che Ryke'y (“Meu Irmão Mais Velho”).[50][21]

Tendo perdido a mãe devorada pelos jaguares, sendo criados pela Avó Jaguar, posteriormente vingando-se de sua família adotiva ao saber do destino de sua verdadeira mãe pela fala do papagaio e continuando a jornada desta em busca do pai do gêmeo mais velho, onde passaram por uma série de desafios e perigos até serem ambos reconhecidos como filhos de Nhanderu, os rapazes ascenderam ao céu como Quaraí e Jaci, Sol e Lua.[51] A maior parte da vida dos gêmeos é idêntica tanto na versão guarani como na tupi.[52]

Anhá ou Anhã (também grafado Añá ou Añag) representa os poderes destrutivos da natureza e é responsável por desencadear forças brutais e hostis contra a humanidade. Assim como seu equivalente tupi Anhanga, ele foi considerado como o Diabo no sincretismo religioso com o cristianismo.

Mas, diferentemente da tradição tupi, na guarani Anhá é por vezes identificado com a entidade-jaguar chamada Xariã/Chariã ou Xivi (“Onça” na língua guarani) que matou e devorou Jaci quando este e seu irmão Quaraí pregaram peças nele, atrapalhando sua pescaria (Jaci foi depois ressuscitado pelo irmão, e sua morte e renascimento representam as fases da Lua e o eclipse lunar). Anhá/Xariã também matou um filho de Quaraí, e então este lutou com ele, e essa luta é representada pelo eclipse solar.[53][54]

Xariã também é conhecido como o Jaguar Azul (Jaguarovy) celeste, destinado a devorar o Sol e a Lua, levando o mundo ao fim dos tempos.[19] Para os nhandevas (apapocuvas), é um dos guardiões do paraíso de Yvy Marã Ey (junto com o Morcego Originário, Mbopi recoypy, pendurado na cumieira da casa, e uma grande serpente na entrada da casa), dormindo sob a rede de Nhanderuvuçu.[55]

Há ainda a tradição mbiá de que Anhá/Xariã é irmão ou companheiro de Nhanderu, pois que ambos vieram do mesmo lugar, mas com qualidades opostas, às vezes amigo e às vezes inimigo, e ambos são creditados como os criadores da nova terra depois do dilúvio universal.[56][54]

A criação do mundo

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As narrativas cosmogônicas guaranis descrevem a criação gradual do universo por meio da ação das divindades primordiais. Após estabelecer os fundamentos celestes com as cinco palmeiras azuis (pindovy) sagradas (uma em cada ponto cardeal e mais uma no centro do mundo, Yvy Mbyté), os seres divinos criaram a Primeira Terra (Yvy Tenondé) e os elementos necessários à existência da vida.[57]

A Terra atual em que vivemos é uma era que sucedeu a da Primeira Terra após um dilúvio depois que o caraí Jeupié (“senhor do mau amor” em guarani) cometeu o tabu do incesto — ele se casou com a irmã de seu pai, isto é, uma parenta de sangue, o que é proibido — e é chamada de Terra Nova (Yvy Piaú), entendida como uma criação imperfeita e transitória (yvy axy, “terra ruim”), sujeita à corrupção e à destruição. Essa concepção está relacionada à busca espiritual por uma condição superior de existência.[58]

Para os mbiás, Jacairá (deus do ar, do vento e da neblina) criou a terra em que vivemos atualmente com a participação do deus menor Ixapi (Ychapy, "Orvalho"),[59] também chamado Nhande Ru Ixapi ou Nhande Ru Papá Mirĩ (“Nosso Pequeno Pai Absoluto”).[60] Em uma variante mbiá, os irmãos ou companheiros Anhá/Xariã e Nhanderu são creditados como os criadores da nova terra depois do dilúvio universal.[56][54]

A criação do homem

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A criação da humanidade na Primeira Terra (Yvy Tenondé) é atribuída a Nhanderu, o deus criador do mundo, e as almas dos guaranis (nhe'ẽ) vêm do Yvaga, o céu onde habitam as divindades. Segundo a versão mbiá, as almas guaranis são criadas pelos quatro grandes deuses assistentes de Nhanderu: Nhamandu, Caraí, Jacairá e Tupã.[61]

As almas dos não-guaranis (brancos, negros, amarelos, e outros indígenas), numa adaptação do mito no pós-contato, provêm da Árvore Primitiva (Yvyra Ypy) ou Árvore Imperecível (Yvyra Marã E'ỹ) plantada por Nhanderu próximo à morada de Tupã (a oeste do céu), uma árvore colossal localizada em meio a um oceano pegajoso, mas invisível aos olhos daqueles que vivem aqui na terra, tão grande essa árvore que uma pessoa levaria mais de um ano para dar a volta nela, e indestrutível, pois, ao se tentar cortar um pedaço dela, ela logo se regenera. As almas não-guaranis surgem como lagartas (mbi'i) nessa árvore sob o comando de Mbi'ija (“dono das lagartas”; o guarani ja, dja ou jara vem do tupi îara, “dono, senhor”).[62]

A primeira raça criada foi, obviamente, a guarani, mas Nhanderu fez os homens primeiro, as mulheres vieram depois. O Nosso Pai ordenou, então, um de seus filhos vir à terra para ver como o povo estava. Esse filho de Nhanderu veio e viu que os homens descobriram o amor uns pelos outros até que um deles apareceu grávido. O filho de Nhanderu voltou para o pai e relatou o que estava acontecendo, e então o Nosso Pai disse: "Volta lá e cria um parceiro para esses homens, uma mulher lá na terra." E o filho veio e criou a mulher (também se diz que a mulher nasceu da batata da perna do próprio Nhanderu, e por isso é mais fácil para as mulheres se aprofundarem na opy [casa de rezas] pois seu corpo é feito do corpo de Nhanderu[63]). Quanto ao homem grávido, como ele era fisicamente incapaz de dar à luz o seu filho aqui na terra, Nhanderu fez uma morada sagrada para ele, onde permanece até hoje.[64]

Curiosamente, os xerentes, povo macro-jê (isto é, não é tupi-guarani) do Tocantins possuem um mito quase idêntico da origem do homem, documentado por Lévi-Strauss em 1943, que escreveu: “antigamente não existiam mulheres, e os homens eram homossexuais. Um deles ficou grávido e, como não podia parir, morreu.”[65]

As raças das outras etnias, surgidas das lagartas da Árvore Primitiva ou Imperecível, foram criadas depois, e, da mesma forma que com os guaranis, primeiro nasceram os homens pela vontade de Mbi'ija, o “dono das lagartas”. A árvore era cuidada pelos guaranis a pedido de Nhanderu, que notaram as lagartas brotando dela, espantando os passarinhos que tentavam comê-las. Depois de vários dias as lagartas se enterraram em casulos até que destes nascem brancos, pretos, amarelos, etc., mas apenas homens e, quando os guaranis vão olhar, estão todos fazendo sexo uns com os outros. Os guaranis, lembrando que era assim também entre eles até o aparecimento do homem grávido, avisaram Nhanderu, que plantou então batatas ao lado dessa árvore. As batatas cresceram, se desenvolveram e viraram mulheres, cada uma de uma cor. Nhanderu mandou os guaranis juntarem-nos aos pares (preto com preta, branco com branca, amarelo com amarela) e levar cada qual para uma ilha (yy paû) diferente.[63]

Esse mito explica porque relações com não-guaranis causam tanto medo e estresse aos guaranis, ao ponto de levá-los a ter pesadelos com lagartas e de acreditar que podem morrer se se relacionarem com não-guaranis — a menos que suas almas sejam trocadas por Mbi'ija por uma “alma-lagarta” e assim sobreviver, ao custo de perder sua alma guarani, e os filhos dessas relações não são considerados guaranis, pois sua alma, sua nhe'ẽ, é nascida da união de duas almas-lagartas.[62]

Para comparação, na versão tupi da origem do homem, o deus criador Monã criou a primeira mulher para ser esposa de Irãmajé, único sobrevivente do grande incêndio seguido do dilúvio que destruiu a primeira humanidade, entendida por isso como inteiramente masculina, para repovoar o mundo.[66]

Para os mbiás, Jacairá e seu auxiliar Ixapi/Papá Mirĩ, após criar a terra atual (Yvy Pyahu, “Terra Nova”, também chamada Yvy Axy, “Terra Imperfeita”, ou Yvy Vai, “Terra Má”) depois do dilúvio de Jeupié, povoaram-na com a imagem dos espíritos que haviam existido na anterior, sacrificada pelo dilúvio. Desses espíritos, Jacairá criou os homens e as mulheres para que entoassem os cantos sagrados. Papá Mirĩ ficou encarregado de roubar o fogo dos urubus para prover dele a nova humanidade.[67]

Para os caiouás, apenas Koarahý e Djasý (Sol e Lua) sobreviveram ao dilúvio e foram levados ao céu pela seriema. Depois a Terra tornou a povoar-se por ordem de Nhanderuvuçu. Do céu vieram os primeiros casais de várias "nações", a cujos descendentes o Sol mandou dar todas as coisas de que precisassem. Em primeiro lugar menciona-se o fogo. "Então o Sol disse a Lua, irmão dele: 'Agora dê fogo a esses filhos do caiouá, do brasileiro e do paraguaio'. A todos os três deu fogo." Só depois disso é que receberam utensílios, roupa, sementes e mudas para plantar. Os textos se referem à época em que não havia diferença entre os homens e os animais. A fauna atual é remanescente de uma primitiva humanidade, e os seus atuais modos de vida, em forma de animais, lhe foram impostos pelos heróis Koarahý e Djasý.[68]

Na versão nhandeva do mito, a segunda humanidade fora criada quando Nhamandu (que tem o papel de Nhanderu entre os nhandevas) enviou um homem e uma mulher de cada morada dos deuses Tupã, Jacairá, Quaraí (aqui no lugar de Nhamandu) e Caraí, e esses casais tiveram filhos e repovoaram a terra.[69]

A história de Rupavê e Sypavê, suposto casal primordial criado por Tupã, não existe nos mitos guaranis. Eles são criações literárias do poeta paraguaio Narciso R. Colmán (“Rosicrán”) para sua teogonia ficcional do mito guarani intitulada Ñande Ypykuéra de 1922, não se encontrando registros deles antes dessa publicação.[70]

Os seres espirituais

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Além das divindades criadoras, a mitologia guarani reconhece a existência de numerosos espíritos associados à natureza, aos ancestrais e a fenômenos sobrenaturais.

Esses seres podem atuar como auxiliares ou como fontes de perigo para os seres humanos. Muitas narrativas descrevem encontros entre pessoas e entidades espirituais durante sonhos, visões ou experiências xamânicas.[71]

Entre os principais seres míticos guaranis destacam-se:

Curupi (ou Kurupí, “casca/pele rugosa”) é um gênio protetor da selva, dos animais e da fertilidade. Ele é um guardião ciumento da floresta e um símbolo dos ciclos reprodutivos da natureza, embora também seja conhecido por sequestrar mulheres e crianças que se aventuram sozinhas na selva.

Ele é descrito como um homem baixo, robusto, com pele áspera (pelo significado de seu nome) e traços grotescos. Equivalente ao Curupira dos tupis, em algumas versões ele tem os pés virados para trás para enganar aqueles que tentam seguir seus passos e possui um pênis de dimensões desproporcionais que traz enrolado na cintura.

Jaci Jaterê

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Jaci Jaterê (ou Jasy Jatere, “fragmento da Lua”) é o guardião da floresta e considerado uma das raízes indígenas da lenda do Saci Pererê.

Descrito como um ser miúdo ou anão, é um profundo conhecedor das plantas e dos animais. Ele atua como um guardião da natureza e do descanso, levando consigo crianças que não dormem durante a sesta.

Jaguaretê-avá

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O Jaguaretê-avá (“homem-jaguar”) é um indivíduo, usualmente um pajé, capaz de se transformar numa criatura híbrida entre homem e jaguar durante a noite, geralmente com o propósito de caçar seres humanos ou exercer vingança.

O estudo mais conhecido sobre a crença no Jaguaretê-avá é o ensaio La leyenda del yaguareté-abá (1895) do antropólogo argentino Juan Bautista Ambrosetti. Ele comparou essa tradição guarani com outras narrativas sul-americanas sobre metamorfose entre seres humanos e grandes felinos, como o Runa Uturuncu dos Andes e o Jaguar Capiango do noroeste argentino.[72]

Pora (“habitante”, talvez derivado da entidade tupi Caapora, “habitante da mata”), também conhecido como “Pombero” (do português africano “pombeiro”), Pyragué (“Pé Peludo”), Karaí Pyhare (“Senhor da Noite”) e Kuarahy Jára (“Dono do Sol”), é um gênio que protege os pássaros e persegue crianças (os pombeiros eram supostamente vendedores ambulantes que davam notícias a caçadores de negros e indígenas escravizados).[73]

É frequentemente descrito como um homem baixo, peludo, de mãos e pés grandes (às vezes ao contrário para despistar rastros, como o Curupi e o Curupira), que usa um chapéu de palha e fuma um charuto. Pode ser um aliado ou um grande inimigo. Se for respeitado, ajuda os camponeses a cuidarem dos animais e das colheitas.

Arapariguá

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Para os chiriguanos (avá-guaranis), o sobrevivente do dilúvio se chama Arapariguá, salvo por Tupã, que o transportou para o céu, só voltando do firmamento depois de ser o mundo repovoado. Em seguida, tendo praticado toda sorte de abusos e estando ameaçado pelos homens, Arapariguá tornou a dever a sua salvação a Tupã, que o levou definitivamente para o céu.[74]

Caá-Iari

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A lenda dos avá-guaranis da origem da erva-mate (caá ou ka’a, “erva” em guarani), planta essencial na cultura de diversos povos sul-americanos, diz que um ancião tinha uma filha única lindíssima que era cobiçada por diversos homens, mesmo de outros lugares. Num sonho, porém, esse ancião recebeu a visita de Nhanderu, que lhe explicou que sua filha não podia pertencer a uma pessoa só, e o fez prometer que, quando ela morresse, a enterraria em frente à sua casa. Pouco tempo depois a filha adoeceu e faleceu e, conforme prometido a Nhanderu, o pai a enterrou em frente à sua casa e, em pouco tempo, brotou em seu lugar a ka’a, a erva-mate, que podia ser compartilhada com todos.[75]

Na tradição guarani, os iari, yaríi ou jarýi (derivado do tupi îara, “dono[a], senhor[a]”) são espíritos protetores de diversos elementos da natureza e da sociedade, como plantas, minerais, água, animais, jogos e casas, e entre os quais há, por exemplo, o ka'a jarýi (“dono[a] das ervas”, sobretudo da erva-mate), o jakare jarýi (“dono[a] dos jacarés) e o ka'aguy jarýi (“dono[a] do mato), etc.[76]

Da crença nos ka'a jarýi desenvolveu-se uma versão do folclore gaúcho em que um velho guerreiro guarani, debilitado pela velhice, não pôde acompanhar sua tribo em busca de novas terras, ficando para trás na companhia de sua filha, Iari (ou Yari), que se recusou a abandoná-lo. Um mensageiro de Tupã, que fora bem acolhido em sua casa, lhe presenteou com uma muda de caá e lhe ensinou a cultivá-la e a preparar o mate (chimarrão), e também transformou Iari em imortal, tornando-a Caá-Iari, a deusa da erva-mate,[77] enquanto a bebida feita da erva se chama ca'ary, um encurtamento de seu nome.[78]

Guiraipoti

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Guiraipoti ou Guirapoti (Guyraypoty ou Guyra-poty, “pássaro-flor”) é uma figura xamânica central nos mitos apapokuva-guarani, que, segundo a tradição, recebeu a mensagem de Nhanderuvuçu sobre uma iminente destruição cósmica. Nas histórias do dilúvio e da destruição da Terra, Guiraipoti é um grande caraí a quem o deus criador ordena que dance para salvar sua família do cataclismo, guiando-os para o céu (ou, numa variante, para Yvy marã e'ỹ, a Terra sem Mal, que Alfred Métraux diz estar no céu[79]). Ele representa a jornada espiritual, liderando sua família em uma longa marcha ritual (oguatá) para escapar do cataclismo.[80]

O caraí Tapari, apelidade de Jeupié e de Joajué (ambos significam “unir-se carnalmente de forma ilícita”[81]), o primeiro incestuoso, transgrediu o tabu do incesto ao casar-se com sua tia paterna (irmã de seu pai), o que causou o dilúvio que destruiu a Primeira Terra. Apesar de sua transgressão, ele e sua esposa conseguiram se purificar através de orações, canções e danças para alcançar a perfeição (aguyjé), enquanto ainda nadavam nas águas, o que lhes permitiu criar uma palmeira milagrosa (pindoju, "palmeira amarela") para descansar por algum tempo e depois alcançar o paraíso da Terra sem Mal ainda em vida (ele foi o primeiro homem a fazê-lo), adentrando a convivência dos deuses, e Jeupié se tornou o primeiro dos homens-deuses, Nhande Ru Karaí Tapari, o pai das divindades menores (Tupã Mirĩ, os habitantes da Primeira Terra que ascenderam ao paraíso em forma humana, assim como os heróis divinizados).[12][82]

O nome Tapari pode vir de itá-pari, "cercado de pedra" (de itá, “pedra”, e pari”, “cercado, rede ou curral”).[83]

Uma dos principais heróis civilizadores dos tupis da costa brasileira, Sumé também é conhecido na mitologia guarani, onde o herói civilizador dos guaranis usava o mesmo nome.[84] No Paraguai ele é conhecido pelo nome de Pay Zomé,[85] atribuindo-lhe a introdução da cultura da mandioca, contando que, em virtude de desavenças entre o povo e os seus ancestrais, o mesmo punira-os com o retardamento do tempo necessário para a maturidade daquele tubérculo. De acordo com a tradição corrente na costa, os habitantes do Paraguai consideravam os fenômenos erosivos, ou outros quaisquer fatos que tivessem deixado marcas nas pedras vizinhas aos cursos de água, como pegadas provenientes da permanência de Sumé entre os homens. Certas sendas naturais, que se podem seguir em diversas regiões paraguaias, estão ligadas à tradição das peregrinações errantes do pretenso São Tomé, que os colonizadores identificaram com Sumé.[86]

Os antepassados dos guaraius-pausernas, ou itatins, pretendiam também ter herdado de Pai-Çuma (Pa'i Sumé) o costume da tonsura, mostrando, a quem os quisesse ver, sinais deixados pelos pés desse personagem.[87]

O conhecimento acadêmico sobre a mitologia guarani deriva tanto da tradição oral indígena quanto de estudos etnográficos realizados a partir do final do século XIX. Entre as principais fontes destacam-se os trabalhos de Curt Nimuendajú, León Cadogan, Egon Schaden, Bartomeu Melià, Pierre Clastres e Hélène Clastres.

As narrativas religiosas registradas por esses autores são consideradas particularmente valiosas por terem sido recolhidas diretamente de líderes espirituais guaranis e não exclusivamente por observadores externos.

A teogonia ficcional de Ñande Ypykuéra

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O poeta paraguaio Narciso R. Colmán (“Rosicrán”) publicou em 1922 uma teogonia ficcional do mito guarani intitulada Nuestros Antepasados (Ñande Ipi Cuéra, depois corrigido para Ñande Ypykuéra, “Nossos Antepassados” em português).[70] Apesar de muito da narrativa da obra-mestra de Rosicrán (como Tupã no papel de deus criador, a criação do mundo e da humanidade aqui descrita, os "sete monstros lendários" como uma família, etc.) e alguns personagens (como Arasy, Rupavê e Sypavê, Angatupyry, Kerana, etc.) não serem reconhecidos por nenhum povo tupi-guarani como parte de suas mitologias, mostrou-se tão popular que, para o público não-indígena, tornou-se sinônimo de mitologia guarani, e muitos hoje acreditam que o conteúdo do texto faça parte das crenças indígenas.[88]

Deve-se, então, ter sempre em conta que essa narrativa é uma ficção escrita por Rosicrán reunindo diversos personagens míticos do Paraguai, a maioria deles sem relação direta entre si (como os "sete monstros lendários") e alguns deles criados para essa obra, até incluindo o mito de Atlântida, a mitologia cristã, os maoris da Nova Zelândia e os maias do México no que foi chamado de “a primeira cosmogonia ficcional guarani”, não constando, do jeito que ele apresentou, nos autênticos mitos indígenas.[89] Esta obra adquiriu uma fama que substituiu os mitos guaranis reais no imaginário social e, com a mesma força, sepultou muitos signos, motivos e procedimentos criativos que até então não haviam sido analisados ​​criticamente.[88]

Influência cultural

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A mitologia guarani exerceu e segue exercendo influência significativa sobre a cultura do Paraguai, do sul do Brasil, do nordeste da Argentina e de partes da Bolívia.

Diversos elementos da tradição religiosa guarani foram incorporados à literatura, à música, ao folclore e à identidade cultural regional. Alguns conceitos, como a Terra sem Males e a figura de Tupã, tornaram-se amplamente conhecidos fora dos contextos indígenas originais. Um importante exemplo disso é o poema Ñande Ypykuéra (“Nuestros Antepasados”, 1922) do poeta paraguaio Narciso R. Colmán (“Rosicrán”), uma teogonia guarani ficcional que se tornou tão popular que, para a maioria do público sul-americano não-indígena, incluindo o brasileiro, as narrativas nele contadas são consideradas como a autêntica mitologia dos povos guaranis, embora não sejam, e, com isso, ainda que tenha contribuído para a difusão dos mitos guaranis para o grande público, ajudou também a criar uma série de descaracterizações e desinformações sobre as deidades e demais entidades guaranis na cultura popular não-indígena.[88]

O interesse acadêmico pela cosmologia guarani aumentou consideravelmente durante o século XX, contribuindo para uma compreensão mais aprofundada das tradições religiosas indígenas da América do Sul.[90]

Ver também

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Referências

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Bibliografia

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