Molinismo

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa

O molinismo é a doutrina sobre a Divina Providência que leva o nome do jesuíta espanhol Luís de Molina (1535-1600) que procura conciliar as ideias de que os seres humanos possuem liberdade significativa ou libertária e de que Deus possui controle providencial sobre tudo o que ocorre. A maneira pela qual Deus é capaz de exercer controle providencial sobre tudo o que ocorre num mundo onde existem criaturas livres é através de Seu conhecimento médio, isto é, conhecimento hipotético ou conhecimento contrafatual de tudo o que criaturas livres fariam em todas as circunstâncias em que Deus as colocaria. O conhecimento médio, portanto, é o conhecimento dos contrafatuais acerca do que criaturas livres fariam nas circunstâncias em que elas fossem colocadas.

História[editar | editar código-fonte]

O debate sobre a existência ou não de livre-arbítrio e graça divina teve seu ponto mais alto no século XVI na Espanha católica. Nesta época, um forte debate se desencadeou entre os jesuítas e os dominicanos até que Luís de Molina, professor universitário aposentado publicou em 1588 um livro com o título A reconciliação entre o livre-arbítrio e a concessão da graça, presciência divina, providência, predestinação e condenação da primeira parte dos artigos de São Tomás que acirrou ainda mais a discussão.[1]

Conceitos[editar | editar código-fonte]

Segundo o jesuíta a vontade humana nas ações livres não é só um instrumento de Deus, causa principal, mas causa autêntica dos efeitos realizados, sendo o concurso divino simultâneo e não precedente em relação ao exercício da própria ação.[2]

O molinismo argumenta que Deus atinge seu objetivo através das vidas das criaturas genuinamente livres por intermédio de sua onisciência. O modelo proposto apresente o conhecimento infinito de Deus em uma séria de três momentos lógicos (considerados nessa ordem não-cronológica, mas lógica): "conhecimento natural", "conhecimento médio" e o "conhecimento livre":[3]

1. Conhecimento natural
O conhecimento do que é possível ou das possibilidades.
2. Conhecimento médio
O conhecimento de como um ser possuidor de livre-arbítrio (independência libertária) poderia agir em qualquer situação.
3. Conhecimento livre
O conhecimento do que realmente acontecerá.

Assim, o conhecimento médio de Deus desempenha um papel importante na realização do mundo. Na verdade, parece que o conhecimento médio desempenha um papel mais imediato na criação de presciência de Deus. William Lane Craig assinala que "sem o conhecimento médio, Deus iria encontrar-se, por assim dizer, com o conhecimento do futuro, mas sem qualquer planejamento lógico e prévio do futuro."[4] A colocação do conhecimento médio de Deus entre o conhecimento natural e o conhecimento livre é crucial. Pois se o conhecimento médio estivesse depois do conhecimento livre, então Deus estaria ativamente fazendo o que várias criaturas fariam em várias circunstâncias e, assim, destruindo a liberdade. Mas, colocando o conhecimento Médio antes do conhecimento livre, Deus permite a liberdade. A colocação de conhecimento médio logicamente depois do conhecimento natural, mas antes do conhecimento livre também dá a Deus a possibilidade de examinar mundos possíveis e decidir qual mundo atualizar.[5]

Graças, então, ao conhecimento médio, Deus sabe o que a vontade livre fará nas diversas situações em que uma pessoa se encontrar e, através do conhecimento livre, em qual situação a pessoa concretamente ficará, assim ele pode com certeza prever o sucesso da graça que doará a cada um.[2]

Referências

  1. Jonathan Hill. As grandes questões sobre fé Thomas Nelson Brasil [S.l.] p. 163. ISBN 978-85-60303-99-1. 
  2. a b Vários autores (2003). Lexicon - dicionário teológico enciclopédico Loyola [S.l.] p. 505. ISBN 978-85-15-02487-2. 
  3. Kenneth Keathley (1 January 2010). Salvation and Sovereignty: A Molinist Approach B&H Publishing Group [S.l.] p. 16. ISBN 978-0-8054-3198-8. 
  4. Craig. The Only Wise God. 1999 p. 134.
  5. James Beilby and Paul Eddy, Divine Foreknowledge, Four views. Downers Grove, Illinois: InterVarsity Press, 2001. pg 120-123.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Craig, William Lane, 2000 / 1a edição: 1987, The Only Wise God: The Compatibility of Divine Foreknowledge and Human Freedom. Eugene: Wipf and Stock.
  • Craig, William Lane, 2002, What Does God Know? Reconciling Divine Foreknowledge and Human Freedom. Norcross: RZIM.
  • Flint, Thomas, 1998, Divine Providence: The Molinist Account, Ithaca: Cornell University Press.
  • Perszyk, Kenneth (editor), 2012, Molinism: The Contemporary Debate, Oxford: Oxford University Press.
  • Plantinga, Alvin, 1974 (2012, tradução) Deus, a Liberdade e o Mal, Editora Vida Nova.
  • Plantinga, Alvin, 1974, The Nature of Necessity. Oxford: Clarendon Press.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]