Morro do Cambirela

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Morro do Cambirela
Morro do Cambirela está localizado em: Brasil
Morro do Cambirela
Coordenadas 27° 45' S 48° 40' O
Altitude 1.052 m (3451,444 pés)
Localização Palhoça, Santa Catarina,  Brasil
Rota mais fácil lado norte

O Morro do Cambirela é uma montanha situada no maciço de mesmo nome, no município de Palhoça, no estado de Santa Catarina. Sua altitude é de 1052 metros, o que o torna o ponto culminante do município e da região, destacando-se pelo fato de elevar-se praticamente a partir do nível do mar até mais de um quilometro de altura. Está situado no Parque Estadual da Serra do Tabuleiro e domina toda a Baía Sul.[1][2]

Cercado de lendas, estima-se que tenha sido um vulcão a 590 milhões de anos atrás. O Cambirela é bastante procurado por praticantes de trilhas que desejam subir ao topo em busca da aventura e da vista única do cume da montanha. É também conhecido pelo acidente aéreo de 1949 e pela neve de 2013, que acumulou no topo e surpreendeu os moradores da Grande Florianópolis. Seu tamanho e importância o levaram a ser representado por artistas como Debret e Victor Meirelles e a emprestar o nome para os mais diversos usos na Grande Florianópolis.

Nome[editar | editar código-fonte]

Segundo o dicionário tupi-guarani, o nome Cambirela vem de kambi, que significa "seios de leite" e reya, que é "muitos", provavelmente uma referência aos vários picos do Maciço do Cambirela e as nuvens e cachoeiras que embelezam o morro.[3]

Cambirela também passou a ser o nome do município vizinho ao Morro do Cambirela, Santo Amaro da Imperatriz, que era até então chamada apenas de Santo Amaro, em 1941, quando a localidade foi elevada a vila e o governo emitiu um decreto pra eliminar nomes duplicados em cidades - haviam Santo Amaros em outros estados. Porém, a rejeição da população levou a realização de um plebiscito que escolheu o nome atual, que foi oficializado em 1948.[4]

O Maciço do Cambirela aparece ao fundo na pintura de 1847 Vista da Baía Sul, de Victor Meirelles.

Geologia e Vegetação[editar | editar código-fonte]

As formações rochosas encontradas no Cambirela são de granito e basalto, uma mistura interessante comumente encontrada na região, fronteira entre a Serra do Mar e a Serra Geral, ambas com formações geológicas distintas. Especula-se que, devido ao fato de haver águas termais na região em que se situa a montanha, o Cambirela possa ser o cume mais alto de um vulcão extinto. Toda a região, incluindo parte do sul da ilha de Santa Catarina, é compostas por rochas vulcânicas de 590 milhões de anos, sendo as fontes termais resquícios desse período.

Foto de satélite da Ilha de Santa Catarina e região próxima. O Maciço do Cambirela se localiza no canto inferior esquerdo da imagem

A vegetação nativa é um remanescente da Mata Atlântica até certa altitude - cerca de 800 m, após o que encontram-se gramíneas. Uma pedreira ao pé do monte agredia a paisagem, no entanto os proprietários da lavra reconstituíram a paisagem plantando árvores. Ainda que não façam parte da vegetação nativa, ocultam a cicatriz formada pela exploração mineral. A atividade extrativista causa medo nos moradores da região - apesar de não haver risco vulcânico no Cambirela. Segundo a Fundação Estadual do Meio Ambiente, não há riscos nas atividades.[3]

Primeiro topo do Cambirela, a aproximadamente 980 metros acima do nível do mar.

Altura, acesso e trilha[editar | editar código-fonte]

O Maciço do Cambirela pode ser visto de Florianópolis em vários pontos da cidade, em especial pela margem sudoeste da Ilha de Santa Catarina. Também é possível vê-lo de São José, Biguaçu, Santo Amaro da Imperatriz e, claro, da Palhoça. Existem trilhas que levam ao topo, ao longo das quais se encontram alguns cursos de água cristalina, como o Rio Cambirela, que desce da montanha, apresentando algumas cachoeiras.[5] Estas trilhas são muito utilizadas por turistas aficionados das caminhadas ecológicas. As caminhadas duram cerca de três horas. Entretanto, não é incomum pessoas se perderem ou terem problemas, tendo que ser resgatados pelo Corpo de Bombeiros, em geral com o helicóptero devido ao difícil acesso.[6][7][8]

Existem dois acessos, ambos partem da BR-101. O primeiro é logo após a ponte sobre o rio Cubatão, na rua Jacob Vilain Filho. O segundo acesso fica na margem da rodovia, no Km 222. O ponto mais alto acessível de trilha chega a 980 m de altura, no chamado dorso norte. Estudos recentes do curso técnico em Agrimensura do Instituto Federal de Santa Catarina corrigiram a altura do Cambirela, que tem 1052 metros de altitude em seu pico, que fica ao sul da parte acessível pela trilha regular - até então acreditava-se que ele tinha 1043 metros, dado que o IBGE registrava.[2] A primeira subida do Cambirela registrada foi em 1934, quando se acreditava que a montanha tinha 1553 metros. Até os anos 1980, as trilhas tinham um fim mais exploratório e científico, e a partir daí as trilhas com fim recreativo e de preservação do meio ambiente começam a acontecer com maior frequência.[8]

É possível avistar de seu cume importantes pontos da região, tais como o Rio Cubatão, a Ilha de Santa Catarina os municípios de Palhoça, São José e Florianópolis. Além da Baía Sul e da Ilha de Santa Catarina avista-se o Oceano Atlântico.


Vista do topo do Cambirela, olhando para o leste. É possível ver, logo abaixo, a Palhoça, incluindo a foz do Rio Cubatão, a Baía Sul e toda a extensão da Ilha de Santa Catarina. A esquerda, mais ao fundo, aparece parte de São José, da região continental de Florianópolis e da Baía Norte.

Acidente aéreo de 1949[editar | editar código-fonte]

Na tarde de 6 de junho de 1949, o Voo 2023 - um Douglas C-47 do Correio Aéreo Nacional (CAN), vindo do Rio de Janeiro, tinha saído do Aeroporto Hercílio Luz em Florianópolis as 16h com destino a Porto Alegre, chocando-se contra o Cambirela pouco depois disso. Todos os 26 ocupantes morreram. A causa provável da tragédia - a maior da aviação brasileira até então - foi o mau tempo.[9][10][11][12]

Neve[editar | editar código-fonte]

Neve na Serra do Tabuleiro vista do Morro da Cruz, em Florianópolis.

A formação de neve no Cambirela é bastante rara, tendo sido registrada poucas vezes. Historicamente, foram registradas neves visíveis a distância em 1942, 1984 e a mais conhecida, a de 2013 - porém, se considera que precipitações menores, com alguns minutos, devem acontecer com certa frequência, porém, devido ao difícil acesso e registro, não se sabe.[13]

Em 2013, nevou durante a noite e o gelo permaneceu sobre os picos da Serra do Tabuleiro até as 14h, fato que foi amplamente registrado pela mídia e pelos moradores da Grande Florianópolis, que foram surpreendidos pelo cenário inédito que mais lembrava países andinos ou europeus. Por isso, de forma bem-humorada, as montanhas nevadas foram apelidadas de Alpes Palhocenses ou Barilhoça.[14]

Fogo[editar | editar código-fonte]

Placa indicando uma das trilhas de subida do Morro do Cambirela.

Incêndios acontecem com certa frequência na montanha, com dificuldade para o combate devido ao acesso complicado.[15][16]

O último grande incêndio começou no dia 26 de abril de 2020, no período da manhã, no topo da montanha. Os bombeiros foram acionados para combater as chamas e enviaram um helicóptero para tentar apagar as chamas com água. Havia cerca de 30 pessoas no local, que foram resgatadas pelos bombeiros. A noite, o fogo ainda não tinha sido controlado e as chamas eram visíveis de longe. O clima seco e o vento ajudaram a espalhar as chamas e a área queimada foi a área aproximada a de um campo de futebol.[17][18][19]

Cultura popular[editar | editar código-fonte]

Cambirela, com o pico atrás das nuvens, visto de Florianópolis. O rosto do gigante da lenda pode ser visto a esquerda.

O Morro do Cambirela é cercado de lendas, como as que tentam explicar luzes vistas na montanha com a presença de boitatás ou mesmo sobre a presença de OVNIs.[3][20]

Uma das histórias bruxólicas mais conhecidas de Florianópolis, que narra a origem das pedras do Itaguaçu, fala também do chamado "gigante do Cambirela": nela, as bruxas organizaram uma festa na praia, com todos os personagens folclóricos convidados, exceto o diabo por seu fedor e atitudes antissociais. Este aparece na festa enfurecido e transforma as bruxas em pedra. O gigante, que acompanhava a festa de longe, viu e chorou tanto que o choro virou o mar e se deitou para nunca mais levantar. É possível a cabeça, nariz, pescoço, tronco, pernas e pés do gigante, formados pelos picos dos morros próximos, de certos pontos da cidade, com o Morro do Cambirela servindo como um travesseiro, sendo a própria montanha chamada de gigante por vezes. Essa lenda é bem parecida a do Gigante da Pedra da Gávea no Rio de Janeiro.[21][3]

Nas artes, por sua importância visual, o Morro do Cambirela aparece em várias pinturas ao longo do anos. Algumas delas incluem "Entrada Norte da Ilha de Santa Catarina", feita por George Anson em 1740; "Vista da Baia Sul da Ilha de Santa Catarina cidade de Desterro", de Charles Landseer em 1824; "Panorama de São José e Cambirela" feita por Debret em 1826; "Vista da Antiga cidade de Desterro", de Joseph Bruggemann em 1868; e a "Vista Parcial da Cidade de Nossa Senhora do Desterro" de Victor Meirelles em 1847.[8]

O Cambirela empresta seu nome, além do rio e do maciço, para uma praia próxima a ele e aos mais diversos usos na região, incluindo hotéis, postos de gasolina e edifícios. O Centro de Formação e Treinamento do Figueirense Futebol Clube, que fica próximo ao morro, é conhecido como CFT do Cambirela. Na Palhoça, o órgão ambiental municipal se chama Fundação Cambirela de Meio Ambiente (FCAM). O nome foi até mesmo incluído na campanha promovida pela União Astronômica Internacional para nomear a estrela Epsilon Eridani.[22]

Referências

  1. «Aventura na Trilha do Morro do Cambirela». Arquivado do original em 14 de fevereiro de 2018 
  2. a b «Equipe do IFSC descobre que Morro do Cambirela é maior do que se tinha registro». Notícias do Dia. 19 de novembro de 2019. Consultado em 28 de abril de 2020 
  3. a b c d «No Aniversário de Palhoça, conheça as lendas do Cambirela» 
  4. «Santo Amaro da Imperatriz - História» 
  5. «Fotógrafo registra cachoeiras pelo Rio Cambirela, na Grande Florianópolis» 
  6. «Bombeiros usam helicóptero para resgatar família perdida em SC» 
  7. «Bombeiros passam a noite no Cambirela para cuidar de homem que sofreu traumatismo» 
  8. a b c «Cambirela, Fragmentos de sua história.». Alta Montanha. 13 de março de 2018 
  9. Horrível desastre com um avião da FAB, anteontem, no planalto Cambirela. Jornal O Estado, 8 de junho de 1949
  10. Chocou-se com o pico da Cambirela, próximo desta capital, um avião da FAB, perecendo todos os tripulantes e passageiros. Jornal O Estado, 9 de junho de 1949, página 8 e continuação na p. 6 (com a lista dos 26 mortos)
  11. «The Hemisphere: Peak Disaster» (em inglês). Time. 20 de junho de 1949. Consultado em 12 de outubro de 2018 
  12. Schmitz, Paulo Clóvis (6 de junho de 2019). «Tragédia de avião que caiu no Cambirela completa 70 anos nesta quinta-feira». Notícias do Dia 
  13. «Há quatro anos, a neve caía sobre o Morro do Cambirela, em Palhoça; relembre com fotos» 
  14. «Há dois anos, nevava no topo do Morro do Cambirela e em 106 cidades de SC» 
  15. «Incêndio atinge 3 mil m² de vegetação no alto do Morro do Cambirela». G1. 24 de julho de 2014. Consultado em 12 de junho de 2020 
  16. «Incêndio atinge Morro do Cambirela em Palhoça». Diário Catarinense. 4 de julho de 2010. Consultado em 12 de junho de 2020 
  17. «Incêndio atinge o Morro do Cambirela, em Palhoça». Notícias do Dia. 26 de abril de 2020. Consultado em 12 de junho de 2020 
  18. «Morro do Cambirela, em Palhoça, tem incêndio e resgates atendidos pelo CBMSC em 3 dias». Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina. 28 de abril de 2020. Consultado em 12 de junho de 2020 
  19. «Bombeiros voltam a combater focos de incêndio no Morro do Cambirela, em Palhoça». Hora de Santa Catarina. 27 de abril de 2020. Consultado em 12 de junho de 2020 
  20. «Mistérios Palhocenses - Edição 517 - 17/12/15» 
  21. «Bruxas de Itaguaçu – a lenda» 
  22. «União Astronômica Internacional pode batizar estrela com nome Cambirela». 14 de Agosto de 2015. Consultado em 9 de Fevereiro de 2021 
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