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Movimento Swadeshi

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Pôster de Gandhi sentado em uma roca de fiar
Pôster popular dos anos 1930 retratando Gandhi utilizando uma charkha para fiar algodão e tecer tecidos, com a legenda "Concentre-se na Charkha e Swadeshi"

O Movimento Swadeshi foi um movimento de autossuficiência que integrou o movimento de independência da Índia e contribuiu para o fortalecimento do nacionalismo indiano [en].[1] Após a decisão do governo britânico de particionar a Bengala, anunciada publicamente em dezembro de 1903, houve um descontentamento crescente entre os indianos. O movimento Swadeshi foi formalmente iniciado em 7 de agosto de 1905, na Prefeitura [en] de Calcutá, com o objetivo de boicotar produtos estrangeiros e promover a produção doméstica.[2] Mahatma Gandhi descreveu o movimento como a alma do swaraj [en] (autogoverno). O movimento ganhou amplitude com doações de indianos ricos, que contribuíram com recursos financeiros e terras para sociedades de Khadi e Gramodyog, incentivando a produção de tecidos em todos os lares. Além disso, incluiu outras indústrias rurais para tornar as vilas autossuficientes e autônomas.[3] O Congresso Nacional Indiano utilizou o movimento como uma ferramenta poderosa na luta pela liberdade, culminando no hasteamento de uma bandeira indiana tricolor de khadi, com a Ashoka Chakra, em 15 de agosto de 1947, no Princess Park, próximo ao Portão da Índia, em Nova Deli, por Jawaharlal Nehru.[4]

A decisão do governo britânico de particionar Bengala foi tomada em dezembro de 1903. A justificativa oficial era que Bengala, com uma população de 78 milhões, era grande demais para ser administrada. No entanto, a verdadeira razão era que a região era o epicentro de revoltas, e as autoridades britânicas não conseguiam controlar os protestos, que temiam que se espalhassem por toda a Índia.[5] Nomeado Vice-Rei da Índia (1899–1905), George Curzon, 1º Marquês Curzon de Kedleston, supervisionou a partição de Bengala em 1905.

Em O Leão e o Tigre: Ascensão e Queda do Raj Britânico, 1600–1947, Denis Judd escreveu:

"Curzon esperava... vincular a Índia permanentemente ao Raj. Ironicamente, sua partição da Bengala e a controvérsia que se seguiu revitalizaram o Congresso [Nacional Indiano]. Curzon, em 1900, de forma tipica, havia descartado o Congresso como ‘prestes a desmoronar’. Mas ele deixou a Índia com o Congresso mais ativo e eficaz do que em qualquer outro momento de sua história."[6]

Bengala foi dividida por critérios religiosos: a metade ocidental seria predominantemente hindu, e a oriental, majoritariamente muçulmana. Essa estratégia de dividir para governar impulsionou o movimento Swadeshi. Em 1911, os britânicos reunificaram Bengala e transferiram a capital para Nova Deli, dando ao movimento Swadeshi um novo significado após a reunificação.

Bharat Mata [en], pintura de 1905 por Abanindranath Tagore [en], uma das primeiras representações visuais de Bharat Mata, ou "Mãe Índia"

Etimologia

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Swadeshi é uma conjunção (sandhi) de duas palavras em sânscrito: swa ("próprio" ou "de si mesmo") e desh ("país"). Swadeshi é um adjetivo que significa "do próprio país".[7]

Cronologia

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O Movimento Swadeshi foi fundamental na luta pela independência da Índia, enfatizando a autossuficiência, a produção local e a resistência econômica ao domínio colonial britânico. Ele se desenvolveu em várias fases, cada uma marcada por estratégias, líderes e objetivos nacionais distintos, refletindo a transformação da ideia de Swadeshi: de um movimento de boicote a uma visão mais ampla de autossuficiência e soberania econômica.

  • Segundo Movimento Swadeshi (1918–1947): O movimento ganhou novo impulso em 1918, quando Mahatma Gandhi introduziu a patti charkha (roda de fiar algodão) em Mumbai, apresentando-a como símbolo e ferramenta do movimento Swadeshi. Em 31 de julho de 1921, ele fez um juramento de boicotar produtos estrangeiros, queimando 150 mil tecidos ingleses no Elpinstone Mill Compound, em Parel, Mumbai. Gandhi organizou centros de fiação de khadi por todo o país, considerando os fiandeiros de khadi como lutadores pela liberdade.[15] Os indianos começaram a abandonar produtos britânicos em favor de produtos locais, mesmo que mais caros, resultando em uma queda de 20% nas vendas de produtos britânicos.
  • Terceiro Movimento Swadeshi (1947–1991): Sob o socialismo nehruviano e sucessivos primeiros-ministros, o governo indiano focou na substituição de importações, expansão do setor público e políticas protecionistas para promover a autossuficiência, levando à criação de indústrias pesadas, instituições científicas e uma economia planejada voltada à soberania econômica.[16]
  • Quarto Movimento Swadeshi (1991–Presente): Iniciado pelo primeiro-ministro P. V. Narasimha Rao e pelo ministro das Finanças Manmohan Singh, marcou uma transição para liberalização, privatização e globalização, incentivando empresas indianas a se tornarem globalmente competitivas. Isso gerou uma nova fase do Swadeshi, com empresas como Infosys, Wipro e Tata emergindo como atores globais.[17] Desde 2014, sob a liderança do primeiro-ministro Narendra Modi, campanhas como Make in India, Atmanirbhar Bharat [en] e Vocal for Local[18] enfatizaram a manufatura local, a redução da dependência estrangeira e a promoção de startups e PMEs indianas, revitalizando o discurso público sobre nacionalismo econômico e os valores do Swadeshi por meio de plataformas digitais e reformas políticas.[19][20]

Influência

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  • As raízes intelectuais do movimento Swadeshi remontam às críticas econômicas de Dadabhai Naoroji [en], especialmente sua obra Poverty of India (1876), onde introduziu a "Teoria da Drenagem", argumentando que o domínio colonial britânico resultava na extração sistemática de riquezas da Índia. Essa análise forneceu a base para o nacionalismo econômico que alimentou o sentimento Swadeshi. Naoroji expandiu esses argumentos em Poverty and Un-British Rule in India (1901). Sua eleição para a Câmara dos Comuns do Reino Unido (1892-1895) como membro do Partido Liberal por Finsbury Central [en] marcou um momento significativo na história política indiana, ao levar essas queixas econômicas diretamente aos legisladores britânicos.[21][22]
  • A promoção posterior de Swadeshi por Mahatma Gandhi, incentivando a autossuficiência e o boicote a produtos estrangeiros, aumentou as vendas de tecidos indianos para 62% em 1936 e 76% em 1945. Sua iniciativa com a charkha buscava tornar os habitantes locais autossuficientes na fiação, desafiando o controle econômico britânico.[23]
  • O movimento Swadeshi serve como pano de fundo para o romance Ghare Baire [en], publicado em 1916 por Rabindranath Tagore. Além de outros temas complexos, o romance explora os perigos do nacionalismo fervoroso. O filme de 1984, Ghare Baire [en], dirigido por Satyajit Ray, é baseado no romance.
  • No filme Gandhi (1982), de Richard Attenborough, os indianos fazem um juramento em uma fogueira de roupas inglesas para usar apenas khadi swadeshi após um discurso de Gandhi em Elphinstone Fort, Mumbai.
  • De acordo com um artigo de 1999, E. F. Schumacher (autor de Pequeno é bonito [en]) foi influenciado pelo conceito de Swadeshi de Gandhi.[24]
  • Em 7 de agosto de 2015, o primeiro-ministro Narendra Modi instituiu o primeiro Dia Nacional do Tecido Artesanal na Índia para promover produtos de tecidos artesanais e khadi. A data foi escolhida porque, em 7 de agosto de 1905, o movimento Swadeshi foi proclamado para evitar produtos estrangeiros e usar apenas produtos indianos.[25]
  • No filme de 2019, Manikarnika: The Queen of Jhansi [en], dirigido por Kangana Ranaut [en], sobre a rainha que lutou contra os ingleses em 1857, foram amplamente utilizados tecidos khadi de algodão, brocado e paithani para simbolizar o espírito swadeshi. Antes de se tornar rainha, a figura histórica aprendeu a produzir esses tecidos.[26]
  • Em julho de 2020, a plataforma de mídia social Tooter foi lançada, sendo uma mistura de Facebook e Twitter. A plataforma ganhou atenção por se autodenominar Swadeshi Andolan 2.0.[27]
  • Em 18 de agosto de 2020, o ministro de TI Ravi Shankar Prasad [en] anunciou o Desafio de Microprocessador Swadeshi, com premiação de 4,3 crores de rúpias, para enfrentar desafios após a proibição de investimentos chineses.[28]
  • Em 25 de julho de 2021, o primeiro-ministro Narendra Modi, no 79º episódio de seu programa de rádio mensal Mann Ki Baat, incentivou a compra de artesanato indiano e atribuiu o aumento nas vendas de khadi aos consumidores indianos. Ele sugeriu o uso da hashtag #myhandloommypride ao comprar e compartilhar online, lembrando que o Dia Nacional do Tecido Artesanal, em 7 de agosto, está ligado ao lançamento do movimento Swadeshi.[30]
  • Em 28 de julho de 2021, a GoCoop, uma plataforma online de Bangalore, primeira do gênero para artesãos e tecelões na Índia, realizou a exposição Go Swadeshi, exibindo tecidos artesanais de mais de 30 mil artesãos, incluindo 12 mil mulheres, com mais de 70 mil produtos, como sarees, vestuários, acessórios, móveis e tecidos. Em 2015, a GoCoop venceu o primeiro Prêmio Nacional da Índia para Marketing de Tecidos Artesanais (eCommerce).[31]

Ver também

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Referências

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  1. Bhole, Laxman Madhao (2000). Essays on Gandhian socio-economic thought (em inglês). Delhi: Shipra Publications. ISBN 81-7541-050-7 
  2. «Swadeshi Movement: Timeline and Important facts that you must know». India Today (em inglês). 7 de agosto de 2015. Consultado em 16 de setembro de 2025 
  3. Munsi, Sharanya (11 de fevereiro de 2019). «Jamnalal Bajaj, the Gandhian capitalist who was the Mahatma's 'Merchant Prince'». ThePrint (em inglês). Consultado em 16 de setembro de 2025 
  4. Ahmed, Hilal (14 de agosto de 2019). «No, Nehru didn't hoist India's first tricolour at Red Fort. And British flag wasn't lowered». ThePrint (em inglês). Consultado em 16 de setembro de 2025 
  5. McLane, John R. (1 de julho de 1965). «The Decision to Partition Bengal in 1905». The Indian Economic and Social History Review (em inglês). 2 (3): 221–237. ISSN 0019-4646. doi:10.1177/001946466400200302. Consultado em 15 de setembro de 2025 
  6. Judd, Denis (2004). The lion and the tiger: the rise and fall of the British Raj, 1600-1947 (em inglês). Oxford: Oxford university press. ISBN 0192803581 
  7. «Swadeshi». Metta Center (em inglês). Consultado em 16 de setembro de 2025. Arquivado do original em 25 de setembro de 2020 
  8. «Swadeshi Movement». Cultural India (em inglês). Consultado em 16 de setembro de 2025 
  9. Cashman, Richard I. (1975). The myth of the Lokamanya: Tilak and mass politics in Maharashtra (em inglês). Berkeley: University of California Press. pp. 70–73. ISBN 978-0-520-02407-6. Consultado em 16 de setembro de 2025 
  10. Anjan, Tara; Rattan, Saldi (2016). Satguru Ram Singh and the Kuka Movement (em inglês). New Delhi: Publications Division Ministry of Information & Broadcasting. ISBN 9788123022581 
  11. Fenech, Louis (2014). Historical Dictionary of Sikhism. Col: Historical Dictionaries of Religions, Philosophies, and Movements Series (em inglês). William H. McLeod 3a ed. Lanham, MD: Rowman & Littlefield Publishers. p. 261. ISBN 9781442236011 
  12. Kaur, Manmohan (1985). Women in India's freedom struggle (em inglês). New Delhi: Sterling Publishers. p. 76 
  13. Clarke, Peter B., ed. (2008). Encyclopedia of new religious movements (em inglês). London: Routledge. p. 425. ISBN 978-0415453837 
  14. Srikar (6 de março de 2020). «Make In India: Why India needs Swadeshi 2.0». Academics 4 Nation (em inglês). Consultado em 16 de setembro de 2025. Arquivado do original em 23 de setembro de 2020 
  15. «History of Khadi – A Symbol of Indian Freedom Struggle». Khadi Vastram (em inglês). 14 de maio de 2020. Consultado em 16 de setembro de 2025. Arquivado do original em 24 de setembro de 2021 
  16. Rampal (junho de 2023). «Nehru's Economic Policies in India». INTERNATIONAL JOURNAL OF NOVEL RESEARCH AND DEVELOPMENT (em inglês). 8 (5): i413–i417. ISSN 2456-4184. Consultado em 16 de setembro de 2025 
  17. Baru, Sanjaya (2016). 1991: how P.V. Narasimha Rao made history (em inglês). New Delhi: Aleph. ISBN 978-9384067687 
  18. «What is Vocal for Local? How is the government aiding local artisans?». narendramodi.in (em inglês). 15 de fevereiro de 2024. Consultado em 16 de setembro de 2025 
  19. Baru, Sanjaya (2022). 75 years of Indian economy: re-emerge, reinvest, re-engage. Col: Journey of a nation (em inglês). New Delhi: Rupa Publications India. ISBN 9789355203618 
  20. «Make-in-India, Vocal for Local new icons of Bapu's Swadeshi idea: Amit Shah». The Times of India (em inglês). 31 de janeiro de 2022. ISSN 0971-8257. Consultado em 16 de setembro de 2025 
  21. Naoroji, Dadabhai (2021). Poverty of India (em inglês). New Delhi: Wave Books. ISBN 978-9389801422 
  22. Naoroji, Dadabhai (2019). Poverty and Un-British Rule in India (em inglês). New Delhi: Arjun Publishing House. ISBN 978-9387436909 
  23. Pathak, Vikas (1 de setembro de 2025). «Gandhi's khadi to Modi's 'no matter the colour of investment': A new shade of Swadeshi». The Indian Express (em inglês). Consultado em 16 de setembro de 2025 
  24. Weber, Thomas (maio de 1999). «Gandhi, Deep Ecology, Peace Research And Buddhist Economics». Journal of Peace Research (em inglês). 36 (3): 349–361. ISSN 0022-3433. doi:10.1177/0022343399036003007. Consultado em 16 de setembro de 2025 
  25. Varghese, Shiny (7 de agosto de 2020). «Explained: Why is August 7 called National Handloom Day». The Indian Express (em inglês). Consultado em 16 de setembro de 2025 
  26. «Kangana Ranaut to promote Khadi fabric through Manikarnika». Cinestaan (em inglês). 22 de janeiro de 2019. Consultado em 16 de setembro de 2025. Arquivado do original em 1 de fevereiro de 2022 
  27. «Tooter – New Kid on the Block – India's 'Swadeshi Andolan 2.0'?». The Quint (em inglês). 25 de novembro de 2020. Consultado em 16 de setembro de 2025 
  28. «Startups Called For INR 4.3 Cr 'Swadeshi Microprocessor Challenge'». Inc42 News (em inglês). 19 de agosto de 2020. Consultado em 16 de setembro de 2025 
  29. «'Swadeshi tech' to counter drone threat: Amit Shah». The Hans India (em inglês). 17 de julho de 2021. Consultado em 16 de setembro de 2025 
  30. «Country proud of its athletes, says PM Modi on Mann Ki Baat». The Hindu (em inglês). 25 de julho de 2021. ISSN 0971-751X. Consultado em 16 de setembro de 2025 
  31. «Go Swadeshi by GoCoop from 28th July to 1st August 2021 at Jayanagar». India Education Diary (em inglês). 26 de julho de 2021. Consultado em 16 de setembro de 2025. Cópia arquivada em 23 de janeiro de 2022 

Ligações externas

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