Muana Puó

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Muana Puó
Autor(es) Pepetela
Idioma português
País Portugal Portugal
Editora Edições 70
Lançamento 1969
Páginas 171

Muana Puó[1]. é um romance do escritor angolano Pepetela escrito em 1969 e publicado em 1978[2]. Este romance conta o combate pela liberdade travado pelos morcegos num mundo em que são dominadas pelos corvos, e também a história de amor entre dois morcegos, no meio desta guerra. Essas histórias fazem-se por intermédio da simbologia duma máscara da etnia angolana Tchokwé[3]., que o autor frequentou durante a sua presença na região do Moxico (região da Frente Leste , onde o partido do MPLA tem poder, sendo Pepetela um dos seu militantes). O autor diz que se apaixonou por uma fotografia desta máscara e que se fechou no seu escritório para escrever o livro[4].

Resumo[editar | editar código-fonte]

Num país imaginário, o mundo é divido em duas categorias: os corvos, mais poderosos na sociedade, e os morcegos que devem produzir mel para alimentá-los. Como sinal da sua submissão, os morcegos têm que se alimentar dos excrementos dos corvos. Em determinada altura, os morcegos, fartos da sua condição, vão-se rebelar e travar uma guerra feroz tentando abolir este sistema e recuperar a montanha, lugar santo protegido pelos corvos. Depois dessa vitória, uma nova sociedade desta vez formada por homens, é criada. Nesta sociedade todos são iguais e vivem em harmonia. Enquanto isso, começa uma história de amor entre dois morcegos que será complicada, com mutos altos e baixos e incompreensões que levarão ao seu fracasso; por exemplo: eles vão esperar bastante tempo antes de se atreverem a falar um para o outro, procurarão o seu lugar na sociedade totalmente mudada na qual vivem, questionando-se muito sobre o mundo. Essa história de amor seria a metáfora da sociedade angolana que não conseguiu unificar-se.

Temáticas[editar | editar código-fonte]

Seguindo essa simbologia da máscara[5]., onde os dois olhos são distintos e separados pelo nariz, podemos encontrar várias interpretações às diferentes situações e referências do livro. Por exemplo, embora seja secundária e um instrumento para fluidificar a narrativa e torná-la menos dura, pode-se relacionar a história de amor entre os dois morcegos à máscara: os dois amantes seriam os dois olhos, separados pelo nariz , ou seja pelas dificuldades como as diferenças entre eles, os seus defeitos respetivos por exemplo. Assim a batalha para que essa história de amor seja bem-sucedida e que os dois “olhos” se unam seria a luta para superar os problemas que o “nariz” representa.

Podemos também aplicar essa simbologia da máscara à ficção do romance: os dois olhos da máscara representariam as duas tribos do livro, corvos e morcegos, e seriam separados pelo nariz, que representaria a montanha que os corvos guardam cruelmente.

Enfim, essa simbologia da máscara pode também aplicar-se à sociedade angolana, ao seu passado colonial (a guerra colonial tendo durado de 1961 até 1974) e à atualidade da altura durante a Guerra civil (que se seguirá a guerra colonial e só acabou em 2002[6]). A metáfora dos olhos separados pelo nariz pode também simbolizar:

  • as diferentes etnias de Angola , sendo que a diversidade demográfica em Angola é forte pois 10 etnias vivem no território. Elas seriam separadas pela diferença cultural, os preconceitos ou as línguas (em Angola existem 6 idiomas reconhecidos além do português e dos numerosos dialetos).
  • a oposição entre os colonizadores portugueses e os colonizados angolanos (se consideramos os séculos de dominação colonial portuguesa em Angola) , separados pelo “equilíbrio de poder” entre opressores e oprimidos.
  • a luta entre os diferentes partidos políticos após a independência em 1975, nomeadamente o MPLA e a UNITA, isso no contexto da guerra civil que durou até 2002.

Notamos também que a simbologia da máscara e o fato de haver poucos elementos distintivos que poderiam identificar Angola, a obra de Pepetela torna-se atemporal e universal.

Engajamento político e militantismo de Pepetela[editar | editar código-fonte]

A última simbologia da luta entre o MPLA e a UNITA torna-se mais provável considerando as posições políticas de Pepetela. De facto, tendo estudado em Lisboa, Pepetela familiarizou-se com as ideias comunistas e tornou-se rapidamente um militante ativo do MPLA, o que aliás, o levará a fugir de Portugal (ainda governado por Salazar) e exilar-se em Paris e depois Argel , onde escreveu Muana Puó. Pepetela também trabalhou no governo de Agostinho Neto e depois de José Eduardo dos Santos, sendo vice-ministro da Educação. As suas ideias comunistas até podem notar-se nas suas obras, particularmente em Muana Puó, que podemos considerar uma alegoria da luta e da vitória popular. Várias passagens do livro como “ Que maravilhoso será o mundo quando os que constroem comandarem!”[7] ou “Os humanos trabalhavam e repartiam igualmente quanto existia.”[8] demonstram o engajamento político de Pepetela.

Referências

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • CAETANO, Marcelo José. O enigma de Muana Puó. Scripta. Belo Horizonte, V. 8, n. 15, p. 267-282, 2º sem. 2004.
  • DRNDARSKA Dea et MALANDA Ange Séverin, Pepetela et L’écriture du mythe et de l’histoire, L’Harmattan, 2000, 180 p., ISBN 2-7384-9142-1
  • SALGUEIRO Wilberth, Uma (Re)Leitura do romance Muana Puó (1978), de Pepetela, a partir da noção de testemunho, IN “Pilhas na lanterna da crítica: Muana Puó e a alegoria desafricanizada” em Anais – 1º e 2º Simpósios de Literatura Comparada 1986-1987 – vol. 2. Belo Horizonte: Imprensa da Universidade Federal de Minas Gerais, 1987, p. 851-858

Ver também[editar | editar código-fonte]