Mulato

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Disambig grey.svg Nota: "Mulata" redireciona para este artigo. Para a canção dos Irmãos Valença, veja Mulata (canção). Para outros significados de "mulato", veja Mulato (desambiguação).
Mulato, por Albert Eckhout.

Mulato é um termo que designa a pessoa que é descendente de africanos e europeus. Inicialmente o termo era também aplicado para designar mestiços.[1] Mulatos podem apresentar os mais variados perfis fenotípicos e culturais.

Etimologia[editar | editar código-fonte]

A maioria dos estudiosos confirma que o termo 'mulato' vem da palavra mula em espanhol e português, que por sua vez, baseia-se no termo em latim para o mesmo animal, mulus. A mula é o progênito do cruzamento do cavalo com jumenta ou do jumento com égua. Como significa "híbrido" (resultado de mistura de raças), passou a aplicar-se ao filho de homem branco e mulher negra ou vice-versa. A palavra foi usada pela primeira vez há cerca de 400 anos, durante o período escravista. Na comparação implícita, pode ter entrado o interesse dos escravocratas em justificar a escravidão e todas as perversidades contra os negros escravizados, passando a idéia de que eram próximos, mas não pertenciam à mesma espécie dos brancos.

A maioria dos etimólogos e lexicógrafos descarta a hipótese de que a palavra "mulato" seja proveniente do árabe mowallad ("filho de árabe e estrangeiro") ou que possa estar relacionado com walada ("dar à luz"). Eles ressaltam que "mulato" é certamente um termo ligado ao comércio atlântico de negros escravizados.[2] [3] [4] [5] [6] [7] [8] [9] [10] [11] [12] [13] [14] [15] [16]

O uso da palavra mula para designar uma pessoa mestiça aparece nas Histórias, de Heródoto. O oráculo de Delfos havia profetizado a Creso, rei da Lídia, que o seu reino duraria até que uma "mula" fosse rei dos medos;[17] de fato, quando Ciro II, que tinha pai persa e mãe meda, se tornou rei da Média e da Pérsia, o reino de Creso caiu.[18]

Mulato no Brasil[editar | editar código-fonte]

No início do século XIX, teorias raciais tiveram ampla aceitação nos meios científicos do Brasil, e a questão da mestiçagem era objeto de muitas discussões. Destaca-se a influência das ideias do Conde de Gobineau, segundo o qual, uma nação que mantém hábitos de mestiçagem tende a ser extinta em menos de 200 anos. Outros teóricos acreditavam que a mestiçagem tinha aspectos positivos, por permitir o gradual "embranquecimento" da população. Em ambos os casos há uma visão preconceituosa, sem qualquer fundamento na realidade mas baseada na crença em uma superioridade dos brancos.

Na década de 1930, o projeto varguista incluía a construção de uma ideologia da identidade nacional, incorporando-se a mestiçagem como um dado constituinte dessa identidade. A publicação de Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre (1933), vem reforçar a ideia do mulato como elemento de conciliação entre senhores brancos e escravos negros. Freyre aponta a mestiçagem como elemento positivo e fundamental para a formação da identidade brasileira, lançando assim as bases para a ideologia da "democracia racial". Já nos anos 1940, associa-se a essa construção a política da boa vizinhança com os Estados Unidos, o que resulta na produção de estereótipos, tais como "baiana" brejeira, devidamente reinterpretada ao gosto de Hollywood por Carmen Miranda, e o personagem Zé Carioca, criado pelos estúdios Disney como representação do homem brasileiro "típico" - o alegre e despreocupado malandro sambista. Outro produto cultural notável dessa fase é o samba-exaltação, que magnifica essa imagem estereotipada, folclorizada (e exportável) do país sem conflitos, multicolorido e miscigenado - imagem sintetizada na figura mítica da mulata. O elogio da mestiçagem incorpora-se assim ao imaginário popular brasileiro, enquanto seu corolário, a negação do racismo, converte-se em traço autoidentitário.[19]

África lusófona[editar | editar código-fonte]

Em Angola, os mulatos são uns 2% da população do país.[20] Em Moçambique, não chegam a 1%.[21] Em Cabo Verde, os mulatos, e seus congêneres, são mais numerosos.[22] Geralmente, a miscigenação é admitida socialmente e reconhecida como tal.

Os “mulatos” da África do Sul e Namíbia[editar | editar código-fonte]

A história recente da África do Sul começou com a fundação da cidade do Cabo por colonos de origem holandesa e francesa, que viram rapidamente que não era fácil converter os habitantes locais, principalmente khoisan, em trabalhadores agrícolas ou, em geral, negros escravizados. Por isso, tiveram que importar malaios das Índias Orientais Neerlandesas, a Indonésia e a Malásia, para além de negros de outras regiões da África Austral. Muitos desses malaios conservaram a sua cultura e religião (o islão) mas, com o tempo, apareceram pessoas de origem mestiça, que as autoridades trataram de separar num grupo a que chamaram “coloured” (ou “de cor”, para dizer que tinham características diferentes dos brancos e dos negros, “inferiores” aos primeiros, mas “superiores” aos segundos). Com a chegada (e dominação) dos britânicos e a importação de novos “assalariados” da Índia, mais misturas se produziram e, com o apartheid, a estes “coloured” foram concedidos alguns direitos políticos [23] .

Com a democratização na África do Sul, em 1995, o estado deixou de classificar as pessoas em termos raciais (durante o apartheid, as pessoas tinham direitos cívicos de acordo com a “raça” a que pertenciam) mas, os censos e estudos demográficos continuaram a manter as antigas denominações, sendo que são os próprios inquiridos que se autoclassificam. Por isso, neste momento, os cerca de quatro milhões de “coloured” da África do Sul (e os da Namíbia, que se consideram um grupo ou etnia diferente dos vizinhos, ver nota anterior) correspondem à diversidade genética que foi imposta pela história, incluindo uma minoria de “malaios”, possivelmente sem “mistura” que ainda subsistem. Por isso, dizer que na África do Sul existem quatro milhões de “mulatos” é uma simplificação duma situação étnica bastante complexa [24] .

Notas e referências

  1. Diccionario de la lengua española: mulato, ta
  2. BUENO, Márcio, A Origem Curiosa das Palavras e/ou dos Significados. Rio de Janeiro: José Olympio Editora. 2003, p.158
  3. HOUAISS, Antônio, Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: 2004, p.1975
  4. VICTORIA, Luiz A. P., Dicionário da Origem e da Evolução das Palavras - Apêndice Citações Históricas, 3ª edição. Rio de Janeiro: Editora Científica. 1963, p.126
  5. VICTORIA, Luiz A. P., Dicionário da Origem e da Evolução das Palavras - Apêndice Citações Históricas, 2ª edição. Rio de Janeiro: Editora Científica. 1960, p.122
  6. LITTLE, William; FOWLER, Henry Watson; COULSON, Jessie; ONIONS, Charles Talbut, The Oxford Universal Dictionary Illustrated - 3ª edição. Londres: 1959, p.1294
  7. NASCENTES, Antenor, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: 1955, p.346
  8. WEEKLEY, Ernest, A Concise Etymological Dictionary of Modern English. Londres: 1952, p.270
  9. BLOCH, Oscar, WARTBURG, W. Von, Dictionaire Étymologique de la Langue Française, 2ª edição. Paris: 1950, p.402
  10. SHIPLEY, Joseph, Dictionary of Word Origins. Nova York: Editora Philosophical Library. 1945, p.236
  11. MOTTA, Othoniel, O Meu Idioma, 2ª edição. São Paulo: Weiszflog Editora. 1917, p.64
  12. VIANA, A. R. Gonçalves, Apostilas aos Dicionários Portugueses II. Lisboa: 1906, p.170
  13. SILVA JR., Manuel Pacheco da; ANDRADE, Lameira de, Grammatica da Lingua Portugueza. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves. 1887, p.476
  14. DOZY, Reinhart Pieter Anne; ENGELMANN, Willem Herman, Glossaire des mots Espagnols et Portugais deriva de l'arabe, 2ª edição. 1869, p.384
  15. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda, Dicionário Aurélio - Século XXI. Editora Nova Fronteira, p.1377
  16. MULATTO AND MALIGNITY (em inglês)
  17. Heródoto, Histórias, Livro I, Clio, 53 [pt] [el] [el/en] [ael/fr] [en] [en] [en] [es]
  18. Heródoto, Histórias, Livro I, Clio, 91 [pt] [el] [el/en] [ael/fr] [en] [en] [en] [es]
  19. Somos ou não somos Racistas? Por Sílvia Capanema P. de Almeida. História Viva, edição 37, novembro de 2006.
  20. Prof. Dr. Silvio de Almeida Carvalho Filho. As relações étnicas em Angola: as minorias branca e mestiça (1961-1992) (em português)
  21. PASSADOR, Luiz Henrique; THOMAZ, Omar Ribeiro. Raça, sexualidade e doença em Moçambique. "Rev. Estud. Fem.", Florianópolis, v. 14, n. 1, 2006. Disponível em: Scielo. Acesso em: 11 de outubro de 2008. DOI: 10.1590/S0104-026X2006000100014.
  22. Os Estudos Africanos no Brasil (em português)
  23. MixedFolks.com - Orville Boyd Jenkins (August 1996) The Coloureds of Southern Africa
  24. South African Census 2001 (em inglês)

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]