Nacionalismo chinês
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Nacionalismo chinês (chinês simplificado: 中国民族主义; chinês tradicional: 中國民族主義; pinyin: Zhōngguó mínzúzhǔyì) é a forma de nacionalismo na China que afirma que o povo chinês é uma só nação, e promove a unidade cultural e nacional dos chineses.
Base ideológica
[editar | editar código]O nacionalismo chinês foi desenvolvido a partir de diversas fontes ideológicas incluindo o pensamento tradicional chinês, progressismo americano, marxismo[1] e o pensamento etnológico russo. A ideologia também se apresenta em muitas manifestações diferentes que às vezes são conflitantes, incluindo o ultra-imperialismo. Essas manifestações também incluem os Três Princípios do Povo, o Partido Comunista da China,[2][3] os pontos de vista antigovernamentais dos estudantes no Protesto na Praça da Paz Celestial em 1989, o fascismo da Sociedade dos Camisas Azuis e o colaboracionismo japonês sob liderança de Wang Jingwei.
Embora os nacionalistas chineses concordem sobre a conveniência de ter um Estado chinês centralizado, quase todas as outras questões discutidas tem sido objeto de debates intensos e acirrados. Entre as questões que os nacionalistas chineses discordam são as políticas que levariam a China a se tornar uma potência, qual seria a estruturação do Estado e seu objetivo, qual o relacionamento que a China deveria ter com as potências estrangeiras e como deveriam ser as relações entre o grupo étnico majoritário han, os grupos étnicos minoritários e os chineses estrangeiros.
A grande variação de como o nacionalismo chinês é expressado tem sido analisada pelo cientista politico Lucian Pye, argumentando que isso revela a fragilidade da identidade chinesa.[4] Contudo, outros analistas têm argumentado que a capacidade do nacionalismo chinês se expressar em diversas formas é um traço positivo que permite a ideologia transforma-se, sendo resposta a uma eventual crise interna ou eventos externos.
Embora as variações entre as concepções do nacionalismo chinês sejam grandes, grupos nacionalistas chineses mantêm algumas semelhanças, sendo a mais notável o ultra-imperialismo. Ideologias nacionalistas chinesas são todas altamente ligadas a Sun Yat-sen, e reivindicam ser os herdeiros ideológicos dos Três Princípios do Povo. Além disso, as ideologias nacionalistas chinesas tendem a considerar tanto a democracia quanto a ciência como pontos positivos, embora muitas vezes tenham noções radicalmente diferentes sobre o significado de democracia.
Consciência nacional
[editar | editar código]Existiu versões de um Estado chinês consciente de si por cerca de 4.000 anos, onde a concepção chinesa do mundo era, basicamente, a divisão do mundo civilizado e do mundo bárbaro, sendo que não se tinha consciência de que os interesses chineses tinham de ser assegurados pelo estado chinês. Autores como Lucian Pye têm argumentado que o moderno Estado-nação é fundamentalmente diferente de um império tradicional, entretanto, outros dizem que a atual dinâmica da República Popular da China - concentração de poder em uma autoridade central - compartilha semelhanças com os impérios de Ming e Qing.[4]
Houve apenas alguns poucos períodos da história da China em que existiu confronto direto com nações estrangeiras (sendo mais notáveis os mongóis, manchus e japoneses), enquanto a maioria dos conflitos foram em guerras civis que levaram a mudanças dinásticas. No entanto, as tentativas de "chinizar" povos estrangeiros ou "bárbaros" (como os vietnamitas e coreanos), que queriam manter uma identidade cultural separada, vinham acontecendo a milênios.
Tipos de nacionalismo
[editar | editar código]Seja espontâneo ou apoiado pelo Estado, os discursos do nacionalismo chinês frequentemente recorrem à história antiga, ao Século da Humilhação, a temas de sobrevivência nacional ou a temas de revitalização nacional.[5]:63–64
Nacionalismo populista
[editar | editar código]O nacionalismo populista ou nacionalismo popular (em chinês: 民粹民族主義 ou simplesmente 民族主義)[6][7] é um desenvolvimento relativamente tardio do nacionalismo chinês, surgido na década de 1990. Ele começou a assumir uma forma reconhecível após 1996, como resultado conjunto da evolução do pensamento nacionalista do início dos anos 1990 e dos debates em curso sobre modernidade, pós-modernidade, pós-colonialismo e suas implicações políticas – debates que vêm envolvendo muitos intelectuais chineses desde o início de 1995.[8]
Nacionalismo de Estado
[editar | editar código]O nacionalismo de Estado,[9] nacionalismo conduzido pelo Estado[10] ou simplesmente “estatismo” é uma forma de nacionalismo imposta de cima para baixo, em contraste com o nacionalismo popular. O nacionalismo de Estado foi fortemente defendido pelas elites políticas no poder tanto no regime do Kuomintang (KMT) quanto no do Partido Comunista Chinês (PCCh).[10] Os defensores do nacionalismo de Estado (tanto no antigo KMT quanto no atual PCCh) promovem o nacionalismo chinês e equiparam os conceitos de “nação”/“Estado” (國家) e “partido” (黨) como forma de sustentar um sistema de partido único. Segundo a maioria dos observadores, o nacionalismo de Estado não tornou o comportamento internacional da República Popular da China particularmente agressivo ou inflexível, mas sim cauteloso e oportunista.[11] A acadêmica chinesa Frances Yaping Wang afirma:
“Se compararmos o nacionalismo a um dragão de estimação sob o controle das autoridades estatais na China, poderíamos dizer que o Estado o mantém vivo e ocasionalmente o provoca, desde que ele não cuspa fogo. Entretanto, quando isso acontece e o dragão ocasionalmente ultrapassa seus limites, o Estado, como seu mestre, o controla novamente para garantir que as chamas não o prejudiquem.”[12]:247–248
O acadêmico sino-estadunidense Suisheng Zhao argumenta que a ascensão do “nacionalismo pragmático conduzido pelo Estado” na China durante a década de 1990 foi uma resposta instrumental à dissolução da União Soviética.[13]:219–220
Uma característica do nacionalismo de Estado chinês na República Popular da China é seu caráter centrado no PCCh. Nessa concepção, o partido é visto como a personificação da vontade da nação, enquanto a própria nação é considerada um meio, e não um fim em si mesma. Consequentemente, seu principal objetivo é garantir a estabilidade do Estado-partido, ainda que também busque preservar a identidade nacional, a unidade nacional e a autonomia nacional.[14]
Um grupo de juristas chineses identificados como “estatistas” exerce influência sobre as políticas autoritárias do governo chinês. Inspirados pelo jurista alemão extremista e associado ao regime nazi Carl Schmitt, esses pensadores atribuem primazia à autoridade do Estado. Os estatistas também estão relacionados à política do governo chinês de reduzir a autonomia de Hong Kong.[15]
Nacionalistas de Hong Kong e de Taiwan que criticam o nacionalismo chinês são particularmente críticos ao nacionalismo de Estado chinês.[16][17]
Nacionalismo étnico
[editar | editar código]O nacionalismo étnico (em chinês: 族裔民族主義 ou 族群主義) divide-se, na China, em duas formas: o nacionalismo han (ou chauvinismo han), centrado na etnia majoritária, e o nacionalismo étnico local, baseado nas minorias étnicas. O governo da República Popular da China e o Partido Comunista Chinês (PCCh) se opõem ao nacionalismo étnico exclusivo e promovem um nacionalismo multiétnico (mais próximo do nacionalismo cívico), sob o conceito abrangente de Zhonghua minzu (中华民族). Ao mesmo tempo, o PCCh apresenta-se como o guardião de uma visão conservadora e centrada nos han da chamada “notável cultura tradicional chinesa”.[18]
Dentro do nacionalismo chinês, surgiu nos últimos anos um subconjunto menor de etnonacionalismo centrado nos han,[19] conhecido como movimento Huang Han (chinês: 皇漢), cujo significado literal é “Han Imperial”. De maneira semelhante ao nacionalismo yamato no Japão, que considera o povo yamato como o núcleo da civilização japonesa, o movimento Huang Han considera os han como o núcleo da civilização chinesa. Esse movimento está intimamente ligado ao movimento Hanfu, sendo frequentemente expresso publicamente por meio dele. O movimento Hanfu busca reviver as vestimentas tradicionais chinesas anteriores à Dinastia Qing,[20] já que o vestuário chinês sofreu forte influência manchu durante esse período, moldando inclusive a percepção estrangeira sobre as roupas tradicionais chinesas. Ainda assim, o movimento Hanfu predominante é utilizado como forma de expressão cultural e de nacionalismo em sentido amplo, enquanto os nacionalistas Huang Han o utilizam especificamente como meio de expressar visualmente sua identidade política por meio da forma de vestir.[19]
A ideologia nacionalista Huang Han é construída em torno da chamada “Perspectiva Histórica de 1644” (em chinês: 1644史觀), segundo a qual a civilização chinesa foi interrompida em 1644, quando o Estado manchu da Dinastia Qing conquistou a Dinastia Ming, governada pelos han. Para os nacionalistas Huang Han, a Dinastia Qing é vista como uma dinastia estrangeira conquistadora e desprovida de legitimidade.[21] Embora os nacionalistas Huang Han estejam, em linhas gerais, alinhados às posições do governo chinês e do nacionalismo chinês dominante, eles também entram periodicamente em conflito tanto com nacionalistas convencionais quanto com o próprio governo, que reprime algumas de suas atividades. O ator Wu Jing, protagonista do filme Lobo Guerreiro (2015), frequentemente visto como um símbolo do nacionalismo chinês e cuja obra deu origem ao termo “diplomacia do lobo guerreiro” (expressão usada para descrever a retórica diplomática confrontadora da China), tem sido repetidamente alvo de ataques na internet por nacionalistas han devido à sua ascendência manchu. A mídia estatal chinesa também se posicionou contra a “Perspectiva Histórica de 1644”, alegando que ela prejudica a harmonia étnica entre os diferentes grupos étnicos da China.[22]
O governo chinês também tem adotado políticas de caráter etnonacionalista voltadas para conquistar o apoio e fortalecer os vínculos com as comunidades de chineses ultramarinos.[23]
Norte e Sul
[editar | editar código]Em 1995, o acadêmico estadunidense Edward Friedman sustentou que existe um nacionalismo chinês setentrional, de caráter governamental, político e burocrático, que se opõe a um nacionalismo chinês meridional, de natureza comercial.[24]
Ultranacionalismo
[editar | editar código]O ultranacionalismo (em chinês: 极端民族主义; 極端民族主義) surgiu a partir do Pensamento de Chiang Kai-shek e da Sociedade das Camisas Azuis,[25] pró-Chiang Kai-shek, durante o governo nacionalista, que apresentava tendências e influências fascistas. Liderada pelo Kuomintang de Chiang Kai-shek, a China manteve relações diplomáticas amistosas com a Alemanha Nazi até a Segunda Guerra Sino-Japonesa, quando a Alemanha passou a favorecer diplomaticamente o Japão.[26]
Desde que Xi Jinping chegou ao poder, o Partido Comunista Chinês tem sido acusado de fomentar um nacionalismo fascístico.[27][28]
Ver também
[editar | editar código]Referências
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