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Naegleria fowleri

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Diferentes estágios da Naegleria fowleri
Diferentes estágios da Naegleria fowleri
Classificação científica
Domínio: Eukaryota
Reino: Protozoa
Filo: Percolozoa
Classe: Heterolobosea
Ordem: Schizopyrenida
Família: Vahlkampfiidae
Género: Naegleria
Espécie: N. fowleri
Nome binomial
Naegleria fowleri
(Carter, 1970)

Naegleria fowleri, também conhecida como ameba comedora de cérebros,[1] é uma espécie do gênero Naegleria. Pertence ao filo Percolozoa e é classificada como um escavado ameboflagelado,[2] um organismo capaz de se comportar como uma ameba e um flagelado. Este microrganismo de vida livre alimenta-se principalmente de bactérias, mas pode se tornar patogênico em humanos, causando uma infecção cerebral extremamente rara, repentina, grave e quase sempre fatal, conhecida como meningoencefalite amebiana primária (MAP), também conhecida como naegleríase.[3]

É normalmente encontrado em corpos de água doce quente, como lagos,[4] rios, fontes termais,[5] descarga de água quente de usinas industriais ou de energia,[6] água de poço geotérmico,[7] e piscinas mal conservadas ou minimamente cloradas com níveis residuais de cloro abaixo de 0,5 g/m3,[8][9][10] aquecedores de água,[11] solo e canos conectados à água da torneira.[12] Pode existir em um estágio ameboide ou flagelado temporário.[13]

Etimologia

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O organismo recebeu o nome de Malcolm Fowler, um patologista australiano do Hospital Infantil de Adelaide, que foi o primeiro autor da série original de relatórios de casos (British Medical Journal, a partir de 1965) de MAP.[14][15]

A Naegleria fowleri está presente no mundo todo, podendo apresentar-se em três formas evolutivas distintas: Cisto, considerada forma de resistência, Flagelada, forma em que se encontra na água, em vida livre, e forma trofozoíta, encontrada em casos de infecção no homem. Seus locais de proliferação mais comuns são lagos, rios e piscinas sem manutenção apropriada e pobremente clorificadas, além do solo. É interessante notar que a Naegleria é extremamente suscetível às condições do meio, como o pH e a concentração de hipoclorito, elemento utilizado no tratamento da piscina. É um protozoário considerado termofílico e termotolerante, pois, além de ser resistente à temperaturas elevadas, tem certo tropismo por águas quentes e paradas.[16] Estudos de universidades americanas e brasileiras, como do doutor De Jonckheere, encontraram cistos da ameba em diversos locais inesperados, como poeira hospitalar, filtros de aparelhos de ar condicionado e garrafas de água mineral.[17]

Infecção

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A infecção por Naegleria era bastante rara, mas ultimamente alguns casos vem sendo detectados. Ocorre em lagos e rios, geralmente em água doce, tendo preferência por águas termais de temperatura elevada (35ºC - 46ºC). Existem outros tipos de Naegleria, como a N. australiensis e a N. lavaniensis, porém apenas a N. fowleri causa doença em humanos, segundo estudos na área. A ameba é infectante somente na forma trofozoíta. A MAP ocorre principalmente em crianças saudáveis, adultos jovens e não-imunocomprometidos. Os casos reportados em todo o mundo mostram uma mortalidade de 97%.

Um estudo conduzido por Barnett traz dois exemplos de casos. A paciente nº 1 chegou ao hospital com fortes dores de cabeça, vômitos constantes, o médico fez o procedimento padrão, mas não encontrou um agente etiológico grave, dando alta para a menina (9 anos). Dois dias depois ela retorna ao hospital, com convulsões agudas, febre (39,9 ºC), rigidez na nuca, as medições respiratórias e cardiovasculares apresentavam alterações. Os índices glicêmicos estavam elevados (203 mg/dl). Após a realização de uma Tomografia computadorizada, notou-se um edema cerebral. Foi identificada uma migração de linfócitos para a região cerebral e meníngea, caracterizando infecção por algum microrganismo. A patologia clínica não conseguiu identificar cistos, nódulos ou necrose na área afetada. Posterior autópsia observou estado avançado de meningite com hemorragia e necrose dos bulbos olfatórios e tronco cerebral.

A paciente nº 2 apresentava de modo geral os mesmos sintomas de sua amiga, porém com algumas ressalvas, como: contratibilidade ventricular esquerda diminuída e atividade cerebral drasticamente afetada. A paciente entrou em óbito 3 dias após o aparecimento dos sintomas.

A contaminação do microrganismo através da cavidade nasal ocorre durante a inalação ou aspiração de pó contaminado, aerossóis ou, mais frequentemente, a água. O organismo penetra a mucosa e migra através dos nervos olfativos até alcançar a membrana aracnóide, onde se dissemina pelo SNC, levando ao óbito.[18]

Aparecimento dos sintomas de infecção começam cerca de cinco dias (o intervalo vai de um a sete dias) após a exposição. Os primeiros sintomas incluem, mas não se limitam a alterações de paladar e cheiro, dor de cabeça, febre, náuseas, vómitos e torcicolo. Sintomas secundários incluem confusão, alucinações, falta de atenção, ataxia e convulsões. Após o início dos sintomas, a doença progride rapidamente ao longo de três a sete dias, com a morte ocorrendo de 7 a 14 dias após a exposição.[19]

Tratamento

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Por tratar-se de uma doença extremamente rara, existem poucos relatos de casos e, sobretudo, de sucesso no tratamento. O relato de caso realizado por uma equipe da universidade Chinesa de Hong Kong, reporta o caso de contaminação de um motorista de caminhão pelo trofozoíta Naegleria fowleri, que devido a um tratamento Anfotericina B, Rifampicina e Cloranfenicol obteve sucesso no tratamento, o estudo é o primeiro existente na área, datado de 1992.

O motorista de caminhão tinha o hábito de ir em cidades vizinhas para levar carga e durante o trajeto, tinha o hábito de se banhar em lagos de águas termais presentes nas regiões vizinhas de Hong Kong, porém estes lugares são muito propícios de possuir Naegleria fowleri no ambiente, uma vez que o trofozoíta é termofílico e de vida livre. O paciente entrou para admissão no hospital sem apresentar muitos sintomas, só apresentava dor de cabeça matinal e turvação na visão, outros sintomas típicos de infecção por Naegleria Fowleri como febre, tontura, desorientação e rigidez do pescoço não foram encontrados.

O diagnóstico neurológico realizado via tomografia computadorizada mostrou lesão na região parieto-occipital direita, com intenso edema circundante e efeito de massa (compressão das estruturas cefalorraquidianas gerada pelo aumento de pressão intracraniana). Também foi realizada uma Craniotomia seguida de biópsia, o que após o exame microscópico mostrou indícios de ingestão de eritrócitos por amebas. Um exame de imunodeficiência foi feito para Entamoeba histolytica, apresentando resultado negativo.

Três dias depois, ele desenvolveu convulsões generalizadas e sinais de aumento da pressão intracraniana. Foi repetida a tomografia no cérebro, que mostrou edema na região occipital-direita do lóbulo. Uma lobectomia occipital descompressiva, a inserção de um cateter ventricular e remoção da aba de osso foram realizadas a sua condição deteriorou-se com coma, febre e progressiva e elevação da pressão intracraniana de até 35 mmHg.

Um exame do líquido cefalorraquidiano mostrou uma concentração de proteína de 4,3 g e níveis normais de glicose, a coloração de Gram mostrou um grande número de leucócitos, mas não bactérias. Achados de Mycobacterium e fungos também foram negativos. Doze dias após a primeira operação, mostrou um abscesso na região frontal direita, esta foi aspirada através de um orifício e o pus drenado. A análise do material mostrou amebas vivas e o exame morfológico destes organismos confirmou a presença de Naegleria fowleri.

O tratamento foi a base de Anfotericina B 60mg/dia e Rifampicina 450mg/dia e Cloranfenicol intravenoso foi utilizado para evitar contaminação bacteriana. Passadas 4 semanas após a ministração das drogas, o quadro do paciente começou a mostrar sinais de melhora, recuperou a consciência e não apresentou mais febre. Outra tomografia 9 semanas após a 1ª cirurgia mostrou que a lesão cerebral havia sido resolvida e as únicas sequelas foram uma hemiplegia esquerda, paralisia do olhar conjugado, negligência unilateral e um déficit de memória.

A maioria dos tratamentos adotam, então, este tipo de protocolo, por este ter sido um caso de sucesso na clínica da MAP.[20]

Referências

  1. «Ameba "comedora de cérebros": o que é, quais são os sintomas, riscos e como prevenir». CNN Brasil. 11 de julho de 2022. Consultado em 29 de setembro de 2025 
  2. Schuster, Frederick L.; Visvesvara, Govinda S. (2004). «Free-living amoebae as opportunistic and non-opportunistic pathogens of humans and animals». International Journal for Parasitology. 34 (9): 1001–1027. PMID 15313128. doi:10.1016/j.ijpara.2004.06.004 
  3. «Texas residents warned of tap water tainted with brain-eating microbe». The Guardian. Associated Press. 26 de setembro de 2020. Consultado em 27 de setembro de 2020. Cópia arquivada em 27 de setembro de 2020 
  4. Wellings, F. M.; Amuso, P. T.; Chang, S. L.; Lewis, A. L. (1977). «Isolation and identification of pathogenic Naegleria from Florida lakes.». Appl Environ Microbiol. 34 (6): 661–7. Bibcode:1977ApEnM..34..661W. PMC 242727Acessível livremente. PMID 596870. doi:10.1128/AEM.34.6.661-667.1977 
  5. Sheehan, Kathy B.; Fagg, Jennifer A.; Ferris, Michael J.; Henson, Joan M. (2003). «PCR Detection and Analysis of the Free-Living Amoeba Naegleria in Hot Springs in Yellowstone and Grand Teton National Parks». Applied and Environmental Microbiology. 69 (10): 5914–5918. Bibcode:2003ApEnM..69.5914S. PMC 201221Acessível livremente. PMID 14532044. doi:10.1128/AEM.69.10.5914-5918.2003Acessível livremente 
  6. Sykora, J. L.; Keleti, G.; Martinez, A. J. (1983). «Occurrence and pathogenicity of Naegleria fowleri in artificially heated waters.». Appl Environ Microbiol. 45 (3): 974–9. Bibcode:1983ApEnM..45..974S. PMC 242399Acessível livremente. PMID 6847189. doi:10.1128/AEM.45.3.974-979.1983 
  7. Marciano-Cabral, Francine; MacLean, Rebecca; Mensah, Alex; LaPat-Polasko, Laurie (2003). «Identification of Naegleria fowleri in Domestic Water Sources by Nested PCR». Applied and Environmental Microbiology. 69 (10): 5864–5869. Bibcode:2003ApEnM..69.5864M. PMC 201236Acessível livremente. PMID 14532037. doi:10.1128/AEM.69.10.5864-5869.2003Acessível livremente 
  8. Yoder, J. S.; Eddy, B. A.; Visvesvara, G. S.; Capewell, L.; Beach, M. J. (2009). «The epidemiology of primary amoebic meningoencephalitis in the USA, 1962–2008». Epidemiology and Infection. 138 (7): 968–975. PMID 19845995. doi:10.1017/S0950268809991014Acessível livremente 
  9. Maclean, RebeccaC.; Richardson, DennisJ.; LePardo, Robin; Marciano-Cabral, Francine (2004). «The identification of Naegleria fowleri from water and soil samples by nested PCR». Parasitology Research. 93 (3): 211–217. PMID 15138806. doi:10.1007/s00436-004-1104-x 
  10. NCCEH (1 de março de 2011). «Pool chlorination and closure guidelines» 
  11. Yoder, J. S.; Straif-Bourgeois, S.; Roy, S. L.; Moore, T. A.; Visvesvara, G. S.; Ratard, R. C.; Hill, V. R.; Wilson, J. D.; Linscott, A. J.; Crager, R.; Kozak, N. A.; Sriram, R.; Narayanan, J.; Mull, B.; Kahler, A. M.; Schneeberger, C.; da Silva, A. J.; Poudel, M.; Baumgarten, K. L.; Xiao, L.; Beach, M. J. (2012). «Primary Amebic Meningoencephalitis Deaths Associated With Sinus Irrigation Using Contaminated Tap Water». Clinical Infectious Diseases. 55 (9): e79–e85. PMC 11307261Acessível livremente. PMID 22919000. doi:10.1093/cid/cis626Acessível livremente 
  12. «Naegleria fowleri — Primary Amebic Meningoencephalitis (PAM): Ritual Nasal Rinsing & Ablution». www.cdc.gov. CDC. 3 de maio de 2023. Cópia arquivada em 30 de novembro de 2022 
  13. «Naegleria fowleri — Primary Amebic Meningoencephalitis (PAM): General Information». Centers for Disease Control and Prevention (CDC). 3 de maio de 2023. Cópia arquivada em 28 de julho de 2018 
  14. Fowler, M.; Carter, R. F. (setembro de 1965). «Acute pyogenic meningitis probably due to Acanthamoeba sp.: a preliminary report». The BMJ. 2 (5464): 740–2. PMC 1846173Acessível livremente. PMID 5825411. doi:10.1136/bmj.2.5464.734-a 
  15. «The discovery of amoebic meningitis in Northern Spencer Gulf towns». samhs.org. South Australian Medical Heritage Society Inc. Consultado em 15 de agosto de 2019. Cópia arquivada em 22 de outubro de 2022 
  16. de Jonckheere, J; Voorde, H (1977). «The distribution of Naegleria fowleri in man-made thermal waters 26(1):10-5». Am J Trop Med Hyg 
  17. Marciano-Cabral, Francine; A. CABRAL, Guy (2007). «The Immune Response Of Naegleria Fowleri Amebae And Patogenesis of infection». FEMS Immunology Medical Microbiology: 243 
  18. BARNETT NDP, KAPLAN, AM, HOPKIN, RJ, SAUBOLLE, MA, RUDINSKY, MF. Primary Amoebic Meningoencephalitis with Naegleria flowleri: clinical review. PediatrNeurol, 1996; 15:230-234.
  19. CDC - 01 This Page Has Moved: CDC Parasites Naegleria
  20. WANG A, KAY R, POON WS, Ng HK. Successful treatment of amoebic meningoencephalitis in a Chinese living in Hong Kong. Clinical Neurology and Neurosurgery. 1993;95(3):249–252.
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