Nellie Bly

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Nellie Bly
Nellie Bly por volta de 1890
Conhecido(a) por pioneira das reportagens investigativas
Nascimento 5 de maio de 1864
Cochran's Mills, Pensilvânia,
Morte 27 de janeiro de 1922 (57 anos)
Nova York, Estados Unidos
Cônjuge Robert Seaman (1895–1904)
Ocupação Jornalista

Elizabeth Cochran Seaman[1] (Cochran's Mills 5 de maio de 1864[2]Nova Iorque, Nova York, 27 de janeiro de 1922) mais conhecida pelo pseudônimo Nellie Bly, foi uma jornalista estadunidense. Foi também escritora, inventora, administradora e voluntária em obras de caridade, mais conhecida por sua viagem de circunavegação do globo em 72 dias, simulando a viagem ficcional de Phileas Fogg, no livro de Júlio Verne. Foi também pioneira nas reportagens investigativas, fingindo insanidades para estudar uma instituição para tratamento de doentes mentais por dentro[3][4].

Vida pessoal[editar | editar código-fonte]

Nellie Bly trabalhando em uma fábrica

Nascida em "Cochran's Mills", hoje uma parte de Pittsburgh[5][6][7]. Seu pai, Michael Cochran, trabalhava em um moinho e era casado com Mary Jane. Ele era um imigrante irlandês, vindo do Condado de Derry. Michael ensinou a seus filhos o valor do trabalho honesto e da determinação, comprando o moinho e boa parte do terreno em volta para constituir a fazenda de sua família. Nellie chegou a frequentar um internato por um semestre, mas foi forçada a largar por falta de dinheiro[3][5].

Em 1880, Nellie e a família se mudaram para Pittsburgh. Uma coluna misógina e agressiva chamada "What Girls Are Good For", no jornal Pittsburgh Dispatch a incentivou a escrever uma carta incisiva ao editor contra a coluna, sob o pseudônimo de "Solitária Garota Órfã"[8][9][10]. O editor, George Madden, impressionado com a carta apaixonada publicou um anúncio no jornal pedindo que a autora se identificasse. Quando Nellie se apresentou ao editor, ele lhe ofereceu uma oportunidade de escrever para o jornal, sob o mesmo pseudônimo que ela usou na carta. Depois de seu primeiro artigo para o jornal, escrito "The Girl Puzzle", o editor teria ficado ainda mais impressionado com a qualidade da escrita de Nellie e ofereceu à ela um trabalho em tempo integral[4][9][10]. Era comum que quem escrevesse para jornais, especialmente mulheres, usassem pseudônimos. Ela escolheu "Nelly Bly", mas o editor escreveu "Nellie" e o errou ficou[9][10].

Seu trabalho no jornal focava na situação das mulheres trabalhadoras, escrevendo uma série de artigos investigativos sobre as mulheres que eram trabalhavam em fábricas, mas os editoras a pressionaram para fazer colunas sobre moda, sociedade e jardinagem, o papel comum de mulheres jornalistas na época[4]. Insatisfeita com essas tarefas, ela tomou a iniciativa de viajar para o México para ser correspondente internacional. Com apenas 21 anos, ela passou cerca de seis meses escrevendo sobre a vida e a cultura do povo mexicano. Seus textos foram posteriormente publicados em um livro chamado Six Months in Mexico, em 1888[9]. Alguns de seus textos ela critica a prisão de jornalistas locais, o governo mexicano e a ditadura de Porfirio Díaz e quando as autoridades mexicanas souberam de seus textos, ameaçaram Nellie de prisão, convidando-a a se retirar do país[10]. A salvo em casa, ela denunciou Díaz como um tirano que oprimia o povo mexicano e controlava a imprensa com uma censura severa[9].

O hospital psiquiátrico[editar | editar código-fonte]

Nellie Bly sendo examinada por um psiquiatra

Cansada dos textos sobre artes e teatro, ela se demitiu do Pittsburgh Dispatch em 1887 e foi para Nova York. Sem dinheiro por vários meses, ela buscou o escritório do jornal de Joseph Pulitzer, o New York World, e aceitou um trabalho de jornalista disfarçada. Ela teria que se passar por louca para investigar denúncias de brutalidade e negligência no hospital psiquiátrico para mulheres na Ilha Blackwell[9].

Após uma noite praticando expressões na frente do espelho, ela se registrou em uma pensão. Recusando-se a ir para a cama, dizendo que tinha medo, que eles pareciam loucos, os donos da pensão decidiram que ela parecia louca e na manhã seguinte chamaram a polícia. Levada à corte, Nellie alegou não se lembrar de nada da noite anterior e o juiz concluiu que ela estava sob a ação de drogas. Sendo examinada por vários médicos, todos as declararam "insana". O caso da "bela moça louca" atraiu a atenção da mídia, onde até o jornal The New York Times questionava quem era a misteriosa garota sem memória[11].

Internada em um hospital psiquiátrico, Nellie teve uma visão das condições da instituição em primeira mão. A comida era atroz, carne estragada pão seco e água intragável. Os pacientes mais perigosos eram amarrados uns aos outros com cordas. Os pacientes em geral eram obrigados a ficar sentados em bancos duros durante o dia inteiro, sem nenhuma proteção contra o frio[9]. Esgoto corria pelo refeitório e pela cosinha. Ratos percorriam os corredores e os quartos. A água para o banho era gelada e jogada sobre a cabeça dos pacientes com baldes. As enfermeiras eram abusivas, grosseiras, gritavam para que os pacientes calassem a boca, batendo neles caso não o fizessem. Conversando com alguns pacientes, ela teve certeza que muitos não eram insanos ou loucos e estavam internados contra a vontade[9][11]. Sobre essa experiência, ela escreveu:

Depois de 10 dias no hospital, Nellie recebeu alta. Sua reportagem publicada posteriormente em livro, chamado Dez Dias em Um Hospício, causou um furor na opinião pública e elevou o nome de Nellie ao estrelato. Médicos e funcionários tentaram explicar o quão decepcionados estavam com o relato, enquanto promotores lançaram uma investigação sobre as condições no hospital psiquiátrico, convidando Nellie para participar[9]. Eles elaboraram um relatório recomendando mudanças extensas no tratamento dado às pacientes e aumentaram o orçamento do Departamento de Correções e Caridade em 850 mil dólares. O relatório também exigia que apenas pessoas severamente doentes fossem enviadas aos hospitais[9][11].

A circunavegação[editar | editar código-fonte]

Foto tirada pelo jornal New York World para promover a viagem de Nellie pelo mundo

Em 1888, Nellie sugeriu a seu editor no New York World que ela deveria fazer uma volta ao mundo, em um tentativa de recriar a viagem fictícia imaginada por Júlio Verne. Um ano depois, em 14 de novembro de 1889, ela embarcou no navio a vapor Augusta Victoria e iniciou sua jornada de 40 mil quilômetros, levando uma pequena bagagem de mão com roupas íntimas, um casaco de inverno, o vestido que usava e artigos de higiene, além de uma bolsa com 200 libras, ouro e alguns dólares[4][11][12].

A Cosmopolitan colocou uma de suas repórteres, Elizabeth Bisland, para tentar bater o recorde do livro e de Nellie Bly, começando pelo outro lado do mundo, oposto à viagem de Nellie[13]. Para manter o interesse dos leitores, o jornal organizou uma aposta na qual os leitores teriam que estimar quanto tempo Nellie levaria para completar a viagem, tendo que acertar até os segundos, concorrendo à uma viagem para a Europa e dinheiro[9][11].

Nellie esteve na Inglaterra, França, onde conheceu Júlio Verne, em Amiens, Brindisi, Canal de Suez, Colombo, Penang, Singapura, Hong Kong e Japão. Com a evolução da tecnologia de telégrafos, com cabos submarinos, Nellie podia mandar relatórios atualizados de sua jornada para os Estados Unidos[9][11]. Utilizando navios a vapor e ferrovias, muitas vezes sua viagem era interrompida pela pobre estrutura viária de alguns países. Nestas paradas obrigatórias, ela aproveitava para visitar locais de interesse, como uma colônia chinesa para pacientes com hanseníase[11].

Imagem entalhada em madeira de Nellie Bly sendo recebida em Jersey City, 8 de fevereiro de 1890.

Por conta do mau tempo, Nellie chegou a San Francisco pelo RMS Oceanic, da linha White Star, em 21 de janeiro de 1890, dois dias antes do previsto[14] During these stops, she visited a leper colony in China[15][16]. O dono do jornal porém pagou por um vagão especial para trazê-la para casa através do país e ela chegou em Nova Jersey em 25 de janeiro de 1890. Cerca de 72 dias depois de sua partida em Hoboken, ela estava de volta. Nellie circunavegou o globo, viajando praticamente sozinha em toda sua jornada[11]. Na época, a repórter da Cosmopolittan ainda estava atravessando o Atlântico, chegando em Nova York quatro dias e meio depois.

Os últimos anos[editar | editar código-fonte]

Em 1895, Nellie se casou com o industrial milionário, Robert Seaman. Nellie tinha 31 anos e Seaman tinha 73 quando se casaram[17]. Com o casamento, ela se aposentou do jornalismo, tornando-se presidente da Iron Clad Manufacturing Co., que fabricava contêineres para latas de leite e chaleiras. Em 1904, seu marido faleceu. Nellie foi inventora prolífica neste período, tendo recebido patentes para embalagens de leite e cestos de lixo[18].

Por um tempo, ela foi a única mulher a liderar uma indústria no país, mas o desfalque aos empregados causou a falência da empresa[19]. Isso a forçou a retornar ao jornalismo, escrevendo relatos do front oriental durante a Primeira e Segunda Guerra Mundial. Ela brilhantemente cobriu a Parada Sufragista de 1913, prevendo em seu texto que logo as mulheres poderiam votar nos Estados Unidos[11][20].

Morte[editar | editar código-fonte]

Nellie faleceu em Nova York, em 27 de janeiro de 1922, no Hospital St. Mark, de pneumonia[17]. Ela foi sepultada em um túmulo modesto no Cemitério de Woodlawn, no Bronx.[21].

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Commons
O Commons possui imagens e outras mídias sobre Nellie Bly

Referências

  1. Bill DeMain. «Ten Days in a Madhouse: The Woman Who Got Herself Committed». mental floss. Consultado em 10 de maio de 2010 
  2. Kroeger 1994 diz (p. 529) que apesar de o ano de 1867 ser deduzido por conta da idade, seu registro de batismo confirma o ano de 1864.
  3. a b «Five Reasons why a Google Doodle Tribute to Nellie Bly is justified». news.biharprabha.com. Consultado em 5 de maio de 2015 
  4. a b c d American Experience (ed.). «Nellie Bly». American Experience. Consultado em 5 de março de 2017 
  5. a b «Nellie Bly» (PDF). Pittsburghclo.org. Consultado em 20 de julho de 2013 
  6. «Nellie Bly Historical Marker». Explorehistory.com. Consultado em 20 de julho de 2013 
  7. «Cochran's Mill Rd over Licks Run – Bridges and Tunnels of Allegheny County and Pittsburgh, PA». Pghbridges.com. Consultado em 20 de julho de 2013 
  8. «Young and Brave: Girls Changing History». National Woman's History Museum. Consultado em 7 de abril de 2014 
  9. a b c d e f g h i j k l Arthur Fritz. «Nellie Bly, (1864–1922)». Nellie Bly Online. Consultado em 7 de abril de 2014 
  10. a b c d Jone Johnson Lewis. «Nellie Bly». About.com. Consultado em 7 de abril de 2014 
  11. a b c d e f g h i j Kroeger, Brooke (1994). Nellie Bly: Daredevil, Reporter, Feminist. Nova York: Three Rivers Press. p. 631. ISBN 978-85-316-0189-7 
  12. Ruddick, Nicholas. "Nellie Bly, Jules Verne, and the World on the Threshold of the American Age." Canadian Review of American Studies, Volume 29, Number 1, 1999, p. 5
  13. Len Barcousky (ed.). «Eyewitness 1890: Pittsburgh welcomes home globe-trotting Nellie Bly». Pittsburgh Post-Gazette. Consultado em 5 de março de 2017 
  14. Bear, David. "Around the World With Nellie Bly." Pittsburgh Post-Gazette, November 26, 2006
  15. Ruddick, Nicholas. "Nellie Bly, Jules Verne, and the World on the Threshold of the American Age." Canadian Review of American Studies, Volume 29, Number 1, 1999, p. 7
  16. «Daily Alta California 22 January 1890 – California Digital Newspaper Collection». Cdnc.ucr.edu. Consultado em 20 de julho de 2013 
  17. a b The New York Times (ed.). «Nellie Bly journalist Dies of Pneumonia». The New York Times. Consultado em 6 de março de 2017 
  18. «Google». Google. Consultado em 20 de julho de 2013 
  19. Garrison, Jayne. Los Angeles Times, ed. «Nellie Bly, Girl Reporter: Daredevil journalist». Los Angeles Times. Consultado em 5 de maio de 2015 
  20. Harvey, Sheridan. «Marching for the Vote: Remembering the Woman Suffrage Parade of 1913». American Women. Library of Congress. Consultado em 6 de março de 2017 
  21. Dunning, Jennifer. «Woodlawn, Bronx's Other Hall of Fame». The New York Times Co. The New York Times. Consultado em 29 de novembro de 2011