Neotribalização

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Neotribalismo ou tribalismo moderno é a ideologia de que os seres humanos deveriam viver em sociedades pequenas (tribos) ao invés de viver em sociedade massiva (cidade grande).

A neotribalização encontra-se amparada no que Michel Maffesoli chama de “principium relationis das sociedades tradicionais ou primitivas”. As relações que se formam nesse tipo são “multiformes e afetam vários domínios da vida social: religioso, cultural, político e social.”

A partir destas premissas, o “sentimento coletivo” passa a ser a tônica das relações neotribais, onde as relações com o outro se tornam mais enraizadas. A “circulação” das emoções fornece o caráter antropológico no qual se situa a vivência coletiva e o que é próprio do neotribalismo é o que não é contratual, é o “não-dito”, segundo Maffesoli, que vai “fundamentar o estar-junto”. Em suma, a “banalidade” destas formas de congregações vai trazer ao grupo o amparo tribal.

Recusando-se a ser reconhecido em qualquer projeto político, o neotribalismo, tem “como única razão” ser a preocupação com um “presente vivido coletivamente”. Segundo Maffesoli, se forem pesquisadas as monografias sobre grupos de jovens e círculos afinitários, estar-se-á convencido disto.

Interessante também é perceber que, no neotribalismo, as relações são pontuadas pela “fluidez, pelos ajuntamentos pontuais e pela dispersão”. É assim, na ótica maffesoliana, que “podemos descrever o espetáculo da rua nas megalópoles”. Os agrupamentos juvenis estão ai para mostrar que o importante, em suas vivências, é a sua relação com os outros.

Pode-se também comparar o neotribalismo à tecelagem de redes. Michel Maffesoli relaciona as redes ao paradigma do tribalismo. Seu conceito se traduz nos “laços e sentimentos de pertença, vinculados a uma ética específica”. É possível relacionar estes elementos com os apontados pelo dicionário quando as atenções se voltam, metaforicamente, ao termo “tecido”. Para a formação do tecido, são necessários muitos “fios”, às vezes de espessuras e texturas distintas, vinculados uns aos outros, que lhe conferem resistência. Ao sociólogo francês, o conceito remete à “sucessão de “nós” que constituem a própria substância de toda socialidade”. As práticas afetuais constroem redes de relações que se estruturam a partir do “sentimento de pertença”, em função de uma “ética específica” e nestas relações está o elemento tribal das relações. Eles possuem sentido na dinâmica global quando “outros grupos se criam” a partir do mesmo sustentáculo.

As redes são elementos sociais de efeito transitório, onde a permanência e a estabilidade não constituem a totalidade das relações. No espaço em que se engendram não há a necessidade do laço duradouro, da promessa “eterna” e centralizadora, mas da “colcha de retalhos” que é a conexão de distintas tribos no corpo das metrópoles. Ao dirigir o olhar para as inúmeras redes sociais que se encontram na internet, é possível perceber que a dinâmica social ali se reproduz de maneira similar ao que existe no mundo “real”, onde a relevância está na relação entre as pessoas e nos laços sociais. A interação entre as pessoas é outro dos elementos fundadores das redes sociais.

Presencia-se hoje uma renovada busca por pertencimento nos indivíduos. A ausência de um todo moral que identifique o indivíduo o faz procurar preencher-se através de laços emocionais, de interesse não institucional. Existe uma necessidade de "proximidade", que faz com que o "individualismo contemporâneo" se converta em redes de grupos por afinidade, de caráter efêmero, mas emocional. Possibilidades de socialização diante da multiplicidade simbólica atual. Então, o que dá sentido não é mais a subsistência, é o acessório afetivo, que tem seu sentido existencial em ato, enquanto está sendo atualizado em toda sua carga de emotividade coletiva. Os jovens são os grupos que mais se identificam nas redes maffesolianas. Como sua busca, mais do que de uma identidade fixa, imóvel, é por identificações fluídas, condizentes com a sua forma de experimentar o mundo e as relações, nas redes afinitárias é que descobrem sua maneira de ser coletivo, de estabelecer sua socialidade. Então, destas relações construirão as novas referências e identidades, individuais e, sobretudo, coletivas.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

MAFFESOLI, Michel. A Contemplação do Mundo. Porto Alegre: Artes e Ofícios Ed., 1995.

MAFFESOLI, Michel. A Transfiguração do Político: a tribalização do mundo. Porto Alegre: Sulina, 1997.

MAFFESOLI, Michel. Mediações simbólicas: a imagem como vínculo social. In. MARTINS, Francisco M. e SILVA, Juremir Machado da. Para navegar no século XXI: tecnologia do imaginário e cibercultura. Porto Alegre: Sulina / EDIPUCRS, 1999. pp. 43-54.

MAFFESOLI, Michel. O Tempo das Tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1998.