Nevertheless, she persisted

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Uma participante de um evento comemorativo ao Dia Internacional da Mulher usando uma blusa com os dizeres "Nevertheless, she persisted".

"Nevertheless, she persisted" (em português: "Apesar disso, ela persistiu") é uma expressão adotada pelo movimento feminista, especialmente nos Estados Unidos. Tornou-se popular em 2017 depois que o Senado dos Estados Unidos votou para silenciar as objeções da Senadora Elizabeth Warren à confirmação do Senador Jeff Sessions como Procurador-geral. O Líder da Maioria, Mitch McConnell, proferiu esta frase durante os comentários posteriores à votação em um esforço para defender as ações do Senado e culpar Warren.

A expressão tornou-se viral quando os feministas publicaram-a como hashtag em referência a outras mulheres. Os críticos conservadores arguiram que as comparações entre Warren e outras ativistas políticas eram inadequadas. O seu significado expandiu-se para se referir à persistência das mulheres para romper barreiras, apesar de serem silenciadas ou ignoradas.

Contexto[editar | editar código-fonte]

Debate no Senado sobre a confirmação de Jeff Sessions[editar | editar código-fonte]

Em 7 de fevereiro de 2017, o Senado dos Estados Unidos debateu a confirmação do Senador Jeff Sessions, republicano do Alabama, indicado para o cargo de Procurador-geral pelo Presidente Donald Trump. A Senadora Elizabeth Warren, democrata de Massachusetts, discursou contra a confirmação, criticando seu histórico em relação aos direitos civis.[1][2]

A Senadora Warren recordou uma declaração de 1986 do Senador Ted Kennedy sobre a nomeação de Sessions para o cargo de juiz de um tribunal federal, quando Kennedy afirmou: "Ele [Sessions] é, acredito, uma desgraça para o Departamento de Justiça, e deve desistir de sua nomeação e renunciar ao seu cargo." Warren, então, disse que acompanharia a opinião que o Senador Kennedy teve e, assim como ele fez, votaria contra a nomeação do Senador Sessions.[3][4]

A Senadora Warren continuou lendo uma carta que Coretta Scott King havia escrito ao Comitê do Judiciário do Senado em 1986:

"Líderes de direitos civis, incluindo meu marido e Albert Turner, lutaram por muito tempo e conseguiram acesso livre e irrestrito às urnas. O Sr. SESSIONS usou o incrível poder de seu cargo para desencorajar o livre exercício do voto dos cidadãos negros no distrito que agora procura servir como juiz federal. Isso simplesmente não pode ser permitido. A conduta do Sr. SESSIONS como Procurador dos EUA, de seus processos referentes a fraudes eleitorais com motivação política quanto a sua indiferença em relação a violações criminais das leis de direitos civis, indica que ele não tem temperamento, equidade e juízo para ser um juiz federal."
— Coretta Scott King[5]

Regra XIX do Senado[editar | editar código-fonte]

O Senador Steve Daines interrompe o discurso de Warren sobre a indicação de Sessions como Procurador-geral (em inglês).

Enquanto Warren estava lendo a carta de King, o Senador Steve Daines, republicano de Montana, que estava presidindo a sessão, a interrompeu, lembrando-a da Regra XIX do Senado. Esta regra, em uso desde 1902, estipula que "nenhum Senador em debate deve, direta ou indiretamente, por qualquer forma, imputar a outro Senador ou a outros Senadores qualquer conduta ou motivo indigno ou indecente para um Senador."[6][7][8] Warren defendeu-se afirmando que só havia dito que o ex-senador Kennedy chamou Sessions de uma desgraça, e questionou se a leitura da carta de King, gravada nos registros do Senado em 1986, era uma violação das regras do Senado.[9]

Objeção do Senador McConnell[editar | editar código-fonte]

O Senador Mitch McConnell se recusa a deixar que Warren continue discursando sobre a indicação de Sessions (em inglês).

Enquanto a Senadora Warren continuou lendo a carta, o Líder da Maioria do Senado, Mitch McConnell, republicano do Kentucky, interrompeu-a, dizendo: "A Senadora pôs em causa os motivos e a conduta de nosso colega do Alabama, conforme advertido pelo Presidente." A objeção do Senador McConnell referiu-se a parte do discurso de King em que ela acusa Sessions de tentar impedir que os negros votassem.[10]

Warren disse que estava "surpresa com o fato de as palavras de Coretta Scott King não serem adequadas para um debate no Senado dos Estados Unidos", e pediu para continuar.[11] O Senador Daines perguntou se havia objeção. O Senador McConnell apresentou uma objeção, e então Daines convocou uma votação sobre o assunto, dizendo: "A Senadora ocupará seu assento", impedindo Warren de continuar.[12] O Senado votou para sustentar a objeção de McConnell, em uma votação de 49-43, que seguiu as linhas partidárias, impedindo que Warren discursasse durante o período restante das audiências de confirmação de Sessions.[13]

As audiências referentes a confirmação da nomeação de Sessions duraram mais trinta horas, e os democratas se opuseram a medida tomada pelo Senado contra Warren.[14] O Senador Jeff Merkley, democrata de Oregon, posteriormente leu a carta de Coretta Scott King, não recebendo objeção de nenhum outro Senador. O Senador Cory Booker, democrata de Nova Jersey, ressaltou que a carta já estava no registro do Congresso desde 1986.[15]

Após a votação[editar | editar código-fonte]

O discurso do Senador Mitch McConnell sobre a decisão de silenciar Warren (em inglês).

Após a decisão do Senado de silenciar a Senadora Warren, o Senador McConnell afirmou:

"A Senadora Warren estava dando um longo discurso. Ela parecia violar a regra.
Ela foi avisada. Ela recebeu uma explicação. Apesar disso, ela persistiu."[16][17]

Reações[editar | editar código-fonte]

Grito de guerra[editar | editar código-fonte]

Uma manifestante vestindo uma camisa com a frase "Nevertheless She Persisted" e uma imagem de Rosie the Riveter em um protesto em São Francisco.

Feministas e apoiadores da Senadora Warren imediatamente adotaram como um grito de guerra a frase "Nevertheless, she Persisted".[18] O meme foi referenciado com hashtags como "#Shepersisted" e "#LetLizspeak" ("Deixe Liz [apelido dado a Warren] Falar", em português), e tem sido considerado a hashtag-lema para mulheres prontas para quebrar barreiras.[7][19] De acordo com a BuzzFeed, a citação foi compartilhada nas mídias sociais, juntamente com imagens de mulheres fortes "que se recusaram a ser silenciadas."[20] Amy Wang, do The Washington Post, observou,

"Se os senadores republicanos tinham a intenção de minimizar a mensagem de Warren, a decisão surtiu um efeito colateral—severamente. Seus apoiadores imediatamente se apoderaram da frase de McConnell—dando a Warren um megafone muito maior do que se simplesmente a tivessem deixado continuar discursando no que havia sido uma câmara vazia."[21]

No programa "All Things Considered", da Rádio Pública Nacional, Scott Detrow disse que a frase "Nevertheless, she persisted" tornou-se a nova "Nasty Woman" ("Mulher Desagradável", em português), um grito de guerra derivado de uma frase dita por Donald Trump sobre Hillary Clinton no último debate da eleição presidencial de 2016, em outubro daquele ano.[22][23]

Uma tatuagem, feita por Erica Flannes, com a frase "Nevertheless, she persisted".

Megan Garber, escrevendo para a The Atlantic, observou que "Nevertheless, she persisted" apareceu na internet ao lado de "imagens não apenas de Warren e King, mas também de Harriet Tubman, e Malala Yousafzai, e Beyoncé, e Emmeline Pankhurst, e Gabby Giffords, e Michelle Obama, e Hillary Clinton, e a Princesa Leia. Acompanhou tags que celebraram #TheResistance ("A Resistência", em português)."[6] Hillary Clinton publicou no Twitter: "Ela foi avisada. Ela recebeu uma explicação. Apesar disso, ela persistiu. Então todos nós devemos."[24] O meme também apareceu em mercadorias e inspirou tatuagens.[25][26]

Conservadores[editar | editar código-fonte]

Outras pessoas tiveram opiniões menos favoráveis ao uso da frase e sua aplicação a Warren. Charlotte Allen, do The Weekly Standard, sugeriu que #Shepersisted era mais uma tática de marketing de Warren, uma possível candidata a Presidente.[27] O caso também foi discutido no contexto da possível candidatura presidencial da Senadora Warren por David Harsanyi, da National Review, que se referiu à Regra XIX como "uma regra arbitrária e inibidora de fala que não deveria ser usada."[28] Também na National Review, Alexandra Desanctis escreveu que o meme estava "acolhendo inúmeras comparações inapropriadas entre Warren e ativistas políticas de todo o mundo." Desanctis continuou:

"Tubman e Truth foram escravizadas e espancadas, Anthony e Stanton foram negadas o direito a votar, Parks foi jogada na prisão, e Yousafzai foi baleada no cérebro. Warren ficou no Senado dos EUA insistindo que o "racismo, o sexismo e o fanatismo" de Sessions são perigosos para as liberdades americanas, uma afirmação que é duvidosa, na melhor das hipóteses. A ideia de que ela fez qualquer coisa, mesmo remotamente comparável a essas mulheres, é ridícula, na melhor das hipóteses. E, na pior das hipóteses, trivializa a coragem daquelas em cuja companhia coloca Warren e faz uma zombaria de sua contribuição para a democracia."[29]

Nota[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. «Congressional Record — Senate» (PDF). Congresso dos Estados Unidos. 7 de fevereiro de 2017. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  2. Jordain Carney (7 de fevereiro de 2017). «Senate GOP votes to silence Warren after speech against Sessions». The Hill. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  3. Paul Kane e Ed O'Keefe (8 de fevereiro de 2017). «Senate GOP votes to silence Warren after speech against Sessions». The Washington Post. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  4. Caroline Hallemann (8 de fevereiro de 2017). «Quoting Ted Kennedy and Coretta Scott King Earns Senator Elizabeth Warren an Official Reprimand». Town & Country. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  5. «The Coretta Scott King letter Elizabeth Warren was trying to read». CNN. 8 de fevereiro de 2017. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  6. a b Megan Garber (8 de fevereiro de 2017). «'Nevertheless, She Persisted' and the Age of the Weaponized Meme». The Atlantic. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  7. a b Daniel Victor (8 de fevereiro de 2017). «'Nevertheless, She Persisted': How Senate's Silencing of Warren Became a Meme». The New York Times. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  8. «Senate Fistfight». Senado dos Estados Unidos. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  9. Bill Chappell e Mark Katkov (8 de fevereiro de 2017). «Republicans Vote To Silence Sen. Elizabeth Warren In Confirmation Debate». NPR. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  10. David Smith (8 de fevereiro de 2017). «Senate Republicans silence Elizabeth Warren over letter on Jeff Sessions». The Guardian. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  11. Veronica Stracqualursi (8 de fevereiro de 2017). «Read the 1986 Coretta Scott King Letter That Led to Senate Rebuke of Elizabeth Warren». ABC News. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  12. Matt Flegenheimer (7 de fevereiro de 2017). «Republican Senators Vote to Formally Silence Elizabeth Warren». The New York Times. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  13. Niels Lesniewski (7 de fevereiro de 2017). «Warren Blocked From Speaking During Sessions Confirmation Debate». Roll Call. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  14. Rebecca Shapiro (8 de fevereiro de 2017). «Democrat Defies GOP, Reads Part Of Coretta Scott King's Letter On Senate Floor». The Huffington Post. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  15. Eder Campuzano (9 de fevereiro de 2017). «Jeff Merkley reads Coretta Scott King's letter about Jeff Sessions on Senate floor (video)». Oregon Live. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  16. Jessica Glenza (8 de fevereiro de 2017). «#LetLizSpeak: Senate's silencing of Warren prompts rallying of support». The Guardian. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  17. Rafael Brandão (1 de maio de 2017). «Supergirl / "Apesar de tudo, ela persistiu": fim da temporada é inspirado em discurso de senadora». Observatório do Cinema. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  18. Ed Mazza (8 de fevereiro de 2017). «#ShePersisted Becomes New Battle Cry After Senate Silences Elizabeth Warren». The Huffington Post. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  19. Madison Park (8 de fevereiro de 2017). «#LetLizSpeak: 'She persisted' becomes rallying cry for Warren supporters». CNN. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  20. Francis Whittaker (8 de fevereiro de 2017). «People Are Using "Nevertheless, She Persisted" To Share Examples Of Badass Women». BuzzFeed. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  21. Amy B Wang (8 de fevereiro de 2017). «'Nevertheless, she persisted' becomes new battle cry after McConnell silences Elizabeth Warren». The Washington Post. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  22. Scott Detrow (8 de fevereiro de 2017). «GOP Blocks Sen. Elizabeth Warren From Jeff Sessions Debate». Rádio Pública Nacional. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  23. Nicky Woolf (20 de outubro de 2016). «Nasty woman': Trump attacks Clinton during final debate». The Guardian. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  24. Hillary Clinton (8 de fevereiro de 2017). «"She was warned. She was given an explanation. Nevertheless, she persisted." So must we all.». Twitter. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  25. Jeva Lange (10 de fevereiro de 2017). «Boston-based Reebok releases 'neverthless, she persisted' shirts in support of Elizabeth Warren». The Week. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  26. Rachel Leah (23 de fevereiro de 2017). «More than 100 women get "Nevertheless, she persisted" tattoos in Minneapolis». Salon. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  27. Charlotte Allen (14 de fevereiro de 2017). «The Marketing of Elizabeth Warren». The Weekly Standard. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  28. David Harsanyi (10 de fevereiro de 2017). «Elizabeth Warren for President». National Review. Consultado em 2 de novembro de 2017. 
  29. Alexandra Desanctis (9 de fevereiro de 2017). «No, Elizabeth Warren Doesn't Belong in the Same Breath as Harriet Tubman and Rosa Parks». National Review. Consultado em 2 de novembro de 2017. 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]