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Noite de Almirante

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Machado de Assis

Noite de Almirante é um conto do escritor brasileiro Machado de Assis, que foi publicado originalmente na Gazeta de Notícias de 10 de fevereiro de 1884 e na coletânea Histórias sem Data no mesmo ano. Narrado em terceira pessoa, o conto explora um triângulo amoroso vivido por um povo de subúrbio. Traz preocupações características de Machado, como a volubilidade da alma humana e a influência de fatores externos na vida dos personagens.[1]

Um marinheiro (Deolindo Venta-Grande) volta de uma longa viagem de instrução e está ansioso por rever sua paixão, a caboclinha Genoveva de vinte anos, e passar com ela uma “noite de almirante” (no linguajar dos marinheiros), com quem trocou votos de fidelidade mútua. Surpreende-se ao descobrir que ela o deixou por um tal José Diogo, mascate de fazendas. E ela admite essa sua “traição” na maior inocência e ingenuidade, como se não tivesse feito nada de errado: “O coração mudou.”

TRECHO: Ah! Venta-Grande! Que noite de almirante vai você passar! ceia, viola e os braços de Genoveva. Colozinho de Genoveva...

Análise da trama

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"Noite de Almirante" apresenta Genoveva, uma jovem cabocla "esperta, de olho negro e atrevido". Ela nada tem da idealização romântica prevalente no século XIX. Na verdade, sua conduta mostra uma amoralidade inocente, que desconhece compromissos e só reconhece a necessidade.[2]

O conto retrata a vida de um "povo de subúrbio", socialmente marginalizados. O triângulo amoroso entre Genoveva, Deolindo e José Diogo, a promessa de fidelidade quebrada, e a consequente vingança emocional de Deolindo, são elementos que representam a fragilidade da ordem sentimental e social entre camadas populares. É uma crítica aos valores da civilização nortecêntrica, projetados em um Brasil recém-independente.[3]

O conflito amoroso vivido por Deolindo reflete uma tensão profunda entre o ideal (o juramento de amor e a expectativa de reencontro) e o real (a traição e a falibilidade humana). Egoísmo e desejos conflitantes tornam uma relação amorosa vulnerável e imprevisível, mostrando que valores românticos são incompatíveis com a dureza da vida real.[4]

Para Luiz Antonio Aguiar, é um conto leve e divertido. "O marujo Deolindo Venta-Grande retorna à cidade, depois de meses no mar, e todos o parabenizam pela noite de almirante que irá ter com a sua Genoveva, a fogosa moça que prome-teu esperá-lo fielmente. Só que nada corre como ele previa."[5]

Adaptações

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O filme Esse Rio Que Eu Amo, de 1960, adapta quatro contos brasileiros, dentre eles "Noite de Almirante".

O conto também foi adaptado como curta-metragem em 2018, tendo Marcos Pitombo como um dos protagonistas.[6]

Em 2024, a quadrinista Germana Viana adaptou o conto para os quadrinhos na coletânea Noite de Almirante e outros Contos de Machado de Assis. A coletânea foi indicada para o prêmio de Melhor Adaptação para os Quadrinhos no 37.º Troféu HQ Mix.

Referências

  1. Machado de Assis, Histórias sem Data (Edições críticas de obras de Machado de Assis), Civilização Brasileira, 1977.
  2. Coletânea: Histórias Sem Data. machadodeassis.net. Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/historias-sem-data/28927 . Acesso em: 7 dez. 2025.
  3. SILVA, Eufrida Pereira da. “Noite de almirante” de Machado de Assis: um povo de subúrbio. Via Atlântica, São Paulo, v. 23, n. 1, p. 230–252, 2022. DOI: 10.11606/va.i41.189859. Disponível em: https://revistas.usp.br/viaatlantica/article/view/189859. Acesso em: 7 dez. 2025.
  4. BARBOZA, Jair Lopes. Filosofia schopenhaueriana e literatura machadiana: em torno do conto "Noite de almirante". Trans/Form/Ação, Marília, SP, v. 23, n. 1, p. 7–17, 2000. DOI: 10.1590/S0101-31732000000100001. Disponível em: https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/transformacao/article/view/811.. Acesso em: 7 dez. 2025.
  5. AGUIAR, Luiz Antonio. Almanaque Machado de Assis: vida, obra, curiosidades e bruxarias literárias. Rio de Janeiro: Record, 2008. ISBN 978-85-01-08099-8.
  6. «Marcos Pitombo é um dos protagonistas do filme "Noite de Almirante" – Noticiasdetv.com». noticiasdetv.com. Consultado em 5 de março de 2018