O Cânone da Medicina

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Copia latina do Cânone da Medicina, concluida em 1484, situada na Biblioteca Médica P.I. Nixon do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Texas em San Antonio.

O Cânone da medicina (título original em árabe: القانون في الطب Al-Qanun fi al-Tibb) é uma enciclopédia médica de 14 volumes escrita pelo polímata muçulmano persa Ibn Sina (Avicena) em torno do ano 1020. O livro se baseava em uma combinação de sua própria experiência pessoal, de medicina islâmica medieval, dos escritos de Galeno, Sushruta e Charaka, assim como da antiga medicina persa e árabe.[1] O Cânone é considerado um dos livros mais famosos da história da medicina.

Conhecido também como o Qanun, que significa 'lei' no árabe e persa, O cânone da medicina foi uma autoridade da medicina até o século XVIII.[2] Estabelece os princípios da medicina na Europa e no mundo islâmico e é uma das obras escritas mais reputadas de Avicena. Os princípios de medicina que descreveu neste livro há dez séculos seguem sendo ensinados na Universidade da Califórnia em Los Angeles e na Universidade de Yale entre outras como parte da história da medicina. Entre outras coisas, o livro introduz a experimentação e a quantificação sistemática no estudo da fisiologia,[3] e pelo descobrimento das doenças contagiosas.[4]

George Sarton, o pai da história da ciência, escreveu em sua Introdução à história da ciência:

Um dos maiores expoentes do universalismo muçulmano e uma eminente figura na cultura islâmica foi Ibn Sina, conhecido no ocidente como Avicena (981-1037). Durante mil anos tem conservado sua reputação original como um dos mais grandes pensadores e pesquisadores de medicina da história. Suas obras médicas mais importantes são o Qanun (Cânone) e um tratado sobre medicamentos cardíacos. O 'Al-Qanun fi al-Tibb' é uma imensa enciclopédia de medicina. Contém alguns dos pensamentos mais esclarecedores incluindo a distinção entre a mediastinite e a pleurisia, o reconhecimento da natureza contagiosa da tuberculose, a expansão das enfermidades pela água e pela terra, descrições minuciosas de problemas dermatológicos, as doenças sexualmente transmissíveis e as perversões, doenças do sistema nervoso.[4]

Visão geral[editar | editar código-fonte]

O livro explica as causas da saúde e da doença. Ibn Sina pensava que o corpo humano não pode recuperar a saúde a menos que se determinem as causas, tanto da saúde como da doença. Ibn Sina afirmava que a medicina (tibb) é a ciência pela qual aprendemos os distintos estados do corpo humano quando tem saúde e quando não a tem, assim como os modos pelos quais é provável que se perca a saúde e, uma vez perdida, recuperar-la. Em outras palavras, a medicina é a ciência por meio da qual se conserva a saúde e é a arte por meio de qual se recupera após tê-la perdido.

Avicena considerava que as causas da boa saúde e das doenças eram as seguintes:

  1. As causas materiais;
  2. Os elementos;
  3. Os humores;
  4. A variabilidade dos humores;
  5. Os temperamentos;
  6. As faculdades psíquicas;
  7. A força vital;
  8. Os órgãos;
  9. As causas eficientes;
  10. As causas formais;
  11. As faculdades vitais;
  12. As causas finais.

(Existem muitas outras fontes que explicam seus conceitos em profundidade e são acessíveis a partir da internet em sites médicos e islâmicos.)

O Qanun oferece um diagnóstico científico da anchilostomiasis e atribui a condição a um verme intestinal. O Qanun assinala a importância da dieta, a influência do clima e do ambiente sobre a saúde, assim como o uso cirúrgico da anestesia oral. Ibn Sina aconselhava aos cirurgiões tratar o câncer em suas primeiras etapas, certificando-se de remover todo o tecido afetado. A matéria médica do Qanun nomeou mais de 760 medicamentos, com comentários sobre sua aplicação e efetividade. Recomendava a experimentação das novas medicinas com animais e humanos antes de seu uso generalizado.

Ibn Sina observou a estreita relação entre as emoções e a condição física e sabia que a música exercia um efeito físico e psicológico total nos pacientes. Dentre as muitas doenças mentais que descreveu no Qanun, uma é de interesse particular: o mal de amores! Se diz que Ibn Sina diagnosticou esta condição num príncipe em Jurjan que estava prostrado e cuja doença havia desnorteado os médicos do lugar. Ibn Sina observou um desajuste na pulsação do príncipe quando se mencionava o paradeiro e o nome de sua amada. O grande doutor receitou um remédio muito simples: unir o paciente com a amada.

A cópia mais antiga do Cânone da Medicina data de 1052 e se conserva na coleção do Aga Khan e há planos de abrigá-la no Museu de Aga Khan, em Toronto, Ontário, Canadá.

O canon da medicina de Avicena na Europa[editar | editar código-fonte]

O texto árabe do Qanun foi traduzido para latim como Canon medicinae por Gerardo de Cremona no século XII e no hebraico em 1279. A partir de então, o Canon foi o principal guia da ciência da medicina no ocidente e acredita-se que influenciou Leonardo da Vinci. Seu conteúdo enciclopédico, sua organização sistemática e sua filosofia logo alcançou um lugar de destaque na literatura médica da Europa, deslocando as obras de Galeno e convertendo-se no manual da educação em medicina nas escolas europeias. O texto era lido nas escolas de medicina de Montpellier e Lovaina até 1650, e Arnold C. Klebs o descreveu como "um dos fenômenos intelectuais mais significativos de todos os tempos". Nas palavras do Dr. William Osler, o Qanun tem sido "uma bíblia da medicina durante mais tempo que nenhuma outra obra". Os primeiros três livros do Canon em latim foram impressos em 1472 e em 1473 apareceu uma edição completa. A edição em hebraico de 1491 é a primeira aparição de um tratado médico em hebraico e o único publicado durante o século XV. Nos últimos 30 anos do século XV teve 15 edições em latim.

Nestes últimos anos, se tem feito uma tradução parcial ao inglês.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Hakeem Abdul Hameed, Intercâmbios entre a Índia e a Ásia Central no âmbito da medicina
  2. Ziauddin Sardar, Science in Islamic philosophy Arquivado em 5 de maio de 2009, no Wayback Machine.
  3. Katharine Park (March 1990). "Avicenna in Renaissance Italy: The Canon and Medical Teaching in Italian Universities after 1500 (Avicena na Itália renascentista: O Cânone e a educação médica nas universidades italianas depois de 1.500) por Nancy G. Siraisi", The Journal of Modern History (Revista da história moderna) 62 (1), p. 169-170.
    "Os estudantes de história da medicina o conhecem por seus esforços por implantar a experimentação e a quantificação sistemática no estudo da fisiologia".
  4. a b George Sarton, Introduction to the History of Science (Introdução à história da ciência).
    (cf. Dr. A. Zahoor and Dr. Z. Haq (1997). Citações de famosos historiadores da ciência, Cyberistan.)

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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