O Homem de Areia

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Ilustração da primeira edição, pelo próprio Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann

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O Homem da areia (Der Sandmann) é um conto do escritor alemão Ernst Theodor Amadeus Hoffmann (Königsberg, 1776 - Berlim, 1822).

O manuscrito é datado de 16 de novembro de 1815

O Homem da areia: um conto fantástico[editar | editar código-fonte]

Italo Calvino (2004), considera o conto fantástico como uma das produções mais características da narrativa do século XIX e também uma das mais significativas para nós, já que nos diz muitas coisas sobre a interioridade do indivíduo e sobre a simbologia coletiva. À nossa simbologia de hoje, o elemento sobrenatural que ocupa o centro desses enredos aparece sempre carregado de sentido, como a irrupção do inconsciente, do recalcado, do esquecido, do que se distanciou de nossa atenção racional.

O tema do conto fantástico do século XIX é a realidade daquilo que se vê: acreditar ou não acreditar nas aparições fantasmagóricas, perceber por trás da aparência cotidiana um outro mundo, encantado ou infernal. É como se o conto fantástico, mais que qualquer outro gênero narrativo, pretendesse dar a ver, concretizando-se numa seqüência de imagens e confiando sua força de comunicação ao poder de suscitar figuras.

O Homem da areia de Hoffmann é um texto típico do fantástico, em que personagens e imagens da tranqüila vida burguesa se transfiguram em aparições grotescas, diabólicas, assustadoras, como nos pesadelos.

O Homem da areia[editar | editar código-fonte]

No início do conto, o jovem Natanael escreve uma carta para seu amigo, Lotário, irmão de sua noiva Clara, contando sobre uma experiência que acabou de ter: está em seu quarto de estudante e batem à porta; ao abri-la, assusta-se com o homem que vê, que traz uma lembrança da infância, um vendedor de barômetros. Ao ver esse homem, expulsa-o com tal rapidez que o homem praticamente rola pelas escadas. Ele se assusta com seu próprio susto. Ele escreve para Lotário explicando o que ele viu e o assustou. Parte de uma lembrança infantil, e começa a descrever sua casa de infância, uma casa de pai, mãe e filhos, onde tinham como hábito, depois do jantar, ficarem em torno do pai que fumava seu cachimbo, mas, de vez em quando, as crianças eram postas na cama mais cedo pois o Homem da Areia ia chegar. Natanael ouvia os passos pesados de um visitante, com o qual o pai estaria ocupado toda a noite. A babá contara a Natanael que o homem da areia era um homem perverso que chegava quando as crianças não iam para a cama, jogava areia nos olhos delas, fazendo com que saltassem fora, colocava os olhos num saco e os levava para alimentar seus filhos na lua. Para descobrir mais sobre o Homem da areia, Natanael se esconde no escritório de seu pai na noite em que o visitante era esperado. Reconhece o visitante como o advogado Copéllius. De seu esconderijo, ele vê o visitante e o pai no que parece ser um experimento alquímico. Descoberto, Natanael é ameaçado de ter seus olhos arrancados e desmaia. O Homem da Areia volta uma outra vez a sua casa e ocorre uma explosão, que mata o pai de Natanael. Muitos anos depois, Natanael reconhece Copellius no vendedor Copolla. Depois de um período de férias junto a sua noiva, que tenta tranqüilizá-lo, Natanael volta aos estudos e decide comprar um binóculo de Copolla, para que este o deixe em paz. Com o binóculo ele vê Olímpia, por quem se apaixona perdidamente apesar de todos os avisos. Natanael enlouquece ao descobrir que Olímpia é uma boneca, construída por Copolla/Copellius e seu professor de física. É internado num manicômio e parece recuperado, quando tenta jogar a noiva Clara do alto de uma torre, após olhar outra vez pelo binóculo. Se joga da torre pouco depois.

O Homem da areia: um pai castrador?[editar | editar código-fonte]

O estudo dos sonhos, das fantasias e dos mitos ensina que o medo de ferir ou perder os olhos, o medo de ficar cego é, muitas vezes, um substituto do temor de ser castrado. O autocegamento do criminoso mítico, Édipo, seria uma forma atenuada do castigo da castração. Por que razão Hoffmann relaciona o temor em relação à perda dos olhos com a morte do pai? Por que o Homem de areia aparece como um perturbador do amor? Para Freud (1919), essas perguntas poderão ser respondidas se substituirmos o Homem de areia pelo pai temido, de cujas mãos é esperada a castração.

O Homem da areia e a teoria psicanalítica[editar | editar código-fonte]

O conto de Hoffmann, "O homem de areia" permite uma reflexão sobre a relação entre pulsão escópica e angústia. Quinet (2002) mostra que o conceito de pulsão escópica permitiu à psicanálise restabelecer uma função de atividade para o olho, não mais como fonte de visão, mas como fonte de libido. A psicanálise descobre a libido de ver, o prazer de ver, e o objeto olhar como manifestação da vida sexual. O olhar não é um atributo do sujeito, que dele se serve como instrumento; ao contrário, é o sujeito que é afetado pelo olhar enquanto objeto. Na saída do Édipo, duas instâncias estarão ligadas ao escópico: o ideal do eu, ponto em que o sujeito se vê como amável, e o supereu, olhar que vigia e pune. Aqui se mostra que o olhar é objeto causa de angústia.

O ver é equívoco

Na percepção, o perceptum (o que é percebido) é equívoco. Apesar desta equivocidade permanecer menos manifesta na percepção visual, devido ao poder unificador da imagem que dá forma ao visual. Mas nós reencontramos a equivocidade do visto quando incluímos o sujeito no campo do fenômeno, uma vez que ele deve sempre se situar em um ponto de vista.

O Olhar é invisível

O que constitui a visibilidade para aquele que vê é o olhar. O olhar é um objeto invisível que está no fundamento da visibilidade: que faz, do sujeito que percebe, objeto percebido. O olhar não é um olhar do sujeito e sim um olhar que incide sobre o sujeito, é um olhar que o visa: olhar inapreensível, invisível, pulsional. A pulsão está na base do dar-a-ver do sujeito e o afeta através de um olhar que o objetiva e ao mesmo tempo se encontra excluído da visão.

Referências[editar | editar código-fonte]

Freud, S. (1987). Edição Standard brasileira das Obras psicológicas completas de S. F. Rio de Janeiro: Imago. "O Estranho" (1919h)

Quinet, A. (2002) Um olhar a mais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Calvino, I. (2004) Contos fantásticos do século XIX escolhidos por Italo Calvino. São Paulo: Companhia das Letras.

Crítica literária sobre O Homem de areia[editar | editar código-fonte]

ISBN 8531208521

ISBN 9788531208522