Ocidentais (livro)
| Ocidentais (em Poesias Completas) | ||||
|---|---|---|---|---|
| Autor(es) | Machado de Assis | |||
| Idioma | Português | |||
| País | ||||
| Gênero | Poesia | |||
| Editora | Garnier | |||
| Lançamento | 1901 | |||
| Páginas | 289-361 das Poesias Completas | |||
| Cronologia | ||||
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Ocidentais é um livro de poesias escrito por Machado de Assis. Foi publicado pela primeira vez em 1901, juntamente com Crisálidas, Falenas e Americanas, na coletânea Poesias Completas.[1] Compõe-se de 27 poemas, dos quais quatro são traduções.
"O percurso artístico rumo à perfeição, atingida nos poemas de maturidade, tem o seu grande final na publicação de Ocidentais. O cuidado formal, o minucioso tratamento artesanal do poema, a escolha de temas mais amplos e universais, o conhecimento e a prática das várias configurações métricas e rímicas, o árduo treinamento para a conquista de um verso alexandrino irretocável, elogiado até pelo feroz tratadista português Antônio Feliciano de Castilho, demonstram claramente o ingresso de Machado de Assis na galeria dos clássicos modernos [...]."[2]
Poesias
[editar | editar código]As poesias que compõem o livro são:
- O Desfecho. Soneto sobre o mito de Prometeu, que roubou o fogo aos deuses e por isso foi condenado a um eterno suplício.[3]
- Círculo Vicioso. Soneto sobre a eterna insatisfação & inveja: o vagalume gostaria de ser uma estrela, que por sua vez queria ser a lua, que por sua vez queria ser o sol, que por sua vez, completando o círculo vicioso, preferiria ser um simples vagalume:
Bailando no ar, gemia inquieto vagalume;
— "Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:
— "Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:
— "Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!"
Mas o sol, inclinando a rútila [cintilante] capela [grinalda]:
— "Pesa-me esta brilhante auréola de nume [divindade]...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela [chapéu de sol]...
Por que não nasci eu um simples vagalume?"
- A Artur de Oliveira, enfermo. Publicado pela primeira vez, sem título, no perfil de Artur de Oliveira, em A Estação, de 31/8/1882. O perfil foi incluído em Papéis avulsos.[5]
- Mundo Interior. Soneto onde Machado contrasta o mundo exterior, a natureza, com o mundo interior, a alma humana, ambos igualmente imensuráveis.
- O Corvo. Tradução do poema The Raven, de Edgar Allan Poe.
- Perguntas sem Respostas.
- To Be or Not To Be. Tradução do famoso monólogo de Hamlet, "Ser ou não ser, eis a questão...", na peça de William Shakespeare.
- Lindoia. A índia Lindoia, retratada originalmente no poema O Uraguai de Basílio da Gama, é retomada por Machado de Assis neste poema de 1895, centenário da morte de Basílio da Gama.[6]
- Suave Mari Magno. Em latim, no original. O título é um trecho do Livro 2 do poema De rerum natura de Lucrécio: Suave, mari magno turbantibus aequora ventis, / e terra magnum alterius spectare laborem, cuja tradução é: "É agradável, quando no mar largo os ventos levantam as ondas, contemplar da terra firme os perigos a que os outros se acham expostos”, ou seja, "pimenta nos olhos dos outros é refresco". Trata-se de um dos mais conhecidos poemas de Machado de Assis, tendo sido gravado pelo Barão Vermelho em 1989, com o mercadológico título de 'Rock do cachorro morto'."[7] O poema curto mas poderoso "apresenta um tema pouco comum na obra machadiana: o prazer diante do sórdido".[8]
Lembra-me que, em certo dia,
Na rua, ao sol de verão,
Envenenado morria
Um pobre cão.
Arfava, espumava e ria.
De um riso espúrio e bufão,
Ventre e pernas sacudia
Na convulsão.
Nenhum, nenhum curioso
Passava, sem se deter,
Silencioso,
Junto ao cão que ia morrer,
Como se lhe desse gozo
Ver padecer.
- A Mosca Azul. Alegoria sobre a ilusão do poder e da riqueza.
- Antônio José. Poema curto aludindo ao teatrólogo, morto pela Inquisição portuguesa, António José da Silva, alcunhado de "O Judeu". O subtítulo é a suposta data de sua morte, 21 de outubro de 1739.
- Spinoza. Poema sobre o filósofo Spinoza que, ao mesmo tempo em que elucubrava seu pensamento panteísta, ganhava a vida no ofício de polir lentes.
- Alencar. Soneto em homenagem ao escritor José de Alencar, morto em 1877.
- Camões. Quatro sonetos em homenagem ao poeta lusitano Camões.
- 1802-1885. Poema em homenagem ao escritor francês Victor Hugo, nascido em 1802 e falecido em 1885.
- José de Anchieta. "Poema que nasceu de um pedido do professor João Monteiro, residente em São Paulo, que desejava incluir um original de Machado em sua conferência sob o tema 'Anchieta na poesia e na lenda brasileira', proferida em dezembro de 1897. Quatro anos mais tarde o poema foi incluído nas Ocidentais."[9]
- Soneto de Natal. Um dos sonetos mais populares de Machado de Assis, que termina com a famosa frase "Mudaria o Natal ou mudei eu?", escrito a pedido de Olavo Bilac para integrar o número de Natal de 1896 da revista A Bruxa.[10]
- Os Animais Iscados da Peste. Tradução de Les Animaux malades de la peste, fábula de Jean de La Fontaine.
- A Felício dos Santos. Soneto em homenagem a esse amigo de Machado.
- Maria. Soneto escrito originalmente no álbum de D. Maria de Azambuja e publicado no Almanaque das Fluminenses (1891) e A Cigarra (2/1/1896).[11]
- A uma Senhora Que Me Pediu Versos. Poema escrito originalmente "no álbum da irmã de um dos nossos poetas mais esperançosos", segundo Artur Azevedo.[12]
- Clódia. Poema longo publicado originalmente na Semana Ilustrada.
- Velho Fragmento. Trechos do poema de juventude de Machado de Assis, O Almada, que só veio a ser publicado quase na íntegra (quase porque algumas folhas do manuscrito se perderam) na coletânea póstuma Outras Relíquias organizada por Mário de Alencar.
- No Alto.
Desenvolvimento poético de Machado de Assis
[editar | editar código]Em Uma História da Poesia Brasileira, o poeta e ensaísta Alexei Bueno observa que Machado de Assis foi "um poeta de evolução lenta, um poeta que, inequivocamente, escreveu na plena maturidade ou mesmo na velhice seus melhores poemas". Se por um lado os poetas românticos atingiram a maturidade em idade prematura, até porque morreram cedo demais – Álvares de Azevedo aos 20 anos, Casimiro de Abreu aos 21, Junqueira Freire aos 22, Castro Alves aos 24, Fagundes Varela aos 33, etc. – por outro lado, os mais admirados poemas de Machado de Assis – "Círculo Vicioso", "Soneto de Natal", "Mundo Interior", os sonetos a Camões, etc. – aparecem neste seu último livro de poesias, Ocidentais, lançado no ano em que completou 62 anos de vida.[13] Assim como a obra infanto-juvenil de Monteiro Lobato eclipsa seus magníficos contos para adultos, também os romances e contos geniais de Machado talvez acabem eclipsando sua grandeza como poeta.[14]
Referências
- ↑ «Ocidentais». Consultado em 30 de dezembro de 2025
- ↑ Cláudio Murilo Leal, "Recepção crítica à poesia de Machado de Assis", na Revista Brasileira no 55 de abril-maio-junho de 2008, pág. 256. A revista está disponível na Internet em: «Revista Brasileira 55» (PDF). Consultado em 31 de dezembro de 2025
- ↑ Machado de Assis. «O Desfecho». Consultado em 31 de dezembro de 2025
- ↑ Vitor Cei. «Uma criatura: o problema do niilismo na poesia de Machado de Assis». Consultado em 31 de dezembro de 2025
- ↑ Ver Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, verbete "A Artur de Oliveira, enfermo".
- ↑ Maria Edileuza da Costa, "Lindoia, Moema... Carolina, Iracema: Mitos Românticos da Literatura Brasileira", artigo disponível na Internet.
- ↑ Ver Wilberth Salgueiro. «Suave mari magno, de Machado de Assis». Consultado em 30 de dezembro de 2025
- ↑ Fabiana Gonçalves. «Sadismo ou Demonismo na poética de Machado de Assis» (PDF). Consultado em 30 de dezembro de 2025
- ↑ Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, verbete "José de Anchieta".
- ↑ Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, verbete "Soneto de Natal".
- ↑ Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, verbete "Maria".
- ↑ Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, verbete "A uma Senhora que me pediu versos".
- ↑ Alexei Bueno, Uma História da Poesia Brasileira. Rio de Janeiro: G. Ermakoff, 2007, pág. 157.
- ↑ Opinião pessoal do autor do verbete.


