Omolu

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa


Omolu
Escultura de Carybé em madeira exposta no Museu Afro-Brasileiro, em Salvador, representando Omolu
Omolu
Deus da cura sobre as doenças epidêmicas e de espíritos desencarnados
Pais Oxalá e Nanã
Irmãos Oxumarê e Yewa
instrumento xaxará
sincretismo São Roque, São Lázaro

Omolu (do yorubá Ọmọlu, filho do senhor) é um orixá com poderes sobre a cura da varíola e doenças contagiosas assim como Obaluaiyê e Xapanã, com quem costuma amplamente ser confundido, apesar de serem diferentes divindades. É ligado simbolicamente ao mundo dos mortos. Senhor da cura sobre doenças, especialmente as epidêmicas.[1]

História[2][editar | editar código-fonte]

Conforme a mitologia Iorubá, Omolu é filho de Nanã e Oxalá, tendo nascido cheio de feridas e de marcas pelo corpo como sinal do erro cometido por ambos, já que Nanã seduzira Oxalá, mesmo sabendo que ele era interditado por ser o marido de Iemanjá.

Ao ver o filho feio e mal-formado, coberto de varíola, Nanã o abandonou à beira do mar, para que a maré-cheia o levasse. Iemanjá o encontrou quase morto e muito mordido por caranguejos, e, tendo ficado com muita pena, cuidou dele até que ficasse curado. No entanto, Omolu ficou marcado por cicatrizes em todo o corpo, tão feias que o obrigavam a cobrir-se inteiramente com palhas. Não se via de Omolu senão suas pernas e braços, onde não fora tão atingido. Aprendeu com Iemanjá e Oxalá como curar estas graves doenças. Assim cresceu Omolu, sempre coberto por palhas, escondendo-se das pessoas, taciturno e compenetrado, sempre sério e até mal-humorado.

Um dia, caminhando pelo mundo, sentiu fome e pediu às pessoas de uma aldeia por onde passava que lhe dessem comida e água. Mas as pessoas, assustadas com o homem coberto desde a cabeça até os pés com palhas, expulsaram-no da aldeia e não lhe deram nada. Omolu, triste e angustiado, saiu do povoado e continuou caminhando pelos arredores, observando as pessoas. Durante este tempo, os dias esquentaram, o sol queimou as plantações, as mulheres ficaram estéreis, as crianças cheias de varíola e os homens doentes. Acreditando que o desconhecido coberto de palha amaldiçoara o lugar, imploraram seu perdão e pediram que ele novamente pisasse na terra seca.

Ainda com fome e sede, Omolu atendeu ao pedido dos moradores do lugar e novamente entrou na aldeia, fazendo com que todo o mal acabasse. Então homens os alimentaram e lhe deram de beber, rendendo-lhe muitas homenagens. Foi quando Omolu disse que jamais negassem alimento e água a quem quer que fosse, tivesse a aparência que tivesse. E seguiu seu caminho.

Chegando à sua terra, encontrou uma imensa festa dos orixás. Como não se sentia bem entrando numa festa coberto de palhas, ficou observando pelas frestas da casa. Neste momento, Oyá, o viu nesta situação e, com seus ventos levantou as palhas, deixando que todos vissem um belo homem, já sem nenhuma marca, forte, cheio de energia e virilidade. E dançou com ele pela noite adentro. A partir deste dia, Omolu e Oyá se uniram contra o poder da morte, das doenças e dos maus espíritos, evitando que desgraças aconteçam entre os homens.

Características rituais[editar | editar código-fonte]

Símbolos[editar | editar código-fonte]

Tem, como emblema, o xaxará (Sàsàrà), espécie de cetro de mão, feito de nervuras da palha do dendezeiro, enfeitado com búzios e contas, em que ele capta das casas e das pessoas as energias negativas, bem como "varre" as doenças, impurezas e males sobrenaturais.

Vestimenta[editar | editar código-fonte]

A vestimenta é feita de ìko, é uma fibra de ráfia extraída do Igí-Ògòrò, a palha da costa, elemento de grande significado ritualístico, principalmente em ritos ligados ao sobrenatural, sua presença indica que algo deve ficar oculto. É composta de duas partes: o "filá" e o "azé". A primeira parte, a de cima, que cobre a cabeça, é uma espécie de capuz trançado de palha da costa, acrescido de palhas em toda sua volta, que passam da cintura.

O azé, seu asó-ìko (roupa de palha), é uma saia de palha da costa que vai até os pés em alguns casos. Em outros, acima dos joelhos, por baixo desta saia, vai um xokotô, espécie de calça, também chamado "cauçulu", em que oculta o mistério da morte e do renascimento. Nesta vestimenta, acompanham algumas cabaças penduradas, onde supostamente carrega seus remédios. Ao vestir-se com ìko e cauris, revela sua importância e ligação com a morte. A palha da costa é mais encontrada no norte do Brasil.

Referências

  1. Verger, Pierre (1999). Notas sobre o culto de orixás e voduns na Bahia de Todos os Santos. [S.l.]: EdUSP 
  2. Verger, Pierre (1997). Orixás, deuses Iorubás na África e no Novo Mundo. [S.l.]: Currupio