Operações militares no golpe de 1964

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Nas operações militares no golpe de 1964 parte das Forças Armadas e Polícia Militar, associadas a governadores e outros elementos civis, entrou no dia 31 de março de 1964 em rebelião contra o governo de João Goulart, ao qual permaneceram leais os militares legalistas. Militares ocuparam vias, prédios públicos e centros de transportes e comunicações, realizaram proteções e prisões de civis e deslocaram-se por grandes distâncias, cruzando várias fronteiras estaduais. Legalistas e rebelados moveram-se uns contra os outros, em vários momentos chegando à iminência de choque, mas não houve combate, com apenas 7 mortos. Em poucos dias a rebelião, associada à atuação civil, como a do Congresso Nacional, levou ao colapso da reação legalista, a posse de Ranieri Mazzili na Presidência, a fuga de Goulart ao Uruguai e o início da ditadura militar brasileira.

Mapa simplificado dos deslocamentos

Contexto[editar | editar código-fonte]

As Forças Armadas estão inextricavelmente ligadas à história da República, realizando uma longa sucessão de intervenções na política.[1] O papel exercido nessas transições de poder era o mesmo exercido pelo Imperador: o "poder moderador". Arbitravam conflitos político-partidários, deixavam o poder a civis e retornavam aos quartéis. Em 1964 a percepção era outra e a intervenção militar na política transcendeu o "poder moderador", iniciando uma série de presidentes militares.[2]

A Presidência João Goulart[editar | editar código-fonte]

Jango assume a faixa presidencial

Em 1961, Jânio Quadros sabia da simpatia que tinha entre os militares e de sua hostilidade já definida das altas patentes contra seu vice, João Goulart (Jango), desde os anos 50, quando como Ministro de Trabalho sua proposta de 100% no salário mínimo foi derrubada pelo "Manifesto dos Coronéis". Eles o viam como despreparado, influenciável por seu cunhado radical, Leonel Brizola, e ligado aos sindicalistas e ao socialismo. Assim, ao enviar seu vice à China comunista e renunciar, pretendia um golpe. Quando Goulart quis tomar posse, os ministros militares, entre eles Odílio Denys, da Guerra, procuraram impedi-la. A Campanha da Legalidade, apoiada pelo III Exército do general Machado Lopes, reagiu. As Forças Armadas ficaram divididas. A crise foi solucionada empossando Jango à frente de um sistema parlamentarista que esvaziava seu poder.

Goulart conseguiu antecipar o referendo que decidiria pelo retorno ao presidencialismo. Para tanto, Jair Dantas Ribeiro, comandante do III Exército, declarou-se incapaz de manter a ordem se não ocorresse a antecipação, pressionando o Congresso, no que foi apoiado por Osvino Alves, do I Exército. Em 1963 o eleitorado optou pelo presidencialismo e o Presidente recuperou seus poderes.[3][4]

O sistema político encontrava-se em "paralisia decisória".[5] A conjuntura econômica era de quase hiperinflação, crescimento per capita negativo e perda de crédito externo. As greves eram numerosas,[6] expressão de uma intensa mobilização das forças populares por reformas[7] e da tensão entre as classes sociais. O Presidente buscava implantar as reformas de base. Em seu esforço político buscou apoio no centro e tentou, sem sucesso, intervenções na Guanabara e em Pernambuco e a decretação do Estado de Sítio. Com as reformas atravancadas pelo Congresso, voltou-se às esquerdas para com elas exercer a pressão para levar adiante seu programa. A reação da direita crescia e as oposições civil e militar convergiam.[6][8] Com o resultado do plebiscito do presidencialismo, sobressaía a opção de conspirar pela derrubada do governo.[9]

Os descontentamentos[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Ameaça comunista no Brasil

Os militares golpistas viam no quadro brasileiro e entendiam como justificativa para sua ação três grupos de fatores: o caos político e administrativo, a subversão da hierarquia (como discutido adiante) e a ameaça esquerdista e comunista[10] ("crescimento do PTB, em particular; crescimento dos partidos de esquerda em geral, descontentamento da classe operária, influência comunista no governo, influência comunista no meio militar, perigo comunista e subversão, sindicalismo"); internamente, além da crise na hierarquia preocupavam também a interferência governamental, a remuneração e o orçamento.[11]

O anticomunismo era cultivado no meio militar desde a Intentona Comunista e foi reforçado pela influência americana. Pelo conceito da "Guerra Revolucionária" ensinado aos oficiais, através desta, iniciada com uma campanha psicológica, os comunistas chegariam ao poder, e sua infiltração nos quartéis faria parte disso. Quanto à associação de Goulart com o comunismo, os depoentes na História Oral do Exército discordam entre si se ele era ou não comunista, mas concordam que criava um ambiente favorável aos comunistas. Seu plano seria tornar-se ditador (as comparações com Vargas são frequentes) de uma "república sindicalista", convertendo as Forças Armadas em sua milícia.[12] No conceito de "guerra interna", as ameaças à segurança nacional eram domésticas — "sindicatos trabalhistas de esquerda, os intelectuais, as organizações de trabalhadores rurais, o clero e estudantes e professores universitários" — e precisavam ser neutralizadas; Goulart, aproximando-se das mesmas, era então também um alvo.[11]

Alas militares[editar | editar código-fonte]

O Presidente confiava na lealdade das Forças Armadas através do "dispositivo militar" montado por seu chefe do Gabinete Militar, Argemiro de Assis Brasil. Este constituiu um "sistema autônomo de contatos com os comandos militares". Os comandos importantes, especialmente no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, estavam nas mãos de homens de confiança do governo, a começar pelo Ministro da Guerra, frequentemente alterado; desde junho de 1963, era Jair Dantas Ribeiro. Já oficiais outrora poderosos que certamente eram ameaças, ou mesmo de pouca confiança, estavam na reserva, em posições inofensivas ou no limbo burocrático chamado "canil". O peso do "dispositivo" se fazia sentir pelos golpistas, mas no golpe sua lealdade mostrou-se ilusória. Além disso, os órgãos de informações foram subaproveitados, enquanto o envio dos indesejados a posições logínquas e a promoção de oficiais mais leais em detrimento dos mais capazes eram políticas impopulares.

Predominava nos quartéis a "grande massa politicamente amorfa".[8][13][14] Para Odílio Denys, "o militar é legalista por natureza" e a oficialidade até tarde permaneceu majoritariamente com essa postura.[15] Temiam os riscos de participar de qualquer movimento, e em seu "legalismo inercial" permaneciam neutros enquanto o vencedor da crise não fosse aparente.[16]

Ao redor de 100 oficiais, 20–30 deles superiores, eram parte da sigilosa base militar do Partido Comunista, o "Setor Mil", conhecida inteiramente só por Luís Carlos Prestes e dois membros da comissão executiva. Na Aeronáutica eram 20 oficiais, incluindo 4 coronéis e 2 brigadeiros, entre eles Francisco Teixeira, comandante da temível III Zona Aérea no Rio de Janeiro.[8]

Os oposicionistas eram "conspiradores históricos" e "jovens oficiais".[6] Um número era formado na Escola Superior de Guerra (ESG), a "Sorbonne" brasileira, de influência francesa e americana. Formavam a ala dos "modernizadores", cujos representantes incluíam Humberto de Alencar Castelo Branco, Golberi do Couto e Silva, Ernesto Beckmann Geisel, Antônio Carlos da Silva Muricy e Osvaldo Cordeiro de Farias. Estavam associados às elites mais avançadas, com ligações internacionais, e a seu projeto amplo de desmontar o sistema político populista e o modelo de desenvolvimento econômico-social vigente.

Militares sem associações com a ESG e sem seu projeto de mudança política, econômica e social formavam os "tradicionalistas", entre os quais estavam Olímpio Mourão Filho, Joaquim Justino Alves Bastos, Amaury Kruel e Artur da Costa e Silva. Associavam-se aos políticos — PSD, UDN, governadores — à indústria menos dinâmica e aos latifundiários, e sua mobilização contra o regime populista era de caráter mais reativo, contrário à "comunização" e à reforma agrária. À hora do golpe controlavam dois exércitos e uma divisão de infantaria, motivo pelo qual concretizaram a tomada do poder, mas este imediatamente passou aos "modernizadores" por sua base socioeconômica mais forte.

Um terceiro grupo de relevância menor eram os extremistas de direita, representados pelo Coronel João Paulo Moreira Burnier, muitos contatos na Aeronáutica, que ele ajudou a mobilizar, alguns poucos no Exército, como o Coronel Jayme Portella, e outros na Marinha. Eram anticomunistas e antipopulistas radicais, aderentes da modernização conservadora, e estavam ligados a Júlio de Mesquita Filho, diretor do Estado de São Paulo.[2][17]

As baixas patentes[editar | editar código-fonte]

Segundo Gaspari, desde 1961 a disciplina e hierarquia que fundamentavam a instituição militar estavam em colapso: "algumas unidades viviam sob uma espécie de duplo comando. Centenas de oficiais suportaram situações vexatórias. Numa unidade da Vila Militar havia sargentos que não cumpriam escalas de guarda e mantinham paióis particulares." No aniversário do general esquerdista Osvino Ferreira Alves, "os marinheiros usavam a rede de transmissão dos navios para comunicar suas palavras de ordem e, pelo menos uma vez, abriram o cofre do Conselho do Almirantado para copiar a ata de uma reunião secreta". Isto ocorria com a aprovação do governo e ofendendo o oficialato.[8] A falta de coesão da instituição militar no período do golpe é "espécie de consenso".[18]

A "mazorca" ocorria num contexto em que a ampla agitação popular por reformas estendia-se às praças (militares entre as patentes de soldado ou marinheiro a suboficial ou subtenente). Ocorria nas três Forças, com alguma colaboração entre elas. Entre sargentos o aumento da capacidade técnica não correspondia à desvalorização social e havia politização, abrindo o risco da quebra de hierarquia. As exigências internas eram menos discriminação, maior liberdade na vida privada (casamento, uso de trajes civis) e de manifestação política e o direito de concorrer a cargos públicos. As externas incluíam as reformas de base, tomando partido na disputa política. Para o subtenente Jelcy Rodrigues Côrrea, "faremos as reformas juntamente com o povo; lembrem-se os senhores reacionários: o instrumento de trabalho do militar é o fuzil".[7][19] Os oficiais temiam a "infiltração vermelha" nas patentes inferiores. Já Goulart, para eles, aproveitava a ruptura entre as patentes procurando o apoio dos subalternos como contrapeso a qualquer iniciativa hostil dos superiores.[20]

Os subalternos podiam valer-se da revolta, e assim fizeram em setembro de 1963 e em março de 1964. O primeiro caso, a Revolta dos sargentos, ocorreu após o STF reiterar a inelegibilidade dos sargentos para o Legislativo. Cerca de 600 graduados da Aeronáutica e Marinha tentaram ocupar Brasília, aprisionando oficiais, um ministro do STF e o presidente em exercício da Câmara. O Exército sufocou a rebelião,[7][21] e seus sargentos praticamente não participaram.

Zimmermann argumenta que especificamente dentro do Exército o movimento dos subalternos era disperso e pouco relevante. Sua indisciplina era tópico político de preocupação, mas irrelevante contabilizando os casos, especialmente em comparação com os anos 30, quando era problema constante.[22] No Exército os sargentos ficaram do lado do golpe graças a um esforço de décadas no seu controle, formação, carreira, doutrinação, vida social e comprometimento pessoal.[18]

A revolta dos marinheiros

A Marinha conservava as antigas relações de mando e possuía um nível de antagonismo entre patentes inexistente nas outras Forças. Era marcada pela forte distinção social entre oficiais e praças. Aqueles, oriundos da elite e receptores de privilégios no trabalho. Estes, oriundos principalmente do Norte e Nordeste, viviam precariamente, distantes de sua terra natal. Não havia assistência social. Salários eram parcos, a alimentação ruim e a saída do quartel só podia ser fardada. Os marujos não podiam casar-se. A ascensão de carreira além da patente de cabo era difícil. O controle era rígido e as punições permaneciam registradas, como mácula. Eram malvistos pela sociedade e alguns estavam envolvidos com drogas e pequenos delitos. Assim formaram em 1962 a Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFNB), que chegou a 15 mil inscritos.

Originalmente com função assistencialista, passou a reivindicar mudanças nas condições de trabalho. Aproximou-se dos sindicatos e da base de Goulart, expandindo sua agenda para fora das questões da Marinha. Radicalizou-se com a intransigência do almirantado, que recusava-se a reconhecê-la e via suas ações como afrontas à hierarquia e disciplina. Gaspari descreve a AMFNB como transformada em "organização parassindical, monitorada pelo PCB". O conflito conduziu à prisão de 12 diretores que tinham debatido as reformas de base no Sindicato dos Bancários. Em seguida, em 25 de março de 1964, a assembleia de aniversário da Associação tornou-se vigília permanente pela liberdade dos presos e as reivindicações da Associação. O presidente, "cabo Anselmo", liderava. Representantes das esquerdas se fizeram presentes. Era a Revolta dos Marinheiros contra o ministro da Marinha, que caiu. Fuzileiros navais enviados em repressão uniram-se aos amotinados. Uma nova resposta militar estava em curso quando a rebelião terminou pela diplomacia, mas seu desfecho levou ao clímax da crise que derrubou Goulart.[23][24][25]

O fator americano[editar | editar código-fonte]

Lincoln Gordon e Goulart

Não houve condenação americana à tentativa de golpe na Crise da Legalidade, em 1961. Em 30 de julho de 1962, o embaixador Lincoln Gordon, conferenciando com o presidente J. F. Kennedy, falou em discretamente tornar claro aos militares, considerados favoráveis e anticomunistas, que os Estados Unidos não necessariamente seriam hostis a uma intervenção contra a esquerda. Discutiram também a nomeação de Vernon Walters como adido militar ao Brasil.

Pereira (2018) cita Bandeira, Netto e Tavares como autores que posicionam na raiz da hostilidade a Goulart a incompatibilidade de uma industrialização autônoma brasileira com a economia americana. Enfatiza, porém, a reação a novos fatos que se desenvolviam e os fatores políticos do momento. Eles eram a guinada anticomunista na política externa, influenciada pelo sul, e a atitude mais agressiva para controlar movimentos de esquerda na América Latina. A política externa existente, baseada em incentivos econômicos, foi bem-sucedida na Bolívia mas fracassou em Cuba. Especificamente quanto ao Brasil, a Casa Branca não aceitava que recebesse grandes somas da Aliança pelo Progresso ao mesmo tempo que seu Presidente fazia discursos antiamericanos e dava cargos importantes a figuras que considerava extremistas de esquerda.[26] Por sua vez, o embaixador acreditava que Goulart implantaria com um golpe uma ditadura peronista.[27]

Entretanto o conhecimento da situação brasileira era limitado e estavam abertos a várias possibilidades. Em 1961 e 1962 a política ainda era de empurrar Goulart em direção ao centro através de incentivos econômicos. As preocupações citadas, além da inflação, compra de helicópteros na Polônia, falta de apoio à expulsão de Cuba da OEA e expropriação de uma subsidiária da ITT por Brizola foram expressas por Bobby Kennedy a Goulart em 17 de dezembro de 1962. Não teve boa resposta e, com o plebiscito para o retorno ao presidencialismo, aumentava a autonomia de Jango. A partir de 1963 a assistência econômica ao Brasil foi sendo retirada. Um documento do Departamento de Estado de 3 de outubro de 1963 falava ainda em fortalecer em todos os setores da vida brasileira as forças oposicionistas. Campanhas eleitorais e governadores da oposição receberam financiamento americano.

A Casa Branca passou a ver com bons olhos a derrubada de Goulart e procurar parceiros brasileiros para tal. Em 7 de março de 1963 Gordon deixou em aberto a possibilidade de Goulart abandonar suas posições esquerdistas, e no contrário, os Estados Unidos deveriam criar um ambiente favorável à sua queda. A 7 de outubro ponderou possibilidades do futuro brasileiro como uma saída pacífica de Jango ou uma guinada radical à esquerda. A CIA encontrou conspirações contra o governo já em andamento: a 8 de março avaliava Odílio Denys como o arquiteto da maior. A questão era apenas qual seria a mais conveniente. As discussões tiveram resultado concreto na breve movimentação da frota americana na hora do golpe. Os interesses americanos conseguiram prevalecer por sua compatibilidade com os interesses de setores brasileiros.[26][28][29]

O caminho ao golpe[editar | editar código-fonte]

Conspiração e desestabilização[editar | editar código-fonte]

A "oportunidade perdida" de 1961 não foi abandonada. Em novembro desse ano já se reuniam grupos para discutir um movimento contra Goulart. Pode-se entender então a realização do golpe anos depois como resultado de um processo conspiratório de vários anos,[9] culminando na preparação de uma ofensiva contra Goulart. Inicialmente haviam esquemas defensivos,[30] como dos governadores contra um golpe do governo federal.[6] Na atuação contra o regime é possível distinguir a conspiração propriamente dita do esforço de desestabilização. Este já estava atuante em 1962, enquanto os preparativos só começaram em 1963. A desestabilização não necessariamente conduziria a um golpe (poderia apenas mudar o jogo nas próximas eleições), teve predominância civil e desde o início foi centralizada.[31][32][29] A conspiração se deu em núcleos geograficamente dispersos, que só adquiriram coordenação tardiamente.[33] Foi gestada nas altas patentes e muitos subordinados a executaram sem plena consciência dos motivos do movimento.[34]

O golpe é dito civil-militar e não somente militar. Sua construção e execução tiveram participação ativa de elites civis. Estas são identificáveis e dotadas de projeto de classe.[35] A importância dos militares cresceu ao aproximar-se a concretização da derrubada do Presidente, que foi iniciada com uma operação militar.[9] Tal movimentação de tropas foi bem-sucedida graças à desestabilização e ao espectro social que lhe deu sustentação.[36] A articulação das forças sociais hostis ao Presidente se dava através do complexo formado pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPÊS) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD). "Estado-Maior da burguesia internacional-associada", fazia um esforço ideológico e político para minar a sustentação do governo, além de mobilizar os militares.[5][37] Permitia contatos sigilosos destes com empresários, colhia informações e interligava núcleos e correntes de oficiais conspiradores.[38]

O IPES encontrou dificuldades em arregimentar recursos dos empresários e, por seu apoio a uma reforma agrária moderada, em persuadir os grandes proprietários. Já os conspiradores militares esbarravam no "legalismo inercial". Além de atividades conspiratórias, o golpe foi também resultado das escolhas tomadas dentro do jogo político e vários caminhos permaneciam abertos quando ocorreu.[16]

Expectativas[editar | editar código-fonte]

As articulações levavam em conta a hipótese de resistência e combate. No Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul o processo mais poderia ser sangrento.[39][40]

Somente Golbery adivinhou que o governo Goulart cairia como "castelo de cartas". Entre os demais golpistas reinou surpresa com o tempo decorrido. Para Muricy uns imaginavam seis meses de luta, e ele, apenas um.[41] Magalhães Pinto esperava 10 dias.[42] Segundo uma reportagem da Folha de São Paulo de 1965, Mourão Filho esperava no mínimo quatro meses. No caso do fracasso de Minas Gerais em avançar contra o Rio de Janeiro, poderia recuar aplicando terra arrasada até o sul da Bahia, onde com o apoio da oficialidade da 6ª RM e de forças civis rurais resistiria o avanço dos legalistas ao Nordeste.[43] O Estado preparava-se para três meses de combate.[39]

A geografia[editar | editar código-fonte]

Dentre as cidades de controle vital para o sucesso de um golpe, Brasília não tinha tanto valor. A presença do Congresso não importaria tanto quanto o poderio bélico, e sua guarnição era muito fraca.[44] Ainda assim figurava entre os dois objetivos dos conspiradores mineiros, ao lado do Rio de Janeiro.[45] Este era a "grande caixa-de-ressonância de todos os eventos nacionais importantes".[46] Grande parte da burocracia civil ainda não havia transferido à nova capital. O mesmo se dava com a militar, e o Ministério da Guerra continuava no Palácio Duque de Caxias. E ali havia imensa concentração de poder de fogo. Também eram importantes São Paulo como coração econômico, Belo Horizonte como parte de um triângulo com o Rio e São Paulo, e, nas áreas do III e IV Exércitos, Porto Alegre e Recife. O Paraná era a conexão entre o Sul e São Paulo.[45]

A Guanabara era o objetivo crucial, mas simplesmente amotinar a tropa ali não era desejado. O governo também sabia de seu valor, concentrando ali os comandantes fiéis. Os articuladores locais não comandavam quase nada. Restava, então, levantar em rebelião um grande Estado, como Minas Gerais ou São Paulo. Em seguida, conseguir adesões no restante do país e marchar contra a Guanabara. O governo teria que deixar parte da guarnição ali para controlar distúrbios, mas a reação que enviasse já estaria mais longe da supervisão e disposta a passar ao outro lado. Só com essa disposição geográfica e com o distanciamento dos comandantes de seus comandados a Guanabara poderia cair.[47]

Assim, D'Aguiar cita como o plano de "alguns revolucionários esclarecidos" a difusão do golpe como 1º) Minas Gerais, 2º) São Paulo e Mato Grosso e 3º) Rio Grande do Sul e Nordeste, culminando na "neutralização, e queda da Guanabara face às pressões externas".[46] Um plano da 2ª Seção do Estado-Maior do Exército concebia uma convergência contra Brasília (pelo Mato Grosso e Minas Gerais) e a Guanabara (por Minas Gerais e São Paulo). Os invasores chegariam até Viúva Graça, em Seropédica, e à refinaria em Duque de Caxias, lançando um ultimato. Os escalões médios e inferiores da oficialidade eram fora do controle do governo e não teriam vontade de lutar. Longe dali, no Sul e Nordeste, os militares apenas assegurariam o controle de suas regiões.[48]

Era importante ainda que nos grandes Estados de início houvesse o apoio dos governadores. Na opinião do marechal Odílio Denys, a revolta de uma guarnição sem significativo apoio político não passaria de uma "quartelada".[49] Mais do que isto, os governadores controlavam a Força Pública/Polícia Militar, fruto da decentralização da Primeira República, que na Constituição de 1891 permitia a cada Estado formar sua milícia. "A Força Pública era um Exército estadual".[50]

A deflagração acabou vindo de Minas Gerais, que sobressaiu como o Estado mais favorável para o pontapé inicial. Tinha a melhor geografia tanto para a defesa quanto para o ataque e a maior coesão entre o governado estadual e os militares. Sofria pela inferioridade bélica, e como solução a PMMG foi transformada em força de combate. O Espírito Santo seria o corredor ao apoio externo. São Paulo uniu-se a Minas na marcha contra a Guanabara.

I Exército[editar | editar código-fonte]

Castelo Branco

O I Exército, sediado na Guanabara, estendia-se também aos Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo. A Guanabara e Rio de Janeiro constituíam "celeiro de tropas",[52] constituídos na 1ª Divisão de Infantaria (da Vila Militar), Divisão Blindada, Núcleo da Divisão Aeroterrestre, Grupamento de Unidades-Escola e 1º Batalhão de Caçadores.[53] Comandava o general Armando de Moraes Âncora. Abaixo, na 1ª DI, Oromar Osório. Mais abaixo, na Infantaria Divisionária 1, Luís Tavares da Cunha Melo. Todos eram de confiança do governo. Havia também a forte III Zona Aérea com Francisco Teixeira e o Corpo de Fuzileiros Navais de Cândido Aragão, "Almirante do Povo".[8][54] Mas se os simpatizantes a um golpe não ocupavam comandos, eram maioria do posto de Tenente Coronel para baixo.[48]

Altos oficiais golpistas eram muitos, mas reformados ou em posições inofensivas. Entre eles estavam Orlando Geisel, Cordeiro de Farias, Nélson de Melo, Ademar de Queirós, Muricy, José Pinheiro Ulhoa Cintra, Golberi e Odílio Denys,[55] e a Marinha também estava envolvida.[56] Os generais-de-exército Castelo Branco e Costa e Silva tinham grande influência dentro dos círculos conspiratórios. O "tradicionalista" Costa e Silva ocupava o Departamento de Produção e Obras.[57] O "modernizador" Castelo Branco, o Estado-Maior do Exército, prestigiado e o segundo na hierarquia militar, mas sem tropa.[8] "Revolucionário tardio",[58] tinha a princípio um sentimento legalista. Beneficiava-se da expectativa que tinha por parte do governo; "ainda não caíra no index". Por isso atuava cautelosamente, o que não impediu que ocupasse posição central, possuindo alto posto na hierarquia e consenso dos demais quanto à sua liderança.[59] Ao conservar a imagem legalista, teve maior credibilidade quando voltou-se contra o governo.[60] Na virada de fevereiro a março de 1964 constituiu com Ernesto Geisel, Queirós e Golberi um "estado-maior informal" para coordenar a conspiração.[55] Carlos Lacerda (UDN), presidenciável e governador da Guanabara, era oposicionista ferrenho,[61] mas não participou das articulações finais, apenas sabendo que havia a conspiração em curso. Seus antecedentes nas derrubadas de Vargas e Jânio atraíam demasiada atenção, não prestando ao segredo. Também por ser concorrente a presidenciável pela UDN com Magalhães Pinto, governador de Minas Gerais, não recebia todas as informações daquele Estado.[59] Além disso vivia sob as armas dos poderosos comandantes legalistas. A cidade exigia cautela.[62] O meio civil era bem articulado, mais que em São Paulo, e o IPES tinha força.[56]

III Exército[editar | editar código-fonte]

Um risco para os conspiradores era o Rio Grande do Sul, possível baluarte legalista como em 1961:[63] tinha grande número de oficiais governistas e forte atuação do PTB — Porto Alegre era "possivelmente, o maior reduto trabalhista do país".[64] Era também Estado de imensa presença militar, sediando o III Exército, 3ª Região Militar e cinco divisões: a 3ª e 6ª de Infantaria, em Santa Maria e na capital, respectivamente, e nas fronteiras a 1ª (Santiago), 2ª (Uruguaiana) e 3ª (Bagé) de Cavalaria.[53]

Porém ali no meio civil o governador Ildo Meneghetti (PSD) era golpista desde sua eleição em outubro de 1962, abrigando conferências conspiratórias em Porto Alegre e atuando no restante do Estado como parte de sua "política de interiorização". Traçava planos e mantinha contato com outros governadores. Estavam alinhadas forças políticas, eclesiásticas, empresariais e ruralistas.[65] Armand Cattani, General da reserva, trabalhava com milícias de proprietários. O Cel Barcellos subvertia a polícia. Eram confiáveis a Polícia Civil, Brigada Militar e dois terços da oficialidade do III Exército.[56]

Um pioneiro da conspiração militar gaúcha era o general Mourão Filho, que assumiu a 3ª DI em outubro de 1961. Apoiara a posse do vice-presidente Goulart por ser a opção legal, e seu problema a princípio era Brizola, ainda governador. Era antipresidencialista, anticomunista e antigetulista. Travou uma "contra conspiração", esperando o pior dos militares associados a Jango. Conseguiu o apoio dos comandantes do II e III Exércitos, da 2ª e 3ª DCs e 5ª e 6ª DIs e da Artilharia Divisionária 3 (AD/3). No seu comando garantiu a seu lado os quartéis. Penha Brasil, do III Exército, acabou substituído por Jair Ribeiro, mas articulações já alcançavam todo o Sul.[66] Em reação a um movimento do governo, como o fechamento do Congresso, desencadearia o "Plano Junção". Deixando para trás uma unidade para guardar-se a sudoeste contra a 1ª DC, do general legalista Oromar Osório, a 3ª DI saltaria de uma só vez a noroeste de Porto Alegre, na margem norte do Rio Jacuí. Ali faria junção com a 6ª DI e colaborando com elementos anti-Brizola da Brigada Militar invadiriam o QG do III Exército,[67] derrubariam Brizola e poderiam por fim seguir ao Rio e derrubar o Presidente.

Mourão Filho foi transferido a São Paulo em 1963. O que conseguiu não era somente mérito seu, pois encontrou outras conspirações em formação e trabalhava paralelamente ao complexo IPES/IBAD, com o qual não tinha coordenação.[66] Continuavam conspirando os comandantes do III Exército, Benjamin Rodrigues Galhardo, 6ª DI, Adalberto Pereira dos Santos, e Brigada Militar, Cel Otávio Frota;[65] os dois primeiros estavam em contato com o poder estadual através do secretário de Segurança, Poty Medeiros.[68] Participavam também membros do "Círculo Militar" como o Gen Ibá Ilha Moreira e Maj Leo Etchegoyen e o chefe do Estado-Maior da Brigada, Cel Raul Oliveira.[65]

5ª Região Militar[editar | editar código-fonte]

O apêndice setentrional do III Exército era a 5ª Região Militar/Divisão de Infantaria. De Curitiba, cobria Paraná e Santa Catarina, sendo estratégica como a ponte entre o Rio Grande do Sul e a norte, São Paulo e restante do país; vários exércitos já cruzaram o território no passado. Tinha condições limitadas para barrar tal movimento. Sua força era parca, concentrada na capital e centro-sul paranaense, com uma grande inferioridade em relação aos efetivos gaúchos.[69] Ernesto Geisel foi o ali "principal organizador militar".[56] Chegou a comandar a guarnição mas acabou transferido a um cargo burocrático.[8] O "joão batista" que "apontou os caminhos" foi, então, Dário Coelho, da Artilharia Divisionária 5, sempre pregando sobre a seriedade da situação nacional.[70]

Entretanto, embora sabendo que algo aconteceria, os oficiais paranaenses não estavam perto da "cúpula revolucionária". Desconheciam o momento e forma da deflagração, seja pelas decisões no país terem sido tomadas por uns poucos líderes, seja por, como região de baixa prioridade, não receber a atenção dos mesmos.[69]

O governador do Paraná, Nei Braga (PDC), era "discretamente a favor",[56] embora abrigasse elementos de tendência esquerdista na administração. Foi motivo de preocupação aos conspiradores mas teve papel importante no desfecho.[69] O apoio civil contava com grandes proprietários de terras e líderes do IPES.[56]

IV Exército[editar | editar código-fonte]

Sediado no Recife, o IV Exército cobria todo o atual Nordeste, composto da 7ª Divisão de Infantaria e formações menores.[53] Era uma região "inflamável", marcada pela precariedade socioeconômica e a intensa agitação de forças populares como as Ligas Camponesas, de Francisco Julião.[71] O Recife sediava também o governo de Miguel Arraes de Alencar (PST), expoente da esquerda e presidenciável. Sua posição era frágil. De um lado, tinha a hostilidade do comandante do IV Exército, general Justino Alves Bastos. Do outro, até rivalidade com Goulart, que endossou Justino quando este impediu uma manifestação de camponeses na capital, e cujo governo "aparentemente endossou (não enviou tropas)" um lockout dos empregadores da capital, colaborando assim com os conservadores locais. Com uma polícia estadual fraca, seria vulnerável a um golpe, seja do governo federal ou dos militares. Só no meio político podia lutar.[72][73]

Entre os outros governadores, João de Seixas Dória, do Alagoas, era de uma ala à esquerda na UDN e defensor das reformas de base, posteriormente virando alvo dos golpistas.[74]Luiz de Sousa Cavalcante (UDN), de Alagoas, declarado anticomunista, estava articulado com o marechal Denys e foi um dos principais conspiradores no Nordeste.[75]

Justino estava ligado à rede de conspiradores que se estendia pelo país. Através do deputado federal José Costa Cavalcanti, tinha conexões com Castelo Branco e Costa e Silva. Ligava-se também a Denys e Cordeiro de Farias. As escutas do governador ouviam as comunicações telefônicas com o Rio de Janeiro, em linguagem ambígua — doenças, compra de terreno — e só tardiamente ele percebeu o que se passava.[76][77] O plano era esperar a deflagração em outra região, aderir, assegurar a ordem e em seguida derrubar Miguel Arraes e Seixas Dória. Só depois se cogitaria deslocar forças ao sul em apoio aos outros comandos; a falta de viaturas impossibilitaria operações ao sul da Bahia.[71][78]

II Exército[editar | editar código-fonte]

O governador de São Paulo, Ademar Pereira de Barros (PSP), confirmado como o candidato presidencial de seu partido na convenção nacional de 24–25 de fevereiro de 1964, só recebera dois milhões de votos no pleito anterior. Assim, além de sua oposição ao "processo socializante", juntou-se às articulações contra o governo na expectativa de melhorar suas chances na próxima eleição. O efetivo de sua Força Pública cresceu de 21.085 em 1962 para 31.000 em 1963, com treinamento mais rigoroso. Porém o governador recusava ter seu Estado como ponto de partida para não repetir o isolamento de 1932.[79][80]

Amauri Kruel

O Estado sediava a 2ª Divisão de Infantaria e vários batalhões; faziam parte do II Exército, que controlava também a 2ª Brigada Mista e 4ª Divisão de Cavalaria no Mato Grosso.[53] No início de 1963 Mourão Filho assumiu a 2ª Região Militar. Constituiu um Estado-Maior para a parte militar de sua insurreição, na qual era impulsionador e líder.

Tinha outro Estado-Maior para o meio civil. Ali atiçou as ligações com as elites, já existentes através do IPES/IBAD, que cobriam "empresários, sociedades de negócios rurais, associações de créditos, banqueiros e associações de indústria e de comércio, passando por jornalistas, donos de jornais, políticos e magistrados, grupo do almirante Heck (militares conservadores), grupo do general Agostinho Cortes (IPES) e o Instituto de Engenharia (projetos)". Os civis priorizavam a preparação psicológica e mobilização. Mourão Filho desejava uma Guarda Civil paramilitar para guarnecer pontos, liberando forças. Para tal, carabinas calibre 22 de cano curto para tumultos chegaram a ser fabricadas pela Imbel em Itajubá

Concebeu o que seriam os esboços das operações nomeadas e implementadas de fato em Minas Gerais: o controle da frente interna ("Silêncio" e "Gaiola") e uma marcha contra a Guanabara ("Popeye"). Esta teria à vanguarda três batalhões de infantaria, um da PM e um grupo de obuses, partindo cedo às 19:00 e avançando no mínimo até Barra do Piraí. Todas as outras forças marchariam atrás. Haviam linhas de parada na Via Dutra se o I Exército marchasse contra. Antes de tudo, porém, o QG do II Exército seria invadido. O então comandante, general Pery Bevilácqua, seria de preferência incorporado ao esquema, pois a intenção era que um general de patente mais alta assumisse o comando.

As ações de Mourão Filho beneficiavam o IPES, e ele sabia que estava à sua sombra. Quando já tinha sido útil o suficiente, tornou-se indesejado por sua impetuosidade, sendo distanciado e controlado. Em seguida o lado do governo federal, sabendo de sua periculosidade, o transferiu a Minas Gerais em agosto.[81][82]

Amauri Kruel, comandante do II Exército desde dezembro de 1963, era "angustiado pelo conflito que vivia".[83] Era amigo de Goulart: participara da comitiva que o levou a Brasília na crise de sucessão em 1961 e recebera financiamento para uma fazenda no Espírito Santo e emprego para o filho no Loide Brasileiro em Nova Orléans.[8] Ao mesmo tempo, era anticomunista, sabia que o cenário de um golpe estava no ar e mantinha contato com relação ao tema com Costa e Silva e Castelo Branco. Um dos planos dos conspiradores paulistas era prender Kruel e Ademar se prosseguisse a aparência de indecisão.[84]

4ª Região Militar[editar | editar código-fonte]

O último destino de Mourão Filho foi a 4ª Região Militar/Divisão de Infantaria, compreendendo Minas Gerais e subordinada ao I Exército. Era um comando híbrido, de RM e de DI, como a 5ª (Curitiba) e 7ª (Recife), as três de menor prioridade.[85] A sede era Juiz de Fora. A Infantaria Divisionária 4, de Belo Horizonte, supervisionava o 12º Regimento de Infantaria na mesma cidade, o 11º em São João Del-Rei e o 10º em Juiz de Fora. A Artilharia Divisionária 4, de Pouso Alegre, o 4º Regimento de Obuses de 105 mm, com o 1º Grupo em Juiz de Fora e o 2º na sede. Os regimentos eram de um batalhão, à exceção do 12º com dois.[86][53] O Grupo de Pouso Alegre era "de cartolina". O restante das forças no Estado eram 200 praças na Escola de Sargentos das Armas em Três Corações e uma bateria de canhões de 75 mm no CPOR de Belo Horizonte. A Aeronáutica tinha o contingente da Base Aérea de Belo Horizonte e a Escola Aeronáutica de Barbacena.[87]

Mourão Filho

Eram 4[88]–5 mil homens,[89] dos quais parte tinham instrução incompleta, servindo 3–4 meses por ano. O armamento era o último a ser distribuído. O comando tinha função logística, não operacional; o propósito de Minas Gerais era apenas fornecer recursos. Continental e distante das ameaças, era a última prioridade.[90] Assim o "dispositivo", sabendo do risco conspiratório do comandante da região e de Carlos Luís Guedes, da ID/4, não se preocupava, pois "não somavam um regimento adestrado".[8] Enganavam-se: ali Mourão Filho era mais perigoso ainda.

A hierarquia do Exército em Minas era conveniente: havia no estado uma só Grande Unidade, a 4ª RM/DI, em contraposição ao Rio Grande do Sul, no qual coexistiam seis, exigindo uma coordenação entre vários comandantes. A RM e a DI eram um comando só, ao contrário de São Paulo, onde os comandos da 2ª DI e 2ª RM eram distintos; assim, controlava todas as unidades do Exército em Minas Gerais, tendo liberdade para agir. A posição central do Estado o põe ao alcance de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília; Juiz de Fora é próxima da Guanabara, muito mais do que São Paulo ou Santa Maria. Ao mesmo tempo, o terreno montanhoso é vantagem defensiva numa guerra civil.

Mais importante ainda era o entrosamento entre os poderes militar e civil, maior que em São Paulo. Logo na chegada de Mourão Filho, conferenciou com Guedes e o governador José de Magalhães Pinto (UDN) e este aceitou participar da "revolução".[91] Era favorável às reformas de base e tolerava o PTB, sindicatos e setores da esquerda, o que era interpretado com desconfiança por centristas e anticomunistas[92] ou visto como malabarismo de um presidenciável que disputava a candidatura de Lacerda dentro da UDN.[93] Mas "estava disposto a derrubar Goulart" e apenas "usava processos tortuosos para desviar a atenção".[94] Acreditava, ainda, que o movimento exigiria uma chefia civil.[95] Magalhães Pinto era o "Chefe Civil", e Mourão Filho, o "Chefe Militar".[96]

Mourão Filho sondou aliados e possíveis denunciantes e constituiu seu "Estado-Maior revolucionário". Fez palestras para a tropa e os civis, doutrinando o anticomunismo, pregando contra Goulart e garantindo a lealdade dos oficiais.[91] Acelerou a instrução da tropa, o que poderia ter sido estranhado pela 3ª Seção do Estado-Maior do I Exército. Mas o comando, segundo ele, estava "exclusivamente preocupado em fazer política janguista de sargentos", e o próprio Guedes, a quem desprezava, não teria percebido.[97] Ia além do que desejava — a agitação do meio militar — o IPES mineiro, que já tinha sua estrutura conspiratória forte e do qual Guedes era agente. Assim, foi mantido sob supervisão, pois poderia ameaçar o sucesso dos arranjos conspiratórios.[91]

Nas palavras de Guedes, "tinha que ser Minas". Silva (2014) questiona a conclusão: o Estado serviu apenas de força precipitadora, e a deflagração poderia ter sido em outro. Ao golpe mineiro sucedeu-se outro golpe, carioca e paulista, que triunfou e escanteou as lideranças civis e militares mineiras na nova ordem.[98]

A dificuldade estratégica mineira[editar | editar código-fonte]

Segundo Henrique, filho de Guedes, ele perguntou ao pai como os 5 mil de Minas Gerais derrotariam os mais de 30 mil bem-armados do Rio de Janeiro. Ouviu que seria através das adesões; em 1930, Getúlio começou sem nenhuma força na capital.[89] A fraqueza militar do Estado era a principal dificuldade. A solução encontrada foi empregar a PMMG como força de combate, engrossando as fileiras do exército rebelde. Sua incorporação ao esquema era prerrequisito e foi garantida pelo caráter da corporação tanto como força auxiliar do Exército quanto como força do governador,[98] além do anticomunismo e da preocupação com a insubordinação dos militares subalternos.[99] Através de oficiais liderados por Guedes havia "ligação direta" do Exército com a Polícia Militar, organizada pelo IPES-MG.[100] José Geraldo de Oliveira, comandante da PMMG, era militante da organização e integrante da cúpula golpista no Estado.[101]

O efetivo cresceu de 11.376 em 1960[102] a 17.880 em 1964,[103] com fins bélicos, como admitiu o governador.[104] Haviam incrementado seu armamento das reservas do Exército (que, porém, também eram limitadas) e em oficinas. Empunhavam morteiros e "fuzis de repetição modelo Mauser, calibre sete milímetros, metralhadoras de mão modelo INA, calibre quarenta e cinco, o fuzil-metralhador modelo ZB (conhecido na PMMG como FMZB) e metralhadoras Madsen, ambos em calibre sete milímetros". Com a ajuda do Exército, na instrução a ordem pública perdeu desde 1962 prioridade para a guerra civil e o combate ao inimigo interno. O treinamento bélico especializava na defesa nas montanhas mineiras;[105] diante da força do inimigo a guerrilha era opção.[98]

Era necessário ainda assegurar o abastecimento do Estado no caso de um bloqueio do governo federal, e para tanto o Porto de Vitória e a Estrada de Ferro Vitória-Minas eram a alternativa logística através da qual poderia vir armamento externo, especialmente americano. Em março de 1964 a diplomacia de Magalhães Pinto venceu Francisco de Lacerda Aguiar (PTB), governador capixaba. Concordou no uso da corredor, no fornecimento de munição pelos mineiros e na concentração da PMMG na fronteira, que em momento oportuno defenderia o Estado, militarmente fraco (só a PMES e o 3º BC). Aguiar tinha um Estado pouco polarizado e boas relações tanto com o governo federal quanto com a oposição. Acreditando que seu Estado seria a primeira "república sindicalista", prevaleceu seu perfil conservador.[106] Outros acordos com Goiás e Mato Grosso garantiam a retaguarda.[92]

A situação no Espírito Santo era favorável, embora a capacidade defensiva da polícia capixaba na época seja desconhecida. Já o sucesso da transformação da PMMG em força de campanha foi limitado. No quesito de armamentos, eram obsoletos, pouco municiados e insuficientes. Numa guerra o Estado poderia mobilizar 4 mil homens no Exército, 18 mil na PMMG e 50 mil voluntários, cerca de 75 mil ao todo. Se viesse, o apoio americano demoraria um tempo para chegar, dando margem ao inimigo. O governo federal teria uma força de 200 mil. Sua derrubada ocorreu não pelo poderio mineiro mas por sua própria falta de vontade de lutar e pelos desdobramentos em São Paulo e Rio de Janeiro.[98][105]

A "Operação Popeye"[editar | editar código-fonte]

No plano de Mourão Filho, partiriam à noite as forças de Juiz de Fora — um batalhão de infantaria e outro de polícia, um grupo de artilharia e o Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado. Passariam Três Rios, desprotegida, às 22-23:00 e atingiriam a Guanabara às 05-6:00 da manhã. O restante do Exército e PM viriam atrás, tomando posição na orla da serra enquanto uma companhia guardaria o cruzamento das estradas para Petrópolis. Na Guanabara a vanguarda, após tomar o 1º Batalhão de Carros de Combate na Avenida Brasil, invadiria o QG do Exército enquanto um pelotão prenderia o Presidente no Palácio Laranjeiras, levando-o ao QG. Por fim, o grosso do destacamento iria na direção da Vila Militar para controlar as vias ao redor do QG ou para invadi-la de surpresa.[107][108][109][110] Concluiria com a emissão de um manifesto assinado pelos governadores.[111] Seria "Popeye" como referência ao charuto do general.[112]

Era conceito contrário ao do plano de Magalhães Pinto e Guedes: defender Minas e negociar. Para este, os "soldadinhos de 19 anos" e o "material paupérrimo" não serviriam a uma operação de comando. Mas para Mourão Filho, justamente por causa disso, um audacioso ataque de surpresa era a única opção. A força que parasse no meio do caminho seria destruída. Minas, "com mais buracos do que uma peneira no seu vasto contorno", era impossível de defender. Os "soldadinhos" só tinham capacidade psicológica para um avanço impetuoso, não uma prolongada defesa estática. O precedente histórico era 1932, quando os paulistas se detiveram em Barra Mansa mesmo tendo uma reação lenta e a oportunidade de atingir no mínimo Barra do Piraí, isolando Minas do Rio de Janeiro. "O tempo trabalha sempre contra as tropas revoltadas". Os planos para São Paulo e o Rio Grande do Sul já previam: não haveria parada.[109]

Estava confiante, pois "excluídos os Comandos da cúpula, aquela tropa estava ao lado da Revolução, e além disso, é da tradição da Vila Militar não lutar ali".[110] Depois do golpe descobriria ainda que o Cel Calderari, comandante do BCC da Avenida Brasil, era favorável ao movimento e não faria resistência.[108] Já Muricy depois questionaria o sucesso de tal operação, se efetuada: "Imaginar que se possa sair de Juiz de Fora com uma tropa, às oito ou dez horas da noite sem ninguém saber... entrar no Rio de Janeiro sem ninguém saber... ocupar o quartel-general sem ninguém saber... e depois que estivesse lá dentro dizer: "Eu estou revoltado! Sou dono do Brasil! "... E todo mundo dizer: "É dono do Brasil"... Com toda a tropa da Vila Militar pronta para descer... aquele exercício estaria liquidado, esmagado, não sobraria um!"[113]

O destacamento e o grosso estariam sob generais de brigada, com o comandante da 4ª RM/DI acompanhando o destacamento.[110] Arranjou no Rio o general Antônio Carlos Muricy, que em dezembro de 1963 concordou em comandar uma "missão suicida" de Minas. Ele já tinha à disposição, diretamente subordinado, dois general de duas estrelas: Ivan Pires Ferreira, na AD/4, e Guedes, na ID/4. O comando pertencia a Guedes por direito, e entregá-lo a outro duas estrelas "importado" do Rio de Janeiro era até uma inversão de hierarquia. Tal era a opinião do Cap Carlos Alberto Guedes, do Maj Brasiliano e de outros oficiais em Minas. Mas era justamente a intenção livrar-se do "fantasma de Guedes" e de sua estratégia de aguardar na defesa e negociar.[114][115][116] Tamanha era a repulsa que estava disposto a promover o Ten Cel Everaldo a General e entregá-lo o comando, mas não convinha hostilizá-lo a tal ponto.[117] No general Ferreira também abertamente não confiava.[118]

A reta final[editar | editar código-fonte]

Março 1964[editar | editar código-fonte]

O comício da Central do Brasil

A sequência de eventos no último mês de Goulart no poder, especialmente a Revolta dos Marinheiros e a reunião no Automóvel Clube,[119] são consistentemente citados pelos militares golpistas como causas imediatas da deflagração do golpe, escandalizando a oposição.

O comício da Central do Brasil, realizado no dia 13, foi forma de mobilizar a base popular em favor das reformas. Sob a presença do ministro da Guerra e um esquema de segurança militar, cartazes chamavam os militares de direita de gorilas, reacionários e antipovo. Alguns oficiais viam na presença do ministro ingenuidade e cumprimento da função, mas a maioria a viu como um "papel grotesco, lamentável sob todos os aspectos", um apoio a um governo que atacava a própria instituição militar. A partir dali muitos indecisos tomaram posição. No dia 20, a manifestação oposicionista, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, foi lembrada como respaldo popular à atuação contra o governo.

No dia 25 iniciou-se a Revolta dos Marinheiros. Ficaram rebelados no Sindicato dos Metalúrgicos, o que foi tomado como evidência de infiltração comunista. Conseguiram a demissão do Ministro da Marinha Sílvio Mota e sua substituição por Paulo Mário da Cunha Rodrigues, da reserva e esquerdista. O Cabo Anselmo estava na mesa de negociações. Os marinheiros não foram punidos conforme o regulamento. Presos em instalações do Exército, não da Marinha, foram soltos e comemoraram carregando nos braços o almirante Aragão. Era a humilhação da oficialidade da Marinha, e a do Exército tomava seu partido.

Por fim, na noite do dia 30, Goulart falou a uma multidão de suboficiais e sargentos no Automóvel Clube. O Cabo Anselmo estava presente. Optando por um discurso radicalizante e não conciliador, estaria subvertendo a hierarquia militar, pois a ligação de comando seria diretamente a ele e direcionada a seu programa. Era "a gota d'água para os conspiradores".[120][8]

Desenvolvimento americano[editar | editar código-fonte]

Lyndon Johnson herdou os planos de contingência para o Brasil desenvolvidos no mandato de Kennedy. Em janeiro de 1964, o Partido Republicano criticou sua reação a protestos no Panamá como demasiadamente fraca, e ele se preocupava com as eleições em novembro; não queria, assim, que um golpe no Brasil fosse um fracasso. Na reunião de 7 de outubro o embaixador tinha revelado que com o SOUTHCOM, baseado no Panamá, estudava como seria uma intervenção armada no Brasil. Exigiria seis divisões, navios, aeronaves e uma imensa mobilização de 60 mil homens - na época, haviam 16.300 no Vietnã. Era contingência para o caso extremo de intervenção cubana ou do bloco soviético. De acordo com Fico, tal possibilidade era muito remota, embora no caso de um conflito prolongado alguma alegação poderia ser pretexto.

Este plano era entidade distinta do que Johnson de fato autorizou, uma força-tarefa naval, em 20 de março de 1964. Incluiria poderio militar, para "mostrar a bandeira", como queria Gordon, e navios-tanque, como um empresário paulista pedira à CIA, e o general Cordeiro de Farias, a Vernon Walters. As reservas em estados-chave giravam em torno de um dia de uso e os "comunistas" controlavam portos e ferrovias mas não rodovias.[8][26][27] A Operação Brother Sam era a força-tarefa naval e não compunha a totalidade do plano de contingência.[121] Brasileiros como o general Ulhoa Cintra, auxiliar de Castelo Branco, sabiam do planejamento.[122]

Gordon queria armar uma insurreição de partidários de Castelo Branco em São Paulo.[123] No dia 28 oficiais da CIA, NSC e Departamento de Estado revisaram suas propostas do dia anterior. Aceitaram a entrega de combustível mas não viram sentido na entrega de armas por submarino, que seria de volume inexpressivo. Também o envio de uma força-tarefa naval foi avaliado como fora de lugar. No dia seguinte o embaixador replicou que uma exposição explícita e imediata de força — em resposta a um apelo do "lado democrático" — seria "influência saudável"; sugeriu ainda deixar armas preposicionadas para forças paramilitares de oposição. À véspera do golpe a CIA, inteirando-se em Belo Horizonte, previu: uma insurreição começaria na semana, com uma luta longa e sangrenta. Minas Gerais daria partida, São Paulo acompanharia e ambos marchariam sobre o Rio de Janeiro.[124][125]

Situação dos atores[editar | editar código-fonte]

O ministro do Exército Jair Dantas Ribeiro empregou os feriados para uma cirurgia no Hospital dos Servidores do Estado. Goulart sugeriu que a adiasse, dada a crise política, mas recusou; pode ter sido forma de não bater nem com o Presidente nem com os demais militares.[126] Com sua hospitalização, Âncora ou Anísio Botelho, da Aeronáutica, poderiam ter ocupado o posto, mas nenhum substituto foi nomeado. Respondia o chefe de gabinete, mas os quatro Exércitos ficaram sem articulação, deixando confusa a reação do governo na hora do golpe.[127]

A 20 de março Castelo Branco publicou uma circular reservada acerca da crise política. Via iminentes uma Constituinte e agitações do CGT, com objetivos revolucionários e antidemocráticos, e atribuía às Forças Armadas a posição de defensoras da ordem constitucional contra a ameaça de ditadura. Palavra por palavra seu texto não era subversivo, mas pelas entrelinhas "era a voz de um comandante convocando seus soldados."[126] Em resposta, em 24 de março Goulart decidiu por sua iminente demissão e substituição pelo general Galhardo, do III Exército. Ladário Pereira Teles, da 1ª RM, seria nomeado para a 6ª DI em substituição ao general Adalberto, e como oficial mais antigo, ocuparia o comando do III Exército.[128]

No IV Exército, a revolta na Guanabara repercutiu na criação do plano para o "controle integral" de sua área.[129] Na 5ª RM, no dia 29 os oficiais tinham se decidido por "assegurar a disciplina em qualquer circunstância, manter a hierarquia e combater o comunismo". Não falaram de golpe; quando chegou o dia 31, ficaram desinformados e só recebiam boatos.[69] Muricy foi avisado no dia 27 que Minas estava prestes a estourar.[130]

Ao dia 28 os jornais anunciavam a iminente transferência de Kruel do II Exército. A 42 oficiais, ele anunciou que se recusaria a entregar o cargo. A alguns que sugeriam iniciar ali mesmo um levante, respondeu que "A hora tem que ser exata".[131] Tanto Magalhães Pinto quanto Mourão Filho enviaram emissários para verificar se poderiam contar com São Paulo, os primeiros após consultar Dutra, Castelo Branco e Odílio Denys na Guanabara.[132][133][134] No dia 29, Kruel deu seu "OK" a Castelo Branco, para quem só com o II Exército o movimento seria risco calculado e não aventura.[135]

Guedes e o Cel José Geraldo, da PMMG, também estavam sob pressão para ser substituídos.[136] Mourão Filho tinha pressa de agir: se não fosse promovido, em 30 de abril cairia na cota compulsória, aposentando-se por atingir o limite de idade para um general-de-divisão.[8] A cúpula mineira reuniu-se no aeroporto de Juiz de Fora no dia 28, acrescida do marechal Denys, chamado ao Estado. Este revisou os apoios que tinham: Paraná, São Paulo e Mato Grosso "inteiramente nossos", grande parte da oficialidade no Rio de Janeiro, o IV Exército e no Rio Grande do Sul o interior embora não a capital. A segurança no IV Exército e interior gaúcho tinha sido mencionada também entre os emissários do governador e Castelo Branco.[132] Mourão Filho achou graça: "Todo mundo era do Denys", mas "tudo aquilo que alegava, de nada lhe servira em 1961".[137] Mas também estava preocupado com não dar a arrancada sozinho, motivo pelo qual buscou o contato com São Paulo e iria ainda à Guanabara ouvir do irmão de Kruel, Riograndino, que deveria partir.[134]

Definindo o dia D[editar | editar código-fonte]

Para Mourão Filho a "reunião escandalosa" já atrairia atenção demais do governo federal. Não havia tempo a perder. Queria, portanto, efetuar a "operação Popeye" imediatamente, na própria noite do dia 28. A proposta fracassou. Ao contrário do combinado, Magalhães Pinto não trouxe um manifesto. O que combinaram foi que o governador definiria a data e entregaria uma cópia do manifesto contendo uma "frase taxativa" da derrubada do Presidente. Mourão Filho, após iniciar a arrancada, daria o sinal para que o manifesto fosse emitido. Como eram exigidos dois dias para formar o secretariado estadual, Mourão Filho esperou o manifesto para o dia 29 ou 30. Outra data circulada na reunião era o 1º de abril.

O governo federal estava alheio à gravidade da situação. Nem mesmo percebeu a intensa e visível mobilização da PMMG, que transportou grandes volumes de suprimentos e no dia 29 já tinha congregado seus batalhões na capital — "a revolução já estava em marcha". De sua parte, o "Chefe Militar" escreveu que impacientemente aguardou até as 18:00 do dia 30 pelo manifesto para que pudesse partir. Hélio Silva registra que, ao visitar Mourão Filho no dia 29, Guedes afirmou que já partiriam no dia seguinte. A resposta: "Amanhã, não"; Guedes comentou que o dia seguinte era o último de lua cheia e não queria agir na minguante. Rubens, filho de Denys, narra que na reunião do aeroporto Mourão Filho queria mais tempo para se preparar, e ainda que seu pai teve a ideia de dar a partida no dia 31, aproveitando a repercussão política negativa esperada do iminente discurso no Automóvel Clube. Para acelerar Mourão Filho, Guedes combinou com Denys que provocaria a arrancada através de um fato consumado.[138][139][134][140][141]

Goulart no Automóvel Clube

Os fatos consumados do dia 30 foram a emissão de um manifesto pelo governador e a declaração de Guedes aos oficiais da ID/4 que Minas estava sublevada. Estavam rebelados. Mourão Filho só soube por um telefonema de Guedes às 15:00. Ficou enraivecido. A rebelião de Guedes era "de câmara", pois nem mesmo o comandante do 12º RI, principal unidade de Belo Horizonte, sabia; na hora do telefonema estava em Juiz de Fora. O manifesto, "pseudorrevolucionário", "romântico e inócuo", não continha a "frase taxativa" da deposição de Goulart, como combinado. "Goulart poderia até supor tratar-se de documento de apoio". Também foi contra o acordo entregá-lo à imprensa primeiro e informar o "Chefe Militar" depois. Guedes tinha "papel de traidor". Estava aberta uma disputa pela liderança dentro do golpe, na qual Magalhães Pinto ganhou vantagem com a atitude precipitada e ainda, tendo um manifesto inócuo, "se o movimento for precipitado, Magalhães poderá sempre dizer que nós nos precipitamos". Guedes, também, agora podia afirmar ter sido o deflagrador.

Entretanto Magalhães Pinto e Guedes ameaçavam a si mesmos e ao golpe. Se Goulart decidisse esmagar a rebelião e o telefonema de Guedes falhasse, antes mesmo do comando golpista desencadear a operação militar os legalistas já desceriam paraquedistas em Belo Horizonte e a Divisão Blindada em Juiz de Fora. Por sorte não percebeu nem levou a sério. E Belo Horizonte estava rebelada, mas Juiz de Fora não. Se Mourão Filho decidisse ser legalista, com o apoio do I Exército esmagaria Guedes e o governador.

Depois do jantar concluiu que daria a arrancada na madrugada do dia 31, com seu próprio manifesto. Não queria assistir o Presidente na televisão, pois desencadearia sua derrubada, mas sua mulher o fez ver justamente por causa disso.[142][143][134][144][145]

Os golpistas em Minas decidiram pela data antecipada à revelia dos de São Paulo e da Guanabara, que ficaram surpresos com a deflagração no dia 31.[146] Castelo Branco esperava que sua prisão pelo governo seria a senha para a deflagração, e surpreso, procurou sem sucesso fazer Mourão Filho voltar atrás.[147] A data seria o dia 2 de abril,[148] quando uma grande passeata oposicionista seria feita no Rio.[149] O dia 2 era de conhecimento de Carlos Lacerda.[150] No dia 30 o CGT denunciava haver golpe marcado para o dia 2.[149] Para Muricy os preparativos demorariam talvez até 10 de abril.[130]

O esboço geral[editar | editar código-fonte]

Decurso do golpe no país[editar | editar código-fonte]

O golpe começou às 05:00 do dia 31 com uma série de telefonemas de Mourão Filho. Castelo Branco tentou revertê-lo, mas a mobilização de Minas Gerais para a guerra era irreversível. Os golpistas mineiros negavam, e no restante do país reinavam boatos e a situação não era clara. Quando finalmente os batalhões começaram a chegar à fronteira Rio/Minas, em 17:00, a rebelião foi declarada. Nesse ponto Minas Gerais ainda estava isolada e oficiais legalistas dominavam a situação nas demais guarnições. No Rio de Janeiro só estavam do lado golpista Carlos Lacerda, acuado e defendido por sua PM, e as escolas militares da Urca, que deram escolta para Castelo Branco no Ministério da Guerra. Este, cercado por blindados e soldados legalistas, escapou (ou permitiu-se que escapasse) para a segurança de aparelhos; Costa e Silva fez o mesmo. O governo federal acabou reconhecendo a rebelião em Minas e anunciou que a esmagaria. Partiriam o 1º Batalhão de Caçadores de Petrópolis e regimentos da 1ª DI atrás. O general Cunha Melo estaria no comando. As tropas mineiras do Exército e PM seriam bastante inferiores no campo de batalha.

Às 19:05, Vernon Walters, adido militar americano no Rio de Janeiro, descreveu que "A revolução parece estar perdendo momentum por falta de apoio". No Congresso, as notícias ainda infundadas da adesão do II Exército eram ridicularizadas na bancada governista. Enquanto Kruel não tomava partido, o Ministério da Guerra ordenou um esquadrão de reconhecimento paranaense até a fronteira paulista, e o general legalista Zerbini foi ao Vale do Paraíba e deu ordens às forças locais nas direções de Minas Gerais e do restante do Estado. O comando em Curitiba dissimulou a ordem, mas Zerbini conseguiu controlar a tropa da região e recebeu a promessa de reforços — o general Anfrísio com o GUEs. Só à meia-noite, após o Presidente recusar um ultimato de abandonar a esquerda, Kruel pôs o II Exército rumo ao Rio de Janeiro, embora ainda buscando deixar uma rota política aberta para Goulart. O GUEs partiria então para lutar contra o II Exército. Tanto Anfrísio quanto Cunha Melo dispunham de forças superiores aos rebelados, mas acabariam perdendo pelas defecções e a baixa moral.

Nas palavras de Cordeiro de Farias, "O Exército dormiu janguista e acordou revolucionário". A força que Goulart aparentava no dia 31 (devida em parte apenas à inércia) esvaiu-se no dia seguinte. A proclamação de Mourão Filho repercutiu.

Na noite o 1º BC montou linha de frente contra Muricy na fronteira fluminense. A defecção de dois pelotões e desejo de defecção nos demais fizeram-no recuar, tornando desnecessária uma ação de envolvimento planejada. No sul, o governo precisava emplacar generais leais. Silvino e Crisanto, da 5ª RM, reassumiriam seus postos, e Ladário assumiria a 6ª DI e o III Exército. A descida dos dois primeiros foi impossibilitada e o Paraná e Santa Catarina mudaram de lado. Já Ladário tomou o posto; o general Adalberto, da 6ª DI, acabaria fugindo à guarnição de Cruz Alta, e Galhardo, do III Exército, não cumpriu sua promessa aos golpistas de prendê-lo. Pela madrugada do dia 1 Zerbini perdeu sua autoridade no Vale do Paraíba e Carlos Lacerda, com a defesa engrossada por voluntários, temia um ataque dos fuzileiros navais. Às 02:00 Adhemar de Barros anunciava: "seis estados (São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás, Paraná e Rio Grande do Sul) marcham contra Goulart".

De manhã o 1º Regimento de Infantaria, enviado contra Muricy, aderiu a ele, que passou por cima do que restava do 1º BC e cruzou a linha defensiva desprotegida do rio Paraíba. Justino rebelou o IV Exército às 09:00. Ele e Kruel demoraram, esperando a "direção do vento". O Forte de Copacabana rebelou-se. A 5ª RM lançou destacamentos contra a fronteira catarinense. No Rio de Janeiro a oficialidade da Marinha imobilizou os fuzileiros navais e Goulart ouviu que um governo golpista poderia receber reconhecimento americano. Zarpavam navios-tanque e de guerra americanos para se necessário apoiar a rebelião. O Presidente escolheu trocar o Rio de Janeiro por Brasília, decolando às 12:45. Pouco antes um time do ECEME, sob as câmeras da imprensa, invadia o QG de Artilharia da Costa. Com a saída de Goulart o "dispositivo" desmoronaria no I Exército.

À tarde as forças de Muricy encontraram as de Cunha Melo na região entre Areal e Três Rios, e Muricy preparou seu ataque. No vale do Paraíba, Anfrísio não passou de Barra Mansa, pois a Academia Militar das Agulhas Negras, do general Médici, tomou o partido do II Exército e entrincheirou seus cadetes na Via Dutra como barreira psicológica. O II Exército chegou atrás: era uma nova linha de frente. As forças de Anfrísio foram logo imobilizadas e enfraquecidas pelas defecções. No Rio de Janeiro a maioria das guarnições recusava-se a aderir, mesmo com o colapso do dispositivo legalista. Mas Âncora, com ordem de não derramar sangue e sugerido por Costa e Silva, negociou a partir das 18:00 a rendição do I Exército. Em Pernambuco, o governador Arraes, com seu Estado invadido pelo norte e sul, foi cercado no palácio e deposto. No Sul o governo ainda vencia: Ladário aplicou pressão sobre o governador oposicionista Meneghetti, que fugiu com o governo estadual para Passo Fundo.

Goulart chegou em Brasília às 15:00 ou 16:30. A fraquíssima guarnição da capital estava pouco confiável. De um lado tropas mato-grossenses chegavam ao sudoeste goiano, e do outro uma companhia estava a curta distância de um batalhão da PMMG. Às 16:00 informou Porto Alegre que seria seu novo destino. Em sua ausência Fico já começou a mudar de postura, guarnecendo o Congresso, que executou então um golpe institucional, empossando na madrugada o presidente da Câmara, Ranieri Mazzili, na Presidência. No Rio de Janeiro Castelo Branco e Costa e Silva deixaram seus esconderijos, o último declarando-se "Comandante Supremo da Revolução". Nomeou novo comandante para o I Exército, à revelia de Mourão Filho, que entrou com suas forças na cidade no dia 2.

A estadia em Porto Alegre só trouxe mais decepções. À exceção do batalhão rodoviário de Vacaria, que negou o Passo do Socorro aos rebeldes, o deslocamento que Ladário preparou rumo ao norte, contra a 5ª RM, não cumpriu-se. Controlava somente a 6ª DI na capital e no interior a 1ª DC, mesmo assim pela metade. As demais divisões, 2ª e 3ª DCs e 3ª DI, haviam constituído o "III Exército Revolucionário", que junto com o governo estadual preparava uma marcha contra Porto Alegre. O restante das Forças Armadas no país também traria seu peso, especialmente o II Exército, que deslocou uma força a Curitiba. Com sua fraqueza diante da coalizão nacional com apoio externo e sem vontade de guerra civil, Goulart preferiu a fuga. Após uma estadia em suas terras rumou ao exílio no Uruguai. Ladário deixou o III Exército e a resistência acabou.[151][8][152][41]

Objetivos e atitudes[editar | editar código-fonte]

Jango explicou a Tancredo Neves que "a revolução não era contra ele, mas contra as reformas".[153] Seu Ministro da Guerra,[154] seu Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e Kruel apresentaram propostas de apoio militar em troca de um rompimento com a esquerda e o sindicalismo, como a extinção do CGT. Juscelino Kubitschek propôs "a substituição do Ministério por outro marcadamente conservador, o lançamento de um manifesto de repúdio ao comunismo, a punição dos marinheiros e outras iniciativas de igual teor". Recusou todas. JK ouviu que assim daria a impressão de estar com medo. Com as exigências de Kruel, Goulart avaliou que "ficaria numa posição pior que a do Parlamentarismo"; recusava-se a ser "Presidente decorativo".[155]

Outra alternativa, segundo Gaspari, seria a radicalização: "golpear o Congresso, intervir nos governos de Minas Gerais, São Paulo e Guanabara, expurgar uma parte da oficialidade das Forças Armadas, censurar a imprensa, amparar-se no “dispositivo”, na sargentada e na máquina sindical filocomunista". Não fez.[152] Demonstrava tibieza e vacilação, pouco fazendo além da resposta militar à sublevação,[156] e mesmo assim não foi com ordens de ataque.[41] Dizia Morel: "No Rio a guerra era outra: batalha oratória pelo microfone da Rádio Nacional. Atacar o Palácio da Guanabara, colocar os carros blindados nas ruas e os aviões nos céus, movimentar a Esquadra, enfim, fazer funcionar o dispositivo militar, isto ninguém fez."[157] "Aos civis que lhe pediam armas, dizia que não daria armas a quem não sabia utilizá-las, e aos militares que queriam agir, ele pedia calma, pois, a seu ver, ainda não havia chegado o momento."[158]

Quando no dia 2 já estava diante de iminente guerra civil,[159] Goulart não quis "um massacre popular".[155] Reiterou sua recusa de qualquer "derramamento de sangue em defesa do meu mandato" na sua decisão final de deixar Porto Alegre.[160] Não faltariam meios para resistir, mas virtú de Goulart;[161] a historiografia dos vencidos atribui à sua inação, desde o dia 31, sua derrota. Porém Gaspari nota que a falta de iniciativa estendia-se também a outras forças, como o PCB, Ligas Camponesas e Grupos de Onze. Sua retórica de força não materializou.[155] O CGT iniciou uma greve que prejudicou, não apoiou, a mobilização governista.[162]

As desistências e defecções por parte dos militares legalistas são explicadas por Gomes: "ao realismo da operação estratégica não correspondiam diferenças legítimas de posição". Ambos os lados tinham sentimento anticomunista e, após o motim na Marinha e o discurso aos sargentos, preocupação com o tópico da indisciplina. O problema dentro da instituição militar tomou prioridade sobre a lealdade ao governo civil.[163] Para Gaspari, ao "enxotar" Goulart do Rio de Janeiro a Brasília, Porto Alegre e ao exterior o "dispositivo" buscava "um acordo que lhes salvasse as dragonas".

Entre os militares golpistas a obtenção de defecções era crucial. Forças defrontaram-se nas rodovias mas o governo caiu sem um tiro entre elas. Foi assim especialmente na invasão do território fluminense por Muricy, onde era o jogo político que compensou sua inferioridade bélica. Outra dimensão política era a manutenção da cadeia de comando e hierarquia militar após o caos da derrubada do governo. Assim o radiograma no qual Costa e Silva assumia o comando, mentia que Âncora deixou o cargo "em cerimônia que contou com a presença de todos os generais", dando a impressão de tranquilidade às guarnições distantes.[152] Assim acreditava Castelo Branco, pelo qual as formações deveriam marchar coesas. Coronéis deveriam levar seus generais junto do movimento, ainda que por "persuasão insistente". Caso contrário, a hierarquia militar estaria subvertida e as feridas durariam anos, como após a Revolução de 30.[164]

Decurso por região[editar | editar código-fonte]

Minas Gerais[editar | editar código-fonte]

Às 05:00 Mourão Filho deu o pontapé inicial à derrubada do governo com uma série de telefonemas. Poucos no Estado não aderiram. Com uma companhia de vanguarda, às 14:00 já ocupou a ponte sobre o Paraibuna, na fronteira com o Rio de Janeiro na localidade de Monte Serrat, estabelecendo uma cabeça-de-ponte. Era um terreno defensivo estratégico. Minas Gerais preparava-se para um conflito prolongado, tomando medidas logísticas e de ordem pública. Enquanto isso negava-se a existência de rebelião.

Consituiu-se o "Destacamento Tiradentes" para marchar a Guanabara, e o comando foi entregue ao general Muricy, vindo do Rio de Janeiro. Às 17:00, já com o grosso das forças de Juiz de Fora (as de outras cidades demorariam) na fronteira, Mourão Filho anunciou sua rebelião. O governo, por sua vez, já havia publicamente reconhecido sua existência e anunciado o envio de forças do I Exército para sufocá-la. Eram superiores aos rebeldes. A primeira era o 1º BC, do Ten Cel Kerensky. Atrás vinham regimentos da 1ª DI. O general Cunha Melo comandava a reação.

Kerensky montou uma defesa na fronteira. Foi negociar, atrasando o inimigo para permitir a chegada dos regimentos de Cunha Melo. Muricy preparava uma ação de envolvimento com o 11º RI para o amanhecer. Entretanto à meia-noite dois pelotões debandaram para o outro lado, deixando sua posição muito fraca, e outros oficiais já queriam fazer o mesmo. Ameaçado ainda com um iminente ataque e bombardeio de artilharia, recuou a Serraria (Comendador Levy Gasparian). O Destacamento Tiradentes passou a noite em posição, e depois das 05:00 encontrou o 1º RI, não como inimigo pois passava para o lado dos mineiros, mudando o equilíbrio de poder. Passando por Serraria Kerensky já havia escapado mas alguns elementos de seu batalhão foram deixados para trás. A artilharia que acompanhou o 1º RI tentou fugir ao Rio de Janeiro, com sucesso parcial.

O próximo obstáculo era o rio Paraíba, que foi superado às 10:30. O Destacamento tomou posição a sul de Três Rios, enviando a oeste uma flancoguarda contra a possível ameaça dos batalhões da Divisão Blindada em Valença e Barra Mansa, dos quais não se tinha notícia. À sua frente, entre Areal e Três Rios, estava o restante das forças legalistas, sem tantos números mas em boa posição defensiva; ali passaram a tarde. Muricy começou a preparar uma ofensiva rápida com o 11º RI, tomando vantagem do inimigo não ter tido tempo de montar sua defesa. De sua parte, Cunha Melo ainda queria resistir, mas ouvindo da saída do Presidente e das negociações entre Âncora e Kruel, negociou a passagem sem resistência do Destacamento Tiradentes.

Este chegou ao Rio de Janeiro no dia 2, atrás de Muricy e do próprio Mourão Filho. O comandante não podia mais invadir o Ministério da Guerra, pois já estava tomado por Costa e Silva; também o I Exército já tinha novo dono. Mourão Filho não conseguiu garantir nenhum "espólio", mas também recusou a empregar suas tropas no Rio de Janeiro. Voltaram de mãos vazias no dia 6.

Escalada das tensões[editar | editar código-fonte]

Deflagração[editar | editar código-fonte]

Depois das 2:30 Mourão Filho recebeu os secretários do governador, José Maria Alkmin e Monteiro de Castro. Traziam o manifesto, tão desapontante quanto esperava -"Com este manifesto não tiro nem um soldado do quartel". Tal foi o destampatório recebido que saíram em 10 minutos, sem tempo de ouvi-lo ler seu próprio manifesto e sem perceber que ele pretendia "apertar o botão" em poucas horas. De cachimbo aceso, escrevia no diário em tom de despedida e duvidando se teria sucesso. "O Exército inteiro vem contra mim".

Às 04–05:00, de pijama e roupão de seda vermelho, ocupou a estação telefônica de Juiz de Fora com a PM e disparou chamadas pelo país:

  • Ao major Antônio Cúrcio Neto para pôr de prontidão a tropa, ordem repetida às 06:30;
  • Ao General Guedes, para iniciar sua parte no plano de operações e despachar um batalhão a Juiz de Fora;
  • Ao deputado Armando Falcão para avisar Carlos Lacerda;
  • Ao Almirante Silvio Heck para agir na Marinha;
  • Aos Coronéis Jayme Portela e Ramiro Gonçalves para avisar a seus companheiros no Rio de Janeiro e virem a Juiz de Fora. Não vieram, e encontrou-os instalados em posições burocráticas após a queda do regime;
  • Ao General da reserva José Varonil de Albuquerque Lima, genro de Maria, para avisar aos companheiros que quisessem vir, e enviar o cunhado de Maria ao sítio em Teresópolis, para onde a mandaria;
  • Ao Doutor José Paranhos do Rio Branco para avisar Adhemar de Barros e parte da oficialidade em São Paulo.

Terminando as ligações às 06:40, acordou o juiz Néder e enviou a esposa a Teresópolis, para longe do conflito iminente e antes da ponte ser bloqueada.[145][165][166] O deputado Falcão não avisou a Lacerda, mas a Castello Branco,[8] que surpreendeu-se: esperava a deflagração no dia 2.[167] Simultaneamente empurrou adiante o levante e tentou desarmá-lo. Chamou o General Riograndino, irmão de Amauri Kruel, para inteirar o II Exército, sem o qual o levante seria inviável.

Já aos mineiros, dizia que o levante era precipitado e pedia que voltassem atrás: chamou a Guedes, que lhe apresentou um fato consumado — "as nossas tropas se deslocam em várias direções" — e José Luís de Magalhães Lins, que lhe deu a negativa de seu tio, o governador mineiro. Depois das 10:00 fez mais duas ligações;[8][168] a Guedes avisou que não conseguira nenhuma mobilização e, se os mineiros não voltassem atrás, seriam massacrados; falou também diretamente com Magalhães Pinto. Ambas foram infrutíferas.[169] Castello Branco tentou aproveitar a rivalidade existente entre o Governador e o comandante da 4ª RM/DI, mas este não queria que Minas Gerais fosse escanteada[170] e só poderia desmobilizar a polícia, não o Exército.[171]

Adesões e desistências[editar | editar código-fonte]

A tropa de Juiz de Fora ainda não se deslocava em qualquer direção. Ás 08:00[172]-09:00[173] esbarrou no comandante do 10º Regimento de Infantaria, Coronel Clóvis Galvão da Silveira. Até o final de fevereiro a unidade estava com o Coronel Bretas Cupertino. Com "referências desfavoráveis" foi substituido por Galvão, amigo do Ministro da Guerra, que imediatamente assumiu o comando alegando a "necessidade de ocupar a residência funcional".[172] Reynaldo de Biasi Silva Rocha, 1º Ten no Regimento, considerava a ele e seu Subcomandante, o Tenente-Coronel Eurico Américo da Silva Bastos, esquerdistas e parte do esquema de Goulart,[174] mas ele procurou atender as ordens de Mourão Filho, com o treinamento prosseguindo.[172] O oficial que levara o LE-Ex lhe contara que o Ministro estava disposto a acompanhar Castello, e Mourão Filho, chegando no QG, encontrou-o nervosamente batendo na bota com o bastão. Galvão perguntou se o Ministro estava com ele; "Penso, pelo que me contaram, que sim".[173] Então telefonou ao subchefe do gabinete do Ministro, Coronel Olavo Duarte Mendes, descobrindo que não fazia parte do movimento.[175] Deixou o comando ao Subcomandante[172] e apresentou-se ao gabinete do General, recusando-se a liderar e pedindo férias. Mourão Filho as concedeu, mandando lavrar no Boletim, mandou para fora do QG o Subcomandante e ordenou que outros dois Coronéis recalcitrantes, Seccadio e Roberto Neves, ficassem em casa, "não intervindo nem atrapalhando".[173] O comando do Regimento passou ao E3 da 4ª RM/DI, Tenente-Coronel Everaldo José da Silva.[172]

Coronel Peçanha, Comandante da Escola de Sargentos das Armas (ESA) em Três Corações,[176] com um contingente bem armado de duzentas praças,[177] não aderiu. A instituição declarou-se neutra — "país verde", em contraposição à representação nos estudos táticos do azul (amigo) e vermelho (inimigo) —[178] por ser uma Escola.[176] Os sargentos da banda de música do 11º RI recusaram-se a levantar.[179]

A Escola Preparatória de Cadetes do Ar aderiu. A Base Aérea de Belo Horizonte era preocupação pois seu comandante, o recém-assumido Tenente Coronel Aviador Afrânio de Aguiar, não fazia parte da conspiração. Diante da possibilidade dele permanecer fiel ao governo, a Polícia Militar se preparou para invadir o aeroporto. A ação não foi necessária, pois às 10:00 Aguiar apresentou-se a Guedes e deixou a Base à disposição dos "revolucionários".[180][181]

Afora casos como o comando do 10ºRI e a ESA, a adesão das forças foi total.[175] No QG, Mourão Filho calmamente viu por alguns segundos cerca de 60 oficiais consternados. Tirando o cachimbo, declarou "Não estou convidando ninguém para honrarias, condecorações ou promoções. Convido para morrer comigo."[173] Seu chefe do Estado-Maior, João Batista da Costa, sobre o qual haviam suspeitas por ser ligado ao General Milton, chefe do Estado-Maior do I Exército, imediatamente aderiu, na condição de que não lutaria para instalar uma ditadura.[182] Às 12:00, os sargentos aplaudiram de pé por dois minutos o General.[173] Quando às 7:00 a 2ª Companhia de Fuzileiros realizou um treinamento de baioneta, o 1º Ten De Biasi clamou "Quem quer passar fogo nos comunistas levante o fuzil" e todos levantaram, evidenciando o nível de doutrinação.[174]

Despistamento e primeiro deslocamento[editar | editar código-fonte]

O Tenente-Coronel Everaldo ordenou ao Comandante do Batalhão, Major Hindemburgo Coelho de Araújo, que deslocasse à ponte do rio Paraibuna, na fronteira Minas Gerais/Rio de Janeiro de Simão Pereira a Comendador Levy Gasparian, uma vanguarda para se apossar da ponte sobre o Paraibuna, na fronteira, e impedir a entrada de forças vindo do Rio de Janeiro, travando combate, se necessário. Ela foi formada pela 2ª Companhia de Fuzileiros, do Capitão Ítalo Mandarino, acrescida de elementos de metralhadoras e morteiros da Companhia de Petrechos Pesados e uma fração do Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado, cujos carros partiram em caminhões-prancha requisitados na cidade. A vanguarda partiu por volta das 10:00 e, aproximando-se do objetivo, entrou em marcha de combate, mas encontrou às 14:00 a ponte desprotegida,[172][174] muito embora se esperasse uma força legalista no máximo às 12:00.[183]

Mandarino instalou seu QG na estação Paraibuna e fechou a rodovia e o túnel da rodovia, avisando à Estrada de Ferro que o trânsito de composições para Minas Gerais estava interrompido. Os carros desembarcaram e tomaram posições aproveitando a cobertura vegetal. Os soldados cavaram seus abrigos individuais, com dificuldade e sem proteção plena devido ao terreno rochoso, e metralhadoras e morteiros ficaram em posição. Dois pelotões e os carros ficaram do lado fluminense do rio, um pouco à frente da ponte nas redondezas de Monte Serrat, e outro pelotão do lado mineiro. Patrulhas iam e vinham dos dois lados do rio.[172]

Espalhavam-se notícias, ainda que vagas, da rebelião.[8] Entretanto, governo e Exército em Minas Gerais negavam que estivessem sublevados: haviam apenas "medidas preventivas, para evitar agitações". Ocupavam-se postos e depósitos de gasolina somente "para controlar a saída do combustível e não prejudicar o abastecimento do Estado".[184] Mourão Filho foi perguntado às 11:00 e 11:30 pelo General Milton e pelo decano dos jornalistas no Ministério da Guerra, Oscar de Andrade, se movia tropas. "Cinicamente" desmentiu.[185]

Mobilização da PMMG[editar | editar código-fonte]

A 00:30 a Polícia Militar do Coronel José Geraldo acionou o dispositivo militar que tinha pronto. As determinações saíam por mensagens cifradas no rádio e um avião que seguia ao interior, sendo bem cumpridas para os padrões militares da época. Toda a instituição entrou em prontidão. Intensificaram-se o recrutamento e a instrução na maioria dos cursos. Foram relacionados oficiais da reserva para a convocação e cabos para exercerem a função de sargento.

A PM ficou pronta para atuar na BR-3 – Guanabara/Belo Horizonte, BR-7 – Brasília/Belo Horizonte, BR-4 – Rio/Bahia, BR-31 – Vitória/Belo Horizonte, Rodovia Triângulo/Belo Horizonte e BR-55 – São Paulo/Belo Horizonte. Organizou-se em batalhões de 3 companhias de 170 fuzileiros cada e uma companhia de metralhadoras de 134 homens. Juntos, formaram um destacamento no Triângulo Mineiro, para reagir a uma possível ofensiva legalista de Goiás, um no leste para assegurar as fronteiras com o Rio de Janeiro e o Espírito Santo e um no sul do estado, que acabou transferido a Belo Horizonte (vide quadro). Por fim, juntaram-se também aos grupamentos do Exército que marcharam ao Rio de Janeiro e Brasília.

Aos deslocamentos de tropas nesses dois eixos, a Operação Popeye[190] (muito embora em sua concepção estrita de um ataque noturno surpresa não fosse mais possível devido ao horário),[191] se somavam duas medidas dentro de Minas Gerais, deflagradas por ordens secretas na madrugada[190] ou já em curso desde a véspera:[144][192][193][nota 1] a "Operação Silêncio" de controle das comunicações para manter em sigilo os demais atos e a "Operação Gaiola" para neutralizar os inimigos internos em potencial, garantindo a retaguarda contra qualquer possível reação.[175][194]

Repressão e logística[editar | editar código-fonte]

Auxiliada pelos tiros-de-guerra,[195] cabia à Polícia Militar manter a ordem interna e evitar qualquer manifestação em favor do governo Goulart.[190] A lei marcial, incluindo a pena de morte, estava em vigor.[196]

A "Operação Silêncio" ocupou às 17:00[42] o Departamento dos Correios e Telégrafos (DCT), a Central Telefônica Brasileira (CTB), empresas de comunicações, jornais e emissoras de rádio e TV, impondo a censura. A "Operação Gaiola" era conduzida desde a tarde do dia 30 pelas Polícias Militar e Civil, a Guarda Civil de Belo Horizonte e a 2ª Seção da ID/4. Era a ocupação de sedes de partidos políticos e sindicatos[144][197] e a prisão "dos elementos que se achavam ligados ao processo de subversão nas áreas sindicais, estudantis, ou que fossem suspeitos de simples agitação", nas palavras de Guedes.[198] No dia 31, 50 líderes esquerdistas e sindicais foram presos, entre eles o Deputado Sinval Bambirra e o presidente e secretário do Comando Estadual dos Trabalhadores, Antônio Faria Lopes. Em protesto, o secretário do Trabalho renunciou.[196] O redator-chefe do Última Hora estadual, Ênio Fonseca, foi preso por engano e solto logo depois.[199]

As estações da mídia e os sindicatos ocupados estavam listados em levantamentos feitos com antecedência de todos os alvos estratégicos do estado.[168] Eles permitiram ainda um policiamento ostensivo e o rígido controle da infraestrutura e combustível. No início da manhã, policiais armados de fuzil-metralhadoras e granadas de mão ocuparam a Estação Rodoviária de Belo Horizonte, que já tinha despachado 120 ônibus ao interior, e suspenderam as viagens interestaduais e intermunicipais. Passagens foram devolvidas, e os ônibus que chegavam eram apropriados. 108 ônibus foram requisitados, participando de deslocamentos militares ao interior. Postos de gasolina foram ocupados pela madrugada e o combustível do Estado estava em posse dos militares. As fronteiras estaduais estavam fechadas e os eixos rodoviários e ferroviários regulados por barreiras policiais, como as entradas e saídas de Belo Horizonte e os viadutos das Almas e da Mutuca.

Dois mil homens patrulhavam as ruas de Belo Horizonte. Pelo Estado policiais ocupavam bancos, prédios públicos, represas, centrais de abastecimento de água e casas de armas e munições. Atenção especial era dada às zonas industriais.[196][144][199]

Além do combustível, o esforço de guerra de Minas Gerais lidou com dois outros recursos: alimentos e pessoal. Como polo agropecuário, Minas Gerais tinha boa posição nesse quesito e a revisão do secretário da Agricultura concluía que o Estado tinha mantimentos para uma luta de 100 dias.[200] Os efetivos foram garantidos pela mobilização das milícias de direita existentes no clima político polarizado do país e pela abertura do voluntariado, sob o General da reserva José Lopes Bragança. Jovens se apresentavam no Exército Civil e no Batalhão Popular Ruralista. Em um dia o número de voluntários excedeu os 10 mil; recebiam braçadeiras verde-amarelas com um triângulo no centro. Também organizou-se um contingente de médicos e enfermeiras.[144][196]

Faltava concretizar um elo vital no plano logístico mineiro: o acesso ao Porto de Vitória pela Estrada de Ferro Vitória-Minas, garantido pela Polícia Militar no vale do Rio Doce. Pelas 09:00 Magalhães Pinto comunicou-se com o governador do Espírito Santo e despachou a Vitória Osvaldo Pieruccetti para confirmar o arranjo definido anteriormente. O porto figurava também nas negociações de Guedes para a entrada de armamento estrangeiro. Seguiram-se ligações a outros governadores.[196] A guarnição federal no Espírito Santo, sob o Cel Newton Fontoura de Oliveira Reis, também aderiu.[201]

O destacamento Tiradentes[editar | editar código-fonte]
Antônio Carlos Muricy

A tropa movida por Mourão Filho na direção do Rio de Janeiro englobava a maior parte do que o Exército tinha à disposição em Minas Gerais, além de parte da Polícia Militar. Era essencialmente formada pelos dois batalhões existentes em Juiz de Fora — o 10º RI e 2º Batalhão da Polícia, do Coronel Pádua Galvão — acrescida do 11º RI de São João Del-Rey, do Coronel Ferraro, também de um batalhão só, e do 2º Batalhão do 12º RI de Belo Horizonte. A estes se juntavam elementos de artilharia (o 1º Grupo do 4º RO 105, do Tenente-Coronel Jáber), mecanizados (o 4º Esquadrão de Reconhecimento), de logística e de manutenção.

Juntos formavam o "destacamento Tiradentes" (vide Ordem de batalha e mapa) um grupamento voltado a um fim específico, provisório, que seria dissolvido ao final da missão. O nome era homenagem à sua origem mineira.[179]

No seu deslocamento à ponte no Paraibuna, o Capitão Mandarino topou, à altura de Matias Barbosa, com o General-de-brigada Muricy de carro na direção oposta.[172][202] Vinha do Rio de Janeiro conforme o combinado para assumir o comando do destacamento. A entrega do comando foi recebida com má vontade no Estado-Maior, mas era a intenção afastar seu subordinado de Belo Horizonte;[116] à sua artilharia, explicou que preferia Muricy "aos seus generais subordinados".[203]

Não foi Mourão Filho quem chamou Muricy naquele dia[204] mas o juiz Néder depois das 7:00. Foi uma surpresa, pois esperava ser avisado com dois dias de antecedência para seguir a Juiz de Fora. Consultou Castello Branco, que aprovou a ida, mas para "consertar as besteiras do Mourão". Após avisar seus companheiros e levar consigo os Tenentes-Coronéis Walter Pires de Carvalho e Albuquerque e Heitor de Caracas Linhares, saíram às 09:00. A rua Farani estava bloqueada por guardas — Carlos Lacerda estava avisado. Uma grande preocupação era se o I Exército (e no meio do caminho, o 1º Batalhão de Caçadores em Petrópolis) também estava, e uma lavadeira entrando no quartel do 1º Batalhão de Carros de Combate na Avenida Brasil,[nota 2] evidência de rotina militar normal, confirmou que não. "Como um louco" na direção, seguiu pela praia, ignorou todos os sinais de trânsito no Rio de Janeiro e teve velocidade média acima de 80 km/h. No interior fluminense, prestava atenção na dimensão tática do terreno, procurando pontos de onde uma força vinda de Minas Gerais poderia montar uma forte defesa contra a outra força que inevitavelmente vinha a seu encontro do Rio de Janeiro.

Às 12:20 os três chegaram a Juiz de Fora, e pouco depois Muricy já assumia o Destacamento.[205][202][204] Ao meio-dia o 1º/4º RO 105 bloqueou a rodovia na região de Benfica, entrando em ordem de marcha.[203] Às 12:30 o 10º RI iniciou seu deslocamento pela Estrada União e Indústria rumo ao Paraibuna[144] em caminhões Studio B-42[206] e ônibus cedidos pelo empresário de transporte José Mansur, que também garantiu a alimentação.[207] Na mesma hora o 2º Batalhão da PMMG enviou uma companhia sob o Capitão Namir Gonçalves de Lima na direção de Porto Novo da Cunha, perto de Além-Paraíba.[175]

O 11º RI chegou a Juiz de Fora às 16:00[42]–18:00.[208] Para o transporte usava ônibus civis e mais quatro viaturas de meia tonelada da Companhia de Manutenção para os canhões anticarro e caminhões civis para o suprimento; a baixa motorização da 4ª RM/DI teve que ser solucionada "na hora".[209] O 2º Batalhão do 12º RI tardou e só chegou às 22:00, sem armas automáticas e coletivas, gêneros de subsistência e dinheiro, com tanques vazios, despreparado para a guerra a que marchava. Só pôde ser incorporado ao Destacamento de madrugada, após a retirada de metralhadoras, morteiros e munição do Depósito Regional de Armamentos, onde ainda estavam com graxa, e o fornecimento de 5 dias de gêneros. Mourão Filho pensava em incompetência de Guedes e Dióscoro do Vale, comandante do 12º RI, ou mesmo sabotagem de ambos.[208][210]

Válter, Caracas e o Major Alísio Sebastião Mendes Vaz formaram o Estado-Maior do Destacamento.[211] Outro que acompanhou Muricy em seu Estado-Maior foi o Major Cid Goffredo de Fonseca, oficial da 4ªRM/DI, como oficial de ligação.[210][209][nota 3]

A força legalista[editar | editar código-fonte]

Da Guanabara organizava-se severa reação militar capaz de esmagar a sublevação mineira. À tarde, as estações de rádio emitiam um comunicado da Presidência da República, reconhecendo a rebelião e anunciando sua supressão:

Na manhã de hoje, parte da Guarnição Federal sediada em Minas Gerais, rebelou-se sob o comando dos generais Guedes e Mourão, inspirada no manifesto lançado pelo governador do Estado contra a ordem constitucional e os poderes constituídos. Diante dessa situação, o Presidente da República recomendou ao Ministro da Guerra, general Jair Dantas Ribeiro, que fossem imediatamente tomadas as providências necessárias para debelar a rebelião, tendo sido deslocadas para Minas Gerais unidades do Primeiro Exército.

Confiando no "sentimento democrático do povo brasileiro" e no "espírito legalista das Forças Armadas", o comunicado garantia o "malogro" do "movimento subversivo", e portanto "A Nação pode permanecer tranquila".[212] Noutro comunicado, dizia o Ministro da Guerra:

(...) assumo (...) o comando efetivo das ações legais contra o movimento de subversão que está caracterizado no Estado de Minas Gerais, sob o comando dos Generais CARLOS LUIZ GUEDES e OLYMPIO MOURÃO FILHO, os quais nesta data exonero dos Comandos que a Nação lhes confiou.[213]

Na forma de panfletos, os comunicados seriam "bombardeados" na manhã do dia seguinte sobre o Destacamento Tiradentes, quando já marchava dentro do Estado do Rio de Janeiro.[172] Também Juiz de Fora recebeu ao meio-dia do dia 1 os panfletos de um DC-3[214] ou T-6[8] da FAB. Uma inverossimilitude era notória — citavam os dois generais na ordem inversa de suas patentes, Guedes (duas estrelas) seguido de Mourão Filho (três estrelas), o que seria especialmente inesperado por parte do Ministro da Guerra.[172]

À noite a população de Petrópolis via desfilar pelas ruas o 1º Batalhão de Caçadores do Tenente-Coronel Kerensky Túlio Mota,[215] de "total confiança",[216] considerado partidário de Jango e parte de seu dispositivo.[174] A meio-caminho entre a Guanabara e a fronteira com Minas Gerais, era a força mais próxima e a primeira que poderia enfrentar as tropas de Mourão Filho.[212] Seguiram rumo a Entre Rios (Três Rios) em ônibus requisitados na viação Única.[215] Este deslocamento tornou-se conhecido aos golpistas após o meio-dia.[217]

O 2º RI

Na Guanabara e do outro lado da baía estavam os três Regimentos de Infantaria (1º, o "Sampaio", 2º, o "Avaí", e 3º, o "Ararigboia") e o 1º Regimento de Obuses ("Floriano"), com dois Grupos, da 1ª Divisão de Infantaria. O General Cunha Melo, da Infantaria Divisionária 1, fiel ao governo e teoricamente o substituto de Mourão Filho na 4ª RM/DI após sua exoneração,[54] foi convocado à tarde por Âncora, do I Exército, sendo informado da rebelião e encarregado de liderar as forças que enfrentariam Mourão Filho. Tinha à disposição a infantaria e artilharia de sua divisão, um pelotão da 1ª companhia do Batalhão-Escola de Engenharia e carros de combate. Os engenheiros foram substituídos pelos do 1º Batalhão de Engenharia, orgânico da Divisão, e os carros de combate retirados para poderem reagir a um possível deslocamento do II Exército.[218][219][220]

Na Avenida Brasil foram vistas 25 viaturas rebocando obuseiros e 22 com infantaria. Era a vanguarda das forças de Cunha Melo, o Regimento Sampaio, do Coronel Raimundo Ferreira de Souza, acompanhado do 2º Grupo do Regimento Floriano, com as Baterias de Comando, Serviços e 4ª e 6ª de Obuses. Partiram rumo ao norte às 12:00 ou 18:00. O 2º Grupo passara o dia ilhado no quartel, sem notícias da situação, e seguiu com a informação de que enfrentaria um levante da Polícia Militar mineira — "nos enganaram para que saíssemos".[212][219][221][nota 4]

Proclamada a rebelião[editar | editar código-fonte]

As tropas do I Exército encontrarão as minhas em posição de combate. Se querem sangue, que assim seja. Não recuaremos. Estamos decididos ao suicídio pela democracia.

Gen. Div. Olímpio Mourão Filho[222]

Gaspari ironiza que, quando foi para casa almoçar e em seguida dormir, às 13:00, Mourão Filho, a 8 horas "em revolução" contra o governo, permanecia a 150 quilômetros do Rio de Janeiro, mal tendo deslocado qualquer força.[223] Magalhães Pinto gravara nova proclamação e Mourão Filho tinha em mãos seu manifesto, mas nenhum se pronunciava. Era necessário ter as tropas na fronteira, o que se concretizou às 17:00, quando o grosso do destacamento Tiradentes começou a chegar na estação Paraibuna, onde já estava a 2ª Companhia de Fuzileiros.[8][224]

O General chamou a imprensa e a rádio transmitiu diretamente do QG da 4ª RM anunciando que Juiz de Fora estava em revolução.[225] Em seu manifesto denunciava as "Organizações espúrias de sindicalismo político", que falavam não em nome "do operariado brasileiro" mas "de um Estado estrangeiro", servindo a seus "interêsses imperialistas". O governo as apoiava, inclusive na nomeação de "ministros, generais e altos funcionários", objetivando "desfazer as instituições democráticas e instituir, aberrantemente, o totalitarismo"; Goulart estava numa "das etapas do processo de aniquilamento das liberdades cívicas". Mencionava o "Círculo dos Sargentos" e os acontecimentos na Marinha. Contando com "O Povo, Governos Estaduais e Forças Armadas", exigia, então:

O Sr. Presidente da República, que ostensivamente se nega a cumprir seus deveres constitucionais, tornando-se, êle mesmo, chefe de govêrno comunista, não merece ser havido como guardião da Lei Magna, e portanto, há de ser afastado do Poder de que abusa, para, de acordo com a Lei, operar-se a sua sucessão, mantida a Ordem Jurídica.[199][226]

Em suas memórias, Mourão Filho diria que Antonio Neder acrescentou a designação de Goulart como comunista; ele não o considerava como tal.[227] O prefeito de Juiz de Fora batizou sua cidade de "capital democrática do Brasil".[225] À noite Mourão Filho, sob a sugestão do Coronel Batista, aceitou um chamado à prefeitura, onde foi arrastado de cabeça para baixo, perdendo seus óculos, ao segundo andar e ovacionado por uma multidão.[116] Já Magalhães Pinto, pela Rede da Liberdade, com todas as emissoras do Estado, anunciava:

(...) as fôrças sediadas em Minas (...) consideraram do seu dever entrar em ação, afim de assegurar a legalidade ameaçada pelo próprio Presidente da República.

O governo mineiro negou ainda que o movimento tivesse caráter separatista.[224]

Com a saída do 10º RI e do 2º Batalhão da PMMG, a segurança de Juiz de Fora recaiu inteiramente à 4ª Companhia de Polícia do Exército do Capitão Henrique Carlos Guedes (filho do general da Infantaria Divisionária). Com apenas um núcleo de companhia com 76 soldados, ele posteriormente atribuiu a manutenção da ordem na cidade ao "apoio maciço da população".[228] Bem antes da saída já se tinham feito prisões: na manhã do dia 30 já estava detido o presidente do Sindicato dos Bancários e da Cooperativa de Consumo dos Bancários. Também nos dias 30/31 foi preso o diretor regional dos Correios,[197] solto quatro horas depois, permanecendo os Correios e ligações por telefone e telégrafo sob controle. 3 vereadores do PTB e 12 líderes sindicais estavam presos. Estavam vedadas manifestações de rua contra o movimento de Mourão Filho; tais fatos foram registrados por repórteres do Última Hora, contrário ao golpe, que ali puderam chegar e observar a situação.[229]

A marcha à Guanabara[editar | editar código-fonte]

Ordem de batalha e mapa[editar | editar código-fonte]
Ordem de batalha no teatro de operações da estrada Rio–Juiz de Fora
Golpistas Legalistas[219]
4ª Divisão de Infantaria

General-de-divisão Olímpio Mourão Filho

I Exército

General-de-exército Armando de Moraes Âncora

Destacamento Tiradentes[186][230][187]

General-de-brigada Antônio Carlos da Silva Muricy

1º Batalhão de Caçadores

Tenente-Coronel Kerensky Túlio Motta

10º Regimento de Infantaria

Tenente-Coronel Everaldo José da Silva

11º Regimento de Infantaria

Coronel Osvaldo Ferraro de Carvalho

2º Batalhão do 12º Regimento de Infantaria

Major Carlos de Oliveira Pinto

1º Grupo do 4º Regimento de Obuses de 105 mm

Tenente-Coronel Elias Jaber[nota 5]

4º Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado

Tenente Elbem Souza Braga

4ª Companhia de Manutenção

Tenente José G. Ferreira

4ª Companhia de Intendência

2º Batalhão da PMMG (de Juiz de Fora)[nota 6]

Coronel Antônio de Pádua Galvão

5º Batalhão da PMMG (da Capital)*

9º Batalhão da PMMG (de Barbacena)*

1ª Divisão de Infantaria

General-de-divisão Oromar Osório

Infantaria Divisionária 1

General-de-brigada Luís Tavares da Cunha Mello

Vanguarda Retaguarda
1º Regimento de Infantaria

Coronel Raimundo Ferreira de Souza

2º Grupo do 1º Regimento de Obuses de 105 mm

Tenente-Coronel Raimundo Nonato

4ª Bateria de Obuses

Capitão Gualberto Pinheiro

6ª Bateria de Obuses

Capitão Audir Santos Maciel

2º Regimento de Infantaria

Coronel Antônio Tavares de Sousa[231]

3º Regimento de Infantaria

Companhia do 1º Batalhão de Engenharia[220][232][nota 7]

Capitão Almir Taranto de Mendonça

1º Grupo do 1º Regimento de Obuses de 105 mm

Coronel Mello[221]

*Em posição defensiva na região de Além-Paraíba;[216]

o 5º acabou transferido para o Destacamento Belo Horizonte[186]

Objetivos e comparação de forças[editar | editar código-fonte]
Operação Popeye
Golpe de Estado no Brasil em 1964
Deposição do Governo João Goulart – Golpe de 1964 27.tif
A coluna mineira em Areal
Data 31 de março - 2 de abril 1964
Local Região do Rio de Janeiro a Juiz de Fora
Desfecho Vitória golpista, avanço sem resistência ao Rio de Janeiro
Beligerantes
Brasil Exército Brasileiro (rebelde)

Bandeira de Minas Gerais.svg Minas Gerais

Brasil Governo brasileiro Brasil Exército Brasileiro (legalista)
Comandantes
Unidades
4ª Divisão de Infantaria
  • Destacamento Tiradentes
1ª Divisão de Infantaria
1º Batalhão de Caçadores
Forças
Inicial:
  • 2.714 soldados
  • 193 viaturas [233]
  • Final:
  • 4-5.000 soldados [234]
5.000 soldados

300 soldados no 1º BC 200 viaturas no 1º RI [211] 2.500 soldados no 2º RI [235]

A ordem que Muricy tinha em mãos seguia a ideia de Guedes: aguardar na fronteira em posição defensiva e "encastelar" Minas Gerais. Discutindo com os oficiais que trouxe e os da 4ª RM, discordou. Concluíram por um meio-termo entre essa concepção e o plano de Mourão Filho de imediatamente saltar à Guanabara. Numa primeira fase, o Destacamento Tiradentes pararia na ponte do Paraibuna, na fronteira;[207] foi o que disse Guedes à Castello Branco como o plano para o dia 31, acrescentando que aguardavam o posicionamento do I Exército.[168][43]

Mas Muricy e os oficiais concebiam em seguida um avanço para dentro do Estado do Rio de Janeiro, até no máximo o Belvedere do Grinfo ou a Fábrica Nacional de Motores, de forma a ganhar o máximo de espaço sem chegar a enfrentar o forte inimigo em terreno aberto. Assim, evitariam ser barrados no terreno defensivo da fronteira, estariam em melhor posição para fazer ligações com São Paulo e Espírito Santo e aumentariam o isolamento do Nordeste em relação ao Sul.[207] O alvo final do deslocamento seria o QG do Exército (Palácio Duque de Caxias) no Rio de Janeiro.[168][236]

Cunha Melo, por sua vez, chegou a dizer a seu Estado-Maior que "amanhã iremos almoçar em Juiz de Fora".[237] A Âncora, mostrou-se disposto a invadir o território mineiro, mas recebeu a missão mais limitada de barrar a progressão das tropas que vinham de lá;[218] Goulart não chegou a dar ordem de ataque.[41] A preocupação da força partindo de Minas Gerais era com Cunha Melo e não com seu primeiro oponente, Kerensky,[217] cujo objetivo era retrair sem dar o primeiro tiro, atrasando o deslocamento do Destacamento Tiradentes e permitindo que o Regimento Sampaio firmasse posições defensivas no Paraíba.[238][239]

Mourão Filho estava "flutuando sem apoio algum e na expectativa de um ataque das tropas que subiam a serra".[240] Era real a possibilidade de guerra civil com derramamento de sangue, numa "campanha áspera, disputada palmo a palmo" no terreno acidentado da região serrana.[241]

Para disputar essa campanha, Muricy dispunha de poucas horas de munição e uma força composta em mais de sua metade por recrutas mal instruídos, "com menos de três meses de caserna".[242][243] Seu único regimento com um ano de instrução completo, e portanto, o melhor, era o 11º. Já os batalhões da PMMG, apesar dos longos esforços logísticos, ainda eram força apropriada apenas para o ambiente urbano, que em campo serviriam apenas a ações curtas, não durando no combate.[205][207]

O 1º era a melhor infantaria da Vila Militar.[212] A força legalista era capaz de empurrar Muricy de volta a Juiz de Fora, sendo superior em armamento e em efetivos — 5.000[244] contra 2.714.[233] Assim, os oficiais legalistas tinham plena convicção que venceriam a batalha.[212]

Darcy Ribeiro posteriormente escreveria que a tropa de Mourão Filho "Voltaria correndo para casa se fosse lambida por algumas metralhadoras da aviação fiel ao governo".[212] Um ataque aéreo a uma coluna como a que vinha de Minas Gerais seria fácil: atirando na testa e na cauda, mesmo sem causar baixas, ela se desagregaria com a passagem do avião.[245] Entretanto, o Presidente não ordenou nenhuma operação ofensiva à FAB.[41] A redação do Jornal do Brasil ouviu que ele quisera empregá-la, mas não encontrou respaldo suficiente na oficialidade.[246]

O Coronel-Aviador Rui Moreira Lima, comandante da Base Aérea de Santa Cruz, recebeu do Conselho de Segurança a ordem de sobrevoar a coluna, "basta uma passagem", mas recusou pela cadeia de comando: precisaria de ouvi-la do comandante da Zona Aérea.[247] Era legalista e deixou prontos quatro jatos F-8, mas não chegou a usá-los.[248] Se tentassem decolar, seriam problemas o terreno montanhoso,[245] o tempo,[249] que não permitia partida imediata, e a escassez de pilotos legalistas.[248]

Em plena desvantagem, Muricy, na fronteira, a princípio buscava posições defensivas de onde resistir. Sua esperança estava nas adesões do oponente — "eu vivi as revoluções de 1930 e 1932 e eu sabia como são os indecisos".[250] Sabia que a maioria dos militares simpatizavam com seu lado, mas estavam apegados à legalidade. Nas primeiras 48 horas do confronto, a situação estaria indefinida, permitindo convencê-los a tomarem posição; assim, nesse curto período era necessário "precipitar o jogo e chamar o máximo de partidários".[40] O próprio avanço para dentro do Estado do Rio de Janeiro era forma de conseguir as adesões;[205] "nessa hora de indecisão, você pode fazer o diabo e, quanto mais diabo fizer, melhor".[250]

Paraibuna: o 1º BC[editar | editar código-fonte]
Mapa: Região do corte do Paraibuna

Às 17–18:00 parte do Destacamento Tiradentes chegava na rodovia União e Indústria à altura da estação ferroviária Paraibuna. Logo à frente, demarcando a fronteira com o Estado do Rio de Janeiro, está o Rio Paraibuna, não muito largo, mas encachoeirado e, à època, com muita água. Do outro lado da ponte está o povoado de Monte Serrat, já no Estado do Rio de Janeiro. Mais ao sul está a imponente Pedra do Paraibuna. Na estrada do lado fluminense, atrás de um ribeiro, estava um pelotão na ponta da 2ª Companhia de Fuzileiros. A região é propícia à defesa.

Em Monte Serrat a 2ª Companhia jantou ração quente, tendo trazido os fogões de campanha. Do Rio chegavam civis e militares da reserva querendo aderir,[172] e todos os motoristas que atravessavam a estrada eram perguntados sobre as forças que vinham do outro lado.[244] Os repórteres do Última Hora foram detidos em Monte Serrat e liberados sob salvo conduto, conseguindo chegar a Juiz de Fora.[229] Com pouca informação, a população local teve grande surpresa e medo de guerra com a chegada de milhares de soldados num vilarejo de cem habitantes. Foram proibidos de sair de casa e os estabelecimentos comerciais e o posto de gasolina foram tomados. Um simpatizante do PTB foi preso e retido por 14 dias em Juiz de Fora.[251]

Muricy ficou no QG em Juiz de Fora até as 19:00[252] e às 20:00 seguiu à estação Paraibuna, instalando antes das 21:00 seu comando na estação ferroviária.[244] Ali, estava "completamente no escuro", sem notícias do Rio, de São Paulo ou do país. A estação local emitia somente hinos patrióticos.

Para montar uma defesa teria sido suficiente aguardar no lado mineiro da estreitíssima ponte do Paraibuna, na qual se posicionaram explosivos para se necessário negar a passagem ao inimigo. Mas "se ficasse ali não iria mais para frente". Por isso a cabeça-de-ponte estabelecida por Mandarino era vital para permitir o avanço que Muricy planejava para o amanhecer do dia seguinte.[206][207][252]

Às 18:00 patrulhas do 10º RI avistaram os primeiros elementos do 1º BC[239]. Às 22:00,[nota 8] era já uma companhia "colada", fazendo frente ao Destacamento[252] com 300 soldados[211] do lado fluminense da fronteira, debaixo do grande paredão de pedra. Na estrada o Ten Cel Kerensky chegou ao 1º Ten De Biasi, conhecido seu de competições esportivas em Petrópolis, cujo pelotão estava do outro lado da linha de contato:

— Viemos tomar a ponte do Paraibuna.

— Coronel, infelizmente a ponte já foi tomada

O Ten Cel Everaldo, ouvindo que Kerensky procurava entender-se com o comandante do Destacamento, enviou os irmãos Fassheber — Capitão de Infantaria Ney, que já servira em Petrópolis, e 1º Tenente Frederico — para parlamentar.[252][174][239] Escoltado pelo Cap Mandarino,[172] o comandante do 1º BC encontrou-se na estação Paraibuna com Muricy e, chamado ao redor das 22:00, Mourão Filho, vindo de Juiz de Fora.[208] Kerensky pediu um prazo para decidir se permaneceria ali ou abriria caminho. Tornou-se claro que queria apenas ganhar tempo para a chegada das forças da 1ª DI.

Mourão Filho mandou-lhe sair do caminho em duas horas e, "na sua frente", mandou sua Artilharia preparar-se para, sob ordem, bombardear o batalhão de Kerensky, apoiando a 2ª Companhia. Mandarino entregou dados topográficos ao comandante da Bateria de Tiro e dirigiu-se ao Chefe do Estado-Maior do Destacamento, protestando que com os abrigos existentes, escavados com dificuldade no terreno rochoso, e a proximidade do inimigo, sua tropa não estaria segura se a Artilharia abrisse fogo. Na verdade a intenção não era usar a artilharia, mas fazer pressão psicológica sobre Kerensky e seu batalhão.[172] Das posições avançadas, os irmãos Fassheber provocavam: "fico pensando nas placas de pedras que vão cair em cima de vocês quando começar o bombardeio da Artilharia". Percebia-se ansiedade e temor na tropa do outro lado.[174]

"Não podemos ficar parados aqui diante de um efetivo desse que é ínfimo", ouviu Mandarino do Chefe do Estado-Maior do Destacamento. Tinha morteiros 81 e 60 em posição e o caminho poderia ser aberto pelos M3 A1 do Esquadrão de Reconhecimento.[172] Muricy arquitetou uma arrancada: ao raiar do Sol, a artilharia de Jaber daria dois tiros na pedreira para avisar ao adversário que seguia em frente e, para evitar o derramamento de sangue, poderia aderir ou sair do caminho. O 10º RI avançaria depressa, enquanto o 11º RI, reforçado pelos tanques leves 4º Esqd Rec Mec, travaria uma ação de envolvimento, seguindo por uma estrada vinda de Além-Paraíba até Areal e de lá ou seguindo a Petrópolis ou caindo sobre o 1º BC pela retaguarda.[252][253]

Kerensky não foi o único de seu batalhão que, cruzando as linhas, encontrou os comandantes adversários. Na vanguarda das forças de Petrópolis estava o pelotão de fuzileiros do 2º Tenente Hélio Seabra Monteiro de Barros. Aos gritos, combinaram um encontro num local intermediário com o 1º Ten De Biasi, que perguntou: "está do lado dos comunistas?" Monteiro de Barros, recém-classificado, não entendeu e fez muitas perguntas, sendo convencido a mudar de lado. Depois de um tempo, partiu — sozinho, pois seus sargentos estavam apegados demais a seu tradicional batalhão.[174] Trazido por Fassheber à presença de Muricy e Mourão Filho, retornou às suas linhas com a promessa de aderir com todo seu pelotão e outro tenente que também queria vir.[252][208] Assim se deu menos de uma hora depois,[244] da meia-noite[8] a 01:00:[208] Mandarino levou Monteiro de Barros marchando com seu pelotão, que foi incorporado à retaguarda do 10º RI,[172] e os dois tenentes com seus pelotões se apresentaram nervosamente a Muricy, recebendo encorajamento.[252][nota 9]

Como a linha de fogo tinha no máximo 5 pelotões, a defecção de 2 seriamente enfraqueceu a posição legalista.[8] Mais ainda, a maioria do restante da oficialidade também quis aderir.[252] Monteiro de Barros mudara de lado por estar ali cumprindo ordens, sem nenhum comprometimento com a causa governista,[172] e entre os demais oficiais havia terreno ideológico fértil para a doutrinação executada pelos Fassheber;[239] o 1º tenente José Rodrigues foi preso por querer aderir.[174] Acuado, Kerensky recuou a Serraria, desguarnecendo o caminho. Muricy suspendeu a operação, decidindo apenas, ao amanhecer, dar uma salva de canhões na pedreira e avançar em velocidade máxima.[252]

Serraria: o 1º RI[editar | editar código-fonte]
4º Esqd. Rec. Mec. na estrada

Mourão Filho retornou a Juiz de Fora, onde pelas 02:00 da madrugada, já no dia 1, telefonou a Kruel e se inteirou que o II Exército marchava de São Paulo contra Goulart. Desde a deflagração da rebelião passara cerca de 18–19 horas isolado, sem contato com os demais comandos.[254][43][255]

Antes de partir, presenciou dois engenheiros que vinham do Rio de Janeiro e testemunharam tropas e artilharia seguindo na estrada, e no caminho, topou com o Marechal Denys vindo de Juiz de Fora para o Destacamento Tiradentes,[208] ao qual chegou às 03:30.[253] O Destacamento permaneceu onde estava durante a noite, receoso quanto ao que faria o Regimento Sampaio.[172] Muricy foi chamado entre às 03–04:00 a uma fazenda nas proximidades, onde Denys deu-lhe uma notícia crucial: acompanhado de um grupo de obuses, o Cel Raimundo vinha com o Sampaio a seu encontro, não para travar combate, mas para juntar-se ao seu lado.[205]

Ouviu o que acontecera: no dia anterior o Cel João Batista da Costa mandara seu filho civil, Milton Batista da Costa, para Três Rios de forma a observar e relatar o volume, composição e comandante da tropa adversária. Informando que eram várias unidades com o 1º RI de Raimundo na vanguarda, Milton foi incumbido de chamá-lo ao telefone. Às 22:00 o comandante do Sampaio foi interpelado e levado ao telefone do posto de gasolina Triângulo. Raimundo encontrou do outro lado da linha Denys, seu amigo, de quem tinha sido secretário. O Marechal fez um apelo para que passasse de lado e ele aceitou: "pode contar comigo e com minha tropa". Raimundo posteriormente tiraria ênfase desse telefonema, esclarecendo que já partira com a intenção de aderir.[15][8][256] Embora fosse de confiança de Oromar Osório,[8] seu posicionamento contra o governo era conhecido pelo menos desde o dia 2 de março.[257]

Muricy seguiu à frente de sua tropa num Aero-Willys com uma bandeira branca para incorporar o Regimento Sampaio e prender Cunha Melo se estivesse junto. À altura de Serraria/Comendador Levy Gasparian[nota 10] Raimundo saltou de um jipe e entregou-lhe o regimento[258][259] com um ou dois batalhões.[nota 11] Quando o jipe do comandante de batalhão Cel Mendonça encontrou a tropa de Mandarino, previamente avisado, as barreiras foram liberadas[172] e o regimento exausto integrou-se à retaguarda do destacamento, recebendo, a pedido de Raimundo, comida, repouso e gasolina.[256][258] Isto se deu entre as 05[172][260]–07:00[259].

A decisão do 1º RI poderia influenciar a posição de combate do restante do I Exército. Jurando lealdade a Muricy, solidarizou o restante à rebelião,[259] pendeu o equilíbrio de forças a favor dos rebeldes[256] e influiu na decisão de Goulart de abandonar o Rio de Janeiro.[8] Era a vitória que aparecia como uma visão de luz naquela escuridão de 18 horas, durante as quais estávamos sozinhos, escreveu Mourão Filho,[254] que entretanto preocupou-se com dificuldades logísticas que poderiam vir com o alargamento da força.[260]

Já o 2º Grupo do 1º RO 105 que fazia parte do Grupamento Tático do Cel Raimundo foi fonte de complicações. Muricy chamou seu comandante, Ten Cel Raimundo Nonato, que, pelo compromisso com seu comandante, recusou-se a aderir: queria, sem combate, retrair. Muricy estava sério — se o Ten Cel retraísse, transmitiria informações a seu inimigo. O enviou para discutir com seus oficiais. Em vez de, como combinado, retornar a Muricy com o que decidissem, pôs a tropa no caminho de volta ao Rio de Janeiro.

Enraivecido, Muricy tomou uma companhia do 1º RI: "Linha de Atiradores! Fogo à minha ordem!" Foi a pé ao Grupo, abordou a primeira viatura e mandou-a manobrar, fechando a estrada. "Onde está o comandante?" "Aqui mesmo". Disse-lhe "uma série de descomposturas" e prendeu-o. Abordou as demais viaturas, mandando atravessá-las na estrada e fazendo todos descerem. No meio da estrada, falou aos oficiais, sargentos e soldados. Um dos sargentos exclamou: "O Espírito Santo falou pela boca do General!"

O grupo foi incorporado,[205][256][258] incluindo a 4ª Bateria de Obuses do Capitão Gualberto Pinheiro. Entretanto a 6ª Bateria do Capitão Audir Santos Maciel conseguiu escapar. Com a última ordem recebida do comandante do grupo, Maciel voltou com sua bateria até o quartel no Rio de Janeiro. No caminho, passaram pelo 1º Grupo antes de Petrópolis e pelos petropolitanos, que, imaginando que eram os mineiros triunfantes, os aplaudiram como se fossem um exército vitorioso.[221]

A caminho das tropas rebeldes, Raimundo encontrara Kerensky, anunciando-lhe que passaria de lado.[262] Kerensky recuou até Petrópolis,[262][215] mas elementos de sua tropa ainda foram encontrados por Muricy em Serraria. Válter Pires convenceu alguns a aderirem, enquanto outros, recusando-se, foram presos. Muricy dirigiu-se aos que abertamente o resistiram e elogiou sua boa fé.[258]

Três Rios[editar | editar código-fonte]

Desde o clarear o Destacamento prosseguia para o sul. Á frente, o Cap Mandarino com duas viaturas do Esqd. Rec. Mec. fazia a "marcha do papagaio", constantemente parando para fazer reconhecimento e receber notícias de quem passava pelo comboio.[172] Ao longo do dia no deslocamento o Major Cid, para liberar a rodovia, mandava desembarcar os passageiros e retirar os ônibus do caminho.[210] Preocupado acima de tudo com o combustível, Muricy requisitava os caminhões-gasolina que seguiam do Rio de Janeiro a Minas Gerais, entregando aos motoristas um documento para posteriormente receberem o pagamento e incorporando-os à coluna para ter o combustível à disposição.

Ultrapassando Serraria, Muricy tinha como grande obstáculo o rio Paraíba do Sul.[258] Assim, acompanhou a vanguarda — 10º RI[nota 12] e 4º Esqd Rec Mec — que seguiu para ultrapassar o obstáculo e formar uma cabeça-de-ponte a sul de Três Rios antes da chegada do inimigo.[205][263] A cidade foi ocupada às 10:30.[259] Três Rios tinha flanco oeste aberto e não se tinham notícias, seja do I Exército a oeste, do II Exército ou da Escola de Sargentos em Três Corações. O Destacamento resguardou-se emitindo uma flanco-guarda composta do 2º Batalhão da PMMG e de uma companhia de caminhões anticarros a oeste, numa estação ao longo do Paraíba cercada de morros altos, por onde passa tanto a rodovia quanto a ferrovia, para barrar qualquer progressão daquela direção.[258] A ameaça poderia vir de Valença (2º Batalhão de Carros de Combate), Barra Mansa (1º Batalhão de Infantaria Blindado)[253] ou até de São Paulo.[263]

Saindo da cidade o Destacamento fez alto:[216] a 2ª Companhia passou um tempo em posição de combate, esperando enfrentar tropas adversárias.[174] Ao sul da ponte do Paraíba avistou-se um jipe que, ao ver os rebeldes, fez meia volta e correu na direção da Areal: era o adversário. Djalma Dias Ribeiro, vindo do Rio de Janeiro, contou a Muricy que passara no Belvedere pelo que avaliava serem 2–3 batalhões de infantaria e 2–4 baterias de artilharia; pela hora que viu, no momento essa força legalista deveria estar na região de Areal,[216][258][263] fazendo-se contato com ela às 11:00.[253]

Areal: o 2º RI[editar | editar código-fonte]

Na região de Areal o cenário de luta é mais impressionante, desdobrando-se a operação militar em todos os movimentos de uma ação iminente. A hipótese de que em Areal pode sair o "primeiro tiro" é aceita por todos...

Gomes, Eduardo. Minas: do diálogo ao front (1964) p. 121-122

Às 04:00 da manhã[264] a pequena cidade de Areal, então distrito de Três Rios, amanhecera cheia de soldados. Tomaram o que depois seria o "Posto do Nino" como quartel-general, montaram ninhos de metralhadora no posto e nas estradas, posicionaram dinamite pronta para detonar a ponte sobre o rio Piabanha no centro e se firmaram nos morros. O comércio fechou e habitantes se refugiaram na igreja ou foram levados por caminhões a bairros distantes. Tinham pouca informação do que se passava e medo de uma guerra sangrenta iminente.[265][266]

Era a tropa legalista do General Cunha Melo, ainda decidido a lutar.[259] Restavam-lhe o 2º RI, a artilharia do 1º Grupo do 1º RO 105[219] e engenheiros do 1º BE Cmb.[267] O 3º RI subia a serra em 13 ônibus fretados.[264][nota 13] Achou-os fiéis: somente um capitão (o da companhia do 1º BE Cmb) e um tenente apresentaram recusa e foram presos.[232][268] Com a defecção do Regimento Sampaio, era já uma força numericamente inferior, incapaz de partir à ofensiva, mas que ele posicionou em bom terreno defensivo,[268] desdobrado em posição de combate, com armas coletivas.[210] Seus 18 obuseiros junto à estrada poderiam descer uma "barragem de fogo" quase impossível de atravessar.[269] Estava, porém, à frente de Areal e não no melhor terreno defensivo após o rio Paraíba identificado por Muricy na vinda: a garganta entre Areal e Petrópolis.

Muricy precisava desalojar Cunha Melo e chegar à Baixada. Avaliou: estava em igualdade ou ligeira superioridade de forças, possuindo 5 batalhões de infantaria e 1 da polícia contra no máximo 4, e um pessoal mais disposto a lutar. Porém, ainda não poderia travar "um choque real em campo aberto". Para superar Cunha Melo precisaria de uma ação de surpresa, que tomaria vantagem taticamente dos legalistas não terem tido tempo de se firmar no terreno e politicamente da possibilidade de parte deles não quererem lutar em defesa do governo que não aprovavam. Ambos exigiam pressa. Com o 11º RI reforçado e o grupo de obuses, o Cel Ferraro sairia à frente do Destacamento em dispositivo de aproximação, trocaria a formação em coluna por um dispositivo aberto e atacaria o 2º RI, mesmo desordenadamente, tendo o tempo como prioridade. Ferraro recebeu a missão ao meio-dia.[202][253][270]

A essa altura a 2ª Companhia comia ração fria (catanho), mas recebia alimento e apoio moral da população.[172] Entre as 13–14:00 os comboios de alimentação atrasaram. Válter Pires foi enviado a Três Rios para falar com Juiz de Fora, de onde Mourão Filho o pôs a par da situação: Goulart saíra do Rio, Âncora e Kruel se encontrariam para negociar entre o II Exército e os legalistas e o Destacamento deveria desacelerar e evitar o combate desnecessário.

Voltando a Muricy, Válter atravessou o 2º RI para carregar sua mensagem a Cunha Melo: me preparo para atacar, verifique a veracidade do encontro Âncora-Kruel e evite o derramamento de sangue. A resposta veio através do Major Granja,[nota 14] do estado-maior de Cunha Melo, que chegou uma hora depois: não tenho notícia dessa reunião (Muricy poderia estar blefando), não virá de mim o primeiro tiro mas tenho missão de defender e a cumprirei. Muricy disse a Granja: "E eu recebi a missão de ir ao Rio de Janeiro e vou partir para o Rio de Janeiro"; "você deve ter passado pela minha tropa e deve saber que eu estou me preparando para atacar"; assim faria se não recebesse mais nenhum aviso,[270] mas como cavalheiro, informou o tempo: em uma hora.[271] Ali presente, Ferraro demonstrou impaciência — "Se vão resistir vamos atacar agora". Granja presenciou a tropa deslocar-se ao pé da encosta de uma elevação à frente.[174]

Cunha Melo telefonou ao Rio de Janeiro. Assis Brasil confirmou: a estrutura legalista estava desmoronando e Jango e Âncora saíram do Rio de Janeiro. "Como Cunha Melo perguntasse o que fazer, foi-lhe respondido que fizesse o que quisesse. Sua missão estava terminada."[219] Às 14:30 mandou, então, informar sua disposição de abrir o caminho e permitir aos rebeldes descerem à Guanabara sem resistência.[263] Duas horas depois da parlamentação de Granja outro emissário de Cunha Melo chegou com suas condições:[270]

  • Não invadir as refinarias de Duque de Caxias e Manguinhos;[259]
  • Não passar por dentro de Petrópolis para não desmoralizar Kerensky;
  • Não avançar imediatamente após o recuo para não criar a impressão que foi perseguido.[271]

Respondeu Muricy:

  • "Eu preciso de gasolina e, se possível, eu quero deixar vocês sem gasolina. Eu tenho que ocupar a refinaria e a minha tropa vai ocupá-la, não tenha dúvida nenhuma."
  • "Pois eu vou passar por uma estrada de contorno e vou deixá-la sem o meu controle?! Não, eu não posso avançar militarmente sem ter posse das estradas vicinais. Então tenha paciência, eu vou passar por Petrópolis mesmo. Eu tenho que decompor a minha coluna, mandar uma tropa pela estrada do contorno e outra pela União Indústria, por dentro de Petrópolis."
  • "Partirei daqui a duas horas. Em duas horas, a tropa do Cunha Melo tem tempo de se retrair..."

Num pontilhão a norte de Areal, na estrada para Além Paraíba, Muricy anunciou a seus oficiais: Goulart saiu, havia um acordo na AMAN, o governo cessou a resistência. Estavam vitoriosos e avançariam numa hora combinada.[270] Às 16:40[264]–50[259] Cunha Melo recuou.[263] Dos morros ao redor da cidade "soldados saíam descendo como formiga".[265] Muricy se recorda de ter esperado não as duas horas combinadas, mas só mais de uma hora.[270] A apenas 3 km de distância, os rebeldes entraram em Areal, conforme o Correio da Manhã do dia seguinte, 5 minutos após a saída dos legalistas.[264] Consta no Relatório das Atividades do Destacamento Tiradentes que Muricy viu como seria desvantajoso cumprir o acordo e deu ordem para seguir a Areal às 17:00.[271] Repórteres presenciaram a passagem pelo centro da cidade.[264]

Quando a coluna estava na região de Areal foi sobrevoada por um avião da FAB pilotado pelo comandante da Base Aérea de Santa Cruz, sob iniciativa própria. Em dois vôos rasantes, pôs em fuga soldados e caminhões. Pilotava, porém, um Paris, avião turístico, sem armamento, numa missão de reconhecimento. Não tinha ordens de cima e foi logo ordenado a pousar no Santos Dumont.[245][247]

Petrópolis e Duque de Caxias[editar | editar código-fonte]

A 2ª Companhia passou por parte do 2º RI estacionado ao longo da rodovia, inativo.[172] Pela noite, restavam somente alguns veículos enguiçados no caminho,[264] mas o 2º RI e o 2º/3º RI estavam ideologicamente alinhados aos rebeldes e foram por eles ultrapassados, incorporando-se à coluna,[271] o primeiro em Pedro do Rio e o segundo em Itaipava.[216] O comandante do 2º RI apresentou-se a Muricy: tinha sido abandonado por Cunha Melo e estava do lado legalista somente por sua lealdade ao Ministro da Guerra. "Eu devo muito da minha carreira militar ao Jair e não ficaria nunca contra o ministro. Mas na hora em que o presidente se afasta, a minha tropa está inteiramente à sua disposição." Mais tropas foram encontradas adiante, de forma que ao final do percurso o efetivo tinha dobrado, de 3 a 4–5 mil soldados. Somente parte da força de Cunha Melo conseguiu escapar.[270]

O Destacamento aproximou-se de Petrópolis às 18:30[271] e no trevo de Bonsucesso[nota 15] dividiu-se em Grupamentos Táticos baseados em cada um dos regimentos vindos de Minas Gerais.[210] Como flanco-guarda, o 10º RI atravessou o centro de Petrópolis rumo a Quitandinha, enquanto o grosso seguiu pela estrada do contorno.[271]

Ao redor das 22:00 Muricy informou a Mourão Filho que, com a estrada livre, seguia ao Belvedere do Grinfo, ponto de referência da saída de Petrópolis. Este decidiu retirar seu Posto de Comando de Juiz de Fora e seguir na estrada rumo à sua tropa[nota 16]. Às 23:00 encontrou o Major Cid em Petrópolis. Perguntou por Muricy - estava num hotel - e mandou transmitir-lhe a ordem de descer até o gasômetro da Avenida Brasil. Era prioridade de Mourão Filho chegar à Guanabara antes do II Exército e de Kruel,[210][272] "da mesma estirpe que o Jango, pra pior, porque veste uma farda com 4 estrelas. Conjuminou o fechamento do Congresso em 1963, por ocasião da famosa questão plebiscito-Brochado Rocha."[273]

Pela madrugada Mourão Filho e Muricy (com seu Estado-Maior), sob chuva torrencial, correram serra abaixo, cada um em sua viatura. Mais adiante do Destacamento, encontraram-se entre o Belvedere e a altura da Fábrica Nacional de Motores. O rádio no carro dava uma grande surpresa:[210][272] o General Costa e Silva havia assumido o "Comando Supremo da Revolução" e nomeado o General Octacílio Terra Ururahy comandante do I Exército. O dispositivo de reação legalista tinha ruído por dentro,[236] tornando o Rio de Janeiro "um acampamento revolucionário que tinha chefe e não precisava de outro".[263]

O Destacamento Tiradentes desceu de Petrópolis pela madrugada,[259] sem esperar combate e sem tomar precauções de segurança para não criar desconfiança nos golpistas da Guanabara.[272] Passando por Duque de Caxias, haviam rumores de greve na Fábrica Nacional de Motores e na Refinaria; a tropa ouvia até de que se destruiria a planta produtora de gasolina. Ferraro enviou uma companhia de seu 11º RI para ocupar a Fábrica, enquanto a Refinaria foi ocupada uma Companhia do Capitão Veloso, do 10º RI, enviada pelo Destacamento. Em ambas não havia qualquer greve.[172][274]

Guanabara: Costa e Silva[editar | editar código-fonte]

Às 04:00 do dia 2 o Major Cid saltou do carro de Muricy em frente ao Gasômetro. Ouviam-se tiros. O Major ficou num quartel do Corpo de Bombeiros, onde posteriormente estaria a Estação Rodoviária Rio Novo, à espera do Destacamento. Às 05:30 Carlos Lacerda compareceu ao quartel e ofereceu um abrigo para as tropas que vinham:[210] o Maracanãzinho.[275] O Destacamento Tiradentes, já largo com as adesões, ocupou toda a Avenida Brasil, com a testa no Gasômetro, por cerca das 07:30. Dirigiram-se ao estádio e ali fizeram uma defesa circular,[210] à exceção da tropa da Vila Militar, que a ela retornou.[273]

Quando, ainda pelo rádio do carro, Mourão Filho ouviu da nomeação de Ururahy, indignou-se — "Eu que devia ser o comandante do I Exército!"[270] Como o general mais antigo do Exército e "Chefe Militar incontestável da Revolução, entrando na Guanabara vencedor, à frente de minhas tropas", considerava-o seu por direito. Porém, restava-lhe apresentar-se a Costa e Silva, como lhe sugeriu Muricy, não sendo mais possível invadir o QG do Exército. Concordou.

O gabinete do Ministro da Guerra no 9º andar estava desocupado. Costa e Silva estava no 6º andar, "uma toca de animais encurralados", com "camas de campanha encostadas umas nas outras". Foi atendido por um Coronel de "túnica desabotoada, o cabelo em desalinho, esfregando os olhos". Não foi recebido com a honra devida e quando perguntou por Costa e Silva, ouviu — "S. Exa. está dormindo". Só pode acordá-lo dando ordem ao Coronel. Às 03:20 conversaram.

Mourão Filho não pôde mais do que reconhecer a autoridade de Costa e Silva, negar que tivesse ambições e protestar que teria sido mais delicado aguardar mais um pouco antes da nomeação de Ururahy. Tiveram uma segunda conversa às 09–10:00, já no no 9º andar. Foi oferecido o comando da Petrobras para expurgar os comunistas ali presentes. Na sede da estatal, descobriu que só o Presidente teria autoridade para tal oferta. Muricy, Magalhães Pinto e Guedes não conseguiram convencer o novo Ministro da Guerra a mudar sua decisão.

Costa e Silva tinha sucedido em instalar um general de confiança no I Exército e marginalizar Mourão Filho, que ambicionava o Ministério ou até mesmo a Presidência. Aquele resignou-se pelo cansaço, a preocupação com Kruel — que, pelo menos, também não chegou ao poder — e por pensar que Costa e Silva, ainda que ilegítimo, era seu superior hierárquico e "a única ordem legal possível de se obter". Já tinha seus receios do "General Comandante Supremo" — "este título tem o sabor de ditador espanhol" mas convidado no dia 3 por generais castelistas, entre eles o marechal Adhemar de Queiroz, a ameaçar a expulsão de Costa e Silva do cargo, nada fez.

Queria já voltar, mas permaneceu com a tropa mais alguns dias a pedido de Costa e Silva para garantir sua posição.[236][270][273][276][277] No estádio ela dormia na cama-rolo ou no chão duro e se alimentava pelo Serviço de Alimentação da Previdência Social,[172] recebendo visitas de autoridades. Boatos de conflitos e pedidos de envio de forças apareciam a toda hora: a ECEME seria invadida por fuzileiros, o Colégio Militar seria atacado, o Chefe do EM do I Exército queria um batalhão no prédio do QG, etc. Mas o Cel Dióscoro Vale, ali chegando, impediu qualquer saída.[210]

Conclusão[editar | editar código-fonte]

Às 05:00 do dia 6 de abril o Destacamento Tiradentes partiu de volta a Minas Gerais.[203] Recebido com "flores, música" no caminho,[210] entrou em Juiz de Fora às 18:30, saudado calorosamente como "heróis de guerra" por apoiadores.[203] Na manhã seguinte foi dissolvido.[172]

Mourão Filho retornava "derrotado sem ter tido um gesto de reação."[278] Com o "triste e feio papel de Muricy",[116] perdia espaço. Poderia ter tido mais sucesso comandando ele mesmo a tropa e tomando o QG do Exército.[279] Reclamou que Muricy não o informou da missão que também tinha recebido de Castelo Branco e tampouco o alertou contra ele e Costa e Silva; se tivesse, ele teria invadido o Ministério e "varrido aqueles usurpadores".[204] A decisão de não invadir o QG foi mal recebida por Guedes e Magalhães Pinto.[236] Mourão Filho, por sua vez, especulou que o Governador poderia ter vindo a Juiz de Fora e chefiado um governo provisório, nomeando-o Ministro da Guerra e galgando até mesmo a Presidência.[273][277]

Mourão Filho agira à "beira dos grupos com poder de decisão, deixando de colher frutos pessoais com o sucesso do golpe."[279] Escanteado, foi, superando a oposição de Costa e Silva, promovido a general quatro-estrelas após uma campanha de Magalhães Pinto e Guedes no Congresso Nacional. Desistiu da aposentadoria e pleiteou o III Exército, conseguindo em seu lugar o IV. Comandou em Recife até setembro de 1964, quando tornou-se ministro no Supremo Tribunal Militar.[280] Não veria sua visão política — a realização das eleições de 1965 e o governo civil.[279] Suas "Memórias de um revolucionário", de publicação póstuma nos anos 70, arrasavam a elite militar; vindo do deflagrador do golpe, o livro foi o último apreendido por motivos políticos no país e o editor e seu sócio responsáveis tiveram que fugir da polícia.[281]

A Marinha americana[editar | editar código-fonte]

USS Forrestal

Às 13:50 do dia 31 o vice-diretor de Operações da Marinha dos Estados Unidos, contra-almirante John Chew, acionou o dispositivo naval (vide tabela). Partiram navios-tanque e uma força-tarefa liderada pelo porta-aviões USS Forrestal, que de fato zarpou de seu porto em Norfolk, Virgínia.[282] O combustível seria suficiente para um dia de consumo nacional, mas as embarcações só chegariam do dia 10 em diante. Com a demora, discutiu-se a entrega de gasolina por avião. A hipótese exigiria um aeroporto sob controle.

As preocupações eram com aproveitar a oportunidade, talvez a última, sem se comprometer com uma causa derrotada, e com a legitimidade política dos receptores do apoio, que deveriam declarar que Goulart cometeu atos incostitucionais e formar um governo com respaldo de congressistas e governadores. Os petroleiros e aviões de carga só poderiam desembarcar após o aparecimento de um grupo com essa reivindicação de legitimidade.

O abastecimento seguia para os paulistas. Para "o complexo material que a guerra exige e que Minas dispunha em quantidade ínfima", no dia 30 ou 31 Guedes teve uma reunião sigilosa com o vice-cônsul americano, Lawrence Laser. Pediu "blindados, armamentos leves e pesados, munições, combustíveis, aparelhagem de comunicação". Queria armar 50 mil homens.

O deputado San Tiago Dantas, através de Afonso Arinos, Secretário de "Relações Exteriores" no novo governo mineiro, sabia da disposição do Departamento de Estado de "reconhecer a existência de um outro governo em território livre do Brasil." No final da manhã do dia 1 transmitiu o fato a Goulart. Negou que estivesse apenas especulando. Castelo Branco também tinha noção e no dia 1 avisou Lincoln Gordon que não precisaria de apoio logístico.

A frota "só foi avistada doze anos depois", nos arquivos de Lyndon Johnson.[8][284][28][285] A operação foi feita sob sigilo. O diário de bordo do Forrestal registra: começou o dia 1 ancorado em Hampton Roads e zarpou rumo a 17º N e 60º W acompanhado do Barney. Não desceu abaixo dessa latitude: no dia 1 o embaixador relatava o golpe como "95%" completo. O armamento não foi enviado e os navios receberam ordem de retornar.[28][282][286]

A cidade do Rio de Janeiro[editar | editar código-fonte]

O domínio do governo federal na Guanabara era o esperado pelos golpistas e se materializou no Almirante Aragão, "senhor absoluto do Rio durante quase dois dias". Entretanto seus fuzileiros, apesar de vários falsos alertas, não atacaram Carlos Lacerda, entrincheirado com policiais e voluntários, e com uma exceção não impediram a PM de neutralizar os sindicalistas. A greve ocorreu e prejudicou o governo. Os legalistas também perderam a oportunidade de aprisionar Castelo Branco; ele e Costa e Silva deixaram o Palácio Duque de Caxias na tarde do dia 31, rumando a aparelhos. Castelo Branco terminou na ECEME, que tornou a Urca um enclave da rebelião; na manhã do dia seguinte o Forte de Copacabana emergiu como outro.

O almirantado conseguiu neutralizar Aragão, e por sua situação deteriorante o Presidente partiu para Brasília no dia 1. Pouco antes o QG Seus guardas abandonaram o Laranjeiras, notoriamente um pelotão de carros de combate que seguiu ao Guanabara. Pouco antes oficiais da ECEME invadiram o QG de Artilharia da Costa. Entretanto as unidades aquarteladas na Guanabara se recusavam a aderir. Por fim, Âncora rendeu o I Exército, a repressão desceu sobre os governistas, o Destacamento Tiradentes entrou na cidade e os comandos mudaram, com Costa e Silva assumindo o Palácio Duque de Caxias. Rumores de uma contraofensiva janguista não se verificaram.

Laranjeiras e Guanabara[editar | editar código-fonte]

No Rio de Janeiro o Presidente podia contar no mínimo com o Batalhão de Guardas, a Polícia do Exército (PE) e o Almirante Aragão[287] com seus batalhões de fuzileiros navais Humaitá e Riachuelo, aquartelados na Ilha do Governador.[288] Pela manhã conferenciou com ministros de Estado e chefes militares, que deram resposta armada à crise.[289] Estava no palácio Laranjeiras, bem protegido por um scout car e um pelotão de cinco tanques M-41 do 1º Regimento de Reconhecimento Mecanizado, sob o tenente Freddie Perdigão Pereira, no parque Guinle.[8] Para lá partiram após as 16:00.[290] Á noite o dispositivo de segurança já atravancava o tráfego nas vizinhanças: na rua que sobe ao parque Guinle e no encontro da rua das Laranjeiras com o Largo do Machado aguardavam fileiras da Polícia do Exército.[291]

A linha de defesa encostou em outra adversária, que ali chegou antes, exigindo o envio de guardas para manter abertos os acessos ao Largo do Machado:[289] a montada pela PM para Carlos Lacerda, protegendo o palácio Guanabara a meros dois quarteirões de distância. Na rua das Laranjeiras as linhas, a federal com blindados e a estadual com caminhões de lixo, estavam a 3 metros de distância. "Conversavam e trocavam café por cigarros, passando os jornais de mão em mão."[157]

No dia 19 de março o Governador ouviu que Assis Brasil mandaria prendê-lo antes da convenção da UDN, no dia 11 de abril. Estava informado que o golpe começaria no dia 2 de abril. Sabia ainda que, deflagrado, o inimigo federal tomaria com força seu Estado e o Rio Grande do Sul. Aconselhado a fugir a São Paulo ou Minas Gerais, sua decisão era outra — entrincheirar-se.[292] Mandou a família para longe e no dia 27[293] ou 29 passou a dormir no Palácio, que na noite de domingo já era uma "praça de guerra".[294] O plano de segurança meticulosamente preparado desde o segundo semestre de 1963 entrou em ação.

Com a notícia da deflagração em Minas Gerais, chegando por Armando Falcão na madrugada do dia 31, passou à ocupação das vias vizinhas pela Polícia Militar, como presenciado por Muricy depois das 09:00. Os policias foram reforçados por centenas de voluntários, civis e militares reformados,[290] trajando lenços azuis e brancos.[295] Eram tantos os que se apresentavam para defender o Palácio que a durabilidade do estoque de víveres foi ameaçada.[296]

Às 16:00 as radiopatrulhas avistaram o deslocamento de carros de combate do 1º Rec Mec, mas embora a 3ª e 4ª linhas tenham sido colocadas em alerta, não se acreditava que fossem sozinhos atacar o palácio. De fato, o movimento era apenas ao Laranjeiras e ao Ministério da Guerra. A defesa seria posta à prova às 21–22:00, com rumores de um iminente ataque dos fuzileiros navais de Aragão. O deslocamento era real: quatro caminhões e um carro de assalto, com tropa pesadamente armada, partiram da guarnição. Pairava grande tensão. O comboio seguiu o itinerário: Cinelândia, Glória e entrada da rua Farani. Regrediram à praia do Flamengo e dali à Praça José de Alencar, Largo do Machado e Palácio Laranjeiras. Não houve ataque: apenas reforçaram a segurança do Presidente.[290][298]

A defesa do Palácio Guanabara

Os fuzileiros apenas tinham sido chamados a defender o Palácio Laranjeiras em virtude da presença adversária da Polícia Militar e do Exército não fornecer reforços.[299] Ás 01:30[290]–02:30[298] veio uma agressão concreta ao Guanabara: a partir das 01:00 cortaram-se as linhas telefônicas.[299] Porém na secretaria de Imprensa uma[297] ou duas linhas novas foram esquecidas e um radioamador retransmitia a Rádio Guanabara aos outros estados. Cortou-se em seguida a luz. Os geradores foram ativados, e para não sobrecarregá-los, o ar-condicionado foi desligado, contribuindo para o clima de tensão. Mais um movimento de fuzileiros navais apenas seguia ao Laranjeiras.

Às 02:00 do dia 1º Âncora garantiu que os fuzileiros não atacariam o Guanabara, e às 03:30, camuflados como enfermeiros, dois investigadores enviados pelo Guanabara fizeram reconhecimento no Arsenal da Marinha. Entraram vestidos de enfermeiros, num "rabecão, cheio de pedaços de corpo humano", a pretexto de buscar um cadáver, constatando que os fuzileiros do Batalhão Riachuelo dormiam.

Entretanto os boatos de invasão voltaram pela manhã, às 04:00 e 08:00. Antes das 10:00 da Rua Farani avistaram-se soldados nas encostas do morro e se imaginava um ataque de morteiros.[290][295][298] Era uma incursão breve[290] ou uma confusão entre os uniformes dos policiais e dos fuzileiros, parecidos.[295] Dos alto-falantes do palácio, Lacerda desafiava:[290]

Fuzileiros, deixem suas armas, porque vocês estão sendo enganados por um oficial inescrupuloso. Aragão, covarde, incestuoso, deixe os seus soldados e venha decidir comigo essa parada. Quero matá-lo com o meu revólver, ouviu, Aragão, de homem para homem.

O Governador chegou a especular que as repetidas "invasões" que não se concretizavam fossem tática psicológica para baixar sua guarda,[300] mas Aragão não deu ordem de ataque. Queria sim, prender o Governador, o que, consideravam os legalistas, interromperia o golpe ou deteria as adesões de comandos militares. Avaliava que seria perfeitamente possível,[299] e de fato, do outro lado o General Mandin notou sua imensa inferioridade do poder de fogo: o Guanabara não resistiria mais que duas horas.[288] Entretanto Aragão ficou à espera da aprovação do Presidente, que nunca veio.[299] O então Secretário de Segurança narra que os fuzileiros vinham para atacar de fato, mas Âncora telefonou a Aragão e ameaçou deslocar o 1º Rec Mec estacionado no Ministério da Guerra para interrompê-lo.[301] Fernando Gabeira era da opinião de que os oficiais sabotariam uma ordem de ataque.[302]

Os objetivos da defesa do Guanabara eram, além da simples defesa do governador, o valor simbólico da permanência do governo estadual e a proclamação ao país da agressão sofrida.[290] Lacerda era da opinião de que influenciou a adesão de São Paulo ao golpe, pois a Guanabara era até então considerada "favas contadas".[292]

PM contra Aeronáutica e fuzileiros[editar | editar código-fonte]

A ocupação da Rádio Jornal do Brasil

À noite Francisco Teixeira ouviu de Luís Carlos Prestes que deveria acionar a base aérea de Santa Cruz e bombardear o Palácio da Guanabara. Respondeu que seus tenentes já estavam do lado golpista. Em outra ocasião, respondeu ao mesmo pedido que só daria a ordem se mandado pelo Presidente da República. Um bombardeio aos jardins do palácio seria "mais um ato terrorista do que uma ação militar".[8]

Os fuzileiros navais e marujos da AMFNB eram loco de mobilização legalista, a ponto de Brizola sugerir a Aragão que convidasse Jango a se instalar nos Fuzileiros e dali se dirigir à nação. Até o dia 31, a AMFNB controlou o armamento, contatou oficiais legalistas e impediu a partida de navios. Fuzileiros navais ofereceram armas na UNE, embora nenhuma veio aos que esperavam na Faculdade Nacional de Direito. O cabo Anselmo, com armas dos Fuzileiros, planejou ações com integrantes da UNE e operários marítimos. Aragão considerava-se "senhor absoluto do Rio durante quase dois dias". Seus fuzileiros guarneceram a Aeronáutica (o edifício da Terceira Zona Aérea fora metralhado), as emissoras Nacional e Mayrink Veiga, governistas, e os Correios e Telégrafos, possível ponto de reunião legalista.[302][303]

O Conselho Nacional de Telecomunicações (CONTEL) vetou as emissoras de rádio não associadas à "Tribuna da Imprensa" transmitirem notícias; que emitissem apenas música, então.[264] Proibiu à direção da Rádio Jornal do Brasil as notícias "falsas" ou "alarmistas". Foi acusada das primeiras.[304] Por divulgar pronunciamentos de JK e Magalhães Pinto, foi ocupada entre as 20:30 e 21:14 por 10 fuzileiros navais, ficando fora do ar nesse período.[199] Seu superintendente foi preso e depois solto.[304] Igual tratamento receberam os jornais oposicionistas Tribuna da Imprensa e O Globo, invadidos e impedidos de circular no dia 1º. Aragão esteve presente nas ocupações.[303]

O Comando Geral dos Trabalhadores já tinha decretado greve geral para o dia 30. Entretanto a rede de comunicações sindical estava enfraquecida.[305] A greve se restringiu aos estados da Guanabara e Rio de Janeiro, além de Santos e ferrovias em São Paulo, Bahia e Rio Grande do Sul,[306] o que beneficiou o golpe: não interferiu na base territorial golpista em Minas Gerais e São Paulo e impossibilitou a movimentação das massas dos subúrbios para o centro, onde estavam 95% dos sindicatos. Edmar Morel acusa a greve de ter sido obra de uma 5ª coluna, resultado da ausência de cabeça no CGT.[162] Thomas Skidmore atribui o fracasso sindical ao fato de líderes já terem sido presos no dia 30 ou estarem foragidos.[305]

Aragão não conseguiu interromper o aparato militar estadual. A PM de Carlos Lacerda era ostensiva nos pontos estratégicos, acessos e vias de transporte. Aparecia também à porta dos sindicatos.[307] Um a um, conduziu ocupações e prisões de liderança, mas um escaparia: o CNTI.[308] A liderança da greve, incluindo o deputado Hércules Silveira, foi presa por 12 policiais militares onde se reunia no prédio da IAPETEC, em frente ao Ministério da Aeronáutica, na rua Santa Luzia. Um contingente da I Zona Aérea libertou os detidos e outro dos fuzileiros navais fez a PM sair com a ameaça de abrir fogo, às 18:25.[162]

Palácio Duque de Caxias[editar | editar código-fonte]

Pela manhã Castelo Branco fracassou em retardar os mineiros e teve contatos improdutivos com os paulistas. Às 10:00 dirigiu-se a seu gabinete no EME, de onde prosseguia com telefonemas[170] a apenas três andares abaixo do gabinete do Ministro, cheio de legalistas.[309] Corria o risco de ser preso — Costa e Silva disse-lhe "Você está na boca do lobo!" Sua permanência ali seria vista pelos colegas como afirmação de liderança.

Costa e Silva e outros como Ernesto Geisel se juntaram ao Chefe do Estado-Maior no Ministério. Pelo seu próprio sistema de comunicação coordenavam o golpe, Costa e Silva com as lideranças militares e Castelo Branco com as civis.[8][170] Também o coronel Rubens Restell chegou ali de São Paulo, informando a situação no outro Estado e retornando com as instruções de Castelo.[309]

Blindado monta guarda em frente ao Ministério da Guerra

O EME era "defendido" por oficiais de pistola 45 na cintura. Tiraram os arquivos de aço das seções, bloquearam as portas dos elevadores e escadarias de acesso ao 5º e 6º andares e escalaram guardas. Solicitaram reforço à Escola de Comando e Estado-Maior,[310][nota 17] do General de brigada Jurandir de Bizarria Mamede, subordinado[311] e amigo de Castelo. Vieram para defender o General e talvez tomar o Palácio 60 oficiais levemente armados,[8] após o meio-dia.

O I Exército ficou alarmado, especialmente pela presença de oficiais em uniformes de instrução, e solicitou reforços.[312] Ás 15:15 se deu uma ordem de bloqueio e evacuação do Palácio. Os civis foram convidados a sair. 12 tanques e 8 carros de assalto do 1º Rec Mec e 2º BIB estacionaram na frente, isolando a entrada de uma multidão de populares que se aglomerava. Somente o portão lateral esquerdo ficou aberto.[313] No pátio estavam elementos do Batalhão de Guarda e do 1º GCanAuAAe 40.[310]

Com as serenes ligadas, a PE saltou das viaturas e ocupou os andares de baixo. O Palácio tornou-se "cenário de faroeste", dividido entre o governo e os revoltosos. Estes, de fora com "um paliteiro de carros-de-combate apontados para o Ministério", e dentro, do térreo ao 4º e do 9º ao 10º andares. Aqueles, do 5º ao 8º, dispostos a defender Castelo Branco. "E se a PE tentar subir?" "Atirem". Elevadores estavam desligados, e passagens, bloqueadas. Imaginavam que a PE os desentocaria com bazucas à noite. [8] "Armados de metralhadoras, os dois lados ocupavam as escadarias e esperavam por quem iria atirar primeiro".[170]

Por sua vez, os legalistas no 9º o 10º andares, onde estava o gabinete do ministro, também se preparavam para resistir.[312] Dois lances de escadaria acima de Castelo estava Âncora.[170] Tinha em mãos a ordem de, no Forte da Laje, prender Castelo.[314] Só tardiamente ele foi nomeado como líder do golpe a Jango. A ordem não pôde ser cumprida de imediato, pois só outro general de exército poderia prendê-lo. Este seria, então, Âncora, que a princípio se recusou por constrangimento pessoal.[307] As horas passaram e só às 18:00 Âncora mandou o general Almeida de Morais "convidar" Castelo a seu gabinete. Ele não estava mais ali. Testemunha, o general Telles suspeita que Âncora tenha deliberadamente arrastado a ordem para permitir que Castelo fugisse.[170]

Castelo Branco havia deixado o Palácio às 16:00,[8] pelo portão lateral num automóvel oficial escoltado por um jipe cheio de homens armados. Em nenhum momento foi bloqueado.[170] Escondendo-se em uma série de "postos de comando" com seu Estado-Maior revolucionário,[nota 18] terminou na ECEME.[315] Costa e Silva seguiu a outros aparelhos.[308][nota 19] A PE bebeu água e saiu, "absolutamente por fora desse pequeno drama".[312] A escolta montada para o General, dispensada, desdenhou da "revoluçãozinha de expediente".[8]

Península da Urca[editar | editar código-fonte]

Tomando conhecimento da deflagração em Minas, ao redor das 10:00 o General Mamede declarou a Castelo Branco que já não considerava Jango o Presidente.[316] Obedecendo somente a Castelo, transformou sua Escola no "Estado Maior Revolucionário", a primeira formação da Guanabara levantada contra o governo. Dispunha de 400 oficiais, dos quais apenas 8 apresentaram dissidência; junto com alguns sargentos, foram presos. O armamento não se equiparava à moral: apenas 28 revólveres 45, 30 fuzis e mosquetões, 3 Thompsons e, após as 11:00, 10 submetralhadoras INA cedidas pelo Palácio Guanabara. Suspendeu as aulas. Os alunos ficaram em "equipes de choque" de 20 cada.

A ECEME tornou-se foco de agitação contra o governo[312] por, juntamente com a ESG, ser tratada como "arquivo dos indesejáveis" pelo mesmo.[317]

Vieram boatos de um ataque com carros de combate, e em poucas horas a garagem produziu 60 coquetéis molotov. A primeira grande missão foi a escolta no EME. Terminou dispensada, e após as 17:00, a prontidão foi relaxada, os prisioneiros soltos e as aulas restauradas. Veio o desânimo[308] — "zero a zero e bola ao centro". Gaspari enfatiza que o levante não foi a lugar nenhum,[8] mas eram medidas de dissimulação, diante do risco de "forte ação repressiva". Eram complementadas pelo obscurecimento da escola e, numa contradição, dificultadas pela própria liberação dos presos.[308]

À noite Mamede compareceu ao aparelho de Castelo. Retornando à paisana, tinha ordem de pôr sob seu comando as numerosas demais instituições[nota 20] da Urca e Praia Vermelha. Pela madrugada confirmaram seu apoio o Ten Cel Andreazza, na ESG, Cel Daltro Santos, na Escola de Educação Física do Exército, e Ten Cel Iônio Portella, na Escola de Artilharia da Costa. Do Instituto Militar de Engenharia (IME) apresentaram-se alunos individualmente[318] mas no caso dos coquetéis seu comandante, General Luiz Neves, estava ausente.[312] O Cel Euler Bentes Monteiro, da Escola de Comunicações, recusou-se a fornecer "meia dúzia de rádios".[8]

A bonita pracinha da Praia Vermelha fervilha de movimento. Ganha vida e aspecto marcial. É uma praça de guerra. Os bondinhos que enfeitavam a praia foram empurrados a braço; aparecem caminhões e aproveita-se a viatura capturada aos navais; enchem-se sacos de areia; manilhas de uma obra próxima são roladas; surgem cabos de aço.

Hernani D'Aguiar, "A revolução por dentro", p. 151

Todos os alunos dormiram ali. Vigiavam a praia, imaginando um ataque anfíbio dos fuzileiros, e guarneciam as ruas. Consideravam os janguistas "majoritários, onipotentes e onipresentes".[319] Estavam em posição precária e no dia 1 vinham boatos de um ataque iminente.[318] Poderia vir até de uma aglomeração da Marinha em Niterói.[320] Costa e Silva prometeu uma companhia de carros de combate do 1º BCC, que nunca veio, e o Forte São João, embora solidário, não quis fornecer um reforço — não convinha a ninguém abrir mão de seus efetivos. Coube aos próprios oficiais a defesa. Patrulhas móveis em automóveis particulares monitoravam as redondezas e o comando foi decentralizado para empregar as capacidades dos oficiais.

O oponente que apareceu eram 2 fuzileiros navais, logo presos. Em seguida, um sargento com 8 fuzileiros, todos de INA. Interceptados por 12 oficiais, dos quais apenas 3 com metralhadora de mão, poderia ter ocorrido um tiroteio, mas se renderam e as armas complementaram o parco arsenal.[318] Estavam ali em reconhecimento,[319] todos rumando ao bondinho. No alto do Pão-de-açúcar tinham um posto de guarda[318] com uma antena transmissora,[321] desde a antevéspera, com um capitão-tenente e 8–10 fuzileiros. Tentativas de diálogo não deram fruto[322] e o bondinho foi desativado para não que não atacassem a retaguarda.[320]

O resultado foi a adesão do IME. A pracinha da Praia Vermelha foi entrincheirada. Na Avenida Pasteur haviam barricadas em profundidade até a Faculdade de Medicina, com postos menores chegando ao Iate Clube.[318]

O Rio "impermeável"[editar | editar código-fonte]

O termo era de Guedes: era dificílimo convencer as formações da Guanabara a aderirem ao golpe. Os Dragões da Independência, 1º Rec Mec e 2º BIB se recusaram. Tentaram-se tirar barcos da barra na baía, sem sucesso. O almirante Heck desembarcou de uma lancha na ilha de Mocanguê disfarçado de pescador e tentou tomar os dois submarinos atracados, mas um estava sem peças, e o outro, sem tripulação.[8] A situação continuou no dia 1, mesmo quando o "dispositivo" já cambaleava: o Ten Cel Hugo Abreu voltou do Regimento Escola de Cavalaria de mãos vazias, embora também não fosse denunciado. [152] O General Augusto César de Castro Muniz Aragão queria tomar o Núcleo da Divisão Aeroterrestre. Encontrou-se à noite dos dias 31 de março a 1 de abril com seus comandantes de infantaria, artilharia, logística e instrução. Estavam receosos com a significativa fração de sargentos e subtenentes governistas. De manhã o comandante, General João Costa, "soldado profissional" e indiferente, aceitou sua autoridade, mas não houve assunção de comando. A Divisão permaneceu "neutralizada".[323][324] Enviado de Costa e Silva,[152] também não teve êxito no Regimento Escola de Infantaria.[318]

Os que não eram chamados também nada faziam. O comandante da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), dispondo de uma "reserva tática de alto nível", mandou embora os alunos. Um grupo quis partir para se unir à tropa mineira, mas quando se juntou ela já estava vitoriosa.[325]

Desde o início a ECEME tinha formado Estados-Maiores de instrutores para que generais pudessem usurpar a liderança de unidades.[312] À Escola compareceram então vários. Costa e Silva despachou os Generais Souza Aguiar e Horácio Garcia para tomarem a 1ª DI e Divisão Blindada, respectivamente. Garcia tinha um ponto de partida, o Coronel Calderari, comandante do 1º BCC e favorável à causa, mas visitando-o às 06:00 e 14:00 não surtiu efeito na Divisão. Aguiar, próximo ao Campo de Afonsos, observou por meia hora a Vila Militar — "passavam despreocupadamente como se não houvesse qualquer Revolução em marcha". Às 12:30 encontrou Muniz Aragão, que lhe falou da Aeroterrestre - fora de seu controle e uma tentativa de tomada seria sangrenta. Já a Vila Militar (disposição na tabela ao lado) permanecia nas mãos do General Osório; mesmo que o QG fosse tomado, não poderia ser defendido. A equipe retornou às 13:00.[318]

A Urca empreendeu outras missões. O Coronel Restell transmitiu um objetivo importante para os paulistas: neutralizar a Base Aérea de Santa Cruz, "único grande obstáculo ao II Exército".[295] Seu Coronel Aviador Rui Moreira Lima era "muito respeitado, mas totalmente de esquerda". Ao lado, o 1º BE Cmb temia uma rebelião pelos quase mil sargentos da base e pediu reforços.[326] Com um grupo da ECEME, alguns elementos coordenaram também uma operação de sabotagem, mas a equipe da Escola viu que seria impossível e, às 12:00 do dia 31, seguiu ao Palácio Guanabara.[312] No dia seguinte, o Governador Lacerda foi ainda reforçado por um Estado-Maior enviado pela ECEME.[318]

Um grupo da Aeronáutica[nota 22] pretendeu desembarcar no litoral paulista, subir a serra e tomar a Escola de Especialistas da Aeronáutica, em Guaratinguetá. Teriam assim uma pista de pouso e estrutura para operar aeronaves. Antes da largada, no dia 1, o golpe já estava triunfante e a operação não teve início.[327]

Artilharia de Costa[editar | editar código-fonte]

Tomada do QG de Artilharia de Costa
Golpe de Estado no Brasil em 1964
Deposição do Governo João Goulart – Golpe de 1964 14.tif
O Quartel-General
Data 1 de abril 1964
Local Copacabana, Rio de Janeiro
Desfecho
Montagna captura o QG

Vitória propagandística para os golpistas

Beligerantes
ECEME
QG de Artilharia de Costa

Forte Duque de Caxias

Comandantes
César Montagna de Souza

Dickson Melges Grael

Rubens Vasconcellos
Forças
21 oficiais
Baixas
1 ferido 1 ferido

Às 18:00 do dia 31, com a informação de que parte da Marinha teria aderido ao golpe, o Forte de São João recebeu a ordem de atirar em qualquer belonave que tentasse sair da barra. Porém o forte não estava em condições de atirar por um problema no dispositivo de iluminação noturna no telêmetro, impedindo o estabelecimento da rota correta do alvo. O Tiro de Emergência era impossível pois a munição estava no paiol e a viatura para buscá-la era inacessível. "Diante de tantos óbices"[328] e estando na Urca-Praia Vermelha e sondado pelo lado de Mamede, seu comandante, Ten Cel Siqueira, acabou entre as formações dali que aderiram.[318] Próximo, o Forte da Laje fez o mesmo.

No restante da Artilharia de Costa pela Guanabara haviam alguns mas poucos elementos favoráveis à rebelião no Forte Duque de Caxias e 8º Grupo Móvel de Artilharia de Costa (GMAC), e o comandante, General Antonio Henrique Almeida de Moraes, era legalista.[329] O Ten Cel Arídio Brasil, do Forte de Copacabana ao lado do QG, era decididamente contra Goulart.[330] Já tinha interceptado o telefone do QG, montado canhões e metralhadoras .50 e até posicionado metralhadoras no Clube dos Marimbás.[331] Mas só se definiu após a adesão de seu amigo Kruel[329] e da chegada de reforços pedidos na ECEME para compensar os numerosos sargentos, pouco confiáveis.

Infiltraram-se às 07:00 do dia 1, por carros particulares, 28 oficiais incluindo os coronéis Espírito Santo e Cerqueira Lima. Mais 3 foram barrados no QG.[330] O Forte estava publicamente sublevado.[328] O General Moraes, "conviva frequente do forte" e sem desejo de sangue,[330] não fez mais que pedir a Arídio que voltasse atrás. Com a negativa, conviveram educadamente: os dois quartéis não tinham separação nem mesmo de uma cerca, e os revoltosos transitavam pelo fundo do terreno do QG para acessar o forte.[8] Quando o General passou pela Praça Coronel Eugênio Franco a caminho do QG, encontrou um pelotão comandando por um tenente para o qual tinha assinado a proposta de vir ao Forte. Num momento bastante constrangedor, abriram uma brecha para que passasse.[331]

Copacabana e São João, a extensão da rebelião na Guanabara pela manhã, não somavam uma companhia.[8] Às 10:00 Moraes largou o QG e foi ao Ministério da Guerra. Os defensores do Copacabana defrontavam-se com os do QG, reforçados por uma bateria do Forte Duque de Caxias e, após as 10:30, uma coluna de 100 homens, um jipe e 6 caminhões de 2,5 t do 8º GMAC. Os últimos foram mandados embora pelo Ten Cel Borges Fortes, do próprio QG, enfraquecendo a guarda.[330][262]

O QG[editar | editar código-fonte]

Na Urca o Gen Orlando Geisel discutia com o Ten Cel João Figueiredo tomar o QG. O Cel Montagna se dispôs a fazê-lo. Foi autorizado a conduzir essa "tenentada" com 20 voluntários,[nota 23] 4 carros particulares, 2 INAs, uma Thompson e 2 granadas defensivas. Passaram o novo túnel da Rua Barata Ribeiro, estacionando na Rua Raul Pompeia antes da esquina com a Francisco Otaviano. Eram 11:47. Na elevação em frente à Raul Pompeia um grupo amigo acenava para indicar o caminho de menor resistência, mas Montagna não compreendeu.

À paisana, o primo de Montagna observou a Francisco Otaviano. A situação no QG era normal. Um cabo com uma Thompson guardava o portão. Montagna distribuiu as ordens finais. Menos de 10 minutos tinham se passado. Em alta velocidade o comboio desceu a rua e, saltando dos carros ainda em movimento, investiu de surpresa no QG. Montagna esbofeteou o cabo e tomou sua Thompson. Na varanda, a pistola de um capitão. Outra via também com luta foi nos flancos do edifício. A luta estendeu-se até o Arpoador. Trocaram-se tiros. O Sargento Miranda, defensor, foi alvejado na perna (deliberadamente baixo) ao apontar sua arma, provavelmente a Montagna, e o Major Magalhães, atacante, sofreu uma pancada de coronha de mosquetão.

"Indecisos com a presença de tantos oficiais" os defensores não resistiram à breve luta corporal e os atacantes penetraram no QG. Montagna prendeu o líder e chefe do EM, Cel Rubens, proclamando pela rádio sua vitória. Nos fundos, um sargento e 5 soldados continuaram resistindo na "Cota 40"[nota 24] até se renderem com apelos do pessoal do Forte. O General Moraes reapareceu e foi preso. Vieram da ECEME dois generais,[nota 25] um para assumir o comando e outro para formalizar a prisão que só poderia ser feita por outro General.[329][332][333]

Um rebelde do forte estava dentro do QG e assim definiu o "golpe de mão": "Não havia razão para aquele espalhafato. O QG estava tomado. Foi um golpe contra meia dúzia de burocratas que estavam lá dentro." Mas ocorreu debaixo das câmeras da TV Rio, atingindo assim grande visibilidade, e foi trunfo moral para os golpistas.[152] Originou também uma série de misconcepções. Não foi a tomada do forte, mas do QG ao seu lado; o pessoal do forte, excetuando um capitão, nem participou.[332]

Os novos donos do forte se entrincheiraram na Avenida Atlântica, face ao Forte Duque de Caxias, cujo Major Cavassone permanecia legalista, e na Rua Francisco Otaviano contra o 8º GMAC, cujo Cel Virmond, também ainda leal, não pôde reaver o forte: um Pelotão de Choque chegou a passar, mas nem desembarcou, sob a vista do canhão e desaconcelhado por Arídio. A defesa era feita com um pelotão em cada via,[nota 26] dois canhões Schneider 75 mm, levados do forte às ruas em função anticarro, metralhadoras e carros particulares de civis cooperativos. Rumores de ataque de blindados ou desembarque de fuzileiros na Praia do Diabo não se cumpriram.[328][332][333][331] Ficaram bloqueadas as esquinas da Avenida Atlântica com a Rua Rainha Elizabeth e da Francisco Otaviano com a Nossa Senhora de Copacabana.[334]

Jango sai e todos deixam o Laranjeiras[editar | editar código-fonte]

De manhã Âncora recomendou ao Presidente que deixasse o Rio: restavam do lado legalista só o Batalhão de Guarda e a Polícia do Exército, insuficientes para enfrentar a oposição, e os fuzileiros navais estavam enquadrados pelo almirantado.[287] Á frente de uma célula de resistência, o Almirante Arnold Hasselmann Fairbairn havia imobilizado os fuzileiros na Ilha das Cobras.[295][335] O ministro da Guerra demitiu-se pelo telefone após o Presidente se recusar a romper com a esquerda — "pulava do barco antes do naufrágio". A Raul Ryff, Jango declarou: "Vou para Brasília. Isto aqui está se transformando numa ratoeira." Decolou às 12:45. Pesavam as defecções do II Exército e 1º RI e o aviso< de Dantas quanto à oposição americana, mas a decisão pode ter sido tomada ainda de madrugada; a intenção foi expressa à capital às 09:00 da manhã.

A decolada desencadeou o esfacelamento do "dispositivo" no I Exército. Âncora, agora ministro interino da Guerra (Oromar Osório assumiu o I Exército) com uma hemorragia do ministro Jair, partiu a Resende para negociar com os paulistas.[152][41][336] Os ministros civis só souberam da ida a Brasília com o avião já no ar.[337] Uma equipe da ECEME à paisana,[nota 27] ouvindo que fuzileiros atacariam o Guanabara apoiados por um carro de combate M41, não encontrou na região do Laranjeiras nem a PE e nem fuzileiros.[338] Haviam largado suas posições, os fuzileiros às 15:25.[290] Só restavam como defensores do Palácio presidencial, já vazio, o pelotão blindado.

O Ten Perdigão queria mudar de lado, mas receava o que fariam seus sargentos. Pôs, então, os quatro no 4º carro; o Sargento Augusto teve que ser preso. Este 4º e outro, formando a 2ª seção do pelotão, deveriam partir à Urca-Praia Vermelha. Dando pane, Perdigão engatilhou sua INA. Foi pacificado pelo Major Caldeira, da ECEME, que assumiu a seção e a conduziu à Escola. Os carros chegaram na barricada com as torres viradas para trás, mas por esquecimento, ainda em posição de tiro. O Major Porto Alegre, com um revólver 38, interrompeu a coluna. Se fosse inimiga, teria morrido — era o estado de espírito na ECEME, a cuja defesa a seção se uniu.

Os 3 carros da 1ª seção depararam com os defensores do Guanabara em dois pontos. O Cap Adolpho, entocado num buraco na rua Ipiranga com uma bazuca, foi contatado com a ajuda de uma radiopatrulha que monitorava os blindados. Conseguiu a liberação do acesso com o comandante do setor, Cel Luiz Mendes.[338] O Cap Juarez,[nota 28] que estava na entrada da rua Laranjeiras com 3 sargentos, 2 cabos e 27 soldados, avistou ao longe os carros, bloqueou a estrada com um caminhão de lixo e dirigiu-se com um sargento e um cabo, cada um com quatro granadas, para explodir as lagartas. Perdigão acenou — "vim aderir à Revolução" — e trocou sua INA por um lenço azul e branco, símbolo dos defensores.[339]

A 1ª seção aproximou-se do palácio às 15:50,[290] enchendo de entusiasmo os presentes. O Cap Adolpho, em seu Volkswagen, conduziu um jipe e os 3 carros. Na comoção, o Maj Alcides Etchegoyen subiu no Volks.[338] Carlos Lacerda, que pela TV Rio, às 16:00, finalmente discursava, chorando, clamava "Obrigado!"[295] Era uma expressão pública do alinhamento dos militares ao Governador.[340] Ele abraçou Etchegoyen e, não sendo conveniente uma explicação naquele estado, surgiu a misconcepção de que os filhos do General Etchegoyen teriam comandado carros para resgatar o Palácio.[338] Ainda assim, correndo a uma das janelas, Lacerda proferiu palavrões contra novos supostos atacantes: fuzileiros viriam pela retaguarda do Palácio. Mais um boato.[341]

O golpe triunfante[editar | editar código-fonte]

Mobilizando-se em favor de Jango, optantes da Polícia Federal se reuniram nos jardins do Palácio do Catete, e ex-pracinhas, no Campo de São Cristóvão. Passaram a tarde à espera de ordens que não vieram. O mesmo se deu com os portuários e marítimos. Moveram-se os estudantes, reunidos às 15:00 na Cinelândia, em frente à Polícia Militar que guarnecia os Clubes Militar e Naval. Tentavam invadir o Clube Militar e os oficiais no interior atiravam. Às 16:00 a Polícia do Exército substituiu a PM e os estudantes comemoraram, imaginando que estivessem ali para garanti-los. Era o contrário e foram dispersos. Refluindo, foram recebidos a tiros, deixando dois mortos.[287][342]

A tomada do QG de Artilharia de Costa repercutiu em Niterói, onde oficiais do Exército e da PM tomaram o QG da PM, prenderam seu comandante, assumiram a corporação e por fim prenderam o Governador Badger da Silveira. O legalismo no Rio evaporou. Os fuzileiros navais abandonaram as últimas comunicações que ocupavam. Pela noite Âncora rendeu o I Exército e, com o caminho aberto, o Destacamento Tiradentes entrou na cidade no dia 2.

Ainda no dia 1 partia-se à neutralização dos governistas e janguistas. Às 17:30 a sede abandonada da UNE na praia do Flamengo foi queimada por coquetéis molotov. Quase na mesma hora também foi depredada a Ultima Hora. O I Exército depois ocupou as Rádios Nacional e Mayrink Veiga.[343] A PM concluía sua Operação Salame, "fechando sindicatos e prendendo meio mundo".[340]

Às 17:30 Abelardo Jurema e outros ministros, comunicando-se com o Presidente pelo rádio, seguiram ao QG da 3ª Zona Aérea, no Santos Dumont, para decolar a Brasília. Um "Avro" poderia partir de imediato, mas o General Assis Brasil, visitando a família, estava atrasado, e um telefonema anônimo à ECEME às 18:00 denunciou a presença do Ministro e afirmou que fazia-se o possível para atrasar o vôo. Ali acabou preso por um ínfimo time da ECEME e IME.[nota 29] Os legalistas, tendo superioridade material, fracassaram em salvar o ministro. Já os aprisionadores não perceberam os outros ministros ali presentes e logo soltaram Jurema.[344]

Novos donos do Rio[editar | editar código-fonte]

Castelo Branco saiu de seu esconderijo às 17:45 e se dirigiu ao Forte de Copacabana, onde foi recebido como ministro da Guerra com uma salva de tiros. Os tiros assustaram os habitantes da Zona Sul e a salva foi interrompida. Saiu do ar o rádio do Gen Alvim, que tentava convencer o comandante do Forte Duque de Caxias. Enquanto o pessoal estava em "polvorosa" o Maj Grael por iniciativa própria juntou alguns oficiais e um caminhão e, em 20-30 minutos, capturou o Duque de Caxias.[152][333]

Quem de fato ocupou o ministério da Guerra foi Costa e Silva, numa disputa de poder que se prolongaria. Partilharam-se as nomeações.[152] Às 02:00 do dia 2 Oromar Osório entregou o comando da Vila Militar.[345]

A ECEME prosseguiu com suas missões de apreensão, como do General Osvino, até pelo menos o dia 3, e as aulas demoraram dias a voltar. Choviam boatos de uma investida dos derrotados, a partir da meia-noite: sargentos do I Exército matariam os oficiais, fuzileiros desembarcariam na Praia Vermelha e, com portuários, tomariam o Forte de Copacabana e o Maj Costa Braga, comandante do Forte do Macaé, planejava restaurar Jango ao poder. Nenhum se cumpriu.[346] Na Escola de Artilharia da Costa foi desbaratado um plano de reação, no Forte de São João, do Cap Nogueira, intendente, e dois sargentos, esperando adesão na Escola de Educação Física.[347]

São Paulo e o vale do Paraíba[editar | editar código-fonte]

Apenas no final da noite do dia 31 Amauri Kruel pôs o II Exército contra o Presidente. Nas horas que se antecederam, pôs a Goulart um ultimato para romper com a esquerda, os militares em São Paulo ficaram divididos, alguns blindados já foram deslocados de trem rumo ao Vale do Paraíba e o comandante legalista da Infantaria Divisionária 2, Euryale de Jesus Zerbini, controlou o Vale do Paraíba, conservando nos quartéis as três formações ali presentes. No dia seguinte, o estado se mobilizou para a guerra, Zerbini perdeu seu poder, o II Exército avançou pela Via Dutra na direção do Rio de Janeiro, o I Exército moveu o Grupamento de Unidades-Escola na direção oposta e as duas forças se encontraram nas redondezas de Resende e Barra Mansa, onde o 1º Batalhão de Infantaria Blindado e a Academia Militar de Agulhas Negras (AMAN), sob o general Médici, se juntaram ao golpe e tomaram o lado do II Exército. Duas baterias de artilharia legalista debandaram às fileiras da AMAN. À tarde não houve batalha pois Âncora e Kruel conferenciaram na AMAN, rendendo o I Exército. O II Exército também enviou forças a Brasília e Curitiba.

Chegam as notícias[editar | editar código-fonte]

No QG do II Exército, seu comandante recebeu às 07:00 do dia 31 um telefonema de Lindolfo Ferraz. De férias em São Lourenço, Minas Gerais, acabara de ver movimento anormal de tropas e a saída do batalhão de Polícia Militar dali. Kruel sabia: eclodira adiantada a rebelião em Minas Gerais.[348] Foi informado também por Castello Branco através de Riograndino Kruel.[8] Entrou então em contato com o I Exército, 4ª RM/DI e EME e enviou emissários ao 5º e 6º RIs, localizados no Vale do Paraíba, para informá-los da rebelião e obedecerem ordens somente dele. Ás 16[348] a 17 horas convocou a uma reunião seus generais: Aluísio Mendes, da 2ª Divisão de Infantaria, Antônio Bandeira, da 2ª Região Militar, Zerbini, da Infantaria Divisionária da 2ª DI e Carlos Buck Júnior, da Guarnição Militar de Santos.[349]

Kruel, tendo em mãos plano de ação e manifesto golpistas,[348] se mantinha ambíguo e silencioso; chamou a sublevação de "quartelada de Mourão" e recusou-se a aderir. As tropas aguardavam de prontidão desde as 14:30. Também Adhemar de Barros negou a Carlos Lacerda que fizesse parte da rebelião.[8] Os legalistas em São Paulo "oscilavam entre a inquietação e a cautela".[152] O governo federal estava em silêncio. Voluntários que se apresentavam ao II Exército para enfrentar o governo eram recusados. A Força Pública estava em alerta.

À tarde vieram notícias do Rio de Janeiro e instruções de Castello Branco através do coronel Rubens Restell, chegado de avião. À exceção dos fuzileiros, não havia mobilização militar legalista. O panorama ali era bom para os golpistas.[349][350]

Do Rio de Janeiro vinham ligações ao II Exército, mas só às 17:00 Goulart conseguiu falar com Kruel.[348] A partir das 10:00 da manhã o general e o Presidente tiveram cinco telefonemas.[nota 30] O teor era o mesmo: Kruel exigia de Goulart que rompesse com os sindicalistas e a esquerda e ele recusava.[350]

A tomada de posição[editar | editar código-fonte]

As atenções, porém, voltavam-se para o II Exército, em São Paulo, comandado pelo general Amaury Kruel, ex-ministro da Guerra, ex-chefe do Gabinete Militar e compadre do presidente. Para o lado que ele pendesse, penderia a vitória, pela posição estratégica de seu exército.

Chagas (1985), p.21

Aluísio e Bandeira, da 2ª DI e 2ª RM, ainda consideravam "temerária" a participação no levante "isolado e precipitado" de Minas Gerais. Para convencê-los a participar, mudou seu comando para o QG de Aluísio, no Ibirapuera.[349] À noitinha, retornou ao QG do II Exército e descobriu oficiais dispostos a, se ele recusasse a levar o II Exército contra Goulart, sequestrá-lo e entregar o comando a Cabral Ribeiro, do 4º RI, que desde cedo já se alinhava à rebelião.[152][351]

De acordo com depoimento de uma testemunha à Comissão da Verdade de São Paulo em 2014, Kruel foi empurrado de sua postura vacilante para o golpe às 18:00. Recebeu do presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Raphael de Souza Noschese, seis maletas contendo um total de 1,2 milhão de dólares em espécie. A reunião se deu sob sigilo num laboratório do Hospital Geral Militar de São Paulo.[352]

Antes mesmo da decisão final do II Exército algumas de suas unidades já se moviam por conta própria.[353] Na escola da rua Avanhandava funcionava um centro logístico, onde atuava Hermann Morais de Barros associado ao coronel Cid Osório e aos generais Aldévio e Agostinho. Combinavam do deslocamento de carros de assalto e artilharia pesada na direção do Rio de Janeiro. Suas lagartas não aguentariam todo o deslocamento, exigindo o transporte em "jamantas", mas pela manhã percebeu-se que não havia no estado meia dúzia delas. Hermann sugeriu o transporte ferroviário. Os militares objetavam: uma única granada poderia inutilizar toda uma unidade. Só após as 19:00 concordaram, e algumas composições, partindo antes 20:00, chegavam ao Vale do Paraíba às 22:00.[354]

Às 22–23:00 os sindicalistas que desde a tarde controlavam a Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão, receberam a vaias o Capitão Antonio Erasmo Dias, da 3ª Bateria de Obuses de Costa (Forte dos Andradas). Vinha com seu oficial-de-operações e, no lugar de sua tropa, a Polícia Marítima de Santos. Os "bonés vermelhos" não cumpriram a ameaça de detonar dois carros-tanque de amônia que barravam a entrada, e na Superintendência o Capitão anunciou ao Almirante Zavataro, "pelego comunista chegado ao general Osvino", que a instalação estava ocupada sob ordem de Kruel. A Refinaria e a Cosipa eram pontos críticos na Baixada Santista que precisavam ser capturados dos sindicalistas. Entretanto, ali somente o Capitão Dias estava plenamente alinhado ao golpe. O 2º Batalhão de Caçadores, 6º Grupo de Artilharia de Costa Motorizado, Base Aérea e Capitania dos Portos estavam omissos e o comandante da Guarnição, General Buck Júnior, recluso no Forte de Itaipu, por seu não engajamento impossibilitou o emprego da tropa da 3ª Bateria.[355]

Adhemar de Barros se declarou às 22:30, com um manifesto decepcionante. Foi pressionado por uma comitiva que incluía o coronel Serpa. No gabinete do governador, fumava um cigarro de palha. Adhemar perguntou sobre o indivíduo "com cara de bandido mexicano, por conta de seus longos bigodes, que não tira os seus olhos de mim". E disse Serpa: "O senhor tem que se definir agora, senão..." e, próximo à meia-noite, o governador se pronunciou em termos mais fortes. São Paulo se juntava à "revolução".[356][354][350]

Na reunião com os oficiais, ocorrida das 20:00 às 23:30, se concretizou a adesão do II Exército ao golpe, e o plano de ação revelado na forma da Ordem de Operações Número Um.[348] Se os generais ainda não concordassem, o coronel Osório da 4ª Seção do 2º Exército, sob ordem de Kruel, aguardava fora do gabinete para prendê-los.[357] Ao mesmo tempo, o QG do Exército tentava o contato com o Palácio das Laranjeiras. Às 22:00 Kruel fazia suas exigências, o fechamento do Comando Geral dos Trabalhadores e a demissão dos ministros mais associados ao radicalismo, Abelardo Jurema (Trabalho) e Darcy Ribeiro (Casa Civil):[152] deveria "se desligar dos comunistas e tomar medidas concretas a esse respeito" com a ameaça: "senão pode ser abandonado à própria sorte". Goulart recusava-se a abandonar seu "compromisso com os partidos" e "as forças populares que me apoiam". Ofereceu a Kruel conferenciar no Rio de Janeiro, sem sucesso.[358]

Conta Mourão Filho que Kruel ofereceu que esmagaria os mineiros no Paraibuna se as condições fossem cumpridas, e Goulart só estava disposto a fazer concessões após ele mesmo esmagar a rebelião, mas para ele o II Exército não conseguiria derrotar o Destacamento Tiradentes, pois "Kruel não era dono daquela tropa. Ideologicamente era minha".[359] Outra e última conversa ocorreu às 11:30 ou próximo à meia-noite, na qual a negativa de Goulart se deu como: "Nunca tive o apoio nem das forças políticas, nem das Forças Armadas durante o meu governo. Só tive dificuldades. Se agora, nesta hora cruciante, eu me livro dos que me cercam, equivale a um suicídio."[348]

Um tom cerimonioso de Goulart desenvolveu-se a um fim de conversa em voz ríspida: [152][nota 31]

General, eu não abandono os meus amigos. Se essas são as suas condições, eu não as examino. Prefiro ficar com as minhas origens. O senhor que fique com as suas convicções. Ponha as tropas na rua e traia abertamente.

O Vale do Paraíba sob o legalismo[editar | editar código-fonte]

A reunião tinha uma ausência importante: o general-de-brigada Euryale de Jesus Zerbini, da Infantaria Divisionária 2, recém-assumido e peça-chave do "dispositivo" no estado. Chegara a São Paulo das 18:30 às 19:00, mas antes de entrar no QG foi chamado por seu superior, Aluísio Mendes. Ambos se posicionaram a favor do governo, tendo Aluísio prometido prender Kruel se ele se rebelasse. Zerbini foi encarregado de assumir as forças no vale do Paraíba, possível rota de invasão São Paulo–Rio através da Via Dutra, onde estavam o 5º e 6º RIs e 2º BE Cmb, e ficar de prontidão para se mover.

Às 21:00 Zerbini chegara a seu QG em Caçapava, confirmara a lealdade de seus subordinados e os ordenara na direção dos rebeldes em Minas: o 5º RI de Lorena formaria na direção de Itajubá, onde estava o 4º BE Cmb mineiro, e ao túnel, enquanto o 6º RI de Caçapava avançaria à ponte do Paraíba em Jacareí e a Campos do Jordão, a caminho de Minas (vide mapa). Os regimentos deram reconhecimento de que nada anormal havia nesses lugares e permaneceram de prontidão nos quartéis.

A situação mudara e às 22:30 Zerbini recusou a chamada de Aluísio a São Paulo. Contatado pelo general Assis Brasil e o próprio Presidente às 23:00 e 23:30, se dissera leal e em controle mas incapaz de resistir a um avanço pelo restante do II Exército, sendo então informado da vinda de reforços. Eram carros de combate e o Grupamento de Unidades-Escola (GUEs) do general Anfrísio da Rocha Lima.[348]

O GEsA vivia tensão, e os subordinados, desinformados, não recebiam nada dos superiores. Há mais de uma semana as subunidades estavam com o material embarcado, em ordem-de-marcha. À noite um telefonema ao grupo exigiu que toda uma bateria se dirigisse ao REsI. Cada dia uma bateria ficava de prontidão, e no dia 31 era a a 2ª Bateria do 1º tenente Hamilton Otero Sanches. Sua posição política era contra "tanta anarquia em nosso País", e obedecia apenas para cumprir ordens. Sob sugestão do adjunto do S3, capitão Sílvio Pereira Brunner, primeiro consultou seu comandante. Era o coronel legalista Aldo Pereira, que dormia. Acordado, disse apenas "Sim, lhe chamaram, você vai", sem apresentar o menor interesse no que faria uma de suas próprias baterias, impressionando negativamente Sanches. Para ganhar tempo, apresentou-se sem a tropa ao comandante do REsI, coronel Abner Moreira. Num contrassenso, Abner deu ordem a uma subunidade de outra formação, mesmo com seu comandante estando no mesmo aquartelamento. Foi mandado ao eixo Rio–São Paulo, partindo depois da meia-noite, e no caminho encontrou o batalhão do REsI, que já tinha partido, sob o major Simon. Conversando, se viram com posição política parecida.[360]

A 3ª Bateria pertencia ao capitão Affonso de Alencastro Graça. Situava-se, em contraposição aos legalistas, "entre os que achavam que algo devia ser feito". O S3, capitão Willy Seixas, e os comandantes de bateria concordaram que, sendo inviável sublevar-se dentro do quartel e ficarem cercados, seguiriam adiante e, aonde quer que fossem, se juntariam às forças revolucionárias.[361] A 3ª Bateria e a 1ª, do capitão José Antônio da Silveira, seguiam atrás da vanguarda.[362] As três Baterias que partiram eram as de Obuses: as de Comando e de Serviços ficaram no Rio de Janeiro. Na pressa de acompanhar o REsI, a 2ª Bateria partiu sem alimentos, nem mesmo o catanho, não teve café da manhã e só comeu no almoço, depois do qual a tropa só tinha alimento para a janta.[360]

O GUEs também contava com o 1º Grupo de Canhões Antiaéreos de 90 mm, do qual foi movida a 2ª bateria, num arranjo inusitado. Os soldados, cabos e o capitão, Brilhante Ustra, eram na verdade da 4ª bateria, e um capitão mais velho, Cavalero, o acompanhava no jipe de comando. Ustra percebera que o objetivo do arranjo era que os elementos mais politicamente confiáveis, Cavalero e os sargentos, tomassem o controle, e após protestos conseguiu que os soldados e cabo fossem os seus. Além da divisão entre simpatizantes e oponentes do governo dentro da própria bateria, esta partiria sem enfermeiros e material de cozinha e com pouquíssima comida e água. Um movimento pelo asfalto acabaria com as borrachas das lagartas dos tratores que rebocavam os canhões, e a bateria seria inútil para fornecer apoio antiaéreo a uma coluna em movimento, pois sua função era a defesa de pontos sensíveis e demorava horas para entrar em posição. A partida desta bateria se daria de manhã.[362]

São Paulo em guerra[editar | editar código-fonte]

Conforme o que tinha ouvido de Goulart, Kruel já punha as tropas na rua. Pouco antes da meia-noite abriu a porta de seu gabinete, e a uma antessala de coronéis e majores, disse: "Aqui está a minha ordem. Já determinei o deslocamento do II Exército para o Rio de Janeiro".[350] Emitiu proclamação falando em "salvar a pátria em perigo, livrando-a do jugo vermelho", sem porém, mencionar o Presidente, que ainda queria enparedar sem depô-lo. A notícia se espalhou pelo país e alcançou o Congresso.[152] Confirmou o apoio do comandante da 9ª RM, designando um movimento do Mato Grosso a Brasília, congregou unidades em São Paulo como reserva e ordenou uma invasão ao Rio de Janeiro cruzando o vale do Paraíba (vide ordem de batalha), pela Via Dutra, e no caso da 1ª Cia do 1º BCCL, pela ferrovia. Contava com a Marinha, mas não com a 4ª Zona Aérea.[348] O 2º BC fazia a cobertura face ao sul.[363]

Soldados paulistas comem a caminho

O poder econômico paulista seria vital num conflito prolongado[164] e se pôs em pé de guerra para essa disputa, planejando sua logística a partir do QG do II Exército e da Fiesp. Cooperavam o Exército, o governo estadual e as classes produtoras. Uma empresa cedeu rádios ao QG. Encomendaram-se 3 mil colchões e 5 mil cobertores de campanha. Medicamentos, gaze e algodão foram recolhidos de farmácias, hospitais e laboratórios. O governador requisitou os estoques de combustível. O governo estadual e as indústrias automobilísticas cederam caminhões, ônibus e viaturas para as tropas, entre eles 90 jipes zero quilômetro requisitados na fábrica da Willys pelo governador.[nota 32]
Abriu-se o voluntariado às 7:00 do dia 1º, com cinco mil voluntários se apresentando pela manhã.

A polícia reforçou o ABC, e o Exército inspecionou os carros que entravam em São Paulo, além de ocupar as estações ferroviárias; na Central do Brasil e Santos–Jundiaí, os ferroviários estavam em greve em defesa de Goulart. Estava em curso uma onda de prisões de esquerdistas e líderes sindicais.[357][364][365] Não muito após a meia-noite o 4º RI executou a "Operação X", preparada dias antes, tomando o controle do Rio Pinheiros. Metralhadoras estavam montadas e explosivos prontos para detoná-las.[366] O Estado prendeu os agentes federais de censura e estabeleceu seus próprios.[199]

Na Ordem do Dia preparada anteriormente, o II Exército invadiria Barra Mansa,[nota 33] e de lá, avançaria até Viúva da Graça, em Seropédica, ou mais além até a Guanabara. Na retaguarda, com o apoio da Força Pública e Guarda Civil, os golpistas isolariam Cumbica e o campo de Marte, empregando forças antiaéreas e impedindo a decolagem de aeronaves, assegurariam a ligação com o Paraná em Registro e manteriam a ordem interna.[348]

Ás 2:00 Mourão Filho já fora informado do movimento do II Exército.[255]

O deslocamento para o Rio[editar | editar código-fonte]

O 6º RI em Queluz

Zerbini conseguira reter a tropa nos quartéis na noite do dia 31, mas na madrugada do dia 1º sua autoridade se dissolveu. A 1:00 tentou contatar o 5º RI, descobrindo então que o quartel estava vazio e os homens haviam partido em caminhões. Enviou uma patrulha motorizada à procura do regimento, mas ela nunca lhe deu notícia. Às 6:00 ouviu do comandante do 6º RI que ele avançaria a Resende sob ordens diretas de Kruel.[nota 34] Entre as 6 e as 7 horas, comunicou-se com Aluísio, que se declarou do lado rebelado e que descia o vale com o 2º Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado. A Zerbini, restava atrasar o II Exército até a chegada da tropa do Rio de Janeiro. Conseguiu acompanhar Aluísio até Resende, de onde partiria ao Rio de Janeiro, mas acabou preso na AMAN.[348]

O II e o I Exércitos marchavam pelo vale do Paraíba em rota de colisão. Os regimentos eram a pé[357], mas o 5º RI conseguiu se deslocar em caminhões do Exército e três ônibus particulares, e o 6º, em caminhões particulares e ônibus da empresa "Pássaro Marrom".[264] O 1º Batalhão de Carros de Combate Leve de Campinas seguiu embarcado em trens, embora seu deslocamento tenha sido atrasado pelo "inimigo interno", que conseguiu desligar a energia elétrica.[357]

O 2º Regimento de Obuses de Itu aguardava desde a segunda em prontidão, ansiosamente aguardando a confirmação de Kruel, vinda da televisão de madrugada. À noite o subtenente Rubens tentara convencer cabos e soldados a não se colocar contra o governo e o "movimento dos trabalhadores", sendo, também, trabalhadores; foi pessoalmente preso pelo S/2 do Regimento.[nota 35] Com falta de veículos, o Regimento recebeu oito de civis. Comandando estava o Cel Benedicto Maia Pinto de Almeida e à frente seguiu a 1ª Bateria de Obuses do Capitão Dario Scoralick.

A Bateria partiu a São Paulo às 07:30 com quatro dos caminhões civis, dois com munições e dois com material de acampamento, mas cobertos de lona com a escrita: "Munição - Perigo", num blefe para despistar sua escassez de munição. No caminho foi alcançada por dois a três viaturas do Estado-Maior do Regimento e uma equipe de saúde regimental. Em Jundiaí, temiam reação dos comandantes da Artilharia Divisionária e do 2º GO 155, cuja base era bem posicionada para bloquear a estrada. O Cel Benedicto telefonou aos oficiais confiáveis dali[nota 36] e eles mantiveram os dois comandantes no quartel da AD, no centro, longe da cidade, de onde não interferiram no trajeto. De São Paulo, seguiram à entrada da Via Dutra à espera do 4º RI, que, porém, não estava ali.[nota 37] A artilharia de Itu seguiu em frente.[367][368]

O combustível no caminho foi garantido pelo Governador. Sob sua ordem os Postos Atlantic enchiam os tanques das viaturas, "sem burocracia; assinava-se uma "notinha" e pronto".[368]

Confronto entre o I e II Exércitos
Golpe de Estado no Brasil em 1964
Deposição do Governo João Goulart – Golpe de 1964 10.tif
Blindados do II Exército movidos por ferrovia
Data 1 abril 1964
Local Região do Rio de Janeiro ao Vale do Paraíba
Desfecho Vitória golpista, rendição do I Exército
Beligerantes
Brasil Exército Brasileiro (rebelde) Brasil Governo brasileiro Brasil Exército Brasileiro (legalista)
Comandantes
Unidades
II Exército

I Exército (rebelde)

  • Corpo de Cadetes da AMAN
  • 1º Batalhão de Infantaria Blindado
I Exército (legalista)
  • Grupamento de Unidades-Escola
Forças
250 soldados na infantaria da AMAN

70-80 soldados na cavalaria da AMAN

800 soldados no batalhão da vanguarda do GUEs

Entra em cena a AMAN[editar | editar código-fonte]

Nas ordens mais recentes dadas por Kruel à meia-noite, o 5º RI, mais próximo da fronteira, se moveria a Queluz e faria contato com o movimento revolucionário que se desenvolvia na Academia Militar de Agulhas Negras (AMAN).[348] Localizada em Resende e próxima de Itatiaia e Barra Mansa, a Academia estava no caminho percorrido pelos dois exércitos em conflito. Seu comandante, o general-de-brigada Emílio Garrastazu Médici, já tinha contato com Mourão Filho desde 1963, e ao saber da movimentação da coluna Tiradentes imediatamente solidarizou-se com a sublevação.[369]

Atassio (2007), em A batalha pela memória: os militares e o golpe de 1964, apresenta a especulação que a ação de Médici foi para angariar reconhecimento entre a "cúpula militar do golpe", pois Médici permanecera sem se posicionar até os últimos instantes do movimento. As notícias da adesão da AMAN elevaram a moral dos rebelados, e a narrativa histórica construída sobre a tomada de posição de Médici tornou-se "quase mitológica".[370]

Às 17:30 já tinha posto de prontidão o Batalhão de Comando e Serviços, por ordens do I Exército, e ativado seu Estado-Maior Operacional, traçando planos de ocupação da cidade e requisição de suprimentos; à noite tinha em mãos seu manifesto "Irmãos em Armas".[371] Foi chamado a aderir por Costa e Silva às 2:00, informado do movimento do II Exército por Kruel às 02:30 e do GUEs por Âncora às 03:00.

Escolheu permitir a passagem do II Exército e aderir ao movimento, bloqueando a rodovia ao I Exército com seus cadetes. Às 03:10 lhes anunciou sua decisão.[nota 38] Uma minoria de sargentos não quis participar pela questão da legalidade e foram presos; à exceção do sargento Figueiredo, que era comunista, posteriormente reassumiram as funções.[361] Outras prisões, de esquerdistas reconhecidos, foram feitas preventivamente.[372] Já alguns oficiais tinham tanto entusiasmo que, se não tivessem ouvido da decisão, teriam atravessado a serra de Itatiaia para se juntar aos mineiros.[373] A moral era alta.[374]

De acordo com o plano, a cidade foi ocupada, incluindo a Prefeitura; o prefeito Augusto[371] entregou-se preso e Médici recusou sua rendição. Porém, posteriormente foi detido. A imprensa foi tomada pelos professores.[374] Os postos foram interditados e o combustível só era distribuído com autorização militar.[375]

Kruel pediu que a defesa fosse montada com seus regimentos do Vale (5º e 6º), o 1º Batalhão de Infantaria Blindado de Barra Mansa e o Batalhão de Comando e Serviços da AMAN. Médici, porém, tinha outro plano — guarnecer a Dutra com seu Corpo de Cadetes,[357] resistindo ao avanço do GUEs e aguardando a chegada do II Exército (vide mapa).[362]

Os cadetes na Via Dutra[editar | editar código-fonte]

A princípio, das 06:00 às 08:30, partiu uma vanguarda composta de um Esquadrão de Cavalaria e engenheiros, ocupando posição defensiva na alturas que dominam Ribeirão da Divisa.[372] Ás 09:30, o grosso dos cadetes,[371] nas seguintes posições:

O Coronel Potyguara, comandante do Corpo de Cadetes, num posto avançado.[376]

No quilômetro 277, o Esquadrão de Cavalaria motorizado, sob o Major Ernani Jorge Corrêa, em Posição de Retardamento.[362] Com 70–80 homens, poderiam bloquear a estrada com viaturas pesadas de uma empresa de construção.

No quilômetro 278, um Pelotão de Engenharia. Estavam prontos para detonar os viadutos da Guarita e da Rede Ferroviária Federal. A destruição dos viadutos obrigaria os legalistas a atravessarem o rio antes de Barra Mansa e se aproximar pelo outro lado, onde as estradas não eram mais do que trilhas.

Ao recuar, a cavalaria seria recebida no quilômetro 283, próximo à fábrica Cilbrás, da White Martins e ao viaduto sobre a ferrovia, por uma Companhia de Infantaria reforçada sob o Capitão Geise Ferrari. Qualquer outra força que chegasse não seria "tropa amiga". Eram 250 homens, tudo que o Curso de Infantaria poderia usar, organizados em "três pelotões de fuzileiros, um pelotão de canhões 106 sem recuo, um pelotão de morteiros 4.2, uma seção de morteiros 81, uma seção de morteiros 60, uma seção de canhões 75 mm sem recuo, uma seção de canhões 57 sem recuo e uma seção de metralhadoras pesadas". O capitão Lebarbenchon, como S3, fez reconhecimento para uma possivel posição defensiva em Volta Redonda. Os soldados prepararam seus espaldões perpendicularmente à rodovia.

No quilômetro 286 ficou uma Bateria de Obuses sob o Capitão Dickens Ferraz.[362][372] Embarcaram a munição a partir das 18:00 do dia 31 e seguiram à rodovia de manhã,[377] em viaturas frágeis, do Curso de Engenharia.[373] Enquanto o comandante e seu Oficial de Reconhecimento procuravam um local para ocupar, adotaram Posição de Espera, deixando seus obuses em posição de tiro no acostamento, para atirar numa lombada mais a frente se viesse o inimigo.[377]

Além deles haviam duas equipes do Curso de Comunicações.[362] O Tenente Taveira passou a noite montando as linhas telefônicas para as posições.[372] O Batalhão de Comando e Serviços, com uma companhia de guardas, manteve os estoques de combustível ao longo da BR.[371] O trecho coberto era entre Resende e Barra Mansa, onde estava o quartel do 1º Batalhão de Infantaria Blindada, do coronel Nilo de Queirós Lima. que se alinhou a Médici.[378] O Major Corrêa foi à sua posição tendo ouvido do Subcomandante da Academia que esse batalhão estaria à frente, mas na fábrica de explosivos Dupont recebeu uma ligação de seu comandante. O 1º BIB estava ocupado em Volta Redonda, reprimindo a agitação na Siderúrgica, e assim não havia nada entre a Academia e a tropa do Rio de Janeiro.[374]

Já chegavam os paulistas: às 11:30 o 5º RI aproximou-se de Resende ficando no leste, às 12:30 o 2º RO 105, Bateria do CPOR/SP e 1ª Cia do BCCL chegaram à AMAN e às 12:45 o 2º Esc. Rec. Mec. a Itatiaia.[362] O Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado foi mal empregado: Aluísio o "segurou" em vez de o lançar à frente como reconhecimento.[357] Do outro lado, a vanguarda do GUEs chegou à entrada da cidade de Barra Mansa às 13:00, fazendo contato com seus adversários. Era composta de:

  • Um batalhão reforçado do Regimento Escola de Infantaria (REsI), com 800 homens
  • Uma companhia de Carros de Combate
  • 2ª Bateria do Grupo Escola de Artilharia (GEsA)

Sua bateria ocupou posição de tiro. A 1ª e 3ª baterias chegaram às 14:00.[362][372]

Seu componente antiaéreo nunca chegou: partiu às 09:00, mas sob ordens de Ustra o deslocamento foi retardado: pneus foram esvaziados e viaturas apresentaram panes. Às 20:00 ele não passara da Serra das Araras.[362] Também uma companhia do Batalhão Escola de Engenharia que acompanhava a coluna não passou da Serra.[220]

Ordem de batalha e disposição[editar | editar código-fonte]

Ordem de batalha no teatro de operações do Vale do Paraíba
Golpistas Legalistas
II Exército[348]

General-de-exército Amauri Kruel

I Exército

General-de-exército Armando de Moraes Âncora

Movido ao Rio de Janeiro Reserva em São Paulo Grupamento de Unidades-Escola

General-de-brigada Anfrísio da Rocha Lima

2ª Divisão de Infantaria

General-de-divisão Aluísio Miranda Mendes

5º Regimento de Infantaria

Coronel Manoel José Correa Lacerda[nota 39]

6º Regimento de Infantaria

Coronel Sousa Lobo

2º Batalhão de Engenharia de Combate

2º Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado

2º Regimento de Obuses de 105 mm

Coronel Benedicto Maia Pinto de Almeida

4º Regimento de Infantaria

Coronel Carlos Alberto Cabral Ribeiro

4º Batalhão de Caçadores

17º Regimento de Cavalaria

Coronel João Marques Ambrósio[379]

1º Batalhão de Carros de Combate Leves

Vanguarda
Regimento Escola de Infantaria (REsI)

Coronel Luiz Abner de Souza Moreira[380]

Batalhão de Infantaria do REsI

Major Simon

Companhia de Carros de Combate[nota 40]

Capitão José Júlio Toja Martinez Filho[380][381]

  • 1ªBateria de Obuses de 105 mm do CPOR/SP
  • 1ª Companhia do 1º BCCL
2ª Bateria de Obuses do GEsA

1º tenente Hamilton Otero Sanches

Elementos rebelados do I Exército Restante
Academia Militar de Agulhas Negras

General-de-brigada Emílio Garrastazu Médici

Parte da Divisão Blindada Batalhão Escola de Engenharia

Coronel Moacyr Domingues[382]

Companhia de Engenharia[220][nota 41]

Corpo de Cadetes

Coronel Moacyr Barcellos Potyguara[376]

Esquadrão de Cavalaria Motorizado

Major Ernani Jorge Correa,

também líder de toda a tropa em campo[373]

Companhia de Infantaria reforçada

Capitão Geise Ferrari

Bateria de Obuses 105 mm

Capitão Dickens Ferraz

Pelotão de Engenharia

Duas equipes do Curso de Comunicações

1º Batalhão de Infantaria Blindado

Coronel Nilo de Queirós Lima

Grupo Escola de Artilharia (GEsA)

Coronel Aldo Pereira

1ª Bateria de Obuses

Capitão José Antônio da Silveira

3ª Bateria de Obuses

Capitão Affonso de Alencastro Graça

Bateria de Comando

Bateria de Serviços

1º Grupo de Canhões Antiaéreos de 90 mm

Coronel Antônio Sá Barreto Lemos Filho

2ª Bateria

Capitão Carlos Alberto Brilhante Ustra

Batalhão de Comando e Serviços

Companhia de guardas

Clímax[editar | editar código-fonte]

Às 12 horas, no quilômetro 78, jipes, carros pipas, carros de socorro médico e caminhões do REI estavam a caminho da concentração de suas forças que entre os quilômetros 90 e 100, mantinham um total de 100 viaturas ao longo da estrada, com ninhos de metralhadoras espalhados pelas encostas próximas. Na entrada de Barra Mansa tropas estavam espalhadas pelo mato, à beira da estrada.

Correio da Manhã, 02/04/1964

O GUEs e a AMAN estavam a não mais que 5 km de distância.[374] Como em Minas, o combate era uma possibilidade e seria sangrento, com uma perspectiva terrível para os cadetes.[376]

Entre os regimentos de infantaria brasileiros o REsI era o único com efetivos plenos e o melhor do equipamento do Acordo Militar Brasil-Estados Unidos, e era tropa de elite, tendo o papel de exemplaridade.[365][383] A AMAN estava em desvantagem numérica e de poder de fogo — [372] sua artilharia tinha 250 tiros, enquanto só a 1ª e 3ª tinham do GEsA tinham 35 mil.[373] Embora os cadetes sejam lembrados como tropa de elite, em depoimentos aqueles que passaram ou serviram na Academia enfatizam o despreparo da tropa.[370] O terreno acidentado e a posição escolhida para os obuses só permitiam o tiro vertical, que os cadetes da Artilharia não tinham aprendido — pouco sabiam de linha de fogo e técnica de tiro. Receberam instruções em campo, mas "quem conhece a técnica de tiro sabe que você não pode improvisar". Faltavam ainda carta topográfica e nem mesmo um só rádio, com a comunicação se dando pelo contato visual e depois o "fio".[373][377] Os cadetes da Infantaria eram bravos mas bisonhos; um soldado do Rio recordou logo após o confronto que "eles estavam em linha, se tivesse uma metralhadora, matava o Grupo de Combate inteirinho".[368]

Ferrari era da opinião de que embora mais forte, o avanço do GUEs seria difícil com os obstáculos no caminho e a destruição das pontes.[372] Ferraz estava preocupado - "seguramente seríamos massacrados", com muitas baixas.[373] O que Médici contava era com o fato de ter cadetes na linha de frente como freio psicológico. Chegou até mesmo a recusar a substituição dos cadetes na linha de frente pelos soldados paulistas, pois funcionava o seguinte argumento — "Somos cadetes. Vocês vão nos matar?"[364] A própria proclamação "Irmãos em Armas" fazia apelo semelhante - "Não tenteis cortar no nascedouro tantas vocações".[365] Foi entregue até ao general Anfrísio.[371]

Assim se verificou. Aproximando-se da linha de contato, antes da fábrica da Dupont em Barra Mansa, o GEsA fez alto. Brunner perguntou: "Quem é o inimigo? De onde ele vem?" Até então não sabiam. Com seu S3 e adjutante e seus comandantes de bateria, o Coronel Aldo ordenou que tomassem posição e apoiassem o Regimento Escola de Infantaria contra a AMAN. Até então desconheciam o adversário. Então se deu o seguinte diálogo entre Seixas ou Brunner e o Coronel Aldo:

Vão atirar em cadetes?
Somos militares e recebemos ordem. Ela é legal, a missão existe, e devemos cumpri-la. É uma missão amarga, mas que deverá ser cumprida.

A passagem de linha[editar | editar código-fonte]

A Dutra em Barra Mansa

Seixas, Bruner, Graça e da Silveira imediatamente decidiram por outra conduta. Os dois capitães com suas baterias formaram um Grupo sob a liderança de Seixas. Cada capitão informou a seus homens que passariam pelo REsI e iriam ao encontro dos cadetes, passando para o outro lado. O Cap Graça consultou o 2º Ten Pizzotti, da Linha de Fogo[nota 42] quanto à lealdade dos oficiais — "eu os arrasto" e como os sargentos eram um risco, ordenou que fossem mantidos sem munição e informação sobre o destino, informados que seria um reconhecimento. "Mas vai ser difícil esconder; reconhecimento com todo o efetivo! O pessoal vai desconfiar"; "O problema é teu, te vira". Na boleia de cada viatura, além do motorista e do sargento, estava um oficial. Os sargentos, de fato, notaram uma anormalidade e Pizzotti, esclarecendo que era "um reconhecimento diferente", insistiu que não questionassem a ordem. Alguns acabaram presos. Resistiam pela legalidade e o apelo ideológico do governo, e à exceção de um, reassumiriam suas funções na volta.

O movimento teria que ser rápido, pois cruzaria a linha defensiva existente, com a qual não havia coordenação e que, dominando as elevações, poderia alvejá-los pelas costas. As colunas saíram como que para ocupar posição e, com velocidade, foram na direção de Resende. As viaturas de munição da Bateria de Serviços foram atrás, pois seu comandante em atuação[nota 43] também era contra o governo. Atravessaram o batalhão do REsI e a 2ª Bateria. O comandante do primeiro parou o jipe junto ao segundo e notou: "passaram para o outro lado..." e não fez mais que isso: não houve nenhum problema por parte do REsI, que estava ali de má vontade. O Cap Sanches mandou cortar a linha telefônica para emudecer o Cel Aldo, que se aproximava. Este, do meio-fio, percebeu a defecção da maior parte do seu grupo, e "em prantos", "exclamava: 'Traidores!' 'Traidores'". Ameaçou o suicídio mas o Major do REsI segurou sua mão.

O Cap Graça seguiu à frente num jipe para avisar aos cadetes que o Grupo passava a seu lado e não deveriam se assustar. Foram acolhidos pela Cavalaria e seguiram em frente.[362][360][361][384] A Cavalaria não informou a Infantaria, que marchava para uma posição mais adiante. Ao transpor uma curva, viram ao longe uma força desconhecida ao seu encontro — os caminhões de 2,5 toneladas tracionando obuseiros das baterias. De imediato e com presteza atravessaram suas viaturas na estrada e tomaram posição nas encostas. Pelo binóculo, o capitão Ferrari viu o capitão Adir, da Academia, no primeiro jipe, concluindo que era uma força que aderia. Com ordens de não atirar, a infantaria da AMAN interditou as baterias, e houve congraçamento.[372]

Também a artilharia de Médici não sabia da adesão. De cima, viram os caminhões do GEsA e sabiam que eram do outro lado, pois a AMAN não tinha caminhões REO. Por alguns instantes de tensão pensaram em abrir fogo, mas viram então militares em pé junto à boleia das viaturas, brandindo camisas brancas. Ao se aproximar, viram o comandante e tenentes que tinham os sargentos na mira de suas pistolas.[377] As baterias foram bem recebidas na AMAN e seus homens confraternizaram com o pessoal do 2º RO 105, que estava no parque do Curso de Artilharia.[361]

De forma parecida, o Pelotão de Morteiros Pesados 4.2 do REsI recebeu ordens do Cel Abner para entrar em posição e apontar para a Academia. Seu Tenente se negou e encristou com seus sargentos a trajetória na serra para não atingir os cadetes. A AMAN assim deixava de enfrentar o perigo das armas de tiro curvo.[372] Repetiram-se assim as desistências e adesões ocorridas diante da coluna Tiradentes.

Em Queluz, Sousa Lobo, comandante do 6º RI, conversou com repórteres. O quadro apresentado pelo "Correio da Manhã" era de um grande número adicional de viaturas do I Exército bem antes da região de Barra Mansa, que o REsI, se escolhesse aderir, poderia resistir na serra.[264] Não ocorreu troca de tiros; às 15:00 acertou-se uma trégua, com os dois lados permanecendo em posição, diante de uma nova realidade: a vinda do general Âncora para negociar na AMAN.[385][362]

Rende-se Âncora[editar | editar código-fonte]

A partida de Jango às 12:45 iniciara a dissolução do "dispositivo" no I Exército.[152] Sob ordens do Presidente para evitar um choque militar[305] e por sugestão de Costa e Silva, com quem conversou pelo telefone às 14:30, Âncora decidiu parlamentar com Kruel. O comandante do II Exército aceitou, na condição de que fosse no seu território, ou seja, na AMAN. De carro, Âncora chegou no meio da tarde "em estado deplorável, abatido por uma crise de asma".[152][364] Médici o recebeu com corneteiros e todas as honras devidas a seu posto, apesar de sua relutância, pois definia-se como "derrotado", ouvindo em resposta que "não há derrotados senão os inimigos da Pátria."[362]

Kruel ainda não estava: atravessando a estrada lotada de ônibus, caminhões e carros particulares, cujo tráfego não foi interrompido, sua comitiva separou-se e no final da tarde seu carro enguiçou. Com o general Aluísio Mendes, Âncora abismou-se ao ouvir no rádio que Jango renunciara, o que não ocorreu de fato. Kruel chegou às 18:00, num carro da Polícia Rodoviária. Não havia mais o que negociar, e Âncora rendeu o I Exército; "volta sozinnho e sairá da história". As operações foram encerradas e os soldados voltariam aos quartéis.[386][364] Quando retornaram à Academia com uniformes sujos, os cadetes foram recebidos a partir do Portão Monumental por uma entrada triunfal composta da Bandeira e sua guarda, a banda de música, militares formados, o efetivo de São Paulo e do GEsA, habitantes de Resende, amigos e familiares.[377]

A Companhia Siderúrgica Nacional[editar | editar código-fonte]

Após a vitória, a AMAN se juntou ao 1º BIB o repressão aos distúrbios industriais em Barra Mansa e Volta Redonda.[371] Ali o Exército e a liderança da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), fortemente associados como parte da estratégia de segurança e desenvolvimento nacional, sufocaram a resistência e greve contra o golpe organizadas pelo Sindicato dos Metalúrgicos. Diante dos distúrbios iminentes, o Diretor Industrial Mauro Mariano acionou o "Plano de Segurança da Usina" pré-existente. Pôs em alerta e mobilizou a supervisão, que ocupou seus postos até as 6 da manhã do dia 1º. A chefia executou o Plano, que tentava manter a usina funcionando e neutralizar a greve. O comando civil-militar mostrou-se bem articulado. Os telefones do sindicato foram bloqueados, e o tráfego mútuo da CSN com a CTB (Companhia Telefônica Brasileira) controlado, proibindo qualquer ligação sem a aprovação do Diretor Industrial, de forma a restringir a possibilidade de articulação entre o sindicato e os Departamentos da Usina.

Um grupo trabalhista liderado por Othon Reis Fernandes ocupou a Rádio Siderúrgica, no morro do Laranjal, a pôs no ar por volta das 06:30. Foi fechada pela intervenção do 1º BIB, que estacionou um blindado em frente à Rádio, mas retornou ao ar às 09:00 sob ordem do Presidente da CSN, o almirante Lúcio Meira, ligado a Goulart. Integrada à "Cadeia da Legalidade", irradiou mensagens a favor do Presidente até 16:20, quando passou a obedecer as ordens do Diretor Industrial.

Os operários que seguiam ao trabalho de manhã encontraram a guarda da entrada, na passagem superior, feita pelo Exército, e piquetes montados para evitar sua entrada. A aglomeração foi dispersa às 07:00, e a maioria acabou entrando. Ativistas sindicais liderados por João Alves dos Santos Lima Neto conseguiram entrar, mas a paralisação no interior foi apenas parcial. Os líderes foram presos, como Lima Neto, que, entrando às 07:30, já estava preso às 10:00, como forma de desarticulação e intimidação, mas a notícia acabou estimulando adesões à greve.

Na sede do sindicato, cogitou-se dinamitar as linhas da Central do Brasil para impedir a passagem de tropas, mas os sindicalistas escolheram esperar pelos acontecimentos. Após as 9–11 horas constataram que Lima Neto estava preso e o 1º BIB estava em Arrozal, na Via Dutra. Depois das 17:15, operários saindo do expediente se reuniram em frente à sede, onde uma multidão formou um cordão de isolamento. Perto do entardecer o 1º BIB tomou posições na descida da Amaral Peixoto, a 200 metros de distância, com pelo menos um carro blindado. Invadiram a sede, dispersando a aglomeração e tomando toda a documentação. Um grande número de sindicalistas acabou preso no 1º BIB e na AMAN.[387]

Dia 2 em São Paulo[editar | editar código-fonte]

A PM ocupou os prédios federais, para os quais o governador nomeou interventores, e com um pelotão de choque dissolveu uma manifestação na Praça da Sé. A Refinaria de Cubatão e COSIPA ainda estavam paralisadas. Com gás lacrimogênio e bombas de efeito moral o DOPS fechou a Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo. A FAB caiu: o brigadeiro Hélio Rosário perdeu o comando da 4ª Zona Aérea e sargentos foram presos na Escola de Guaratinguetá e no Campo de Marte. Poderia então ser empregada contra o III Exército, como o qual restava apreensão sobre um avanço contra o Estado. Forças são direcionadas ao Sul:[388] o GT/4, centrado no 4º RI, tinha chegado a Caçapava quando, ouvindo da conferência na AMAN, foi ordenado a dar meia-volta e seguir ao Paraná.[389]

Brasília[editar | editar código-fonte]

A capital federal estava a princípio sob controle, com o General Nicolau Fico tomando atitude legalista. O Congresso, levemente armado, não tinha a proteção para conduzir um impeachment e os governistas começaram a constituir uma possível milícia. Goulart desembarcou às 15:00 do dia 1, mas nesse momento a situação militar interna já não era confiável, mesmo na segurança presidencial. Os golpistas do Mato Grosso já tinham chegado ao sudoeste goiano, empregando o transporte aéreo. Uma companhia guardava a fronteira mineira, contra a qual a PMMG deslocou um batalhão que buscou a defesa usando o terreno urbano e a pressão psicológica. O Presidente saiu depois das 22:00.

A guarnição de Goiânia, possível obstáculo aos mato-grossenses, foi pressionada a mudar de lado, e a companhia na frente mineira recuou sabendo da trégua e negociações do I Exército. O Exército passou ao lado do Congresso que realizou um golpe institucional. Darcy Ribeiro e os militares legalistas restantes foram incapazes de impedir a posse do novo Presidente, na madrugada do dia 2. Uma manifestação janguista foi dissolvida na tarde, comandos foram substituídos e tropas mato-grossenses e mineiras entraram na cidade.

Congresso acuado[editar | editar código-fonte]

Na noite do dia 31 o presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, protestou no plenário: a ida e vinda dos parlamentares era impossível com o bloqueio do aeroporto e rodovias. Rádio e televisão estavam sob censura e ele não pôde se dirigir à nação: o chefe da polícia no Distrito Federal apreendera o video-tape com seu pronunciamento. A situação do Congresso era precária; no dia 1 o governador de Goiás ofereceu Goiânia como abrigo para os congressistas,[264] e no dia 30 o Deputado Herbert Levy falara em transferir o Congresso a São Paulo ou Belo Horizonte.[390]

Na manhã seguinte Auro pediu ao General Nicolau Fico, do Comando Militar de Brasília, que com a 11ª Região Militar, inclusive com tanques, defendesse o Executivo e Legislativo, ostensivamente mantivesse a ordem pública na cidade e suprimisse a campanha radiofônica governista da Rádio Nacional. Fico ouviu, concordou e não cumpriu.[391] Temendo uma multidão que estava na rodoviária, o Congresso tinha em mãos, a empréstimo do governador goiano, 3 metralhadoras em pontos estratégicos e alguma munição. Dois congressistas militares trabalhavam na segurança.[392] Esse exíguo "arsenal" incluía ainda 6 submetralhadoras e 12 fuzis.[152] Com esse apoio o governador rompia um comprometimento com Darcy Ribeiro.[393]

O maior temor de Auro era quanto à aglomeração no Teatro Experimental de Brasília, que, diziam, atacaria os apartamentos dos deputados.[391] Eram cerca de mil trabalhadores, mobilizados pela manhã pelos Grupos dos Onze. Poderiam ser ponto de partida para uma milícia popular; informaram nome, endereço e profissão, foram registrados pelo Sindicato dos Servidores Civis e deveriam receber no dia seguinte, num núcleo de colonização rural, armas e instruções.[8] Poderiam até ocupar o Congresso na manhã do dia 2. Eram uma das obras de Darcy Ribeiro,[41] que em outro momento chamou dois dirigentes do PCB. Entregou submetralhadoras ou um fuzil-metralhadora e uma lista de políticos a serem presos ou executados, entre eles os presidentes do Supremo Tribunal Federal e do Senado. Eles recusaram o ato de "terrorismo".[8]

Precária estadia do Presidente[editar | editar código-fonte]

Goulart comunicou sua vinda ao redor das 09:00[153] e chegou às 15:00[41] ou 16:30[394] do dia 1. Encontrou a cidade sob controle, com baterias antiaéreas dispostas e racionamento de gasolina e gêneros.[395] O General Fico se dizia leal e, ao não policiar as ruas com o Exército, desincentivava o Congresso a votar um impeachment. Conferenciando na Granja do Torto, uma facção instava Goulart a montar resistência a partir de Brasília, com a vantagem da legitimidade de se estar na capital. Mas outra defendia partir a Porto Alegre, no único Estado "tranquilo". Brasília não dispunha das "condições militares e estratégicas de defesa".[336] Eram "recursos esmirrados"[340] (três batalhões) e tropas golpistas do Mato Grosso já tinham chegado a Jataí, Goiás,[396] enquanto outras já vinham de Minas.[397]

O Comandante da Guarda da Granja do Torto[nota 44] ligou ao Batalhão de Guarda Presidencial (BGP). "O grande mudo falou" era a senha da chegada do Presidente, e em resposta o Batalhão organizou a 3ª Cia[nota 45] para cercar a Granja. Hesitaram e não saíram, interrompidos por Fico, que no quartel insistiu que defendessem o Presidente — afinal, recebiam como "dobradinha" a diária de Brasília. Conforme um então comandante de companhia no BGP,[nota 46] chegou ao conhecimento do Presidente o comandante da guarda pelo telefone se declarando "revolucionário" e discutindo prendê-lo. Isto teria o impelido a abandonar a cidade.

O comandante do BGP, Cel Raimundo Netto Corrêa, era comprometido com a legalidade. Quando ao redor das 10–11:00 inquiriu seus oficiais, começando pelos mais novos, de seu posicionamento político, os que se respondiam a favor da "Revolução" recebiam ordem de prisão. Eram a vasta maiora. Só os majores, que não chegaram a falar, eram "em cima do muro". O comandante, porém, era muito respeitado - veterano da Revolta dos Sargentos — e amigo dos oficiais. Não rompeu com Fico, mas lhe declarou que o Batalhão estava revoltado.

A partir de então "nenhuma ordem de natureza tática nos foi dada e (...) permaneceu no comando apenas administrativamente". Apenas dissuadiu o General Omar Emir Chaves, da 10ª RM. De férias em Brasília, às 21:00 queria, com o BGP, usurpar num golpe de mão o posto do General Fico; Raimundo se recusou a entregar o comando a um dos majores.[398][399] "Vários oficiais superiores e até generais transmitiram ordens ao Batalhão. Foi um momento confuso, pois os subalternos não sabiam quem estava mandando."[400] O BGP, neutralizado, tinha por um mal-entendido uma Companhia em estado de alerta mútuo contra a Companhia de PE de Brasília, de comandante legalista.[nota 47][401] Ficaram nesse estado por "uma ou duas noites".[402] Brasília era assim cada vez mais "complexa e confusa"; vários oficiais da 11ª RM já não reconheciam o Presidente e Fico "mal os conseguia conter".[403]

Por rádio, Goulart falou a Assis Brasil, Abelardo Jurema e Amauri Silva em resistir. Rapidamente mudou de ideia.[41] Às 16:00 avisava Porto Alegre que seguia para lá,[404] e às 20:00 já foi ao aeroporto.[41] Como o avião presidencial poderia ser interceptado pela FAB (o Ministério da Aeronáutica no Rio já tinha caído) e o avião da Varig dava defeito (desde a importação, e não por sabotagem),[336] decolou num Avro pouco depois das 22:00.[41] Darcy Ribeiro e Valdir Pires ficaram para trás. Voltando, com Fico, pela Esplanada dos Ministérios, notaram duas coisas: a grande presença do Exército e o Congresso iluminado.

O golpe institucional[editar | editar código-fonte]

O Exército, pois agora prevalecia o pedido de Auro.[336] O 3º Esquadrão de Cavalaria Mecanizado[nota 48] guarnecia a Esplanada.[398] Fico por horas simultaneamente obedeceu ordens de Costa e Silva e Darcy Ribeiro.[8]

As luzes, pois havia uma sessão conjunta do Congresso. Mesmo com a leitura de um ofício esclarecendo para onde ia o avião, os congressistas manobraram para derrubar o governo num golpe institucional, não pelo impeachment mas declarando vaga a Presidência, entregue, então, ao presidente da Câmara, Ranieri Mazzili. Eram 02:00 da madrugada.[405] O chefe da Casa Civil ainda incitava a Casa Militar à ação; "Não entendo uma revolução sem tiro". Convocou o chefe da polícia, Ten Cel José Lemos Avelar. Este reiterou a impossibilidade da resistência, mas ainda teve uma ideia: impedir a entrada de Mazzili no Palácio do Planalto.

Não houve sucesso em cortar a luz e a água.[406] O deputado se dirigiu com uma comitiva ao Palácio do Planalto para tomar posse no terceiro andar. Procurou ainda um militar. Subiram ao quarto, onde estavam o general Fico e Darcy. Este se recusou a descer, mas aquele, que interceptara um telegrama em chamava Costa e Silva de "meu chefe", entrou num bate-boca: "Macaco traidor! Estou vendo os pelos crescendo em seu corpo!" O general André Fernandes esteve disposto a participar. Já Darcy e Waldir Pires saíram pelo elevador privativo, enquanto às 03:45 Mazzili tornava-se Presidente.[392][41][407][408]

Operações na região de Paracatu
Golpe de Estado no Brasil em 1964
Data 1 de abril 1964
Local Paracatu, Minas Gerais
Desfecho Inconclusivo, recuo legalista
Beligerantes
Brasil Exército Brasileiro (legalista) Bandeira de Minas Gerais.svg Minas Gerais
Comandantes
Brasil Hernani Azevedo Henning

Brasil Dário Alfredo Pinheiro

Brasão PMMG.PNG Georgino Jorge de Souza
Unidades
4ª Companhia de Fuzileiros do BGP reforçada 10º Batalhão da PMMG
Forças
  • 2[399]-3 carros de combate
  • 11 ônibus
  • 600 soldados[336]

Frente mineira[editar | editar código-fonte]

Para impedir a progressão de tropas de Minas Gerais, a 11ª RM determinou que uma companhia reforçada do BGP descesse a estrada Brasília-Belo Horizonte e montasse uma defesa na ponte do rio São Marcos, na divisa Goiás-Minas perto de Paracatu. Um então 1º Tenente[nota 49] se recorda ainda que teriam sido organizados os batalhões de Goiânia e Ipameri. Às 05:00 do dia 1 partiu a 4ª Cia com metralhadoras antiaéreas e dois carros de combate (vide Ordem de batalha).

Liderava o subcomandante do batalhão, Ten Cel Serra,[nota 50] "maior anticomunista que existia na época". Raymundo resolveu o problema: na saída do Setor Militar Urbano ao Eixo Monumental interrompeu a coluna, prendeu o subcomandante e entregou o comando ao Maj Henning, fiscal administrativo, respeitado mas de posição desconhecida. O capitão da companhia disse que a tropa não queria seguir. Raimundo ameaçou prender por covardia quem assim fizesse. A resposta foi que "ali não havia covardes" e a companhia partiu — pensando já em não atirar em ninguém ou mesmo em aderir aos mineiros. No elemento antiaéreo de Brasília também faltava motivação: só o comandante, Maj Storckler, era legalista, e dois capitães "se limitavam a aguardar o desfecho".

A coluna entrou em posição no corte do rio ao redor das 12:00; a artilharia antiaérea se desdobrou e os carros foram à frente. Em campo os tenentes não sabiam se prenderiam o Major e mudariam de lado.[400][398][399]

Os ônibus e carros de combate da coluna em movimento foram sobrevoados pelo avião particular de um latifundiário da fronteira, que avisou os golpistas. O serviço de informações temia uma invasão a Belo Horizonte, ameaçando a retaguarda da rebelião mineira e dominando a capital do Estado, importante para seu sucesso.[nota 51] Na "mais difícil operação" da PMMG, o 10º Batalhão foi então urgentemente deslocado de Montes Claros a Paracatu, numa "arrancada fulminante, digna de um Rommel".[409] Estava nas redondezas de manhã,[410] e ao chegar o Ten Cel Georgino percebeu-se em esmagadora desvantagem de forças e armamento. Tinha a promessa de reforços do 12º RI, mas encontrou dois subterfúgios à sua inferioridade.

O combate em campo aberto era inviável, mas o oponente ainda teria a certeza de combate: o batalhão entrincheirou sua companhia de metralhadoras e o resto do batalhão no centro de Paracatu. No ambiente urbano, a "posse do terreno, a mobilidade e a surpresa" compensariam sua fraqueza, permitindo uma luta palmo a palmo na cidade. Também ameaçava a vida dos civis, o que fazia parte da estratégia psicológica. Com oficiais ostensivamente armados, Georgino explicitou na prefeitura: a cidade seria um campo de batalha, "Paracatu seria destruída", "o sangue dos civis mortos na batalha serviria para clamar o Brasil a se levantar contra os bandidos comunistas" e, em tom ameaçador, "aqueles que se opusessem a esta ‘glória’ seriam entendidos também como bandidos comunistas". Tal como desejado, os paracatuenses ficaram horrorizados e se dirigiram em alguns automóveis ao BGP, que estava no rio. Imploraram a seu comandante que não atacasse a cidade.

E não houve ataque; porém a resposta ao pedido dos civis é desconhecida, e a atitude da força do BGP foi primeiramente regida pelo conhecimento da adesão do II Exército e da reunião Âncora-Kruel. Algumas horas depois,[409] cerca de 21:00, recuou, "pois a Revolução havia triunfado", chegando a Brasília na manhã do dia seguinte. Havendo contato se seguiria parlamentação, com a posição de Henning se tornando conhecida; porém as tropas não se defrontaram como nas outras frentes, e ela permaneceu uma incógnita.[400] O grande esforço da PMMG foi pouco noticiado e é hoje pouco conhecido.[409]

O Destacamento Caicó[editar | editar código-fonte]

O terreno em Paracatu

No dia 2 Mourão Filho ordenou a constituição do "Destacamento Caicó"[nota 52] para marchar sobre Brasília, a comando do Coronel Dióscoro Vale, do 12º RI.[144] Tinha 2 mil homens.[411] A artilharia era um grupo constituído de uma bateria do CPOR e outra do Grupo de Pouso Alegre. A do CPOR tinha alunos (a maioria universitários de Engenharia Civil) e soldados de segurança interna.[412] Pouso Alegre recebeu no dia 31 a ordem de se deslocar a Belo Horizonte, pondo-se às ordens da Infantaria Divisionária 4. Partiu na madrugada do dia 1 uma Bateria de Obuses de seis peças. Ignoraram uma ordem do I Exército para permanecer no aquartelamento e deixaram para trás um subtenente e alguns sargentos recalcitrantes — o subtenente temia pela sua família se ficasse do lado perdedor.

Com os motores ligados, o subcomandante sugeriu que não saíssem. Saíram, ainda assim. Não foram, como ouviam, metralhados na saída, e os temores de um ataque dos paulistas pela retaguarda ou da interferência da ESA em Três Corações (para a qual tomaram a precaução do reconhecimento) não se materializaram. O comandante do Regimento, Cel Goés,[nota 53] chegou mais tarde e partiu com uma Bateria de Choque - três ônibus com efetivo excedente - encontrando-se com os obuses no caminho. Esta segunda bateria chegou ao aquartelamento do CPOR em Belo Horizonte na madrugada do dia 2, partindo no mesmo dia. Na capital souberam do arrependimento dos sargentos — casavam-se na cidade e agora as famílias conservadoras os pressionaram - mas os oficiais, magoados, achavam tarde demais e conseguiram evitar sua reintegração.[413][414]

O 1º/12º RI partiu em ônibus; era uma tropa bisonha, com três meses de incorporação. O comandante da 1ª Cia,[415] outro capitão[411] e 2–3 graduados recusaram-se a aderir, o comandante pela Constituição e os demais pela família ou o quartel.[416] Ficaram em suas casas e depois seriam punidos apenas com transferências.[415]

O Rio São Marcos

O Destacamento avançou em marcha tática, esperando conflito,[400] fazendo patrulhas à noite e imaginando "reações dos grupos de esquerda, emboscadas e sabotagens". Até fugiu de um "teco-teco" sobrevoando, que porém era de um civil e um oficial de ligação que acompanhavam.[416] O que encontrou no caminho foi uma recepção positiva entre a população.[411] Em Paracatu os sargentos recalcitrantes da artilharia alcançaram a coluna, e foram reincorporados por ordem da 4ª RM/DI; a contragosto, com "inscrições depreciativas" na poeira das viaturas.[413] Cruzando o rio São Marcos haviam espaldões, vestígio das peças antiaéreas,[412] e um soldado do BGP, dormindo em seu abrigo individual e deixado para trás no recuo; tornou-se o guia do Destacamento.[400] Num rio ("que corta o eixo rodoviário antes de Brasília") toparam com os carros de combate brasilienses; poderiam ter comprometido o deslocamento se atirassem, mas recuaram.[415]

A etapa final do deslocamento foi administrativa, não tática.[412] O 10º Batalhão da PMMG entrou na capital federal no dia 2.[417] A Bateria de Choque chegou no dia 4.[413]

Ordem de batalha[editar | editar código-fonte]

Ordem de batalha no teatro de operações de Brasília
Golpistas Legalistas[400][398][399]
Destacamento Caicó/ Grupamento Tático 12[219][186]

Coronel Dióscoro Gonçalves Vale

9ª Região Militar Grupamento Tático enviado pela 11ª RM

Major Hernani Azevedo Henning

1º Batalhão do 12º Regimento de Infantaria

2º Grupo do 4º Regimento de Obuses de 105 mm

Bateria de Obuses[nota 54]

Capitão Humberto Ayres Côrrea[414]

Bateria de Choque motorizada

Capitão Renato Ribeiro da Silva[413]

Bateria de Obuses do CPOR/BH

Capitão Fernando de Almeida Godói[412]

10º Batalhão da PMMG

Tenente-coronel Georgino Jorge de Souza

3º Batalhão da PMMG

Companhias do:

Departamento de Instrução

Regimento de Cavalaria

Batalhão de Guardas (1º da PMMG)

12º Batalhão da PMMG

16º Batalhão de Caçadores

Coronel Carlos de Meira Mattos

4ª Companhia de Fuzileiros do BGP

Capitão Dário Alfredo Pinheiro

Seção ou Bateria de artilharia antiaérea

Seção ou pelotão de carros de combate

do 3º Esqd C Mec

Destacamento Triângulo Elementos da RM

em Campo Grande

Restante da RM

Retaguarda mato-grossense[editar | editar código-fonte]

No Mato Grosso (o sul ainda não tinha sido desmembrado) o comandante da 4ª Divisão de Cavalaria se posicionou a favor do movimento de Mourão Filho assim que ouviu dele, na tarde do dia 31.[418] Kruel, entrando na sublevação, contatou pelo rádio seus comandados no Estado. "9ª Região Militar está inteiramente solidária com a V.Exª". O comandante da região ordenou a prisão dos reconhecidamente comunistas.[419] A frente interna em Campo Grande era tranquila: a 4ª DC enviou um grupamento de cavalaria, artilharia, comunicações e material bélico para Rio Brilhante, "na direção do Rio Iguatemi", para eliminar uma concentração inexistente de brizolistas.

Também se prontificou a, em 48 horas, transferir forças a São Paulo através da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil.[420] A ordem que veio do II Exército era para Cuiabá e na outra direção: o 16º Batalhão de Caçadores invadiria Brasília por Jataí.[348] Era uma distância colossal — 1.700 km de estrada, dos quais apenas 200 asfaltados. O Cel Meira Mattos, comandante em Cuiabá, pediu ao 2º Batalhão de Fronteira,[nota 55] de Cáceres, um reforço de segurança à cidade, e "ainda no dia 31 de março" despachou uma coluna motorizada sob o Cap Alírio Cardoso na direção de Rondonópolis e Alto Araguaia.[421] Segundo Meira Mattos ele seria ainda reforçado por Campo Grande, mas não o foi pela "confusão de ordens", e eram "decisões que não podem esperar muito".[422] Já por uma fonte de Campo Grande o grupamento foi preparado para apoiar o 16º BC mas o General Moacir Araújo Lopes não quis "gastar dinheiro à toa" com o transporte ferroviário.[420]

Meira Mattos "requisitou os três aviões comerciais que haviam pernoitado em Cuiabá" e na manhã do dia 1 aerotransportou uma subunidade, sob o Cap Myron de Oliveira, a Jataí. Tomou um "teco-teco" e visitou a coluna do Cap Alírio, que ao meio-dia já estava em Alto Araguaia. Voou em seguida a Jataí, onde soube que tinha o governador goiano tinha aderido, mas não o comandante do 10º BC, em Goiânia — no caminho. Para lá foi de tarde e apoiado pela PM goiana conseguiu sua adesão.[421]

Quanto aos deslocamentos aéreos, o então chefe da 4ª seção do II Exército[nota 56] menciona, a pedido de Meira Mattos, um avião do governo de São Paulo transportando efetivos às pontes ao longo da estrada que fossem dinamitadas.[423] Segundo um estagiário na 4ª DC[nota 57] um DC-3 civil desembarcava pelotões em cidades alternadas. "Cada fração de tropa desembarcada prosseguia por terra até a próxima comunidade urbana onde havia pista de pouso. O avião voltava, para apanhar os que estavam por último, e transportava a tropa para outra parada".[420]

Ao saber da intenção de Goulart de abandonar Brasília Meira Mattos investiu suas forças à capital: o Cap Alírio prosseguiria, o Cap Myron teria sua força motorizada para avançar e os 1ºs Tens Daury Carlos de Menezes Filho e Edson Taques da Silva desembarcariam tropas no aeroporto de Brasília. O Coronel pousou na cidade num Cessna, de manhã, e logo depois soldados do batalhão sob o Maj Otiles Moreira da Silva.[421] Era a primeira tropa de fora da guarnição de Brasília.[400]

Avenida W3 Sul[editar | editar código-fonte]

Avenida W3 Sul em 1970

Um pelotão do BGP, do Ten Carlos Fernando Freitas Almeida, foi depois das 02:00 do dia 2 à Rádio Nacional. Desarmou a PM que a defendia e lacrou os transmissores, interrompendo a Rede da Legalidade.[398]

À tarde, cerca de 300 estudantes e trabalhadores davam "vivas a Jango"[421]. Às 16:00 um pelotão do BGP sob o Ten Fernando Cardoso iniciou seu retorno de Riacho Fundo. Ali tinha concluído sua infrutífera procura por Darcy Ribeiro. No retorno foi alertado de manifestantes contra o golpe na Rodoviária e que atacariam a Rádio Alvorada, na Quadra 504, início da Avenida W3 Sul. Procurou chegar ao Eixo Monumental sem contato com a turba, mas prosseguindo do balão da 306/307 e virando à direita na W3 Sul à altura da 506/507, viu a 300 m um grupo rumando à 507. "Correr do inimigo, jamais e, além disso, eles já nos viram". Agindo ali, pegou os manifestantes na avenida; se tivesse ido à Rodoviária, poderia já estar vazia.

Bloqueou a estrada com seus veículos, duas viaturas "choques" e um jipe. Dispôs um fuzil-metralhadora em cada "choque" e os soldados com baionetas. Bradando slogans e, segundo o tenente, informados pelos "agitadores" que a munição era de festim, os manifestantes ignoraram o grito de "Atenção!" e já se aproximavam a 6 m. "4º Pelotão, fogo!" A salva foi para cima, mas um FM Madsen furou uma luminária e banhou os manifestantes de vidro.[400]

Outro pelotão, do Ten Almeida, seguiu a onde hoje está a igreja Dom Bosco e bloqueou a W3 em outro ponto, deixando os manifestantes no centro. Portavam pedaços de pau e acertaram os capacetes com pedras. O pelotão revidou com outra salva para o alto, causando uma debandada.[398] Do lado do Ten Cardoso, a massa recuou e no "aproveitamento do êxito" o pelotão avançou à ponta da baioneta. Os manifestantes escorreram pelas saídas laterais até só sobrarem 50, balançando uma bandeira brasileira. "O Sargento Araújo escolheu um soldado e disse: 'Vamos lá pegar essa bandeira'".

A bandeira da manifestação dissolvida tornou-se o troféu do pelotão. Uma patrulha de reconhecimento do Esqd Rec Mec ajudou a concluir a limpeza e o pelotão protegeu o Correio Braziliense no Setor Gráfico até as 21:00.[400]

Tropas de fora e mudanças de comando[editar | editar código-fonte]

Soldados em Brasília

Com um Estado-Maior da ECEME, o General Souza Aguiar voou a Brasília e às 19:00 do dia 2 assumiu a 11ª RM/Comando Militar do Brasília, de forma cerimoniosa mas claramente "substituindo o outro chefe que servira um governo deposto".[421] O Cel Raimundo acabou afastado do BGP, assumido então pelo Cel Meira Mattos.[400]

O restante dos mato-grossenses demorou uma semana para chegar.[424] Na noite de 4 a 5 de abril ocuparam a sede da SUPRA. Ao Exército em Brasília, inteiramente do lado do novo do regime, sobraram "operações de limpeza e de vasculhamento", como de um suposto grupo armado em Uruaçu; não havia nada.[421]

Os mineiros se dispersaram pela cidade. A Bateria de Choque ficou na sede do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Marítimos.[413] Muitos ficaram em canteiros de obras, como o comando e um batalhão da PMMG, no Teatro Nacional ("com a estrutura pronta e os andaimes")[413] e a infantaria no quartel do 1º Rec Mec. Um soldado desapareceu e não se ouviu mais dele.[416] A estadia prolongou-se por abril. No dia 9 750 soldados da PMMG e 150 da Polícia Política do DF, portando "fuzis com baionetas, fuzis metralhadoras, metralhadoras portáteis e metralhadoras pesadas; 14 ônibus, quatro carros de transporte de tropas, quatro ambulâncias e aparelhamento de rádio de campanha" invadiram a Universidade de Brasília. Prenderam 13 professores desarmados e permaneceram ali até o dia 22.[425] A tropa regressou no dia 16 de abril[144] ou após 19 dias, alimentada por civis comemorando no caminho e realizando um desfile em Belo Horizonte.[415]

Nordeste[editar | editar código-fonte]

Às 03:00[426] da madrugada do dia 1 o General Justino recebeu um telefonema do Presidente, que alegou ter os outros três Exércitos sob controle e perguntou a situação do seu. Respondeu: "O IV Exército está bem, de rigorosa prontidão, presidente".[427] Seus oficiais ficaram "quase em risos".[41] Já aguardava a publicação o manifesto contra Goulart.[426] O movimento de Mourão Filho tinha repercutido — o 15º RI aderiu assim que ouviu dele —[418] e da noite de 31 a 1 tropas já tinham sido lançadas pelo interior do Nordeste. "Ninguém pôde opor-se às armas do 4º Exército, presentes por toda aquela vasta região do Brasil, como se seu destino grandioso as tivesse feito cair do céu."[428]

Com antecedência já tinham sido preparados o "Serviço-de-Superior-de-Dia" e a "Operação Enlace" para a "severa vigilância" em todos os espaços e o Plano de Capturas, com alvos já localizados.[77] Na Operação Enlace patrulhas sairiam de cada cidade, encontrando-se no caminho. Para o Plano de Capturas havia um corpo especial com armas e viaturas próprias, "Os Intocáveis".[129] Acionado, fez ao redor de mil prisioneiros incluindo Gregório Bezerra,[428] capturado numa operação na Zona da Mata Sul de Pernambuco.

O silêncio e a proibição de manifestações, ainda no dia 31, evidenciavam o alinhamento do IV Exército ao golpe, e quando às 08:15 do dia 1 o comando no Recife foi perguntado de seu posicionamento pela 10ª RM, a resposta foi a solidariedade a Mourão Filho.[429] A 6ª RM, na Bahia, já tinha se posicionado na noite.[430] O manifesto do IV Exército e 3º Distrito Naval saiu às 09:00 da manhã, com a 2ª Zona Aérea emitindo o próprio.[431] Os governadores de Pernambuco, Miguel Arraes, e de Sergipe, Seixas Dória, foram presos e depostos. A forte mobilização da esquerda que se esperava apareceu só esporadicamente, como em Vitória do Santo Antão. No meio militar as reações foram mínimas, como na Base Aérea de Fortaleza, e foram necessárias apenas substituições. Ao final chegaram a haver preparativos para um deslocamento da Bahia rumo ao sul.[432]

Reações militares e políticas[editar | editar código-fonte]

Na Base Aérea de Fortaleza, após uma reunião às 19:00 do dia 1, sargentos legalistas unidos a cabos e soldados, num grupo de 300 praças, muitos armados, buscaram o comandante exigindo um esclarecimento de sua posição. Dois capitães tentaram intimidá-los com uma tropa pequena, mas com metralhadoras. Não chegou a ocorrer confronto, e um inquérito foi depois feito.[433] Os comandantes da 10a RM e ID/7 não eram confiáveis, mas estavam fora e não puderam atuar. O comandante da Base Aérea de Natal recusou-se a aderir e foi substituído. A Base Naval de Natal, onde o motim da Marinha na Guanabara tinha tido repercussão, não reagiu graças ao controle da oficialidade.[nota 58][427] No 15º RI manifestaram-se contra e foram presos somente um capitão e o veterinário.[434]

Petrônio Portella, governador do Piauí, recebeu à meia-noite uma comitiva do 25º BC, sendo informado das medidas de controle da cidade. A Polícia Militar foi dispersa pelos pontos sensíveis. O governador só não foi informado que com isso o Exército tinha uma companhia pronta para ocupar o quartel fracamente protegido da PM — e outra para seu Palácio. Nove horas depois emitiu um manifesto contra o golpe — "querem ensanguentar este País!". Ameaçado de prisão pelo Exército, voltou atrás. "Vereadores, secretários, líderes sindicais, líder camponês" foram presos para "apurar o envolvimento", com tratamento normal.[435]

Lomanto Júnior, da Bahia, também emitiu um manifesto legalista (de madrugada) e voltou atrás.[427] Na Paraíba os prefeitos de Sousa e Campina Grande se manifestaram contra, enquanto o governador Pedro Gondim aderiu no dia 1 sob pressão militar e percebendo a fragilidade de sua posição;[436] sua PM participou do movimento.[437] No Rio Grande do Norte o governador Aluízio Alves aderiu ao golpe, enquanto o prefeito de Natal, Djalma Maranhão organizou sua prefeitura como "QG da Legalidade", o qual era apenas uma aglomeração de governistas, mas incomodou os militares, que a tomaram como "ameaça de mobilização".[438] Maranhão e o vice-prefeito foram presos por capitães do 2º/7º RO.[427]

Desde a adesão era objetivo de Justino eliminar os governadores de Pernambuco e Sergipe.[427] Seixas Dória, de Sergipe, foi preso na noite do dia 1[439] ou às 05:00 da manhã seguinte por uma companhia de cerca de 120 homens do 28º BC, sem resistência pela guarda da PM. O vice-governador Celso de Carvalho surpreendeu-se e sentou numa cadeira quando ouviu dos militares que assumiria o posto. Também pouco compreendia o Oficial de Operações que planejou a captura — obedecia ordens e só descobriu a natureza do governador quando teve que conduzir o inquérito contra ele.[440]

Interior pernambucano[editar | editar código-fonte]

Segundo o então 1º Ten no 1º/7º RO, Petrônio Araújo Gonçalves Ferreira, o governador Arraes tinha um plano para através das ferrovias e rodovias escoar camponeses da Zona da Mata à capital. Assim, no Recife o alvo era o governador enquanto tropas de Alagoas e da Paraíba, que "não tinham problemas", convergiam a Pernambuco para selar todas as vias de acesso. Faz menção ainda ao 16º RI do Rio Grande do Norte tendo se deslocado a Pernambuco. [441]

Na Paraíba a PM teve que agir em Rio Tinto, onde o prefeito apoiou uma ação do sindicato e das Ligas Camponesas, ocupando a fábrica de tecidos e montando arame farpado na cidade.[436] O Exército no Estado partiu: elementos da 5a Cia de Engenharia de Construção de Campina Grande cruzaram a fronteira e intervieram em Caruaru,[427] onde uma estação de ferro foi ocupada,[428] e em Vitória do Santo Antão,[427] onde as Ligas Camponesas ocuparam a prefeitura, comunicações e estação ferroviária.[442] O 15º RI de João Pessoa já estava às 23:00 do dia 31 em Goiana,[443] cidade politicamente perigosa,[427] para onde também seguiu a 1a Bateria do 7º RO, do Cap Aurino de Araújo Pereira. A Bateria prendeu o tenente da PM João Bezerra de Araújo, de confiança de Arraes e com treinamento de guerrilha. Araújo reunia camponeses de Sapé para conduzi-los ao Recife. Embora armado, foi preso sem resistência, e os camponeses dispersos.[441] O 15º RI deixou ali uma companhia de fuzileiros e seguiu ao Recife.

Em Alagoas o governador estava com o golpe e a situação tranquila permitiu o imediato emprego do 20º BC.[427] Entrou em Pernambuco pela Zona da Mata Sul. Esta região era marcada pela atuação tanto da Igreja Católica quanto do PCB no notório desenvolvimento do sindicalismo rural, favorecido pelo governo estadual. O sexagenário Gregório Bezerra era líder importante entre os comunistas.[444] O 1º Ten da PM José Fernando Pontes Soares Filho, em reconhecimento ali e no Agreste, identificou uma forte presença comunista nos sindicatos de Gameleira, Joaquim Nabuco, Palmares, Catende, Maraial e Quipapá, enquanto em Canhotinho e no restante da Diocese de Garanhuns predominava a influência católica, que atuou "pró-Revolução".[445]

Caçando Gregório Bezerra[editar | editar código-fonte]

As tropas alagoenses ocuparam Catende e Palmares, locos das Ligas Camponesas;[427] deixaram também guarnições nas usinas do seu lado da fronteira. A PMPE também estava presente, mas dividida devido à influência do governador.[446] Palmares era estratégica, na BR-101 entre Maceió e o Recife. Ultrapassando bloqueios policiais Bezerra passou por Palmares e Ribeirão, onde pensava-se montar uma insurreição com armas fornecidas pelo governo estadual, que nunca vieram. Dispensou então os camponeses que encontrou.[444] O Maj Dynalmo Domingos de Souza narra a busca por Bezerra: enviado às 17–18:00 pelo IV Exército para fazer ligação com o 20º BC, se recorda de "camponeses caminhando em direção das usinas, alguns com enxadas, facões, espingardas, rifles", "até em caminhões, aqueles de transporte de cana". Acompanhados do usineiro José Lopes Siqueira, fizeram contato entre Ribeirão e Palmares com uma companhia do Exército, retornaram a Ribeirão e ali encontraram um destacamento policial (sargento, cabo e 2–3 soldados).

Avisados pelo sargento, ele, o capitão do 20º BC e a comitiva do Recife invadiram a sede do Sindicato das Ligas Camponesas de Ribeirão. Interrogando os presos encontraram o "braço direito de Gregório", um cubano treinado em guerrilha. Ao sargento revelou que Bezerra fora dormir na casa da amante, perto da Fazenda Pedrosa, em Cortês. Na madrugada a tropa do 20º BC se dividiu em patrulhas seguindo pelos três eixos a Cortês. Ao seu encalço foi uma equipe liderada pelo Cap Rêgo Barros, do serviço secreto da PM, que se encontrou com eles em Ribeirão. Patrulhas da PM e Exército chegaram simultaneamente à fazenda; inicialmente capturado pela PM, foi conduzido pelo Exército.[446] Sua fuga tinha se dado na madrugada do dia 2.[nota 59][447] Submetido a maus-tratos, foi exibido amarrado pelas ruas do Recife às 09-10:00 da manhã.[448]

O Recife[editar | editar código-fonte]

A possibilidade de resistência armada foi um pretexto para a deposição de Arraes, mas ele não pretendia conduzi-la. Tinha apoio popular mas sabia de sua inferioridade militar. Mesmo que tivesse o poder de fogo necessário, só lutaria se a vitória fosse viável a nível nacional.[449] Ainda assim, com a eclosão da sublevação mineira a PMPE formou um dispositivo de segurança, anulando qualquer fator surpresa por parte do IV Exército. Protegendo o Palácio das Princesas uma companhia[450] ou batalhão[451] montava guarda "com numerosas patrulhas e ninhos de metralhadora".

Já o dispositivo do Exército eram partes do 14º Regimento de Infantaria, 1º/7º Regimento de Obuses, 7ª Companhia de Polícia do Exército e Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado.[431] Os obuses partiram primeiro, por iniciativa do comandante, primeiro estacionando no parque 13 de Maio e em seguida à Praça da República; em seguida veio a infantaria.[451] A infantaria ficou à esquerda dos obuses, e à direita deveriam ficar forças do 3º Distrito Naval, que não compareceram, deixando o flanco descoberto.[450] Tampouco intercederam pelo governador, como era o temor na Bateria que retornou de Goiana à tarde; os Fuzileiros Navais estavam no bairro do Recife e tinham armamento superior (FAL) aos mosquetões do Exército.[441] Às 09:00 ou 11:00 já ocupavam a Praça.[431]

Justino, não querendo um derramamento de sangue com a PMPE, quis ainda atingir Arraes pela diplomacia. Seus enviados, Almirante Dias Fernandes (3º Distrito Naval), Cel Castilho (14º RI), Cel Bandeira e Ten Cel Ivan Ruy Andrade de Oliveira (1º/7º RO)[450] estiveram ao final da manhã, paralelamente ao cerco, negociando no Palácio. Queriam que "renunciasse às suas prerrogativas", entregasse o comando da PMPE e publicamente rejeitasse o Presidente; seria, assim, neutralizado sem custo à opinião pública. O governador não aceitou e os oficiais se retiraram.[452] A presença do almirante foi surpresa, já que Arraes o considerava legalista.[428]

A Polícia Militar entrincheirada chegou a defrontar o Exército, com possibilidade de tiroteio, mas às 13:30 o 1º/7º RO avançou para o Palácio. Um pelotão correu à parede do palácio e a ordem foi dada aos policiais para entrar em forma para a substituição. Eles foram então mandados embora. Quando Arraes tentou sair do palácio, foi preso pelo Cel Castilho,[450][451] às 16:00[452] ou depois das 15:00, sendo então submetido a impeachment e substituido pelo vice-governador, Paulo Guerra.[427]

Durante as negociações da manhã o comandante da PMPE, Hangho Trench, foi levado ao QG do IV Exército, onde prometeu cooperar. Quando retornou, ignorou a promessa e adotou postura legalista.[450] Seu 2º Batalhão, porém, já se alinhou aos golpistas. Trench cortou as comunicações com o 2º Batalhão e montou uma defesa em seu quartel no Derby, cavando trincheiras no campo de esportes e bloqueando a ponte com carros e ônibus. A contrapartida veio numa ofensiva contando com quatro tanques leves; os amotinados "abandonaram as armas e correram". Às 14:30 o Cel Sylvio Cahú adentrou o quartel e tomou posse da PMPE. [431][453]

Um tempo depois das 14:00 estudantes governistas em manifestação chegaram em frente ao edifício da Sudene, na esquina da Avenida Conde da Boa Vista com Avenida Dantas Barreto, próximos ao Palácio. Informados por um professor português contratado por Arraes que a munição dos militares era de festim, gritavam "Gorilas! Gorilas! Vamos soltar nosso governador!" A munição não era de festim e antes das 16:00 dois chegaram sem vida ao Pronto-Socorro.[431][450] A Marinha dispersou um começo de greve no porto.[428] Pela cidade o Exército tinha presença ostensiva e todos os acessos estavam em seu controle.[431]

Demais ações[editar | editar código-fonte]

Em Propriá (SE) o prefeito Geraldo Sampaio Maia, irmão do deputado líder do governo na Assembleia, conduziu uma passeata com "mais de trezentos homens armados, inclusive com metralhadoras"; até mesmo "ameaçavam dinamitar uma ponte nas proximidades". No dia 2 uma tropa do 28º BC restaurou a ordem e prendeu o prefeito.[440]

Na Bahia, um contingente do CPOR (do Maj Castello Branco) ocupou na noite do dia 31 a Praia da Calçada para bloquear a PM vinda da Península de Itapagipe. De manhã o 19º BC ocupou a refinaria de Mataripe. À tarde a bateria de artilharia de costa de Amaralina cercou a base aérea e uma reação no sindicato dos petroleiros foi dispersa.[430] Ao fim da dominação da região, o IV Exército chegou a expedir uma ordem para as forças aquarteladas na Bahia se deslocarem ao sul, em apoio a Mourão Filho e Kruel.[432]

Norte[editar | editar código-fonte]

A região tomou posição quando o lado vitorioso no conflito tornava-se claro no centro-sul do país. Orlando Ramagem, comandante do Comando Militar da Amazônia, aderiu ao golpe às 15:00 do dia 1º, após uma conversa com Kruel. O governador do Pará manifestou seu apoio à noite, enquanto o do Amazonas e o interventor federal no Amapá se mantiveram contra o levante. À noite a União Acadêmica Paraense foi invadida pelos militares.[454]

Paraná e Santa Catarina[editar | editar código-fonte]

A oficialidade golpista da região conseguiu evitar a chegada da liderança legalista e no dia 1 manifestou sua solidariedade ao II Exército, aderindo à rebelião. O II Exército contribuiu com um Grupamento Tático no dia 2 e posteriormente um navio-tanque, pois o combustível era problema. Ao longo dos dias 1 e 2 foram montados três destacamentos lançados contra a fronteira catarinense. O comandante legalista da região pousou em Porto Alegre mas seus comandados ignoravam seus chamados. A partir do Rio Grande do Sul houve reação legalista, mas só moveu-se o batalhão de Vacaria, que com sucesso ocupou o Passo do Socorro, objetivo estratégico golpista. Nas outras frentes os golpistas chegaram ou aproximaram-se da fronteira, mas a essa altura havia cessado a resistência.

Desviando os comandantes[editar | editar código-fonte]

Respondiam pela 5ª RM/DI e Infantaria Divisionária 5 os Generais Silvino Castor da Nóbrega e Chrysantho de Miranda Figueiredo. Eram integrantes do dispositivo militar governista. Chrysantho abertamente pregava em defesa do programa do governo.[455] Silvino tinha posição parecida, ao menos de forma velada, e era reconhecido como profissional, disciplinado e legalista.[69] No final de março, com ambos de férias no Rio, os comandos estavam nas mãos do General Dário (5ª RM/DI) e dos Coronéis Rubens Barra (ID/5) e Reynaldo Mello de Almeida (AD/5).[456]

Os oficiais em Curitiba combinaram com o General Silvino o envio de um emissário ao Rio para trocar informações.[457] O enviado às 14:00 foi o Cel Reynaldo,[458] bem ligado ao General,[459] com uma missão adicional — trazer Silvino ao lado golpista ou convencê-lo a não voltar. Para Chrysantho, de posição mais conhecida, não seria necessário. Com o atraso no vôo, só chegou às 22:00.[458] Era tarde: às 21:00 a RM foi informada que Silvino e Chrysantho, acompanhados do General Ladário, do III Exército, em meia hora embarcariam para assumir seus comandos.[457] O avião decolou às 21:55, rumo a Porto Alegre com uma parada na capital paranaense. Quando sobrevoou Curitiba, às 23:45, não pôde aterrissar pelo nevoeiro.[404]

Contrariamente à versão predominante, se não havia visibilidade, a culpa era humana, não meteorológica. Para evitar a chegada a pista de pouso no Aeroporto de Afonso Pena tinha sido mantida às escuras. O piloto poderia ter pousado na Base Aérea do Bacacheri, cujo brigadeiro comandante não bloqueara a pista, mas sem motivo conhecido não o fez e seguiu a Porto Alegre.[459] Se tivessem pousado em Curitiba, os generais seriam recebidos por Dário — e oficiais dispostos a prendê-los.[458]

Às 02:00 do dia 1 Kruel comunicou à RM sua adesão ao golpe, e a encontrou solidária e disposta a guardar seu flanco. Quando o Gabinete do Ministro da Guerra pediu informações, às 05:00, a resposta foi dissimulada — "Situação calma" — pois às 06:50 o comando informou aos subordinados: lutariam ao lado de São Paulo e Minas. A adesão foi generalizada. As exceções eram dois oficiais na reunião, dois no CPOR, e no 13º RI, o comandante e mais dois.[457] Os líderes do CPOR e 13º RI já eram conhecidos por seu envolvimento com líderes partidários de esquerda.[69]

Em pouco tempo a RM já tinha do seu lado as demais Forças Armadas e a PMPR. Recebia informações do Rio Grande do Sul pelo Contra-Almirante Murilo Vasco do Vale Silveira, comandante do 5º Distrito Naval.[457] Nei Braga também aderiu por completo.[460]

III Exército marcha a norte ou a sul?[editar | editar código-fonte]

Às 22:50, ainda no dia 31, o Gabinete do Ministro da Guerra ordenou o deslocamento do 5º Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado a Registro devido à possibilidade da adesão paulista à rebelião.[457] Dário ordenou ao comandante que estivesse pronto a cumprir missão — sem especificar qual.[458]

Tendo escolhido o lado em que lutar, a 5ª RM teve que lidar com a logística, distribuindo meios a algumas unidades, e especialmente administrando sua escassez de combustível (vide tabelas). A Rede de Viação daria prioridade ao transporte de combustível a Curitiba e Paranaguá, cidades nas quais, com os agentes das distribuidoras de produtos de petróleo, se fariam estoques emergenciais.[461] As tropas em deslocamento estavam autorizadas a requisitar veículos e combustível.[462] Posteriormente o combustível em mãos das distribuidoras só saía com o sinal verde da 4ª Seção do Estado-Maior. Ao II Exército foi pedido o desembarque de petroleiros em Paranaguá e Itajaí.[461]

Às 07:00 o comando ordenou o deslocamento até a fronteira de Santa Catarina com o Rio Grande do Sul para barrar qualquer progressão do restante do III Exército na direção contrária. Se perdesse espaço a uma ofensiva, poderia recuar até no máximo Joaçaba, Lages e Criciúma. Daria passagem a forças aliadas vindas do norte e trataria de "neutralizar a ação de elementos militares e civis comunistas ou simpatizantes". As formações regionais foram agrupadas em três destacamentos, Beta, Lages e Litoral. Ocupariam, respectivamente, Marcelino Ramos, na T-7, o Passo do Socorro, na BR-2 (BR-116), e a passagem de fronteira na BR-59 (BR-101).

As ordens imediatas eram, no Destacamento Beta, ocupar Marcelino Ramos e retardar qualquer tropa mais forte pela ferrovia com a 1ª Cia do 5º BE Cmb. O restante do batalhão ficou em Porto União. A 1ª Cia do 13º RI deveria seguir a Joaçaba, mas por falta de recursos e sabendo que a 3ª DI já estava do seu lado permaneceu em Francisco Beltrão[nota 60]. Partes do Destacamento Lages convergiram na cidade homônima. No Destacamento Litoral uma companhia reforçada do 14º BC foi subordinada ao 23º RI e juntos foram na direção de Tubarão, enquanto a 1ª Cia do 23º RI tomou o aeroporto e combustível em Itajaí.

Outras medidas foram a manutenção da ordem em Paranaguá por um pelotão do 20º RI e em Florianópolis pelo restante do 14º BC associado ao 5º Distrito Naval. Joinville foi defendida pelo 13º BC. Às 21:50 um esquadrão de cavalaria foi chamado a Curitiba.[462]

O avião com Ladário, Silvino e Chrysantho desembarcou em Porto Alegre às 01:20. Ladário assumiu o comando do III Exército,[404] e Silvino buscou reaver sua autoridade. Às 06:40 ordenou que a Região organizasse três GTs motorizados para Registro, Itararé e Capela da Ribeira — na direção oposta das ordens de Dário, rumo à fronteira São Paulo/Paraná. Queria também pousar em Curitiba antes do meio-dia. Reiterou as ordens às 08:30, e como não foi convencido a mudar de lado, ouviu que nem deveria vir. Às 12:20 comunicou-se com o 13º BC, em cuja direção queria seguir; contatou também o 14º BC e 23º RI. Nenhum queria ouvir suas ordens e rejeitar Dário.[457] Tampouco o 13º e 14º batalhões estavam dispostos a partir de Joinville e Blumenau na direção de São Paulo.[69]

Para reconquistar sua Região Silvino recebeu de Ladário o comando de três GTs, que avançariam na ferrovia Porto Alegre–Vacaria–Lages e na BR-2;[404] o 8º RI tomaria Marcelino Ramos.[463] Eram formados por unidades da 3ª DI (Santa Maria) e 3ª DC (Bagé), sem retirar efetivos de Porto Alegre e da região industrial de São Leopoldo. Essas divisões logo seriam perdidas para a defecção, rejeitando o movimento. Mas o III Exército enviou, também, o 3º Batalhão Rodoviário (BRv) de Vacaria ao Passo do Socorro. Cumprindo prontamente,[404] pôs-se em rota de colisão com o 2º, de Lages.

Formações envolvidas e mapa[editar | editar código-fonte]

Passo do Socorro[editar | editar código-fonte]

Operações no Passo do Socorro
Golpe de Estado no Brasil em 1964
Rio Pelotas.jpg
O Rio Pelotas
Data 1-2 de abril 1964
Local Passo do Socorro, fronteira RS/SC
Desfecho Legalistas mantém o controle da ponte
Beligerantes
Brasil Exército Brasileiro (legalista) Brasil Exército Brasileiro (golpista)
Comandantes
Brasil João Guerreiro Brito Brasil Samuel Augusto Alves Correa
Unidades
3º Batalhão Rodoviário 2º Batalhão Rodoviário

Na manhã[nota 64] o 2º Ten Álvaro Nereu Klaus Calazans, trabalhando no 2º BRv às margens da BR-2, em Lages, seguiu com um pelotão à ponte sobre o Rio Pelotas na fronteira catarinense. Tinha um jipe, um ônibus, 2 sargentos e 30 soldados para "assumir o controle da ponte e garantir o livre trânsito por ela". Esperava lá o Ten Maurício Lúcio Teixeira, que já trabalhava 10 km acima mas não tinha tropa;[467] só 3 sargentos e alguns soldados, com os quais tentou bloquear a ponte com um caminhão e moirões.[462] No início da descida da Serra de Pelotas, deixou para trás um sargento e os soldados e seguiu à ponte com o outro sargento e o jipe. Encontrou a 1 km da ponte o Ten Maurício cercado por militares do 3º BRv, que tinham cruzado a fronteira. Quando o comandante do batalhão, Cel Guerreiro Brito, ouviu de Calazans que cumpria ordens da 5ª RM ao 2º batalhão, prendeu e desarmou o visitante de Lages.

Calazans definiu a situação como "surrealista". Pouco após ver o Ten Maurício estava a caminho de Vacaria, vigiado por um conhecido do outro batalhão portando uma metralhadora de mão. Não falaram uma palavra na viagem. O tenente tinha imaginado que a missão era relacionada a seu trabalho de engenharia, sem oposição militar. Nem mesmo sabia que o país estava em crise. Vivia fora da sede e alheio às notícias, a ponto de, quando chamado, protestar, pois a usina de asfalto estava funcionando. E agora estava preso sem saber o motivo.

Um ônibus de linha presenciou a cena e um passageiro comentou: "Guerra no Brasil não existe, isso é só confusão, não vai dar em nada. Olha ali, tem até um oficial desarmado na estrada". O Batalhão só soube quando uma viatura foi levar o almoço, encontrando o sargento e os soldados no alto da serra e os legalistas na ponte. O Cel Correa chegou a visitar a ponte e com um megafone clamar pela liberação de seus comandados, sem sucesso. A Rádio Nacional na manhã seguinte incorretamente relatou a ocorrência de combate no Passo do Socorro, com a morte de dois tenentes do 2º Batalhão.[467] Os catarinenses não puderam cumprir a determinação de controlar a ponte, mas com a 1ª Companhia montaram uma linha defensiva mais atrás, sob o rio Vacas Gordas,[462] preparando ao longo da rodovia destruições para retardar um avanço legalista.[468]

Guerreiro Brito tomou "posição extremada" "na defesa do Governo do Jango". Reuniu a tropa maltreinada e mal-armada,[469] que trabalhava dispersa e longe da sede. Na força com que defendeu a ponte estava o 3º Sgt Emerson Rogério de Oliveira com 12 homens. Estava tão desinformado quanto o tenente inimigo preso. Ao sul da ponte, deveria atirar contra qualquer força vinda do norte, mas não sabia como reagir com os rumores de "muita tropa" vinda daquela direção, ouvidos de um caminhoneiro. Um avião despejou folhetos: "Rendam-se, vocês são da única Unidade do Exército Brasileiro que ainda não aderiu à Revolução. Rendam-se para não serem metralhados". O Batalhão estava já ameaçado pelo 3º Grupo de Artilharia Antiaérea de Caxias do Sul.[470]

No dia 2 o III Exército ordenou que o BRv retornasse ao quartel e Guerreiro Brito e entregasse o comando ao subcomandante, Ten Cel Brasil. Era o que antes já queriam um grupo de oficiais liderados pelo Maj Paulo Ferreira e Silva. Recusando ordens, tinham sido presos. Alguns oficiais, voltando da ponte, solidarizaram-se com esses e foram presos também. Com a tropa em forma no pátio e a presença dos servidores civis, Guerreiro Brito fez seu último pronunciamento. Era "defensor de ideais 'progressistas e nacionalistas'", do outro lado estavam "oportunistas, traidores, entreguistas e covardes" e "quando a situação se inverter, estes canalhas reacionários vão se arrepender". Os presos foram soltos e os de Lages retornaram.[470][467][470]

Dia 2 em diante[editar | editar código-fonte]

Pela manhã um radiograma de Costa e Silva falava da incorporação da 5ª RM ao II Exército.[462] Com a possibilidade de conflito com os legalistas no Rio Grande do Sul, veio de São Paulo o Grupamento Tático 4.[348] Tinha a infantaria psicologicamente preparada, mas só recentemente incorporada do 4º RI,[357] apoio logístico do Depósito Regional de Motomecanização e Companhia Leve de Manutenção, três viaturas cisternas — uma de 30 mil litros e duas de 10 mil — e até um helicóptero.[366] Os ônibus e caminhões não eram do Regimento, mas requisitados; nestes últimos as peças de artilharia estavam "praticamente 'amarradas'".[471] Partindo no início da madrugada, chegou às 23:00 em Curitiba.[348] Com o fim da crise, não precisou ser empregado[458] e regressou parte por parte nos dias 4 e 5.[462] Outra ajuda paulista foi o navio Pojuca, que no dia 4 aportou em Paranaguá com 4461 ton de gasolina e 3170 de óleo diesel.[461]

No dia 2 cumpriram-se mais ordens emitidas na véspera: no Destacamento Beta, o 2º EIC foi a Porto União. O 1º/5º RO 105 seguiram a Lages. No Litoral, avançou o 23º RI (-) e vieram novas determinações: a Cia do 14º BC, de Tubarão, fechou a "rádio subversiva" de Criciúma, deixou ali um pelotão e prosseguiu rumo ao sul. Chegou em Araranguá às 14:45, mas por novas ordens o avanço foi interrompido, emitindo somente forças de reconhecimento até a fronteira. Também o Destacamento Lages não saiu da cidade.

No Rio Grande do Sul formação após formação aderia, até que no dia 3 terminava a crise, com pela manhã a seguinte situação:

  • GT/4 e 1º EIC em Curitiba
  • Destacamento Beta: 5º BE Cmb (-) e 2º EIC em Porto União, 1ª/5º BE Cmb em Marcelino Ramos
  • Destacamento Lages: 2º BRv (-), Batalhão do 13º RI, 1º/5º RO 105 e 5º Esqd Rec Mec em Lages, 1ª/2º BRv no Rio Vacas Gordas
  • Destacamento Litoral: 23º RI (-) em Tubarão, Cia do 14º BC em Araranguá, elementos de reconhecimento em Turvo e Sombrio

Os Destacamentos Beta e Lages foram liberados a retornar aos quartéis. O Litoral foi reorganizado no dia 6 e só saiu no dia 12, pois foi retido para estabilizar a região carbonífera.[462]

Rio Grande do Sul[editar | editar código-fonte]

Porto Alegre estava nas mãos do governador Meneghetti e dos generais Galhardo e Adalberto, todos favoráveis ao golpe. Na madrugada do dia 1 o governo conseguiu empossar o general legalista Ladário no III Exército, substituindo Galhardo. Seguiu-se uma fuga golpista, com Meneghetti e Adalberto escapando ao interior e Brizola editando uma "Segunda Legalidade". Iniciava-se uma mobilização legalista. Entretanto Ladário descobriu que sua autoridade era oca. A 5ª RM já havia rebelado o Paraná e Santa Catarina, marchando na sua direção. Afora o 3º BRv, suas forças não obedeceram às ordens de deslocamento na direção de Santa Catarina, pois no interior a oficialidade da 3ª DI e 2ª e 3ª DCs convenceu seus generais a entrarem em rebelião. Somente o general Saraiva, da 1ª DC, manteve sua lealdade. A partir do interior constituiram-se autoridades civis e militares paralelas, com o governo estadual reorganizado em Passo Fundo e o "III Exército Revolucionário" em Santa Maria.

No dia 2 Goulart desembarcou em Porto Alegre. Foi instado por Brizola e Ladário a resistir, mas o restante da cúpula legalista considerava impossível. Os golpistas haviam emitido ordens em claro, sem palavras cifradas, com deslocamentos do interior contra a capital, embora a captação das mensagens importasse mais que a movimentação. A rebelião controlava o restante do país e dirigia-se para derrotar Porto Alegre. O Presidente sabia da gravidade de sua situação militar e não queria guerra civil. Às 11:30 partiu a suas estâncias, e em breve ao exílio. No dia seguinte o governo estadual e o novo III Exército reocuparam a capital.

Golpe perde Porto Alegre[editar | editar código-fonte]

Pego de surpresa na tarde do dia 31 pelas notícias da rebelião contra Goulart, o governo estadual empenhou-se em garantir seu sucesso,[472] ainda que sem declarar-se explicitamente.[473] Ildo Meneghetti baixou decretos abrindo crédito extraordinário, convocando os oficiais da reserva da Brigada Militar e requisitando os combustíveis líquidos e as estações de rádio e televisão.[472] Esta última medida era importante para evitar uma campanha midiática legalista como em 1961. Contava-se na "Operação Aliados", um dos planos montados com bastante antecedência, com uma defesa montada junto ao III Exército.[65]

De sua parte, o general Galhardo o pôs de prontidão às 16:30 e às 20:30[474] ou 21:00[475] informou o general Adalberto (da 6ª DI) que vinha do Rio de Janeiro o general Ladário Pereira Teles para assumir a divisão e o III Exército.[474] A nomeação de Ladário era manobra do governo: Galhardo iria ao Rio de Janeiro assumir o EME, eliminando o problema Castelo Branco. Tomando a 6ª DI, Ladário eliminava o problema Adalberto e ainda, como oficial mais antigo, assumia o comando do III Exército. "Com uma cajadada matavam-se dois coelhos".[152] As substituições tinham sido pensadas dias antes. Ladário apoiava o governo e comandava a 1ª RM no Rio.[128] Pousou na madrugada do dia 1 às 01:20[404] ou 02:15.[474]

Como conspirador, Galhardo não poderia deixá-lo no comando. Prometera recebê-lo com a prisão. Recebeu-o com "resmungos e irritação". Era bravata[472] e Ladário foi empossado no III Exército às 02:50. Na proclamação às unidades sob seu comando,[404] anunciava que assumia o comando e enquadrava a missão do III Exército:[458]

Ninguém arrebatará das mãos do preclaro presidente João Goulart a bandeira da legalidade, o seu mandato é intocável porque é a expressão da soberania nacional. A força satânica dos privilégios não arrancará, do povo brasileiro, as bandeiras das reformas, por ela lutaremos, Exército e povo, sempre unidos (...) Conclamamos a todos vós a cerrar fileira na defesa da ordem, da lei e das instituições.

Foi uma reviravolta. Quando às 07:00 Brizola pediu a Ladário a requisição das rádios e TVs da capital, foi atendido. Brizola, agora somente Deputado Federal e não Governador, dependia da autoridade de Ladário e do prefeito de Porto Alegre, Sereno Chaise. Pretendia uma Segunda Legalidade, repetindo o sucesso de 1961. O legalismo dominaria política e militarmente o Rio Grande do Sul e mobilizaria a opinião pública nacional. Em rede pela rádio, clamava: civis, apresentem-se como voluntários, sargentos, "tomem conta dos quartéis e prendam os gorilas, golpistas e traidores". À noite reuniu grande multidão governista em frente à prefeitura, que Chaise fez "a nova sede da Legalidade".[476]

A ordem do Presidente a Ladário era para "Tratamento duro" com o governador; "Faça-lhe sentir que o meu mandato é intocável". A ação de Brizola já era desconfortante, e Ladário requisitou também os combustíveis e lubrificantes. Assim, os decretos requisitórios do governador estavam praticamente anulados. Para piorar, às 11:00 dois mil manifestantes pela legalidade foram à Praça da Matriz. No Palácio Piratini havia o temor de uma invasão enfurecida e da prisão do governador. Comandados pelo Sr Armando Prates Dias, soldados da Brigada Militar com metralhadoras e baionetas defrontavam a multidão, que não queria sair de frente do Palácio. O Choque também foi chamado à defesa. Mas era justamente a Brigada que Ladário queria requisitar, num ofício às 11:00. Meneghetti resistiu: a Procuradoria Geral estudaria a constitucionalidade, e ele precisava da Brigada. Ao meio-dia Ladário deu-lhe um ultimato para entregar a Brigada até as 14:00. Espremido entre a multidão e a requisição, o governador escolheu a fuga.

Passo Fundo[editar | editar código-fonte]

Acionou outro plano que já estava pronto com antecedência: a Operação Farroupilha, retirando o governo estadual para o interior.[472][477] Não era seu plano B, a "Operação Combate", "ação da Brigada Militar, aliada a certas unidades do Exército, principalmente no interior", mas a última contingência para a emergência de uma oposição total do III Exército. Na verdade não era o caso, mas o governo estadual estava acuado.[65] A turba acabou pacificada por Chaise, que a conduziu à prefeitura.[472] O governo estadual proclamou-se abertamente em rebelião. No início da tarde Meneghetti saiu pelos fundos do Palácio, evadindo a multidão, e abandonou Porto Alegre.[473]

As possibilidades de exílio eram duas: Santa Maria e Passo Fundo. Ambas eram nexos ferroviários. A primeira, no centro do Estado, e a última, mais perto da fronteira setentrional, de onde defender, receber reforços ou fugir para os rebeldes no restante do país. A Brigada Militar era confiável, e o Exército, uma incógnita; Passo Fundo tinha grande presença da primeira (2º Batalhão) e pequena do segundo (1º Esquadrão do 20º Regimento de Cavalaria). Na política local de Santa Maria predominava o PTB, e em Passo Fundo, os conservadores. Assim,[478] o governador chegou às 20:00[473] ou 20:40 em Passo Fundo.[477]

A cidade era agora a "Capital da Liberdade", nova sede do governo estadual, onde pela manhã seguinte já tinha "verdadeira operação de guerra" contra o III Exército legalista;[473] estava disposto a marchar de volta a Porto Alegre.[477] O Cap Grey Belles, do 1º/20º RC, jurou seu apoio, e o comandante do 2º BPM, Maj Victor Hugo Martins, foi promovido a Tenente-coronel e dado o comando da Brigada Militar em todo o norte gaúcho. Vinham contingentes da Brigada Militar de Iraí, Palmeira das Missões, Nonoai, Porto Alegre e outras localidades. Os oficiais da reserva da Brigada foram convocados. Ao voluntariado apresentaram-se 2.500, 5.000 ou até 10.000 civis, entre eles homens do "coronel" Victor Dumoncel Filho. Requisitaram-se a Rádio Passo Fundo, viaturas e reservas de combustível.[473]

Guarnição da capital[editar | editar código-fonte]

Idêntica atitude teve o general Adalberto. Pouco após sua chegada Ladário acertou que ele iria ao Rio com Galhardo, passando a 6ª DI a seu substituto legal. Adalberto mentiu sobre uma enfermidade da irmã, ganhando assim tempo em Porto Alegre. Usou-o para trair Ladário e fugir.[404] Por causa da chuva, vestia capa impermeável, gerando a história de que teria escapado disfarçado de padre.[479] Passou por São Leopoldo sem visitar a guarnição, que não confiava, e pela madrugada refugiou-se em Cruz Alta, posto remoto de sua Divisão no interior. Ali contava com os comandantes da AD/6 e 2º/6º RA 75 AR, Cel Soutto Mayor, e 17º RI, Cel Fernando Moreno Maia. Na guarnição havia alguma desconfiança com sargentos esquerdistas, e pela noite haviam rumores de que sargentos do 17º RI prenderiam Adalberto e outros oficiais. [480]

No final da Rua dos Andradas, em Porto Alegre, "agrava-se a situação na área dos quartéis-generais do Exército e da Brigada". Mas na capital predominavam os legalistas.[475] Ladário podia contar com o Brigadeiro Othelo Ferraz, da 5ª Zona Aérea,[481] e o grosso da 6ª DI: o Cel Lauro Bandeira de Mello, do 18º RI, e 6º BE Cmb, Jarbas Ferreira de Souza, ambos posteriormente considerados comunistas pelo general Justino.[475] Jarbas assumiu a Divisão, mas sofreu "resistência danada", pois a maioria dos subordinados eram pró-Adalberto.[482]

Ali próximo, em São Leopoldo, o 19º RI estava há tempo dividido entre seu 1º Batalhão, cujos oficiais e sargentos tendiam à direita, e 2º, onde tendiam à esquerda. A 1ª Cia do 1º BI, do Cap Áttila Rohrsetzer, deslocou-se com antecedência ao Morro do Espelho, atrás do quartel, e ali permaneceu sem participar da crise. O comandante do Regimento, Ten Cel Otávio Moreira Borba, "antibrizolista, mas sem muito apetite para o cargo", foi convocado em algum momento antes das 10:00 a Porto Alegre. Alguns oficiais tentaram demovê-lo de partir, pois seria preso e tomaria seu lugar o Maj Osvaldo Nunes, subcomandante e parte da minoria esquerdista entre os oficiais. Queriam pelo menos tempo para que pudesse assumir o comando o Ten Cel Nei de Moraes Fernandes, que estava de licença. Ignorando-os, às 15:00 Borba estava preso em Porto Alegre e Nunes comandava o regimento.

O major abriu o quartel a uma comitiva de sindicalistas, "vereadores, professores, militares da reserva e cidadãos comuns". Desejavam que o regimento tomasse a Rádio São Leopoldo pela "causa brizolista". Uma equipe de oficiais não aprovou e, armada, dirigiu-se ao salão onde estavam, expulsando-os em "violenta pancadaria". Quando os civis passaram pelo Corpo de Guarda, ouviram o Sgt Ribeiro: "Guarda, calar baionetas! Fora daqui com essa corja!" Fugiram pelos muros e cercas. Era pouco antes do anoitecer. A autoridade de Nunes era vazia e não podia mais fazer qualquer deslocamento em prol do governo. O regimento ficou desnorteado: não vinham ordens de Adalberto e não obedeciam ordens da ID/6 ou do comandante da área.

Um grupo liderado pelo 2º Sgt Venaldino Saraiva, "brizolista ferrenho", permaneceu governista e entrincheirado em outro ponto do aquartelamento. Foram ouvidos tiros e ficaram ali pela noite. Só saíram com a mediação do Cel Mariano, do 1º/6º RO, que os avisou da derrubada do governo e do desaparecimento do Presidente.[475][483][484]

III Exército desintegra[editar | editar código-fonte]

Ladário esbarrou nos limites de seu poder. A requisição da Brigada Militar não foi adiante: a atitude do governador era de que "Se ela quisesse ir que fosse, se não que viessem buscá-la". Foi retida no meio jurídico, com o Procurador do Estado declarando que sem um decreto presidencial seria ilegal.[476] Às 17:00, seu comandante declarou a Ladário que permanecia leal ao governador, mas não atacaria o III Exército e "só reagiria se fosse hostilizado".[404] O fracasso da requisição se deu também devido ao deslocamento do governador, junto com grande contingente da Brigada, para longe da pressão do III Exército na capital, com Meneghetti conservando seu controle sobre a mesma. Se fosse bem-sucedida, ao menos uma parte da Brigada cairia sob controle legalista e seria valiosa no conflito com os rebeldes;[485] em 1961 tinha sido fundamental na vitória da Legalidade.[481]

A norte, o II Exército já havia traído o governo. Se a 6ª DI parecia sob controle, a 5ª já tinha deslizado de suas mãos e acabaria subordinada ao II Exército. As tentativas de Silvino de reaver seu comando e do envio de forças à fronteira catarinense, à exceção de Vacaria, não prosseguiram. Ladário chamou a Porto Alegre generais do Rio Grande do Sul: João de Deus Nunes Saraiva, da 1ª DC, e Hugo Garrastazú, da 3ª DC. O primeiro veio como "leal soldado". O segundo às 17:10 respondeu pelo rádio já estar do outro lado. Para Ladário, a traição de Garrastazú não era só hierárquica, como também pessoal, pois tinha protegido e impelido sua carreira militar.[404] Saraiva declarou-se anticomunista, mas era amigo de Ladário[486] e apegado à relação de "praças velhos" com Jango e Jair.[487] Garrastazú, ligado a Kruel, não tinha entusiasmo para uma "revolução", mas era pressionado por seus oficiais.[488]

Poppe de Figueiredo, da 3ª DI, teve idêntica atitude pelo telefone 10 minutos antes. Tinha decidido ao redor das 11:30, em reunião com seus oficiais e após receber telefonemas de Garrastazú e de Joaquim de Mello Camarinha, da 2ª DC, ambos declarando que já estavam rebelados.[489] Segundo José Campedelli, do Estado-Maior da 2ª DC, ao amanhecer Poppe ainda não tinha aderido e relutava. Foi pressionado por Camarinha, que ainda sugeriu que, como General-de-Divisão mais antigo, assumisse o comando do III Exército. "Estou com um GT pronto, e vou seguir para Porto Alegre. (...) E vou passar pela sua área". "Não! Faço um manifesto".[479] O general não era contra a rebelião, mas sua gratidão com o Ministro da Guerra o retardava.[487]

Por sua vez, Camarinha a princípio não queria manifestar-se. Às 23:30 do dia 31 foi instado por um grupo de oficiais a aderir à rebelião de Minas Gerais. Resistiu — "Vocês são só garotos"; "fui promovido a general pelo Jango". Era também amigo do Ministro da Guerra. Ouviu então: "o senhor não pode esperar que o quadro esteja definido para depois tomar sua decisão". Foram contrapostas "sua lealdade ao Jango e a sua lealdade ao Brasil". Com a insistência do subcomandante do 8º RC, aderiu no início do dia 1º. Teria sido fácil prendê-lo em vez de primeiro tentar a pressão, mas era importante manter a coesão e a hierarquia, evitando a ruptura que ocorrera na guarnição em 1961.[nota 65][479][490][491]

Margem do Uruguai[editar | editar código-fonte]

No interior permanecia leal a 1ª Divisão de Cavalaria, em Santiago. Instado a aderir por um emissário de Poppe, o General Saraiva retrucou — "Sou militar e está escrito que devo servir o governo"; "se souber que você está visitando qualquer Unidade sob meu comando, coloco-o na cadeia!" Entretanto não podia mover-se, pois a ferrovia passava pela 3ª DI e estava controlada desde o dia 31 pelo oponente.[492] Como deslocou-se a Porto Alegre, a divisão ficou acéfala.[493] Sua tropa estava desfalcada: o Maj Caetano Pinto Rocha, de Itaqui, pôs o 1º RC sob o comando da 2ª Divisão,[479] e o 3º RC de São Luiz Gonzaga amotinou-se.[63][nota 66] Ainda assim a região era terreno inimigo para os rebeldes.

A 2ª Divisão de Cavalaria, em Uruguaiana, controlou os meios de transporte e tabelou os preços no mercado da cidade. Chegaram a apresentar-se alguns voluntários civis. No 8º RC o comandante, Cel Mário Ramos de Alencar, ficou indeciso, predominando o subcomandante, Ten Cel Anníbal Figueiredo de Albuquerque. A outra formação a cidade, o 4º Grupo de Artilharia de 75 mm a Cavalo, estava pronta desde o início de março, quando o Ten Cel Amerino Raposo Filho o organizou em grupos com armamento leve e munição nas reservas, prontos para uso como infantaria em missão antiguerrilha. O prefeito Isabelino Bulgaim Abade (PTB) tinha partidários armados e pensou numa reação, mas foi preso por um pelotão de fuzileiros navais e outro do Exército. Os fuzileiros, mais profissionais que os soldados do Exército, foram cedidos pelo Capitão-de-Fragata Dilo Modesto de Almeida, que aderiu com a Capitania dos Portos.

A região do Ibicuí

Há tempo o combustível que chegava à guarnição era mínimo, e agora o disponível na cidade era racionado. Para garantir o acesso ao resto do Estado e a chegada do combustível era preciso controlar a ponte rodoferroviária de Cacequi, na direção de Santa Maria, onde não se sabia da definição da 3ª DI (tampouco da 3ª DC). No meio do caminho estava a importante guarnição de Alegrete, cujo Ten Cel Adão Prestes do Monte era esquerdista e legalista. A norte a 1ª DC era sabidamente legalista e supostamente guarnecia o Rio Ibicuí, entre Uruguaiana e Itaqui. Assim, um pelotão do 8º RC foi ao Ibicuí. O 5º RC de Quaraí (cidade mais segura no meio civil) foi empregado como reserva em Harmonia, entre Quaraí, Uruguaiana e Alegrete. O oficial de Estado-Maior Floriano Aguilar Chagas seguiu como emissário para ganhar a guarnição de Alegrete e conseguir o envio de um esquadrão a Manoel Viana e a a defesa de Cacequi.

O Cel Edson Boscacci Guedes garantiu a movimentação do seu 5º RC, apesar da recusa de 49 dos 54 sargentos a deixar Quaraí — tinham conspirado com o Cap Jorge Silveira na noite anterior. Em campo, a cavalaria por engano quase abateu o avião de Chagas. Este sabia que no destino poderia contar com o Cel João Carlos Rodrigues Beltrão, do 6º RC, mas preferiu a abordagem direta de Monte, que comandava o 12º BE Cmb. A cidade era nexo da divisão, contando ainda com um o 3º Grupo de Canhões de 75 mm Autorrebocado, uma Companhia de Comunicações, Circunscrição do Serviço Militar e Hospital Militar. Os oficiais eram favoráveis à rebelião, mas o Ten Cel Monte contava com a maioria dos sargentos a seu lado; quando Chagas pousou, foi recebido por tropa da engenharia. Monte, mesmo convencido pela ameaça de Alegrete ser esmagada, até o dia seguinte não se pronunciou como prometido, ainda apegado a comunistas e sindicalistas.

Porém naquele dia Chagas conseguiu a adesão das outras unidades e a prisão do subcomandante. Seguiu a Rosário, onde à noite transmitiu ao Ten Cel Pedro Pinto de Carvalho, do 2º RCM, a ordem de guarnecer Cacequi com um esquadrão; a cidade, além de polo logístico, era "caldeirãozinho", repleta de ferroviários aposentados, com um forte sindicato "dominado pelos comunistas". O esquadrão estava pronto para sair em 24 minutos, em excelente condição. De volta a Alegrete, Monte ainda não tinha aderido. O 6º RC chegou a preparar tropa para investir contra a engenharia, mas não foi necessário.

Do outro lado da fronteira, o Exército Argentino reforçou a guarda. Ao redor do dia 3 uma comitiva de oficiais argentinos visitou Uruguaiana e manifestou sua solidariedade.[490][479][491]

Campanha gaúcha[editar | editar código-fonte]

Também haviam rupturas na 3ª Divisão de Cavalaria. Em Dom Pedrito o comandante do 14º RC era "francamente janguista" e os oficiais golpistas fugiram. A posição do comandante do 13º RC, em Jaguarão, permaneceu uma incógnita. Em São Gabriel o 3º RCM, 9º RC e 13ª Companhia de Comunicações "estavam a favor", com "pequenos problemas internos";[488] uma locomotiva chegou à cidade e o 3º RCM estava "com todas as viaturas enfileiradas, municiadas e abastecidas" para deslocar-se a Porto Alegre por ordem do III Exército, mas o Cel Henrique Borges do Canto Herzer não cumpriu a ordem.[466]

Sua própria sede, Bagé, estava dividida. De um lado, o General e os coronéis das formações — Osmar Mendes Paixão Cortes (3º Regimento de Artilharia 75 mm a Cavalo), Washington Bandeira (12º Regimento de Cavalaria) e Jaci Brum Braga (3º Regimento de Reconhecimento Mecanizado). Do outro, sargentos e civis incluindo o prefeito José Maria Ferraz. Paixão tinha seu regimento na mão desde que reuniu os oficiais e declarou "estamos com a Revolução. Aos seus lugares!" Não deixou margem à minoria legalista. Tinha também apoio civil, como presidente da Associação Rural. Não era o caso dos outros. Braga nunca esclareceu a situação a seus comandados, e assim seu regimento vivia uma "situação esdrúxula": sargentos e oficiais não se hostilizavam e passavam o dia normalmente, mas à noite ficavam segregados e montando guarda uns contra os outros. No regimento de Bandeira não havia união e a grande maioria dos sargentos eram legalistas.

Os sargentos tomaram o QG da divisão, defenderam os muros com seus soldados e tomaram como reféns a maioria dos oficiais, à exceção do General e o chefe do Estado-Maior, Cel Roberto. Garrastazú não mandava no próprio quartel, e quem tinha poder em Bagé era o Cel Paixão. Na praça da Prefeitura discursava-se da sacada a uma manifestação brizolista e legalista. Paixão ordenou sua dissolução. O deslocamento foi em parte no leito da estrada de ferro, caminho mais curto, e outro num caminhão. Uma bateria de três pelotões e cerca de 100 homens adentrou a praça com baioneta calada e em cunha. Era pouca para o tamanho da manifestação. Na entrada da prefeitura, dois pelotões formaram um semicírculo. A multidão que se aproximava recuou quando ouviu o barulho dos fuzis carregando. O prefeito deparou-se com a tropa que adentrava o interior.

A prefeitura de Bagé

Só os repórteres, o vice-prefeito e o presidente do PTB tiveram atitude de confronto. O último foi arrastado da sacada, a sessão da Câmara dos Vereadores foi encerrada e uma lista de voluntários para o "Exército da Legalidade" foi mandada embora, sem o conhecimento dos militares, para os quais posteriormente teria sido útil. Com o andar superior da prefeitura esvaziado, a tropa abriu mais espaço na praça para outra bateria que vinha;[nota 67] a multidão empurrava e o confronto foi próximo. Uma senhora não queria se afastar de um soldado com uma baioneta calada e poderia ter sido furada se não fosse pela intervenção do comandante. A manifestação tinha acabado pela hora do almoço.

No dia seguinte faltava reconquistar o QG. Os sargentos do Rec Mec quiseram apoiar sua defesa com os carros, mas foram dissuadidos pela ameaça da artilharia. O 12º RC foi mandado para tomar o QG, mas seus sargentos, recusando enfrentar seus colegas, entregaram suas armas. Partiu então a bateria que tinha disperso a manifestação, portando um canhão de 75 mm. Não seria viável a ordem de atirar dentro da cidade para abrir o portão: era um instrumento psicológico. Por um engano, foram pedidos a parar após os sargentos do 12º RC serem confundidos com os amotinados depondo as armas. Mas os amotinados reais viram a bateria e pediram rendição, tornando a informação falsa numa verdade.[488]

Santa Maria[editar | editar código-fonte]

Santa Maria era polo ferroviário e militar. Abrigava as "oficinas do quilômetro 3", com milhares de funcionários, fazendo manutenção do material de toda a Viação Férrea. Era sede da 3ª Divisão de Infantaria do Gen Poppe de Figueiredo e da AD/6. Ali o Exército tinha o 7º RI com dois batalhões, o 3º BCCL com três companhias, o 3º RO 105 (“Regimento Mallet”), com dois grupos, e o 3º Esqd Rec Mec; a Brigada Militar, o Regimento de Polícia Montada, e a Aeronáutica, uma base aérea.[494][495] Desde a chegada a seu posto Poppe acompanhava o quadro político e monitorava a União dos Ferroviários Gaúchos (UFG), apelidada de "Soviete", cujo principal líder era Balthazar Mello. A considerava "ameaça real de subversão", deplorando seu "poder discricionário" sobre os ferroviários e o dano causado pelas paralisações.

No dia 31 a UFG deliberou em apoiar o regime constitucional através da paralisação, que entrou em vigor à meia noite. O jornal A Razão relatava então que a greve duraria indefinidamente,[496] mas Poppe rapidamente ordenou sua dispersão. A área cabia pelo plano SEGIN (Segurança Interna) ao "Mallet", que às 00:45 a ocupava até o quilômetro dois com II Grupo, que não possuía viaturas e material de comunicações para atuar como artilharia. Como era a área mais crítica da cidade,[494] foi reforçado às 06:30 por um pelotão de carros de combate do 3º BCCL,[463] sob um 2º Sgt de confiança.[494] Às 10:30 já saíam notícias da imobilização do pátio ferroviário, e às 11:00 vinham notícias iguais de Bagé, impossibilitando o movimento ferroviário no Estado e demostrando o não cumprimento das ordens de Ladário.[496]

Às 09:40 uma delegação de ferroviários incluindo Balthazar Mello e lidarada pelo vice-prefeito, Adelmo Simas Genro, apresentou-se no QG. Estavam dispostos a, apesar da greve, organizar um trem de 119 vagões para transportar forças da divisão conforme ordem do III Exército.[463] Era um gesto de boa vontade, mas a recepção foi fria; segundo Poppe, ouviram que não havia chegado ordem de Ladário.[496] Radiogramas mobilizando a guarnição de Santa Maria e o 8º RI na direção de Curitiba,[494] este último diretamente à fronteira com a 5ª RM rebelada tinham sido recebidos às 08:30 e 09:30, respectivamente. O deslocamento deixaria a guarnição enfraquecida e seria em favor do governo Goulart. A liderança da artilharia já tinha decidido que não obedeceria.

O "Mallet" já havia tomado conhecimento das substituições da 6ª DI e III Exército e alguns oficiais sugeriram que o comandante, Ten Cel Gabriel Annunzio D'Agostini (respondendo), já entrasse em rebelião. Ele recusou: era preciso que o comandante da divisão se definisse primeiro, evitando um conflito dentro da guarnição.[463] Assim, quando Poppe escolheu amotinar a divisão às 11:30, encontrou apoio imediato do Ten Cel D'Agostini e do Cel Ito do Carmo Guimarães (3º BCCL). Às 15:00 a Brigada Militar local aceitou a decisão de Poppe, e nas outras guarnições juraram lealdade o Cel Mattos Júnior (3º GO 155), de Cachoeira do Sul, e o Ten Cel Ito Carvalho Bernardes (subcomandante do 8º RI), de Santa Cruz do Sul. O comandante, Cel Augusto Luiz de Faria Correa, acabou acatando.[489]

Em Pelotas, mesmo se deu no 9º RI entre o Ten Cel José Mattos de Marsilac Motta e o Cel Danton do Amaral Duro.[497] Correa era de alinhamento duvidoso, e Danton, "do outro lado",[487] mas foram mantidos sob controle por seus subcomandantes.[492] A resistência mais notória foi, em Santa Maria, do comandante do 7º RI, Ten Cel Alberto Firmo de Almeida. Como esperado, na reunião da manhã recusou-se a aderir.[489] Ficou "completamente isolado e vigiado".[486] Outras recusas eram mínimas: 6 sargentos no regimento de Firmo, e no 3º Esqd Rec Mec, alguns oficiais e a maioria dos sargentos.[492]

Estava proclamado "governo militar" e proibidas reuniões de mais de duas pessoas, mas entre os civis surgiu uma manifestação governista no "Palácio Rosado", sede do PTB. Às 15:00 o 2º Grupo do "Mallet", deixando a guarda da ferrovia ao 1º Grupo e reforçado por três carros do BCCL, ostensivamente à vista, foi dissolver a manifestação. Recusando um ultimato, foram dispersos pela tropa em cunha, "em passo cadenciado e com as baionetas em riste". No "Palácio Rosado" ocupado foram congratulados por outros civis.[494][487] O "Mallet" ocupava pontos numa extensão de 14 km, até a Base Aérea, incluindo as oficinas da ferrovia.[498] O SEGIN estava em força, com a ocupação também da usina de força e central telefônica. As rádios Guarathan e Santamariense estavam sob controle, impedindo sua participação na Rede da Legalidade.[496] Após as 16:45 uma companhia reduzida do 7º RI mantinha a ordem pública, enquanto a 3ª Cia de Manutenção e o 3º Esqd Rec Mec vedavam a saída de alimentos e entrada de armas.

As medidas militares da divisão guardavam os flancos de Santa Maria. O 8º RI estava ordenado a defender seus eixos a sul, leste ou norte, podendo recuar a oeste de sua sede, a Cerro Chato ou Candelária. O 3º GO 155, a sudeste, poderia reforçar o 8º RI e guardava a sul. O 7º RI enviou uma Companhia de fuzileiros reduzida (2 pelotões de fuzileiros e uma seção de petrechos) a Vai de Serra na direção de Cruz Alta, a norte, e outra ao Passo do Arenal, a sul. Uma patrulha do 3º Esqd Rec Mec vigiaria Canabarro, a oeste. A ordem ao 7º RI data do dia 2 e as demais do dia 1; o 8º RI e 3º GO 155 receberam suas na noite do dia 1 ao dia 2.[489]

O último confronto[editar | editar código-fonte]

Operações militares no golpe de 1964 (Rio Grande do Sul)
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Porto Alegre
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Santa Maria
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Caxias do Sul
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Santa Cruz do Sul
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Pelotas
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Cachoeira do Sul
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Cruz Alta
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São Leopoldo
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Santiago
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Itaqui
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São Luiz Gonzaga
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Uruguaiana
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Quaraí
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Alegrete
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Livramento
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Rosário
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Bagé
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São Gabriel
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Jaguarão
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Dom Pedrito
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Vacaria
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Bento Gonçalves
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Dst. Beta
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Dst. Lages
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Dst. Litoral
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Passo Fundo
Alinhamento das guarnições no Rio Grande do Sul Blue pog.svg Legalista / Red pog.svg Golpista / Red-blue dot.svg Dividido / Yellow pog.svg Indefinido

Poppe ganhava apoios. Às 01:00 do dia 2, do 2º Batalhão Ferroviário em Bento Gonçalves. Às 01:45, do 3º Grupo de Canhões Antiaéreos de Caxias do Sul. Entre as 09:45 e 10:00 anunciou pelo rádio aos demais generais do Sul e do país que assumia o comando do "III Exército Revolucionário", contestando o posto de Ladário. Já contava com sua própria divisão e as de Camarinha, Garrastazú, Adalberto e os outros rebelados no Estado.[489] A ideia circulava pela manhã,[492] tinha sido mencionada por Camarinha[479] e se justificava pela necessidade de coordenar as forças rebeladas no Estado e impedir uma investida precipitada e isolada de qualquer uma. Surpreendeu as Grandes Unidades que ainda não tinham aderido, Ladário, que "não esperava que um camarada de Santa Maria fosse dizer que era o comandante do III Exército", e Costa e Silva, que agora ocupava o Ministério da Guerra e confirmou: "aprovo integralmente".[492]

Às 08:40 Poppe ordenou a 2ª DC em direção a General Vargas cobrindo-se no Ibicuí, e a 3ª DC, ao cruzamento de São Sepé, ambas em condições de avançar a Porto Alegre. Às 09:00 a ID/3 em Santa Cruz ouviu de mover um batalhão de infantaria a Camaquã, também ameaçando a capital, reforçado por uma bateria do 3º GO 155. Era o 2º/9º RI. Ocupado com requisições, só partiu às 17:00. Garrastazú chegou a ter dúvidas sobre a capacidade de mover a 3ª DC. Mas o mais importante não era o deslocamento em si, mas que os legalistas em Porto Alegre ouvissem que ocorreria; as ordens às outras divisões saíram abertas pela rádio, sem texto cifrado.[489][492][498]

O panorama era de uma convergência das forças golpistas para esmagar o último reduto legalista em Porto Alegre. No interior do Estado, o general Poppe organizava suas unidades sublevadas. As colunas da 5ª RM/DI marchavam pelo Paraná e Santa Catarina, e forças do II Exército de São Paulo ao Paraná. Às 09:00 a "Rede da Liberdade" paulista anunciava que a Marinha e Aeronáutica também participariam da batalha final.[499]

Goulart no Rio Grande do Sul[editar | editar código-fonte]

Enquanto isso, o Presidente, esperado às 22:30, desembarcou em Porto Alegre às 03:58. Às 08:00, escoltado por blindados no QG do III Exército, reuniu-se com sua cúpula, incluindo Brizola e os generais Ladário, Otomar Soares de Lima (seu chefe de EM), Saraiva, Crisanto e Floriano da Silva Machado (comandante da 3ª RM). Floriano insistiu que Goulart abandonasse a luta, pois a resistência era impossível, no que concordavam Otomar e (de acordo com Ladário) Saraiva. Este último ainda podia contar com sua tropa da 1ª DC em São Borja.[404] Consta, porém, na História Oral do Exército que teria apontado num mapa do Sul e proposto: "Subo com a minha Brigada por aqui, atravesso o rio Uruguai, faço um envolvimento e partimos para São Paulo"; "Vou lançar uma coluna daqui, subo até Marcelino Ramos, monto uma outra que vai subir por Vacaria..." Brizola elogiou sua "agressividade". Nunca chegou a efetuar tais planos, pois na volta ouviu que não comandava mais e seria preso se pousasse em Santiago.[488][482]

Discordando, Brizola ainda acreditava na possibilidade de resistência e era apoiado por Ladário. Possivelmente tinham-se a guarnição da capital, o 2º BRv e a 1ª DC, suplementados pela Brigada Militar requisitada por decreto presidencial e 20 mil armas, 6 milhões de cartuchos e 5 mil voluntários convocados por Brizola. O Presidente se refugiaria em São Borja, tendo empossado como ministros Ladário (Guerra) e Brizola (Justiça), deixando com eles as mobilizações militar e civil à frente de um governo reorganizado a partir de Porto Alegre. Como Goulart era "homem do povo", a resistência ali energizaria a opinião pública nacional. "Um dos generais" espantou-se: "Isso é uma loucura. Loucura, Ladário! O que vocês estão propondo é uma loucura. Militarmente a situação é muito grave", "não podemos pensar de maneira nenhum em guerra".

Ladário insistiu: "minha mentalidade de soldado é de que enquanto se dispõe de um punhado de homens se resista, até esperar que a vitória se conquiste por milagre". "Para Goulart, Ladário Telles acabara de admitir a impossibilidade de resistência". A guerra civil era inevitável e ele não desejava sangue. Pesou sua inferioridade diante das forças civis e militares do golpe. Sabia, ainda, que contava com a hostilidade dos Estados Unidos. Sua decisão final foi:

Agradeço sua lealdade, general Ladário. Não desejo derramamento de sangue em defesa do meu mandato. Seguirei para algum lugar do país, onde aguardarei os acontecimentos. Não renunciarei, entretanto.

Eram 10:00. Às 11:30 decolou ao interior do país.[404][476][500] Foi a sua estância em São Borja, sob um parco esquema de segurança montado por Assis Brasil.[41] Um emissário da 2ª DC passou pela região, ainda considerada parte do território legalista da 1ª DC. "O ambiente lá é de churrasco, está todo mundo churrasqueando, não há tropa, coisa nenhuma, aquilo está uma loucura, um caos. O importante é que mandaram carnear e assar um boi, para todo mundo, toda aquela politicagem do Partido Trabalhista Brasileiro".[479] Por fim, às 15:30 do dia 4 decolou ao exílio no Uruguai.[41]

Golpe reavê Porto Alegre[editar | editar código-fonte]

Às 11:00 chegavam a Santa Maria rumores de que Goulart abandonava o país. Com o fim da resistência, às 18:30 o deslocamento do 2º/9º RI foi interrompido.[489] A 6ª DI assumiu a segurança na capital,[475] enquanto Costa e Silva chamou Ladário ao Rio. Assim evitava um confronto com Poppe, que preparava para marchar contra Porto Alegre e assumir a sede do III Exército.[494] Coordenaram com o governador, que também retornaria à capital, a convergência em Pântano Grande e a entrada na cidade. Às 11:30 do dia 3 partiu a força da 3ª DI.[489] Meneghetti deixou Passo Fundo às 08:00 com uma coluna armada da Brigada Militar,[476] em 12 ônibus e outros veículos. Sua recepção ao longo do caminho foi, de acordo com prefeito de Passo Fundo, de "apreço e solidariedade", e por um motorista do DAER, de "laranjas, pedras, bergamotas e batatas".[499] Chegaram às 18:10.[501]

Seguiram-se operações finais. O Tenente Coronel Aviador Alfeu Alcântara Monteiro, legalista, foi morto[nota 68] na Base Aérea de Canoas. Temendo consequências a 5ª Zona Aérea chamou o III Exército, que acorreu a Canoas e Gravataí com a 6ª Cia PE, 1ª Cia de Guardas, 1° Esqd do Regimento de Cavalaria Mecanizado e um pelotão do 6° Esqd de Reconhecimento.[475] O 1º/19º RI montou operação de guerra na Refinaria Alberto Pasqualini, contra uma suposta concentração esquerdista fortemente armada, liderada até mesmo pelo próprio Brizola; não havia nada.[502] A 6ª Cia PE constituiu um pelotão transferido pelo ar ao Passo dos Centuriões, em Herval, onde dividiu-se em uma "perna" apoiada por uma Esquadrilha de Ligação e Observação e outra por um helicóptero. Ali participou da caça aos que escapavam do país, entre eles, Brizola, que não foi pego.[503] A busca de fugitivos e o "varrer o pátio" foram também empreendidos pela Brigada Militar. 10 "Batalhões Volantes" de 137 homens cada dirigiram-se a Cerro Largo e de lá dispersaram pela região, trabalhando na "conquista da população".[504]

Julgamento de paraquedistas que agiram contra o golpe

Acontecimentos posteriores[editar | editar código-fonte]

O golpe deixou um saldo de sete mortos. Mais treze viriam no restante do ano. A "operação limpeza" para suprimir o "inimigo interno" estendeu-se também às Forças Armadas, com a passagem à reserva de 421 oficiais, compulsoriamente, e mais duzentos por acordo. 24 dos 91 generais foram expurgados. [505][7]

No vácuo de poder transcorreu a "fase das ambições". Pelo regulamento o Ministério da Guerra sem titular cairia a Castelo Branco, mas Costa e Silva garantiu sua posse apoiado por Kruel, inimigo pessoal de Castelo.[152] O lado dos "modernizadores" havia preparado o general Mamede para o cargo.[506] Costa e Silva formava com o almirante Augusto Rademaker e o brigadeiro Francisco Correia de Melo o "Comando Supremo da Revolução". Pretendia que a situação assim continuasse, no mínimo pelos 30 dias de prazo para a realização de nova eleição. O poder real permaneceria em suas mãos, com Ranieri Mazzili o "presidente fictício"; assim prosseguiria o expurgo. Porém teve que ceder devido à ascensão de Castelo Branco, que, emergindo como o mais forte presidenciável, foi escolhido como sucessor de Mazzili pelo Congresso no dia 11.[57][507]

Notas

  1. Mourão Filho: "algumas tropelias, tais como ocupação de postos de gasolina e bancos e algumas prisões de comunistas e não comunistas"
  2. Atual sede do CPOR.
  3. Muricy (1981) p. 548, fala num estado-maior de quatro oficiais; na p. 543 se recorda do quarto como "se não me engano, foi o Cúrcio". Entretanto, o major Cúrcio não estava com o Destacamento e acompanhou Mourão quando foi atrás de Muricy na noite do dia 1, conforme Mourão Filho (2011) p. 371 e Motta (2003), t. 3, p.86. Gomes (1964) p. 120 fala em Válter, Caracas, Alísio e os Capitães Edir Waissman e Francisco Borges.
  4. Ustra (2007), p. 90, dá o horário das 18:00, baseado em Motta (2003), t. 9, p. 145, no qual o então Capitão Maciel afirma "Saímos da Vila Militar ao entardecer, umas 6h da tarde aproximadamente". Silva (2014b), p. 184, menciona o comboio ao meio-dia, citando Gaspari.
  5. O comandante do 4º RO 105 era o Coronel Paulo Hildebrando de Campos Goés, vide Motta (2003), Tomo 10, p. 210.
  6. Ustra (2007) p. 89 ignora os batalhões de Belo Horizonte e Barbacena e inclui o de Governador Valadares.
  7. Não era a 1ª Companhia do capitão Hiran Gomes Cavalcanti, depoente em Motta (2003), Tomo 6, p. 263.
  8. Mourão Filho (2011), nota de rodapé 90, p. 530, dá a hora como 20:00.
  9. A reportagem "Março 64:mobilização da audácia" de José Stacchini no Estado de São Paulo, de 1965, faz menção ainda a uma companhia que já teria recebido ordens de ataque por desbordamento, passando-se 70 minutos entre a ordem e a adesão dos pelotões.
  10. Serraria é uma antiga estação ferroviária em Santana do Deserto, MG, à beira de uma ponte e a 130 metros do centro de Comendador Levy Gasparian, RJ.
  11. O Regimento Sampaio tinha dois batalhões. Gomes (1964), p. 120 e Mourão Filho (2011), p. 367, falam diretamente em 2 batalhões. Muricy (1981) p. 550 fala em, após a adesão, 5 batalhões de infantaria excluindo a PM, o que significa que 2 foram adicionados aos 3 que saíram de Minas. Entretanto D'Aguiar (1976) p. 150 afirma que havia um batalhão do Regimento no quartel na Vila Militar depois das 12:30 do dia 1.
  12. Motta (2003) Tomo 14 p. 44 afirma que foi o 11º RI, Chagas (1985) p. 40 que foi o 10º RI, ambos depoimentos de Muricy. O segundo fala na "Vanguarda do destacamento, constituída pelo 4.º Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado e o 1.º Batalhão do 10.º Regimento de Infantaria".
  13. Ítalo Mandarino em Motta (2003), Tomo 3, p. 182 se recorda do 3º RI ter estado em Areal. Silva (2014a) p. 332 afirma que Cunha Melo "Dispôs o restante da tropa, isto é, dois regimentos de infantaria..." Muricy (1981), p. 549-553, dá as estimativas do número de batalhões do oponente entre 2 e 4; tanto o segundo quanto o terceiro regimento tinham dois batalhões.
  14. Alírio Granja, paraquedista e veterano da FEB (Motta (2003) Tomo 3 p. 310).
  15. Motta (2003) Tomo 3, p. 85: "Quando chegamos à altura da entrada de Petrópolis, onde há, até hoje, um monumento de uma carruagem, o General Muricy ordenou: "Cid, você vai ficar aqui e mande um GT para lá, outro GT para cá, e outro GT para acolá"."
  16. Acompanhado da esposa, os Majores Curcio e Morais, o Capitão Vitral Monteiro e o Ministro Néder.
  17. Através dos Tenentes-Coronéis Leônidas e Marcelo, vide D'Aguiar (1976) p. 144.
  18. Apartamento do Edmundo Falcão, avenida Rui Barbosa, 460, 7º, vide Silva (2014a) p. 316. Em seguida Avenida Atlântica, 3.916, Ap. 101, vide D'Aguiar (1976), p. 197, nota 27, de propriedade de Antonio Carlos Cordeiro de Farias, sobrinho de Cordeiro de Farias, por D'Aguiar, ou ao Dr. Aurélio Ferreira Guimarães, por Silva. D'Aguiar cita a presença de: Mal RI Adhemar de Queiroz, Gen RI Golbery do Couto, Gen Ernesto Geisel, Gen Oswaldo Cordeiro de Farias, Gen R1 Danilo Nunes, Gen R1 Molina e Cel Joaquim da Fontoura.
  19. Rua Estácio Coimbra n. 84, do Sr. Carlos Eduardo Marcondes Ferraz, vide D'Aguiar (1976), p. 195, nota 28. Estavam presentes Cel Jayme Portella, Gen Souza Aguiar, Gen Muniz de Aragão, Gen Taurino de Rezende e Gen Horácio da Cunha Garcia.
  20. Instituto Militar de Engenharia, Escola Superior de Guerra, Fortalezas de São João e da Laje, Escola de Educação Física do Exército, Escola de Artilharia da Costa e Arsenal da Urca.
  21. O Regimento Sampaio tinha dois batalhões. Gomes (1964), p. 120 e Mourão Filho (2011), p. 367, falam diretamente em 2 batalhões. Muricy (1981) p. 550 fala em, após a adesão, 5 batalhões de infantaria excluindo a PM, o que significa que 2 foram adicionados aos 3 que saíram de Minas. Entretanto D'Aguiar (1976) p. 150 afirma que havia um batalhão do Regimento no quartel na Vila Militar depois das 12:30 do dia 1.
  22. Brigadeiros Guedes Muniz, Manoel Vinhas, Adhemar Lyrio, Marcio Cesar Leal Coqueiro e outros oficiais.
  23. Conforme o relato de Montagna, um ficou preso no elevador, mas o total era de 21 incluindo Montagna e seu primo Oscar, que não era da ECEME. O Major Grael liderava os voluntários, vide D'Aguiar.
  24. "Ela [área do QG e forte] se estendia - hoje não é mais assim - desde a Praia do Arpoador, passando por uma área que era ocupada pela Bateria de Projetores e, através de uma pequena estrada de terra batida, subíamos um pedaço de morro, passávamos pela chamada cota 40 (...) e através dessa mesma estrada, pasando pela parte de trás dos prédios da Rua Francisco Otaviano, passava-se atrás do QG Acos/1, até chegar à área do estádio do Forte de Copacabana." - Motta (2003), Tomo 14, p. 321.
  25. Panasco Alvim e Morais Barros.
  26. 2º Ten Nelson Roberto Bianco na Avenida Atlântica e Sampaio na Francisco Otaviano.
  27. Majores Caldeira, Verrastro, Prestes e Palermo.
  28. Capitão Juarez de Deus Gomes da Silva, da Aeronáutica.
  29. Partiram o Cel Geraldo Navarro e o Maj Hyran Arnt, com 20 homens e 5 carros (depois mais uma dezena de homens) do ECEME e IME. Ele não estava no aeroporto. Navarro foi atrás de sua residência e Hyran, tendo uma dúzia de oficiais, seguiu com apenas 4 ao QG da 3a Zona Aérea ao ouvir de um major da Aeronáutica que dali viajavam ministros de Estado. Deixando para trás um oficial no portão de entrada e outro na porta principal, conseguiu ali subir ao 4a andar com a ajuda de um oficial-do-dia e simpático à causa, acompanhado somente deste e de um oficial do IME. Encontrou vários oficiais incluindo o Coronel Aviador Alvarez, chefe do EM. Alvarez o trouxe ao gabinete, trancado, e o atrasou com desculpas; o Major blefou que vira o carro do Ministro. O Coronel Aviador acreditou e chamou Jurema ao gabinete. No corredor havia hostilidade entre oficiais vindos do aeroporto e um grupo maior do QG. Jurema foi tratado com cordialidade por Mamede e D'Aguiar, um dos carcereiros, lhe teceu elogios.
  30. Em Duarte (1964), p. 144, Kruel e Goulart conversam por três vezes no dia 31.
  31. Gaspari 2004 inclui esta fala após falar da conversa às 22:00. Duarte 1964, p. 144, tem um diálogo com Kruel dizendo, "Não posso atender [ir ao Rio de Janeiro], Presidente. Tenho compromissos com a linha de conduta que me tracei desde quando Ministro da Guerra, contra o comunismo e em defesa do Exército, e não posso trai-la." E, no parágrafo seguinte, "Desligaram-se os telefones".
  32. A mobilização de transporte foi feita no gabinete do doutor Paulo Egydio Martins.
  33. Um movimento simultâneo seria a Guará, na direção de Minas Gerais.
  34. Motta (2003), tomo 14, p. 121 alega que o sexto regimento não saiu de Caçapava. Também faz referência a um regimento que, em vez de ir ao Rio de Janeiro, vinha a São Paulo, e posteriormente reverteu sua direção; possivelmente o 5º em direção a Jacareí.
  35. Capitão Luiz Gonzaga Camargo.
  36. Major Manoel Augusto Teixeira e capitães Jayme Britto Júnior e Della Nina, entre outros.
  37. Conforme Silva (2014), p.324-326, esse Regimento fazia parte da reserva do II Exército e não das forças que imediatamente seguiriam ao Rio de Janeiro.
  38. Os cadetes ouviram da deflagração do golpe ao redor das 22:00, após o casamento de um oficial com a filha do Coronel Junqueira, professor de Topografia. Na madrugada foram postos em forma e ouviram então da decisão de se alinhar com Minas Gerais, vide Motta (2003), Tomo 15, p. 127-128.
  39. Duarte, p. 146: "Em Lorena, há indício de operação tartaruga e o coronel-comandante é substituído."
  40. Em Silva (2014a) pp.327-328, Zerbini é prometido um batalhão de carros de combate. Ustra (2007) p. 98 então menciona como uma companhia de carros chegou à entrada de Barra Mansa como parte da vanguarda que vinha do Rio de Janeiro. O REsI tinha uma companhia de carros de combate médios (Pedrosa (2018) p. 163).
  41. Não era a 1ª Companhia, do entrevistado, o então 1º tenente Luiz Carlos Carneiro de Paula; ele menciona apenas "a outra Companhia" como a que se moveu.
  42. Oacyr Pizzotti Minervino, comandante da Linha de Fogo.
  43. Aspirante Marco Antonio de Mattos La Porta. O comandante efetivo estava fora.
  44. Tenente Walmensi Paulo de Silva e Souza. Conforme Motta (2003), Tomo 8, p. 380, havia uma Companhia Paraquedista na Granja do Torto.
  45. Do Capitão Francisco José Schmidlin de Castro.
  46. Marnio José Signorelli Teixeira Pinto.
  47. Capitão Dagoberto Félix Bezerra de Araújo Galvão, do BGP, contra o Major Waldenio, da PE. Na PE só o comandante, subcomandante (Cap Walter Pinheiro) e intendente Ten Farias Filho eram legalistas.
  48. Capitão Luciano Phaelante Casales.
  49. Carlos Fernando Freitas de Almeida
  50. Antônio Barbosa de Paula Serra.
  51. Enquanto as fontes mineiras narradas em Silva (2014b) falam de uma invasão, os depoimentos de integrantes do BGP em Motta (2003) são claros quanto à função defensiva do deslocamento brasiliense.
  52. Conforme Manoel Soriano Neto, em homenagem à terra natal do comandante.
  53. O comandante do 4º RO 105 era o Coronel Paulo Hildebrando de Campos Goés, vide Motta (2003), Tomo 10, p. 210.
  54. Côrrea era Capitão da segunda bateria, mas menciona que a sexta bateria foi a base da tropa empregada.
  55. Coronel Austregésilo Homem de Melo.
  56. Coronel Augusto Cid de Camargo Osório.
  57. Oswaldo Muniz Oliva.
  58. Almério de Castro Neves, da 10ª RM, era parte do esquema governista mas de férias no Rio. Seus Majores Eraldo e Egmont, do 23º BC e 10º GO, eram golpistas. A RM caiu ao Cel Brígido Borba. Emir Omar Chaves, da ID/7, tinha atuação anticomunista mas era amigo de Goulart. Estava em Brasília. O Cel Av Firmino, da Base Aérea de Natal, foi substituído pelo Cel Av Lebre.
  59. O cronograma de Dynalmo é: na tarde de 31 de março foi enviado para fazer ligação, pois o batalhão de Maceió tinha se deslocado para a fronteira e não havia mais contato. Quando já era madrugada discutiam o envio das patrulhas a Cortês. Quando tomou café o pessoal já trazia Bezerra preso. Às 09-10:00 ele era levado no "cortejo". O Diário de Pernambuco do dia 3 fala na "madrugada de ontem".
  60. Conforme Motta (2003), Tomo 13, p. 348, a companhia embarcou em caminhões requisitados mas foi então ordenada a desembarcar e retida no quartel O capitão foi posteriormente afastado do comando.
  61. O batalhão estava em Santa Maria, mas não era subordinado da Divisão.
  62. O Ten Cel de Infantaria Santiago era do 20º RI. O Cel Engenheiro Correia comandava o 2º B Rv. O Cel de Infantaria Vieira comandava o 23º RI.
  63. Mencionado em Duarte (1964) e D'Aguiar (1976) mas não consta no relatório da Região, em Motta (2003), Tomo 8, p. 120, e tampouco em Silva (2014a), p. 325.
  64. Calazans foi chamado ao redor das 09:00, passou um tempo indeterminado até chegar à sede e parou o ônibus cerca de uma hora após sair da sede.
  65. A cavalaria e artilharia ficaram em lados opostos da Crise da Legalidade.
  66. Citado por D'Aguiar (1976) como parte de um depoimento de Poppe de Figueiredo e no mesmo parágrafo das defecções em Bento Gonçalves e Caxias do Sul, que chegaram ao conhecimento da 3ª DI na madrugada do dia 2, conforme Motta (2003), Tomo 13, pp. 68-69.
  67. A primeira a intervir foi de Lélio Gonçalves Rodrigues da Silva, e a que veio em reforço, do Cap Gerson Freitas Vasquez.
  68. Fuzilado pelas costas ou, segundo militares, recusou-se a entregar o comando a seu sucessor, ferindo-o com um tiro e sendo então mortalmente alvejado por um coronel que o acompanhava. Para a segunda versão, vide Motta (2003), tomo 10, p. 411.

Referências[editar | editar código-fonte]

Citações[editar | editar código-fonte]

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