Os Rios Turvos

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Os Rios Turvos
Autor(es) Luzilá Gonçalves Ferreira
Idioma Português
País  Brasil
Editora Rocco
Lançamento 1993
Páginas 208
ISBN 85-325-0424-8

Os Rios Turvos é um romance da escritora brasileira Luzilá Gonçalves Ferreira. O livro, uma biografia romanceada do escritor português Bento Teixeira(1561-1600), foi lançado em 1993 e mantém a nota panfletário-feminista que permeia a obra da ficcionista. No título, vê-se uma inspiração do romance Rio Turvo, do escritor português Branquinho da Fonseca.

O enredo[editar | editar código-fonte]

O romance de Luzilá Gonçalves Ferreira conta a biografia de Bento Teixeira, erudito e poeta do Brasil Colônia. Trata-se do autor da Prosopopéia, um poema épico escrito no Brasil e publicado em Lisboa no ano de 1601, o qual canta, em modelo camoniano, os feitos heróicos de Jorge Albuquerque Coelho, capitão e governador da Capitania de Pernambuco. Bento Teixeira é apontado como um dos primeiros poetas do Brasil e a Prosopopéia como um dos poemas mais importantes do barroco brasileiro, principalmente pela sua construção e por ser o primeiro texto a descrever paisagens brasileiras. Entretanto, a crítica diverge a esse respeito em três importantes aspectos: a questão de ser ou não o primeiro poeta do país; de ser o poema brasileiro ou não, uma vez que não é publicado aqui e o poeta nasceu em Portugal; e se o poema é mais épico ou mais elogioso.

A partir da biografia oficial do escritor, em geral extraída dos autos dos processos pelos quais o mesmo foi levado a julgamento no Tribunal do Santo Ofício em Lisboa, a autora reconstrói a vida de Bento Teixeira dando realce de protagonista a sua esposa, Filipa Raposa. O livro conta a história, por meio de uma narrativa não-linear em terceira pessoa, do poeta e de sua esposa desde o momento em que se conheceram, quando da chegada de Bento Teixeira ao Espírito Santo, terra natal de Filipa, até o assassínio desta pelas mãos de Bento e a condenação deste pelo Tribunal do Santo Ofício, a qual o levaria à morte em terras portuguesas. Através de cenas nas quais a autora habilmente entremeia cenas do passado e do “futuro” dos dois personagens dentro de uma linha cronológica maior, a qual começa, no capítulo II do livro, com o primeiro encontro dos dois e termina, no capítulo XXII, com a morte do escritor em meio às lembranças de seu amor por Filipa.

Temas recorrentes[editar | editar código-fonte]

O título do romance, Os Rios Turvos, lembra o de um livro do escritor português Branquinho da Fonseca.

O grande tema do romance é o amor tumultuoso entre o escritor Bento Teixeira e Filipa Raposa, que o leva à decadência e ao crime. O caráter violento de Bento Teixeira culmina em um crime passional motivado pelo ciúme do escritor em relação à esposa. Mas outros temas recorrentes são de igual importância: criação literária (inspiração e exercício); guerra dos sexos; voz das minorias (judeus); condição da mulher na época do Brasil Colônia; anticlericalismo. O texto é também rico em intertextualidade; há citações da Bíblia Sagrada e de outros textos literários que circulavam à época da história do romance: Jorge Montemayor, Gil Vicente, Homero, Virgílio, Garcia de Resende, Camões, Ovídio, Catulo e Horácio.

Contexto Histórico[editar | editar código-fonte]

A idade adulta de Bento Teixeira coincide, então, com o período chamado de União Ibérica. Com o desaparecimento de D. Sebastião, o Desejado, em 1578, na batalha de Alcácer-Quibir, criou-se um impasse na sucessão do trono português, pois o monarca, muito jovem, não tinha descendentes diretos. Após uma série de contendas entre possíveis pretendentes, o rei Filipe II da Espanha invadiu Portugal em 1580, com o apoio da nobreza e do clero portugueses, para garantir seu direito sobre o trono lusitano. O domínio espanhol sobre Portugal estendeu-se até 1640, quando os portugueses renegam o poder do rei Filipe IV, proclamando um novo rei de Portugal.

A União Ibérica representou também um recrudescimento da Inquisição em terras lusitanas. A Inquisição Ibérica foi criada especialmente direcionada aos chamados judaizantes e, dentre o grupo dos judaizantes, os principais alvos de suas ações foram sempre os comerciantes e demais pessoas de grandes posses. Em Portugal, os chamados Tribunais do Santo Ofício foram instaurados em 1536, cinqüenta e oito anos depois da instauração da Inquisição na Espanha. Nos anais da instituição do Santo Ofício consta a intenção primeira de coibir a propagação de práticas heréticas no seio da Igreja Católica – uma referência direta aos cristãos-novos, os quais seguiam praticando sua fé ainda que convertidos, aparentemente, ao cristianismo. Estima-se que cerca de oitenta por cento dos processos instaurados pela Inquisição Portuguesa tiveram cristãos-novos como réus.

No Brasil, jamais foram instaurados os tribunais do Santo Ofício; contudo, sua ação na colônia era conduzida pelos clérigos aqui residentes, que eram investidos de poderes inquisitoriais. Os vigários eram responsáveis por observar a população local, relatando comportamentos suspeitos e recolhendo denúncias, enquanto os bispos tinham poderes para efetuar prisões, confiscar bens e enviar suspeitos para julgamento em Lisboa. Há também o registro da presença de três visitadores do Santo Ofício ao Brasil, dos quais o mais conhecido foi o primeiro deles, Dom Heitor Furtado de Mendonça, cujo relatório de viagem por ele escrito, Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil, é considerado o primeiro documento a registrar a vida privada do Brasil Colônia, ainda que por conta dos inúmeros relatos, denúncias e confissões contidos nos autos da Inquisição por ele compilados.

Prêmios[editar | editar código-fonte]

Os Rios Turvos (1993) foi agraciado com o Prêmio Joaquim Nabuco da Academia Brasileira de Letras, concedido a biografias.