Otto Maria Carpeaux

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Otto Maria Carpeaux
Otto Maria Carpeaux na Universidade de Viena
Nome completo Otto Maria Carpeaux
Nascimento 9 de março de 1900
Viena, Império Austro-Húngaro
(Atual Áustria)
Morte 3 de fevereiro de 1978 (77 anos)
Rio de Janeiro
Nacionalidade austríaco
brasileiro
Ocupação Ensaísta, crítico literário, crítico de arte, historiador, crítico de música e jornalista
Prêmios Prêmio Jabuti 1964
Magnum opus A História da Literatura Ocidental (1947)
Religião Judaica, Católica romana

Otto Maria Carpeaux, nascido Otto Karpfen (Viena, 9 de março de 1900 Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 1978), foi um ensaísta, jornalista, crítico literário, crítico de arte, crítico de música[1] e historiador[2] austríaco naturalizado brasileiro. Polímata, Carpeaux é famoso por sua Magnum Opus, A História da Literatura Ocidental, uma das mais importantes obras publicadas no Brasil no século XX.[3]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Foi filho único[4] de Max Karpfen, um profissional autônomo e judeu, e de Gisela Schmelz Karpfen, dona de casa e católica. Nascido na capital do Império Austro-Húngaro, em 9 de março de 1900, onde cursou o ginasial. Seguiu o Judaísmo por sugestão do pai, mas conhecia os ritos católicos. Otto Maria Carpeaux (então Otto Karpfen) ingressou na faculdade de direito por sugestão familiar, abandonando-a um ano depois. Entre os anos de 1920 e 1930 estudou no Instituto de Química da Universidade de Viena, mas nunca exerceu a profissão.[4] Nessa época frequentava os círculos literários de Viena e conferências públicas de Karl Kraus.[4] Também estudou filosofia (doutorou-se em 1925), matemática (em Leipzig), sociologia (em Paris), literatura comparada (em Nápoles) e política (em Berlim); além de dedicar-se à música.

Dedicou-se intensamente à literatura e ao jornalismo político, carreiras que deixou em Viena com passagens como redator da revista semanal Berichte zur Kultur und Zeitgeschichte articulistas do jornal Neue Freie Presse.[4]

Em março de 1930 casou-se com Helena Carpeaux que o acompanhou por toda a vida.[4] Abandonou o judaísmo em 1933[4], converteu-se à religião católica e acrescentou Maria e Fidelis ao seu nome, este último por pouco tempo. Tornou-se homem de confiança de dois primeiros-ministros em Viena, Engelbert Dollfuss e Kurt Schuschnigg, respectivamente os últimos primeiro-ministros antes da Áustria ser incorporada ao Reich alemão. Com a queda deste último, foi obrigado a seguir para o exílio.

Em princípios de 1938, foge com a mulher para Antuérpia (Bélgica), onde ainda trabalha como jornalista na Gazet van Antwerpen, maior jornal belga de língua holandesa.

No Brasil[editar | editar código-fonte]

Diante da escalada nazista, Carpeaux se sente inseguro e foge com a mulher, em fins de 1939, para o Brasil. Durante a viagem de navio, estoura a guerra na Europa. Recusando qualquer ligação com o que estava acontecendo no Reich, muda seu sobrenome germânico Karpfen para o francês Carpeaux.

Ao desembarcar, nada conhecia da literatura brasileira, nada sabia do idioma e não tinha conhecidos. Na condição de imigrante, foi enviado para uma fazenda no Paraná, designado para o trabalho no campo. O cosmopolita e erudito Carpeaux ruma para São Paulo. Inicialmente passa dificuldades; sem trabalho, sobrevive à custa da venda de seus próprios pertences, inclusive livros e obras de arte. Poliglota, o homem que já sabia inglês, francês, italiano, alemão, espanhol, flamengo, catalão, galego, provençal, latim e servo-croata, em um ano aprendeu e dominou o português, com muita facilidade devido ao conhecimento do latim e de outras línguas dele derivadas.

Em 1940, tentou ingressar no jornalismo nacional, mas não consegue. Então escreve uma carta a Álvaro Lins a respeito de um artigo sobre Eça de Queiróz. A resposta veio em forma de convite, em 1941, para escrever um artigo literário para o Correio da Manhã, do Rio de Janeiro. Seu artigo é publicado, iniciando uma publicação regular. Até 1942, Carpeaux escrevia os artigos em francês, que eram publicados em tradução. Mostrando sua grande inteligência e erudição, divulgou autores estrangeiros pouco ou mal conhecidos entre o público brasileiro, desenvolvendo-se um grande crítico literário. Nesse mesmo ano, Otto Maria Carpeaux naturalizou-se brasileiro. Ainda em 1942, publica o livro de ensaios Cinzas do Purgatório.

Entre 1942 e 1944 Carpeaux foi diretor da Biblioteca da Faculdade Nacional de Filosofia. Em 1943, publica Origens e Fins.

De 1944 a 1949 foi diretor da Biblioteca da Fundação Getúlio Vargas. Em 1947 publica sua monumental História da Literatura Ocidental – o mais importante livro do gênero em língua portuguesa – no qual analisa a obra de mais de oito mil escritores, partindo de Homero até mestres modernistas, neste caso sendo o estudo de sua predileção.[5] Em 1950, torna-se redator-editor do Correio da Manhã. Em 1951, publica Pequena Bibliografia Crítica da Literatura Brasileira, obra singular na literatura nacional - reunindo, em ordem cronológica, mais de 170 autores de acordo com suas correntes, da literatura colonial até nossos dias. Sua produção crítica literária é intensa, escrevendo em jornais semanalmente.

Em 1953, publicou Respostas e Perguntas e Retratos e Leituras. Em 1958, publicou Presenças, e em 1960, Livros na Mesa.

Carpeaux foi forte opositor do Regime Militar, redigindo artigos acerca da retrógrada autoridade da então nova ordem militar, participando de debates e eventos políticos. Contudo, escreveu editoriais em Jornais de 1964 pró-golpe (Basta! e Fora! foram os títulos deles), Nesse período foi também, ao lado de Antônio Houaiss, coeditor da Grande Enciclopédia Delta-Larousse[6].

Em 3 de fevereiro de 1978, morre no Rio de Janeiro de ataque cardíaco.

Perfil[editar | editar código-fonte]

José Roberto Teixeira Leite, que conheceu Carpeaux quando vivia no Rio de Janeiro, descreve a figura do sábio austríaco: Carpeaux foi um dos homens mais feios que conheci... sua aparência neanderthalesca, todo mandíbulas e sobrancelhas, fazia a delícia dos caricaturistas: parecia, sem tirar nem por, um troglodita, mas troglodita de ler Homero e Virgílio no original, de se deliciar com Bach e Beethoven e de diferenciar entre Rubens e Van Dyck. E acrescenta que Carpeaux era totalmente gago, o que o afastou da cátedra e das universidades para confiná-lo em bibliotecas, gabinetes e redações.[7]

Cultivou amizade com grande número de intelectuais de sua época, bem como algumas inimizades. Não raro, Carpeaux foi identificado como um homem generoso, paciente mas intransigente quando provocado por fatos e juízos que julgasse absurdos ou equivocados.[8]

Carlos Heitor Cony, membro da ABL, aponta que Carpeaux dominava alguma espécie de mnemônica com a qual, por meio de chaves e códigos, penetrava em todos os campos do saber humano. Segundo o jornalista, Carpeaux preferia ler partituras a escutar músicas, pois lendo a pauta achava mais fácil de memorizar as canções.[9]

Lista de obras[editar | editar código-fonte]

Publicadas no Brasil[editar | editar código-fonte]

  • 1942 – A cinza do purgatório ([ed. Aurélio Buarque de Holanda], Rio de Janeiro, Casa do Estudante Brasileiro [CEB]). — Reedições: 'A cinza do purgatório', em Olavo de Carvalho (org.), Ensaios reunidos: 1942-1978 (Rio de Janeiro, Topbooks, 1999), pp. 78-258; ([3ª ed. rev.], ed. Eduardo Zomkowski, Balneário Camboriú, Danúbio, 2015), dita "nova ed.".
  • 1943 – Origens e fins (Rio de Janeiro, Casa do Estudante Brasileiro [CEB]).
  • 1951 – Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira (Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Saúde). — Reedições e reimpressões: (2ª ed. rev. e aum., Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Saúde, 1955); (3ª ed. rev. e aum., Rio de Janeiro, Letras e Artes, 1964); (4ª ed., Rio de Janeiro, Tecnoprint, 1968), dita "nova ed.", com apêndice de Assis Brasil, incluindo 47 escritores; (reimp. da 4ª ed., 1971).
  • 1953 – Respostas e perguntas (Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Saúde).
  • 1953 – Retratos e leituras (Rio de Janeiro, Simões).
  • 1958 – Presenças (Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro).
  • 1958 – Uma nova história da música (Rio de Janeiro, Zahar) — Reedições: (2ª ed. rev. e aum., Rio de Janeiro, José Olympio, 1967); (3ª ed. rev. e at., Rio de Janeiro, Alhambra, 1977); [edições das décadas de 1980 e 1990]; a partir de 2001, reeditado com o título O livro de ouro da história da música: da Idade Média ao século XX (Rio de Janeiro, Ediouro, 2001).
  • 1959-1966 – História da literatura ocidental (9 vols.)
  • 1960 – Livros na mesa
  • 1964 – A literatura alemã
  • 1965 – A batalha da América Latina
  • 1965 – O Brasil no espelho do mundo
  • 1968 – As revoltas modernistas na literatura
  • 1968 – 25 anos de literatura
  • 1971 – Hemingway: tempo, vida e obra

Póstumas[editar | editar código-fonte]

  • 1978 – Reflexo e realidade: ensaios (Rio de Janeiro, Fontana).[nota 1]
  • 1978 – Alceu Amoroso Lima
  • 1992 – Sobre letras e artes
  • 1999 – Ensaios reunidos (vol. 1)
  • 2005 – Ensaios reunidos (vol. 2)
  • 2013 – A história concisa da literatura alemã
  • 2014 – Caminhos para Roma: aventura, queda e vitória do espírito
  • 2016 – O canto do violino e outros ensaios inéditos

Ver também[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • VENTURA, Mauro Souza. De Karpfen a Carpeaux. Rio de Janeiro: Topbooks, 2002.
  • LEITE, José Roberto Teixeira. Di Cavalcanti e outros perfis. São Paulo: Edifieo, 2007.
  • MENEZES, Raimundo de. Dicionário literário brasileiro. Rio de Janeiro: LTC, 1978.

Notas

  1. A coletânea de ensaios foi preparada em vida do autor, pelo menos desde meados de 1977. Sobre o andamento da edição do livro em janeiro de 1978, cf. 'Os livros de 1978: o que prometem os editores dos Estados', Livro, suplemento do Jornal do Brasil, n. 66, 7 jan. 1978, p. 6.

Referências

  1. «UMA NOVA HISTÓRIA MUSICAL». Consultado em 16 de maio de 2017. 
  2. «O intelectual e seus deveres». Jornal Opção. Consultado em 16 de maio de 2017. 
  3. «Os Cem Mais». Folha de São Paulo. Consultado em 16 de maio de 2017. 
  4. a b c d e f Ventura, Mauro Souza (29 de novembro de 2011). Juventude comum, trajetórias opostas, acesso em 1º de dezembro de 2011.
  5. «A monumental História da Literatura Ocidental volta às livrarias», Veja (2250), 4 de janeiro de 2012 .
  6. Barroso, Ivo, A história de Carpeaux, consultado em 23 de setembro de 2012. .
  7. Leite, José Ricardo Teixeira (2007), Di Cavalcanti e outros perfis, SP: Edifieo, p. 53 .
  8. Augusto, Sérgio (23 de setembro de 2002), «O melhor presente que a Áustria nos deu», Digestivo cultural, consultado em 23 de setembro de 2012. .
  9. Carlos Heitor Cony (23 de setembro de 2007). «Otto Maria Carpeaux». Folha de S.Paulo. Consultado em 23 de novembro de 2007. 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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