Pão-por-Deus

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa

O pão-por-Deus é um peditório ritual feito por crianças, embora antigamente participassem também os pobres, associado às práticas relacionadas com as refeições cerimoniais do culto dos mortos. Na Galiza o peditório tem o nome de migalho (migallo).[1]

História[editar | editar código-fonte]

O peditório do pão-por-deus ,está associado ao antigo costume que se tinha de oferecer pão, bolos ,vinho e outros alimentos aos defuntos.Era costume "durante o ano, nos domingos e dias festivos se offerecerem por devoção picheis, ou frascos de vinho, e certos pães, que põe em uma toalha estendida sobre a sepultura do defunto, e uma vela acesa."[2] Também se colocava pão, vinho e dinheiro no caixão do defunto para a viagem.[3] No canon LXIX do II Concilio de Braga do ano 572, proibia-se que se levassem alimentos à tumba.[4] Os peditórios para as almas realizam-se ao longo do ano, em Janeiro pelos caretos [5], durante a quaresma canta-se às almas santas [6] e faz-se um peditório (pedir as janeirinhas, pedir as maias, pedir os reizinhos[7] são peditórios que tal como os dos caretos se inserem no ciclo dos peditórios rituais que têm lugar ao longo do ano)[8][9][10] como o do de "andador de almas", que pedia esmolas pelas almas.[11] Nos Açores, acreditava-se que uma alma podia azedar o pão. Para que tal não acontecesse, o pão da primeira fornada, "o pão das almas", era colocado numa cadeira na rua à porta de casa, coberto por um pano, para que a primeira pessoa que passasse o levasse para si ou desse a alguém necessitado[12]

Peditório[editar | editar código-fonte]

Em Portugal no dia 1 de Novembro, Dia de Todos-os-Santos as crianças saem à rua e juntam-se em pequenos bandos para pedir o Pão-por-Deus (ou o bolinho) de porta em porta. O dia de pão-por-deus, ou dia de todos os fieis defuntos, era o dia em que se repartia muito pão cozido pelos pobres.

Registado no século XV como o dia em que também se pagava um determinado foro:"Pagardes o dito foro em cada um ano em dia de pão por Deus".[13]

Bolinhos e bolinhós
Para mim e para vós,
Para dar aos finados
Que estão mortos e enterrados
À bela, bela cruz
Truz, Truz!
A senhora que está lá dentro
Sentada num banquinho
Faz favor de s'alevantar
Para vir dar um tostãozinho.

Se dão doces:

Esta casa cheira a broa,
Aqui mora gente boa.
Esta casa cheira a vinho,
Aqui mora um santinho.

Se não dão doces:

Esta casa cheira a alho
Aqui mora um espantalho.
Esta casa cheira a unto
Aqui mora algum defunto
[14]

É também costume em algumas regiões os padrinhos oferecerem um bolo, o Santoro. Já pedir o "santorinho", que começava nos últimos dias do mês de Outubro, era o nome que se dava à tradição em que crianças sozinhas, ou em grupo, de saco na mão iam de porta em porta para ganhar doces.[15].

As crianças quando pedem o pão-por-deus recitam versos e recebem como oferenda: pão, broas, bolos, romãs e frutos secos, nozes, tremoços amêndoas,ou castanhas que colocam dentro dos seus sacos de pano, de retalhos ou de borlas. Em algumas povoações da zona centro e estremadura chama-se a este dia o ‘Dia dos Bolinhos’ ou ‘Dia do Bolinho’. Os bolinhos típicos são especialmente confecionados para este dia, sendo à base de farinha e erva doce com mel (noutros locais leva batata doce e abóbora) e frutos secos como passas e nozes.

São vários os versos para pedir o pão-por-deus:assim se diz

Ou então:

Como não é muito aceitável rejeitar o bolinho às crianças, as desculpas eram criativas:

A quem lhes recusa o pão-por-deus roga-se uma praga em verso ou deixa-se uma ameaça enquanto se fugia em grupo e entre risos

O termo caneca podia ser substituído por tranca ou cavaca (um pedaço de lenha)

Pão, pão por deus à mangarola,
encham-me o saco,
e vou-me embora.

Se não ficarem satisfeitos dizem:

O gorgulho gorgulhote,
lhe dê no pote,
e lhe não deixe,
farelo nem farelote
[17]

Na primeira metade do século XX as crianças quando iam pedir o pão-por-deus , acompanhadas por um adulto, levavam uma Coca iluminada:

Dae pão-por-deus
Que vos deu deus
P'ra repartir
C'os fieis de deus
Pelos defuntos
De vo'meces...
Quando o peditório é infructuoso:
Tranca me dáes
fujo p'rá rua
E seja tudo
P'l'amor de deus
Versos dos Açores:[18]
"Nesta mesma cidade de Coimbra, onde hoje [ano de 1963] nos encontramos, é costume andarem grupos de crianças pelas ruas, nos dias 31 de Outubro e 1 e 2 de Novembro, ao cair da noite, com uma abóbora oca e com buracos recortados a fazer de olhos, nariz e boca, como se fosse uma caveira, e com um coto de vela aceso por dentro, para lhe dar um ar mais macabro."[19]
"Em Coimbra o peditório menciona «Bolinhos, bolinhós», e o grupo traz uma abóbora esvaziada com dois buracos a figurarem os olhos de um personagem e uma vela acesa dentro[...]" [20]

As crianças e os adultos que participam nos peditórios representam as almas dos mortos que «neste dia erram pelo mundo», quando pedem pão para para partilhar com as almas. O pão por Deus é uma oferenda que se faz às próprias almas.[21][22] Em Barqueiros, concelho de Mesão Frio, à meia-noite do dia 1 para 2 de Novembro arranjava-se uma mesa com castanhas para os parentes já falecidos lá irem comer durante a noite “não devendo depois ninguém tocar nessa comida, porque ela ficava babada dos mortos”.[23][24]

Na freguesia de Vila Nova de Monsarros, Anadia, as crianças faziam os "santórios", recebiam fruta e bolos e cada criança transportava uma abóbora oca com figura de cara, com uma vela dentro.[25]

"Em Roriz não se chama pão por Deus, nem bolinhos, nem santoros a comezaina que se dá aos rapazes no dia de Todos os Santos ou de Finados. O que os rapazes vão pedir por portas, segundo lá dizem, é — os fieis de Deus."[26]

Nos Açores dão-se “caspiadas” às crianças durante o peditório, bolos com o formato do topo de uma caveira, claramente um manjar ritual do culto dos mortos.[27]

Com o passar do tempo, o Pão-por-Deus sofreu algumas alterações, os meninos que batem de porta em porta podem receber dinheiro, rebuçados ou chocolates. Esta atividade é também realizada nos arredores de Lisboa. Antigamente relembrava a algumas pessoas o que aconteceu no dia 1 de Novembro de 1755, aquando do terramoto de Lisboa, em que as pessoas que viram todos os seus bens serem destruídos na catástrofe, tiveram que pedir "pão-por-deus" nas localidades que não tinham sofrido danos.

O pão-por-deus é o pão, ou oferenda, que se dá aos mortos, o Molete ou Samagaio (Sabatina, Raiva da criança) o pão, ou oferendas que se dá quando uma criança nasce.[28][29]

Nesta data em Inglaterra pedia-se o "soul cake" (bolo das almas),[30] que, supõe-se, terá dado origem à tradição do trick or treat nos Estados Unidos.[31] Na Bretanha equivale ao rito do "bara ann anaon" ou pão dos mortos.[32]

Depois do peditório-alimentar os mortos[editar | editar código-fonte]

  • "lenha das almas", "lenha das almas" ou "pau das almas"

A lenha é recolhida ou roubada num ritual em que participam os jovens solteiros e depois é leiloada ou vendida em hasta pública no largo das aldeias <ref[http:/www.assops.pt/portal/livros/118-diatodossantos.html dia de Todos os Santos]</ref>

  • canhoto dos Santos

O "canhoto" ou "fogueira dos santos" é aceso no adro da igreja e à volta do fogo a população bebe vinho e come castanhas, no tradicional "magusto dos santos" quase em silêncio.[33]

  • O magusto dos santos

Segundo Leite de Vasconcelos na noite de Todos os Santos, em Barqueiros, era tradição preparar, à meia-noite, uma mesa com castanhas para os mortos da família irem comer; ninguém mais tocava nas castanhas porque se dizia que estavam “babada dos defuntos”. É também costume deixar um lugar vago à mesa para o morto ou deixar a mesa cheia de iguarias toda a noite da consoada para as "alminhas".[34] Já na consoada as almas vão comer as iguarias postas num prato fora de casa com uma luz ao lado para as alumiar. Aparecem na forma de borboletas: brancas se estão em bom lugar, pretas se estão em mau lugar.[35]

Património Imaterial português[editar | editar código-fonte]

"A progressiva implantação do Halloween em Portugal constitui um exemplo de ameaça ou risco à continuidade do “Pão-por-Deus” como manifestação do Património Imaterial português, por várias razões.Em primeiro lugar, substitui os versos tradicionais, manifestações da tradição oral da comunidade, por expressões orais originárias do Inglês (“Doçura ou travessura!” / “Trick or treat!”). Em segundo lugar, introduz neste peditório cerimonial infantil o uso de máscaras e fatos muito semelhantes às usadas no Carnaval, mas que tradicionalmente eram totalmente ausentes do “Pão-por-Deus”. Finalmente, e como bem expressam as alterações do nome da tradição, da forma e conteúdo da tradição oral, e também o tipo de máscaras que passaram a ser utilizadas pelas crianças, a introdução do “Halloween” eliminou por completo as conotações religiosas muito presentes na antiga tradição do “Pão-por-Deus”."[36]

No Brasil[editar | editar código-fonte]

Este é um costume de origem portuguesa mas ocorre em ambos os lados do Oceano Atlântico. Tanto em Juncal em Portugal, como na FESTILHA, que resgata as tradições na Ilha de São Francisco do Sul, estado de Santa Catarina, Brasil.

Na FESTILHA, o pão-por Deus é pedido através de uma figura feita de recorte de papel acetinado, geralmente um coração, de quatro faces que se justapõem quando dobrados, ficando a cor branca por dentro, e por fora a cor azul, vermelha ou amarela. Suas bordas tem uma pequena franja rendilhada. Na face branca, interna, estão escritas uma ou duas quadrinhas nas quais se pede a dádiva, como esta:

Lá vai o meu coração            Pão por Deus
Sozinho sem mais ninguém        Que Deus me deu
Vai pedir o Pão-por-Deus        Uma esmolinha
A quem quero tanto bem          Por alma dos seus

Referências

  1. Real Academia Galega
  2. Elucidario das palavras, termos e frases, que em Portugal antigamente se usárão..., Volume 1. pg 202
  3. Cuidar dos Mortos
  4. La presencia bizantina en Hispania, siglos VI-VII: la documentación arqueológica pg595
  5. PROJECTO FESTAS DE INVERNO EM TRÁS-OS-MONTES. MAPEAMENTO DE FESTAS. DISTRITO DE BRAGANÇA
  6. Almas Santas
  7. Teofilo Braga.O povo Portuguez nos seus costumes
  8. IELT. Mapeamento de festas.
  9. MUSEU IBÉRICO DA MÁSCARA E DO TRAJE- INVENTÁRIO DA COLECÇÃO MUSEOLÓGICA.Porto 2010
  10. Freguesia de Monfortinho. Tradições e Costumes
  11. As alminhas em Portugal e a devolução da Memória. Estudo, Recuperação e Conservação
  12. [.http://www.culturacores.azores.gov.pt/ficheiros/pca/2012115122825.PDF o culto dos mortos e o mês das almas]
  13. Elucidario das palavras, termos e frases, que em Portugal antigamente se usárão..., Volume 1
  14. A canção ródia da andorinha
  15. Halloween substitui Santorinho. Gazeta do Interior
  16. A tradição ainda é o que era. Gazeta das Caldas
  17. Teófilo Brága. O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, Volume 2. As festas do calendário popular
  18. Revista dos Açores, Volume 1 Sociedade Auxiladora das Lettras Açorianas
  19. Manuel de Paiva Boléo, Universidade de Coimbra. Instituto de Estudos Românicos. Revista portuguesa de filologia - Volume 12 - Página 745 - 1963 -
  20. Renato Almeida, Jorge Dias. Estudos e ensaios folclóricos em homenagem a Renato Almeida. Ministério das Relações Exteriores, Seção de Publicações, 1960
  21. [Ernesto Veiga de Oliveira. Festividades cíclicas em Portugal - Pg 189]
  22. Festas e Tradições Portuguesas. Dia dos Fiéis Defuntos. Jorge Barros, Soledade Martinho Costa (Círculo de Leitores)
  23. Dia de Todos os Santos. ASSOPS
  24. José Leite de Vasconcelos OPÚSCULOS Volume VII – Etnologia (Parte II) V. Miscelânea etnográfica
  25. Freguesia de Vila Nova de Monsarros. Lendas e Costumes
  26. [Pimentel, Alberto. Espelho de portuguezes - Volume 2 - Página 1191]
  27. Intermuseus Dezembro 2006 nº 7Direcção Regional da Cultura
  28. Vir à luz —práticas e crenças associadas ao nascimento António Amaro das Neves Revista de Guimarães, n.º 104, 1994, pp. 51-81
  29. [Actas / International Colloquium on Luso-Brazilian Studies - Volume 1 - Página 162]
  30. The Golden Bough : A Study in Magic and Religion pg383
  31. Diary Of Ancient Rites, A Guide For the Serious Practitioner pg247
  32. The Golden Bough: A Study in Magic and Religion pg 380-384
  33. A Animação das Festas de Inverno do Concelho de Bragança. Os Caretos na escola e reavivar das tradições
  34. José Leite de Vasconcelos. OPÚSCULOS. Volume VII – Etnologia (Parte II).Lisboa, Imprensa Nacional, 1938.V. Miscelânea etnográfica
  35. Leite de Vasconcelos, José. Revista Lusitana
  36. PATRIMÓNIO IMATERIAL TRADIÇÕES FESTIVAS Kit Ficha 02 Tradições Festivas
  • Almanach de lembranças luso-brasileiro. Castilho Alexandre, Cordeiro António. Typográfica Franco Portuguesa. 1861.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]