Pé de moleque

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Disambig grey.svg Nota: Não confundir com Pé de Zumbi.
Pé de moleque industrializado.
Um pacote de chikki, como é conhecido o pé de moleque na Índia.

O pé de moleque[nota 1] é um doce típico da culinária brasileira, feito a partir da mistura de amendoim torrado com rapadura.

O pé de moleque surgiu em meados do século XVI com a chegada da cana-de-açúcar à Capitania de São Vicente, trazida pelo navegante Martim Afonso de Sousa.,[3] Popular no Brasil, a cidade de Piranguinho[4] no sul do estado de Minas Gerais, é famosa pela produção artesanal da guloseima ao estilo mineiro, a qual tem como lema ser a capital nacional do pé de moleque. Piranguinho ainda tem se destacado no cenário nacional, através da festa do maior pé de moleque do mundo,[5] que já faz parte do calendário cultural de festividades do município.

Na Índia, principalmente nos estados de Gujarate e Maharashtra, onde é chamado de chikki. Em Portugal, o pé de moleque é conhecido como nougat. No México, se chama palanqueta.

Há uma derivação do doce na versão de um bolo, comum a festas juninas de locais do Nordeste do Brasil. O bolo de pé de moleque também é chamado de "bolo preto", no qual a castanha de caju pode substituir o amendoim, mantém-se a rapadura e adiciona-se massa de mandioca fermentada (pubada, massa puba) e outros ingredientes.[6][7][8][9]

Etimologia[editar | editar código-fonte]

A denominação "pé de moleque" tem duas hipóteses para sua origem:[10]

  • referência ao calçamento de pedras irregulares presente em cidades históricas brasileiras como Paraty e Ouro Preto, que era assim denominado.
  • motivado pelas quituteiras das ruas do passado que os vendiam e que eram alvo de furtos por parte da meninada. Para não serem mais importunadas diziam aos meninos, para que pedissem, pois não precisavam furtar:
  •  : — pede moleque!

História[editar | editar código-fonte]

O pé de moleque havia chegado à Europa na Alta Idade Média, trazido pelos árabes em suas incursões à península Itálica e à Península Ibérica. Dessa invenção árabe se originaram, antes do doce brasileiro (feito com mel de cana, a rapadura), o similar português de mel de abelhas chamado "nogat" (nome que veio do francês), como também o nougat francês de Montélimar no Vale do Ródano, o espanhol turró de Alicante, Valência, de Toledo, de Castuera (na Estremadura), o italiano torrone de Cremona, Alba, Siena, Benevento, o siciliano ciubatta e ainda o indiano chikki, que foi levado para o oriente pelos portugueses no início do século XVI.[11]

Uma das primeiras referências a esse doce no Brasil encontra-se no livro Doceiro Nacional. Neste livro é possível encontrar duas receitas: o pé de moleque preparado com açúcar e o preparado com rapadura.[12]

Fabricação[editar | editar código-fonte]

A fabricação tradicional do doce se dá através da mistura de amendoins torrados e moídos que são posteriormente misturados a uma rapadura previamente derretida, com o cuidado de quebrar a garapa, que tem a dureza do açúcar cristalizado, dai o nome antigo de "quebra queixo" ou "quebra dentes", quando era fabricado artesanalmente, por vendedores ambulantes. A mistura é lentamente batida em fogo brando até atingir o ponto prévio à quebra da chamada cristalização e rapidamente a mistura deve ser distribuída sobre uma superfície lisa e fria de pedra.[13] A utilização de um tacho de cobre é desejável. Depois de resfriado o doce adquire a consistência macia que é característica do processo tradicional por incorporar o óleo do próprio amendoim macerado. Alguns grãos inteiros podem ser acrescentados à mistura, com o fim de quebrar a resistência do cristal, que costuma ficar muito duro, próximo da dureza da pedra de açúcar de cana, muito duro.

Tal processo artesanal foi posteriormente substituído por outros similares, mais simples, ao se misturar o açúcar derretido com os amendoins torrados de modo a obter um pé de moleque bastante crocante e não - rígido (igualmente popular, o rígido é o "quebra queixo ou quebra dentes"). Assim se pôde manufaturar o doce em maior escala mantendo um padrão industrial, e a satisfação do consumidor.

Na literatura[editar | editar código-fonte]

O doce pode ser encontrado ainda na literatura, tal como em O dialeto caipira,[14] de Amadeu Amaral, há referência ao "pé-de-muleque". Em 1983, Carlos Drummond de Andrade se referiu ao pé de moleque como sendo a "pura joia mineira". O texto foi enviado a uma das doceiras de Piranguinho.[13]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas

  1. De acordo com o Vocabulário do Acordo Ortográfico, lançado pela Academia Brasileira de Letras em 2008, a grafia deixa de ter hifens como era até a vigência do Acordo Ortográfico de 1990 (pé-de-moleque). A forma hifenizada foi registrada pela primeira vez em 1889, uma vez que era conhecido esse doce no Brasil, anteriormente, como "quebra-queixo" (mas não confundir com o quebra-queixo atual) ou "quebra-dentes"..[1][2]

Referências

  1. Guia da Nova Ortografia. Estadão. 2009.
  2. Tufano, Douglas. Guia Prático da Nova Ortografia. São Paulo: Melhoramentos, 2008.
  3. História do Pé de Moleque. Barraca Amarela.
  4. «O Maior Pé-de-moleque do Mundo é Notícia Nacional». Prefeitura Municipal de Piranguinho-MG [ligação inativa]  Parâmetro desconhecido |wayback= ignorado (ajuda)
  5. «Festa junina de MG tem pé-de-moleque de 800 kg». Portal G1. 9 de junho de 2008 
  6. «Culinária: aprenda a fazer pé de moleque, bolo tradicionalmente nordestino». TV Diário. Consultado em 17 de junho de 2018. 
  7. «Festa junina tem que ter bolo pé de moleque». Norteando Você 
  8. Globo Rural | Veja como fazer um bolo de pé de moleque | Globoplay, consultado em 17 de junho de 2018. 
  9. Da Redação. «Bolo Pé-de-moleque com rapadura». Plantão PB. Consultado em 17 de junho de 2018. 
  10. ”Revista Gosto”– Editora Rickdan- Nº 25 – 10/2011
  11. ”Revista Gosto” (Culinária) – Editora Rickdan- Outubro 2011 (nr. 25)
  12. Doceiro Nacional. Rio de Janeiro: B.L Garnier, Livreiro-Editor. 1895. pp. 111, 112 
  13. a b Siqueira, Iara. "Pede, moleque". Menu. pág. 65.
  14. AMARAL, Amadeu. O dialeto caipira. São Paulo: HUCITEC, 1976.