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Paços do Concelho de Leiria

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Paços do Concelho de Leiria
Informações gerais
TipoEdifício administrativo
Estilo dominanteEclectismo, arte nova
ArquitetoErnesto Korrodi, com participação inicial de José Theriaga
Início da construção1903
Inauguração7-10-1910
Proprietário atualCM Leiria
Função atualPaços do Concelho, Arquivo Distrital de Leiria
Património de Portugal
SIPA7045
Geografia
PaísPortugal
CidadeLeiria
LocalizaçãoLargo da República
Coordenadas39° 44′ 27″ N, 8° 48′ 39″ O
Mapa
Localização em mapa dinâmico

Os Paços do Concelho de Leiria localizam-se no Largo da República, Leiria, Portugal, num edifício de estilo ecléctico da autoria do arquitecto Ernesto Korrodi. Projectado originalmente para concentrar as funções de sede da Câmara Municipal, Tribunal e Cadeia, o imóvel, classificado como de valor concelhio, destaca-se pela integração de elementos estilísticos Art Nouveau e republicanos.[1]

História

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Localizações anteriores

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A Câmara Municipal de Leiria já esteve sediada em vários locais da cidade. Originalmente, numa altura em que a cidade se encontrava em franca expansão do Castelo ao rio, a edilidade funcionou no sítio onde, no século XVI, com a elevação da cidade a sede de diocese, foram construídos os Paços Episcopais (actual esquadra da PSP).

Assim, os Paços do Concelho deslocam-se para a praça de São Martinho (actual Praça Rodrigues Lobo), juntamente com o pelourinho e a cadeia, uma vez que aquele era o principal pólo de desenvolvimento da cidade.

O projecto falhado "Kamberg"

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Em 1835, consumou-se a necessidade de construir um novo espaço, dada a degradação e a exiguidade das instalações onde então funcionava a administração municipal — não obstante, o processo revelou-se moroso.

Em Novembro de 1862, a autarquia deliberou a contracção de um empréstimo para erguer um imóvel de maior envergadura, projectando-se, no mês seguinte, a sua localização frente ao actual jardim Luís de Camões. Vários desenhos foram apresentados, incluindo um projecto do Engenheiro Director de Obras Públicas em 1863 e uma nova proposta em 1874 para a zona a Norte do Rossio. Houve até a proposta de sediar a edilidade no Convento de São Francisco.

Em 1875 foi aprovado o projecto denominado "Kamberg"; contudo, este seria abandonado no ano seguinte por ser considerado excessivamente luxuoso, ordenando-se a sua simplificação.

O edifício de Korrodi

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A viragem definitiva deu-se apenas no início do século XX. A 7 de Janeiro de 1902, sob a presidência de João António Correia Mateus, a autarquia determinou a edificação dos paços no sítio da Portela, em terrenos pertencentes ao General Luís António Benevides de Sousa.

O projecto foi elaborado e colocado a concurso em Janeiro do ano seguinte, sendo as principais empreitadas de construção adjudicadas à firma Korrodi & Theriaga em Abril de 1903. Durante a execução, verificou-se que a área inicial era insuficiente, levando à aquisição de terrenos adicionais. As fases de alvenaria e acabamentos estruturais, a cargo de Ernesto Korrodi, foram dadas por concluídas em Junho de 1906.

A inauguração oficial do edifício ocorreu a 7 de Outubro de 1910, dois dias após a Implantação da República. Todavia, os trabalhos de decoração interior prosseguiram, nomeadamente no Salão Nobre, intervencionado em 1911 por Korrodi e pelo pintor e escultor Luiz Fernandes.

Posteriormente, em 1915, com os paços já perfeitos, iniciaram-se as diligências para a construção da cadeia na retaguarda do imóvel e a sua ligação ao Tribunal Judicial, adaptando-se a capela a oficina, tarefa entregue ao construtor José Alves. A evolução do complexo prisional continuou em análise nas décadas seguintes, com a aprovação, em 1941, de um plano da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais que contemplava verbas para a conclusão da cadeia comarcã de Leiria.

Em termos de protecção patrimonial, o edifício foi proposto como Valor Concelhio no Plano Director Municipal de 1995. Mais recentemente, em 1998, a estrutura sofreu ligeiras fissuras nas paredes internas decorrentes de um evento sísmico. Actualmente, além das funções administrativas municipais, o espaço acolhe também o Arquivo Distrital.[2][3][4]

Descrição

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O imóvel implanta-se de forma isolada e harmoniosa, tirando partido de uma esquina de quarteirão definida pelo cruzamento de duas avenidas e defrontando a praça arborizada do Tribunal. A sua volumetria desenvolve-se numa planta longitudinal em forma de H, constituída por um quadrilátero irregular de volumes articulados horizontalmente, adaptando-se ao declive do terreno. A estrutura compõe-se de duas alas laterais unidas por um corpo transversal rectangular, com coberturas diferenciadas de duas, três e quatro águas.

O frontispício, de inspiração clássica mas com elementos geometrizantes, assenta sobre um embasamento duplo deambolado rústico. Esta fachada principal organiza-se num corpo central avançado, acessível por uma escadaria de um lanço, onde se rasgam simetricamente três vãos em cada piso. No piso térreo, as portas apresentam bandeiras tripartidas e são intercaladas por nichos rematados por frisos; no piso superior, janelas assentes em mísulas alinham-se com os fechos dos arcos abatidos das portas inferiores. A arquitrave, ressaltada por modilhões, sustenta um frontão curvo, profusamente decorado com motivos florais no tímpano, que contrasta com a geometria do restante alçado.

O coroamento do edifício exibe a heráldica da cidade: um brasão contendo uma torre de três andares, ladeada por dois pinheiros, cada um encimado por um corvo, e uma estrela de três pontas, tudo sobrepujado por uma coroa mural de três castelos.

Os corpos laterais da fachada principal, recuados e simétricos, elevam-se à altura do piso nobre do corpo central. Estes panos são marcados por portas de verga recta com frontões de lanços e óculos, encimadas por janelas tripartidas. As fachadas laterais (Noroeste e Sudeste) acompanham a topografia, apresentando três pisos fenestrados e delimitados por cornijas, mantendo a coerência do discurso arquitectónico através de janelas geminadas e vergas tripartidas.

No interior, a organização espacial reflecte uma preocupação com a funcionalidade, inovadora à época. O átrio principal ostenta uma escadaria nobre, ladeada por guardas trabalhadas com motivos de ponta de diamante, que se abre através de uma tripla arcada de arcos rebaixados apoiados em colunas de capitéis coríntios. Os pavimentos apresentam uma articulação desnivelada, gerindo as diferentes cotas através da altura dos arcos que formam os pátios internos.

O Salão Nobre merece destaque pela sua decoração de gosto Art Nova, concebida em colaboração com Luiz Fernandes. O tecto de madeira exibe caixotões estruturalmente idênticos aos do átrio, e as paredes são revestidas por lambris apainelados. Sobre as portas deste salão, almofadas ostentam inscrições que evocam os ideais republicanos vigentes na data da sua decoração final:

LIBERDADE / FRATERNIDADE / IGUALDADE

Originalmente, a distribuição funcional destinava o corpo da fachada principal à Câmara Municipal, a ala posterior à sala de audiências do Tribunal, e o piso superior à zona prisional.[2][3][4]

Referências

  1. «Câmara Municipal de Leiria / Paços do Concelho». SIPA – Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana 
  2. a b «Monumentos». www.monumentos.gov.pt (em inglês). Consultado em 7 de fevereiro de 2026 
  3. a b «Wayback Machine» (PDF). www.cm-leiria.pt. Consultado em 7 de fevereiro de 2026. Cópia arquivada (PDF) em 1 de setembro de 2024 
  4. a b ALMEIDA, Álvaro Duarte de; BELO, Duarte (2007). Portugal Património: Guia-Inventário. III. Lisboa: Círculo de Leitores. p. 356-357

Ligações externas

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