Paêbirú

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Paêbirú
Álbum de estúdio de Lula Côrtes e Zé Ramalho
Lançamento 1975
9 de junho de 2019 (relançamento)[1]
Gravação Outubro-Dezembro, 1974 no Estúdio Rozemblit em Recife, Brasil.
Gênero(s) Rock Psicodélico, Free Jazz
Duração 55:30
Gravadora(s) Rozenblit[2]
Polysom (relançamento em vinil de 2019)[1]
Opiniões da crítica

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Paêbirú: Caminho da Montanha do Sol, também conhecido simplesmente por Paêbirú ou Peabiru é um álbum de Lula Côrtes e Zé Ramalho, lançado no ano de 1975 pela extinta gravadora Rozenblit.[3][2][1] Foi o primeiro e único álbum lançado da parceria entre os dois. Também foi o segundo álbum de Lula Côrtes e o primeiro de Zé Ramalho.

O disco contém uma grande miscelânea de gêneros musicais como o rock psicodélico, jazz, e ritmos regionais do Nordeste Brasileiro.[3] Foi um dos primeiros discos não declarados da psicodélia brasileira.[4] O disco é hoje o vinil com maior valor comercial no Brasil.[5] Bem conservado, um disco da edição original vale em torno de 4 mil reais.[6] O álbum original vem acompanhado de um livro que traz estudos sobre a região e informações sobre a lenda do Caminho da Montanha do Sol.[5]

Contexto[editar | editar código-fonte]

A principal inspiração dos músicos na criação do disco foi a Pedra do Ingá, situada no município de Ingá, no interior da Paraíba.[3] A dupla caminhou até o local em uma expedição na qual usaram cogumelos alucinógenos.[1] No decorrer da criação do disco, a variedade de lendas sobre Sumé – entidade mitológica em que os indígenas acreditavam antes da colonização – inspiraram além da faixa de abertura, diversas passagens do álbum.[3][1] Outras entidades importantes da cultura brasileira, como Iemanjá, também são citadas. O Caminho da Montanha do Sol (ou "Caminho do Peabiru") mencionado em seu nome é uma estrada construída pelos índios há mais de mil anos, que ligava o Oceano Pacífico ao Oceano Atlântico, Machu Picchu à Paraíba,[1] e que passa pelo Vale do Ivaí.[7]

Gravação e perda de cópias[editar | editar código-fonte]

O álbum original, que vem acompanhado de um livro que traz estudos sobre a região e informações sobre a lenda do Caminho da Montanha do Sol[5], teve prensagem única de 1.300 exemplares. Destes, em torno de 1000 se perderam em uma enchente que ocorreu em Recife em 1975,[6] mais precisamente no Rio Capibaribe.[3] Este é o motivo para que uma das 300 cópias que se salvaram tenha valor comercial médio de 4 mil reais.[1] As fitas originais, contudo, conseguiram ser salvas.[1]

A parte gráfica do disco ficou por conta de Katia Mesel, então esposa de Lula Côrtes. O encarte e capa foi resultado de várias idas até a Pedra do Ingá. Foi relançado no ano de 2005 em vinil e CD na Europa pelo selo Mr. Bongo. Só foi relançado em CD no Brasil em 2012.[2] Em 2019, foi relançado em vinil a partir das fitas originais Polysom.[1]

Composição e letras[editar | editar código-fonte]

O nome do disco era para ter sido "Peabiru", cujo significado é próximo de "caminho para o Peru", contudo, houve uma troca de letras ao grafar o nome na capa do disco e acabou ficando "Paêbirú".[1]

Considera-se este álbum como o fundador de uma psicodelia genuinamente brasileira, com elementos da cultura indígena[5]. Sendo composições dos próprios Lula Côrtes e Zé Ramalho, outros músicos contribuíram para a gravação do álbum, como Alceu Valença e Geraldo Azevedo, que mais tarde alcançariam o sucesso.[3]

Trata-se de um disco de vinil duplo, com onze faixas e dividido em quatro lados, cada um dedicado a um dos quatro elementos da natureza: terra, ar, fogo e água.[3] Cada um tem uma sonoridade. Fogo é o lado mais roqueiro, Ar são músicas mais etéreas e com uso de flautas.[1] No lado da Água, há uma parte que faz louvações a Iemanjá.[5] Além dos longos instrumentais psicodélicos e ritmos regionais, também foram adicionados sons sintéticos paralelos aos temas. No lado "Terra", os resultados foram conseguidos através de instrumentos de percussão[1] como tambores, flautas, congas e saxofone alto. Efeitos como aves em voo também foram produzidos, porém não de forma eletrônica. Outros instrumentos típicos como o berimbau também foram utilizados. No lado "Ar", foram introduzidas conversas, risadas, e suspiros, além de harpas e violas. "Fogo" é o lado mais pesado do disco, onde o rock e a psicodelia estão em evidência. São usados sons de guitarra elétrica[1] distorcida, órgão e um som menos acústico. "Raga dos Raios", é até hoje considerada a melhor peça de guitarra fuzz gravada no rock nacional.[4] Em "Água" são colocados fundos sonoros de água corrente,[1] e letras em louvação a entidades que representam o elemento, além da incorporação de gêneros dançantes como o baião. O lado é aberto com um pai de santo cantando um ponto de Iemanjá.[1]

Zé Ramalho quis relançar a faixa "Não Existe Molhado Igual ao Pranto" em seu disco de 1993, Cidades e Lendas, mas Lula teria exigido que Zé o pagasse pelo uso da faixa co-criada por ele. Isso teria irritado o músico, que cortou relações com o parceiro.[1]

Faixas[editar | editar código-fonte]

Lado TERRA
TítuloCompositor(es) Duração
1. "Trilha de Sumé"  Lula Côrtes/Zé Ramalho 6:30
2. "Culto à Terra"  Lula Côrtes/Zé Ramalho 2:11
3. "Bailado das Muscarias"  Lula Côrtes/Zé Ramalho 4:32
Lado AR
TítuloCompositor(es) Duração
4. "Harpa dos Ares"  Geraldo Azevedo/Lula Côrtes/Zé Ramalho 3:56
5. "Não Existe Molhado Igual ao Pranto"  Lula Côrtes/Zé Ramalho 7:23
6. "Omm"  Lula Côrtes/Zé Ramalho 5:55
Lado FOGO
TítuloCompositor(es) Duração
7. "Raga dos Raios"  Lula Côrtes/Zé Ramalho 2:25
8. "Nas Paredes da Pedra Encantada, Os Segredos Talhados Por Sumé"  Marcelo/Lula Côrtes/Zé Ramalho 7:25
9. "Maracás de Fogo"  Lula Côrtes/Zé Ramalho 2:26
Lado ÁGUA
TítuloCompositor(es) Duração
10. "Louvação à Iemanjá"  Lula Côrtes/Zé Ramalho 1:53
11. "Regato da montanha"  Lula Côrtes/Zé Ramalho 3:24
12. "Pedra Tempo Animal"  Lula Côrtes/Zé Ramalho 4:09
13. "Sumé"  Lula Côrtes/Zé Ramalho 2:01
Duração total:
55:30

Músicos[editar | editar código-fonte]

Legado[editar | editar código-fonte]

Lula Côrtes morreu em 2011, de câncer na garganta. Zé Ramalho, por sua vez, não fala sobre o disco em entrevistas. Sua biógrafa, Christina Fuscaldo, diz que ele se recusa a comentar o disco porque, quando precisou da imprensa para divulgá-lo nos anos 1970, os veículos não lhe deram atenção.[1]

O produtor musicla Rafael Ramos, que também é consultor da Polysom diz que "Paêbirú" representa o experimentalismo na fase seminal desses dois artistas, antes de virem pro Sudeste trabalhar suas carreiras junto a produtores e gravadoras. Então, é a música em seu estado mais puro, sem obrigações, seguindo o que se sentia".[1] Já o jornalista e pesquisador Zé Teles o considera "o disco mais livre da história da música brasileira".[1]

Documentário[editar | editar código-fonte]

Em 2009 começou a ser produzido o documentário "Nas Paredes da Pedra Encantada", dirigido pelo cineasta gaúcho Cristiano Bastos, onde são resgatadas histórias sobre a gravação do álbum por meio de entrevistas com artistas envolvidos direta e indiretamente no projeto.[8] Em 2011 ele finalmente foi lançado em vários festivais de cinema, e depois foi lançado em DVD pelo selo goiano Monstro Discos, que em 2016 liberou-o na íntegra na internet por meio do YouTube.[9]

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s Maria, Julio (9 de junho de 2019). «'Paêbirú', obra mais rara de Zé Ramalho e Lula Côrtes, é relançado com fidelidade ao original». O Estado de S. Paulo. Grupo Estado. Consultado em 13 de fevereiro de 2020 
  2. a b c cultura.estadao.com.br/ Vinil "perdido" de Lula Côrtes e Zé Ramalho volta às lojas
  3. a b c d e f g BARCINSKI, 2014, pp. 35-36.
  4. a b «Cantina do Rock». Woodstock. 2008 
  5. a b c d e oglobo.globo.com/ A história disco mais caro do Brasil, valendo até R$ 5 mil, é investigada em documentário
  6. a b «Crônicas». Revista Rolling Stone. Consultado em 15 de novembro de 2008. Arquivado do original em 20 de março de 2009 
  7. tnonline.uol.com.br/ Série Antiga Civilização do Vale do Ivaí: As lendas e o extermínio dos povos
  8. revistatrip.uol.com.br/ Na trilha do Paêbiru
  9. diariodepernambuco.com.br/ Filme sobre o disco Paêbiru, de Zé Ramalho e Lula Côrtes, já pode ser visto no YouTube
  • Barcinski, André. Pavões Misteriosos — 1974-1983: A explosão da música pop no Brasil São Paulo: Três Estrelas, 2014.
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