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Pantropical

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Pantropical (do grego: pan, "todo", e tropikos, "do trópico") é a designação usada em biogeografia para referir a região que abrange todas as zonas tropicais da Terra, estendendo-se entre o Trópico de Câncer (23°N) e o Trópico de Capricórnio (23°S).[1] Esta vasta região biogeográfica representa aproximadamente 40% da superfície terrestre do planeta e é caracterizada por climas quentes durante todo o ano, alta pluviosidade (em muitas áreas) e uma extraordinária biodiversidade.[2]

O conceito de Pantropical é fundamental para compreender a distribuição global da vida na Terra, representando um dos três grandes núcleos biogeográficos do planeta, juntamente com o Holoártico (regiões temperadas e frias do Hemisfério Norte) e o Reino Florístico Antártico (regiões temperadas e frias do Hemisfério Sul).[3]

O termo "pantropical" também é utilizado para descrever taxa (espécies, gêneros ou famílias) cuja distribuição geográfica cobre as regiões tropicais de todos os continentes, ou seja, estão presentes nas regiões tropicais de África, Ásia e Américas, e frequentemente também na Oceania.[4]

Subdivisões

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A região Pantropical é tradicionalmente dividida em várias ecozonas biogeográficas, que refletem tanto a história geológica dos continentes quanto os padrões de evolução e dispersão das espécies:[5]

Paleotropical

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O Paleotropical (ou Paleotrópico) refere-se à região tropical do Velho Mundo, abrangendo:

Neotropical

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O Neotropical (ou Neotrópico) corresponde à região tropical do Novo Mundo, incluindo:

Esta ecozona é considerada a mais biodiversa do planeta, abrigando aproximadamente 40% de todas as espécies de plantas vasculares e vertebrados terrestres conhecidos.[7]

Flora pantropical

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A flora pantropical inclui numerosas famílias de plantas que apresentam distribuição em todas ou na maioria das regiões tropicais do mundo. Entre as principais famílias com distribuição pantropical encontram-se:[8]

Gêneros com distribuição pantropical incluem Acacia, Bacopa, Ficus (figueiras), Hibiscus e muitos outros.[4]

Fauna pantropical

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A fauna pantropical é extremamente diversificada, incluindo numerosos grupos de animais com distribuição em todas as regiões tropicais:[9]

Mamíferos

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Entre os mamíferos com distribuição pantropical destacam-se:

  • Mamíferos marinhos: Diversas espécies de golfinhos (família Delphinidae) e sirenídeos (peixes-boi e dugongos) ocorrem em águas tropicais de todos os oceanos.
  • Quirópteros (morcegos): Famílias como Pteropodidae (raposas-voadoras) e Phyllostomidae apresentam ampla distribuição tropical.
  • Primatas: Embora com famílias diferentes em cada região (Cercopithecidae na África e Ásia, Platyrrhini na América), os primatas são característicos de todas as florestas tropicais.

Numerosas famílias de aves apresentam distribuição pantropical, incluindo:

  • Psittacidae (papagaios e araras)
  • Trochilidae (beija-flores) - exclusivamente neotropicais, mas com nichos ecológicos semelhantes ocupados por outros grupos em outras regiões
  • Columbidae (pombos)
  • Ardeidae (garças)

Répteis e anfíbios

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Invertebrados

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A fauna de invertebrados pantropicais é extremamente rica, incluindo milhares de espécies de insetos, aranhas, moluscos e outros grupos, muitos dos quais apresentam radiações adaptativas independentes em cada região tropical.

Origem e dispersão

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A distribuição pantropical de muitos taxa pode ser explicada por diferentes processos biogeográficos:[10]

  • Origem Gondwana: Algumas linhagens de plantas e animais já estavam presentes antes da fragmentação do supercontinente Gondwana (há mais de 100 milhões de anos), resultando em distribuições vicariantes nas massas terrestres atuais.
  • Dispersão de longo alcance: Muitos taxa alcançaram distribuição pantropical através de dispersão oceânica, seja por correntes marinhas (sementes flutuantes, larvas marinhas), vento (esporos, sementes aladas) ou aves migratórias.
  • Migração através de pontes terrestres: Durante períodos de clima mais quente no passado geológico, algumas espécies tropicais puderam dispersar através de corredores em latitudes mais altas, posteriormente fragmentados pelas glaciações.
  • Introdução humana: Especialmente nos últimos séculos, muitas espécies adquiriram distribuição pantropical através do transporte humano intencional ou acidental.

Importância ecológica e conservação

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As regiões pantropicais abrigam a maior parte da biodiversidade terrestre do planeta, incluindo:

No entanto, as florestas tropicais e outros ecossistemas pantropicais enfrentam severas ameaças devido ao desmatamento, conversão para agricultura, mineração e mudanças climáticas. A conservação destas regiões é considerada uma das principais prioridades globais para a manutenção da biodiversidade planetária.[11]

Distribuições geográficas complementares

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O conceito de distribuição pantropical deu origem a duas distribuições geográficas complementares que são amplamente utilizadas em biogeografia:

Esta distinção é particularmente importante em estudos de biogeografia histórica, pois reflete a separação geológica entre os continentes do Novo e do Velho Mundo, bem como as diferentes histórias evolutivas das biotas em cada região.

Ver também

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Referências

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  1. «Pantropical». Encyclopedia.com (em inglês). Consultado em 17 de janeiro de 2026
  2. Moreno, J. S. (2012). «Pantropical distribution patterns in marine ecosystems». Marine Ecology Progress Series (em inglês). 467: 113-127. doi:10.3354/meps09942
  3. Cox, C. Barry; Moore, Peter D. (2016). Biogeography: An Ecological and Evolutionary Approach (em inglês) 9 ed. [S.l.]: Wiley-Blackwell. ISBN 978-1118968581
  4. 1 2 Andrés Moreira-Muñoz (2010). «Asteraceae: Chile's richest family». Plant Geography of Chile. Col: Plant and Vegetation (em inglês). 5. [S.l.]: Springer. pp. 221–248. ISBN 9789048187478. doi:10.1007/978-90-481-8748-5_8
  5. Schultz, Jürgen (2005). The Ecozones of the World (em inglês) 2 ed. [S.l.]: Springer. ISBN 978-3540200147
  6. 1 2 3 4 Olson, David M. (2001). «Terrestrial Ecoregions of the World: A New Map of Life on Earth». BioScience (em inglês). 51 (11): 933-938. doi:10.1641/0006-3568(2001)051[0933:TEOTWA]2.0.CO;2
  7. Mittermeier, Russell A. (2003). Hotspots Revisited (em inglês). [S.l.]: Conservation International
  8. Andrés Moreira-Muñoz (2010). «Geographical relations of the Chilean flora». Plant Geography of Chile. Col: Plant and Vegetation (em inglês). 5. [S.l.]: Springer. pp. 87–128. ISBN 9789048187478. doi:10.1007/978-90-481-8748-5_3
  9. Holt, Ben G. (2013). «An Update of Wallace's Zoogeographic Regions of the World». Science (em inglês). 339 (6115): 74-78. doi:10.1126/science.1228282
  10. Renner, Susanne S. (2004). «Plant dispersal across the tropical Atlantic by wind and sea currents». International Journal of Plant Sciences (em inglês). 165 (4 Suppl.): S23-S33. doi:10.1086/383334
  11. Myers, Norman (2000). «Biodiversity hotspots for conservation priorities». Nature (em inglês). 403: 853-858. doi:10.1038/35002501

Ligações externas

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