Papiro Ipuur

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Papiro Ipuur

O Papiro Ipuur (oficialmente Papiro Leiden I 344 recto) é um papiro egípcio antigo em hierático feito durante a XIX dinastia, hoje mantido no Museu Nacional de Antiguidades de Leiden, Países Baixos.[1] Contém as Admonições de Ipuur, uma obra literária incompleta cuja composição original é datada não antes do final da XII dinastia egípcia (c. 1991-1803 a.C.).[2]

Nas Admonições um homem chamado Ipuur reclama que o mundo está virado de cabeça para baixo e exige que o "Senhor de Todos" se lembre de seus deveres religiosos e destrua seus inimigos.[1] O poema é considerado o tratado mais antigo do mundo sobre ética política, sugerindo que um bom rei é aquele que controla os funcionários injustos, assim realizando a vontade dos deuses.[3] Ipuur é muitas vezes apresentado na literatura popular como uma confirmação da história do êxodo bíblico, mas estes argumentos ignoram os muitos pontos em que a obra contradiz o Êxodo.[4]

Origens e conteúdo[editar | editar código-fonte]

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Anteriormente, pensava-se que Ipuur apresentava um retrato do Egito no Primeiro Período Intermediário,[5][6] mas agora acredita-se que a data é do Império Médio tardio, mais precisamente o final da XII dinastia.[2] As Admoestações não são, de modo algum, um guia confiável para a história do Egito primitivo, uma vez que estas são conhecidas apenas a partir do papiro de Leiden, que foi feito muito mais tarde, por volta de 1250 a.C., durante a XIX dinastia (Império Novo).[1][7]

No poema, Ipuur (um nome típico do período entre 1850-1450 a.C.), queixa-se de que o mundo está de cabeça para baixo: uma mulher que não tinha uma única caixa agora tem mobília, uma menina que olhou para seu rosto na água agora possui um espelho, enquanto que o homem outrora rico agora está em trapos. Ele pede que o "Senhor de Todos" (um título que pode ser aplicado tanto ao rei como ao deus-sol criador) deve destruir seus inimigos e lembrar-se de seus deveres religiosos. Isto é seguido por uma descrição violenta da desordem: não há mais nenhum respeito pela lei e mesmo o enterro do rei dentro da pirâmide foi profanado. A história continua com a descrição de dias melhores até que ele termina abruptamente devido à parte final perdida do papiro. É provável que o poema tenha concluído com uma resposta do "Senhor de Todos", ou profetizando a vinda de um rei poderoso que restauraria a ordem.[5][6][1]

As Admonições são o tratado mais antigo do mundo sobre ética política, sugerindo que um bom rei é aquele que controla os funcionários injustos, assim realizando a vontade dos deuses.[3] É uma lamentação textual, próxima aos lamentos da cidade suméria e aos lamentos egípcios pelos mortos, usando o passado (a destruição de Mênfis no final do Império Antigo) como contexto sombrio para um futuro ideal.[8] As Admonições de Ipuur e as Reclamações de Khakheperresenb são obras de propaganda real inspiradas na anterior Profecia de Neferti: as três composições têm em comum o tema de uma nação que foi mergulhada no caos e desordem e a necessidade de um rei intransigente que iria derrotar o caos e restaurar maat. Assim, as Admonições e Khakheperresenb podem ter sido compostas durante o reinado de Sesóstris III, um faraó bem conhecido por seu uso de propaganda.[9]

Relações com o Livro do Êxodo[editar | editar código-fonte]

A evidência arqueológica não apoia a história do Êxodo, e a maioria dos relatos da antiga Israel já não o consideram relevante.[10][11] No entanto, Ipuur frequentemente aparece na literatura popular como uma confirmação do relato bíblico, mais notavelmente por causa de sua declaração de que "o rio é o sangue" e suas frequentes referências aos criados fugindo. Uma extensão da mesma leitura é a ideia de que tanto Ipuur como o Livro do Êxodo são registros de uma erupção vulcânica na ilha de Tera, no Egeu. Esses argumentos ignoram os muitos pontos em que a obra egípcia contradiz o Êxodo, tais como o fato de que seus asiáticos estão chegando ao Egito em vez de sair, e a probabilidade de que a frase "o rio é sangue" pode referir-se ao sedimento vermelho que cora o Nilo durante inundações desastrosas, ou pode ser simplesmente uma imagem poética de turbulência.[4]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências[editar | editar código-fonte]

Citações[editar | editar código-fonte]

  1. a b c d Quirke 2014, p. 167.
  2. a b Willems 2010, p. 83.
  3. a b Gabriel 2002, p. 23.
  4. a b Enmarch 2011, p. 173-175.
  5. a b Gardiner 1961, p. 109-110.
  6. a b Grimal 1992, p. 138.
  7. Shaw 2013, p. 745.
  8. Morenz 2003, p. 103-111.
  9. Wilkinson 2010, p. 174-175.
  10. Meyers 2005, p. 5-6.
  11. Moore & Kelle 2011, p. 81.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]