Patrimônio cultural imaterial
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Patrimônio cultural imaterial, também denominado patrimônio cultural intangível, refere-se ao conjunto de práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que comunidades, grupos e, em alguns casos, indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural.[2] Diferentemente do patrimônio material, esse tipo de herança cultural não se define prioritariamente por sua materialidade física, mas por seu caráter simbólico, performativo e relacional, sendo transmitido de geração em geração e constantemente recriado em função dos contextos históricos, sociais e ambientais.
A ampliação do conceito de patrimônio cultural ao longo do século XX esteve associada às críticas dirigidas às políticas de preservação centradas em monumentos, obras de arte e sítios históricos, que privilegiavam narrativas oficiais e expressões culturais das elites nacionais.[3] Nesse processo, práticas culturais vivas — como saberes tradicionais, formas de expressão oral, rituais, festividades, modos de fazer e sistemas simbólicos — passaram a ser reconhecidas como elementos fundamentais para a construção das identidades coletivas e para a valorização da diversidade cultural.[4]
A consolidação institucional do patrimônio cultural imaterial ocorreu com a adoção, pela UNESCO, da Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, aprovada em 2003 e em vigor desde 2006.[2] A convenção estabeleceu diretrizes internacionais para a identificação, documentação, salvaguarda e promoção dessas manifestações culturais, enfatizando o papel central das comunidades detentoras e a articulação entre patrimônio cultural, direitos humanos e desenvolvimento sustentável.
Desde então, numerosos países passaram a implementar legislações, inventários e programas específicos voltados à proteção do patrimônio cultural imaterial em níveis nacional, regional e local. Paralelamente, a inscrição de elementos nas Listas do Património Cultural Imaterial da Humanidade ampliou a visibilidade internacional dessas práticas, ao mesmo tempo em que fomentou debates acadêmicos e políticos sobre patrimonialização, mercantilização da cultura e a participação efetiva das comunidades nos processos de reconhecimento e salvaguarda.[5]
Conceito e definição
[editar | editar código]O conceito de patrimônio cultural imaterial designa práticas culturais vivas que não se materializam primordialmente em objetos ou edificações, mas em saberes, modos de fazer, formas de expressão, rituais, celebrações e sistemas simbólicos socialmente compartilhados.[2] Essas práticas são transmitidas sobretudo por meio da oralidade, da observação, da participação comunitária e da experiência cotidiana, constituindo-se como processos culturais dinâmicos e historicamente situados.
A definição mais difundida internacionalmente foi estabelecida pela Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, segundo a qual o patrimônio cultural imaterial compreende “as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas, juntamente com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados, que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural”.[2] Essa formulação ressalta o caráter relacional do patrimônio, ao vinculá-lo aos contextos sociais, históricos e ambientais nos quais é produzido e ressignificado.
No campo acadêmico, o patrimônio cultural imaterial é compreendido como parte de uma inflexão crítica nos estudos do patrimônio, que passou a questionar abordagens essencialistas, monumentalistas e tecnocráticas.[3] Nessa perspectiva, o patrimônio não constitui um conjunto fixo de bens a serem preservados, mas um processo social no qual diferentes atores, Estados, especialistas, comunidades e instituições, negociam significados, valores e usos do passado no presente.
Outro elemento central do conceito é a ênfase na diversidade cultural e no reconhecimento de sistemas de conhecimento historicamente marginalizados, incluindo tradições indígenas, afrodescendentes, camponesas e populares.[4] A ampliação do escopo do patrimônio cultural imaterial tem sido interpretada como uma resposta às assimetrias produzidas por processos coloniais e pela hegemonia de modelos culturais ocidentais, ainda que também suscite debates sobre os riscos de folclorização, mercantilização e instrumentalização política das culturas reconhecidas.[5]
História do conceito
[editar | editar código]A noção de patrimônio cultural imaterial emerge no contexto das transformações conceituais ocorridas no campo do patrimônio cultural ao longo do século XX, em paralelo às críticas dirigidas às políticas de preservação centradas exclusivamente em monumentos, obras de arte e sítios históricos.[3] Até meados do século, as iniciativas internacionais de salvaguarda privilegiavam bens materiais associados à história política, religiosa ou artística das elites nacionais, refletindo uma concepção restritiva e eurocêntrica de patrimônio.
Um marco fundamental nesse processo foi a Conferência Mundial sobre as Políticas Culturais (MONDIACULT), organizada pela UNESCO na Cidade do México, em 1982. A declaração final do encontro ampliou significativamente o conceito de cultura, passando a compreendê-la como o conjunto de traços espirituais, materiais, intelectuais e afetivos que caracterizam uma sociedade ou grupo social, incluindo modos de vida, sistemas de valores, tradições e crenças.[6]
Durante as décadas de 1990 e início dos anos 2000, a UNESCO e outros organismos internacionais aprofundaram esse debate, impulsionados tanto pelas demandas de países do Sul Global quanto pelo avanço da antropologia cultural e das ciências sociais.[5] Nesse período, ganharam destaque preocupações relacionadas à proteção de saberes tradicionais, à diversidade cultural e aos impactos da globalização sobre práticas culturais locais.
A consolidação formal do conceito ocorreu com a adoção da Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, aprovada em Paris em 2003 e em vigor desde 2006.[2] Diferentemente de instrumentos anteriores, a convenção reconheceu explicitamente o caráter dinâmico do patrimônio cultural imaterial e atribuiu centralidade às comunidades detentoras, deslocando o foco exclusivo do Estado para modelos participativos de salvaguarda.
A partir da implementação da convenção, diversos países passaram a desenvolver legislações, inventários e políticas públicas voltadas especificamente ao patrimônio cultural imaterial, contribuindo para a institucionalização global do conceito e, simultaneamente, para o surgimento de debates críticos sobre patrimonialização, usos políticos da cultura e os limites entre salvaguarda, musealização e mercantilização das práticas culturais vivas.[3]
Categorias e características
[editar | editar código]A Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial identifica grandes domínios nos quais o patrimônio cultural imaterial se manifesta, sem pretender estabelecer tipologias rígidas ou exaustivas.[2] Esses domínios funcionam como referenciais analíticos que permitem compreender a diversidade das práticas culturais reconhecidas.
Entre eles destacam-se a tradição oral e as expressões linguísticas; as práticas sociais, rituais e eventos festivos; os conhecimentos e práticas relacionados à natureza e ao universo; e as técnicas artesanais tradicionais. Embora algumas dessas manifestações resultem em bens materiais, o foco do reconhecimento recai sobre os saberes, habilidades, processos sociais e sistemas simbólicos envolvidos em sua produção e transmissão.
Para além dessas categorias, a convenção enfatiza características transversais que definem o patrimônio cultural imaterial, como seu caráter simultaneamente tradicional e contemporâneo, sua natureza representativa, o fato de ser baseado na comunidade e sua constante recriação ao longo do tempo.[2] Essas características reforçam a compreensão do patrimônio cultural imaterial como um processo vivo, marcado por negociações permanentes de sentido e adaptação às transformações sociais.
Salvaguarda e políticas públicas
[editar | editar código]A salvaguarda do patrimônio cultural imaterial constitui um dos eixos centrais da Convenção de 2003 e difere das políticas tradicionais de preservação voltadas à conservação física de bens materiais.[2] No caso do patrimônio imaterial, a salvaguarda concentra-se na criação de condições sociais, culturais e institucionais que garantam a continuidade das práticas culturais vivas.
Segundo a convenção, a salvaguarda envolve ações de identificação, documentação, pesquisa, transmissão, promoção, valorização e revitalização das manifestações culturais, especialmente por meio da educação formal e não formal.[2] Um princípio fundamental dessas políticas é o reconhecimento do papel central das comunidades, grupos e indivíduos detentores do patrimônio cultural imaterial, que devem participar ativamente dos processos de reconhecimento e gestão.[3]
Em âmbito internacional, a UNESCO coordena mecanismos de cooperação e reconhecimento, como as Listas do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, destinadas a promover a visibilidade dessas práticas sem estabelecer hierarquias de valor entre culturas.[5]
Exemplos notáveis
[editar | editar código]O patrimônio cultural imaterial manifesta-se de forma diversa em diferentes contextos culturais. Entre os exemplos internacionalmente reconhecidos destacam-se a roda de capoeira (Brasil), o Fado (Portugal), a Timbila dos povos chopes (Moçambique) e o Teatro Nô (Japão). Esses casos ilustram a pluralidade de formas, contextos históricos e sistemas simbólicos associados ao patrimônio cultural imaterial.
Para uma visão abrangente e atualizada, ver as Listas do Património Cultural Imaterial da Humanidade e os inventários nacionais desenvolvidos pelos Estados-partes da convenção.
Patrimônio cultural imaterial no Brasil
[editar | editar código]O Brasil desenvolveu um dos mais amplos sistemas nacionais de reconhecimento do patrimônio cultural imaterial, coordenado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), com base no artigo 216 da Constituição de 1988 e no Decreto nº 3.551/2000. Esse sistema inclui instrumentos como o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial e o Inventário Nacional de Referências Culturais, voltados à identificação, documentação e salvaguarda de práticas culturais significativas para diferentes grupos sociais.
Debates e críticas
[editar | editar código]O patrimônio cultural imaterial e as políticas associadas à sua salvaguarda têm sido objeto de debates críticos no campo acadêmico. Entre as principais questões discutidas estão os riscos de cristalização das culturas vivas, a mercantilização das práticas culturais e as assimetrias de poder entre Estados, especialistas e comunidades detentoras.[5]
Pesquisadores também destacam os desafios impostos por processos contemporâneos como globalização, migrações, urbanização acelerada e transformações tecnológicas, que impactam diretamente as formas de transmissão do patrimônio cultural imaterial e exigem abordagens de salvaguarda flexíveis e contextuais.[3]
Ver também
[editar | editar código]- Patrimônio histórico
- Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade
- Patrimônio Mundial
- Impactos do aquecimento global sobre o patrimônio histórico e cultural
- Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo
- Lei brasileira de preservação do patrimônio histórico e cultural
- Lista de património edificado em Portugal
- Lista do património edificado em Moçambique
- Lista do patrimônio histórico no Brasil
- Lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade
- Lista de obras primas do Património Mundial
Referências
- ↑ UNESCO 2014.
- ↑ a b c d e f g h i UNESCO 2003.
- ↑ a b c d e f Smith 2006.
- ↑ a b Canclini 1995.
- ↑ a b c d e Harrison 2013.
- ↑ UNESCO 1982.
Bibliografia
[editar | editar código]- Brasil (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Presidência da República
- Brasil (2000). Decreto nº 3.551, de 4 de agosto de 2000. Brasília: Presidência da República
- Canclini, Néstor García (1995). Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: Edusp
- Harrison, Rodney (2013). Heritage: Critical Approaches. Londres: Routledge
- IPHAN (2014). Inventário Nacional de Referências Culturais: Manual de Aplicação. Brasília: IPHAN
- IPHAN (2018). Bens Culturais Imateriais Registrados no Brasil. Brasília: IPHAN
- Smith, Laurajane (2006). Uses of Heritage. Londres: Routledge
- UNESCO (2003). Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial. Paris: UNESCO
- UNESCO (1982). Déclaration de Mexico sur les politiques culturelles (MONDIACULT). Paris: UNESCO
- UNESCO (2006). «Chopi timbila». Consultado em 13 de dezembro de 2023
- UNESCO (2011). «Fado, urban popular song of Portugal». Consultado em 13 de dezembro de 2023
- UNESCO (2014). «Decision of the Intergovernmental Committee: 9.COM 10.8». Consultado em 13 de dezembro de 2023
- UNESCO (2014). «Capoeira circle». Consultado em 13 de dezembro de 2023
Leituras complementares
[editar | editar código]- PARAFITA, Alexandre. A Mitologia dos Mouros. Porto: Gailivro, 2006.
- PARAFITA, Alexandre; et al. Os Provérbios e a Cultura Popular. Porto: Gailivro, 2007.
- PARAFITA, Alexandre. Património Imaterial do Douro. Vols. I e II. Lisboa: Âncora Editora, 2007–2010.
Ligações externas
[editar | editar código]- Patrimônio Imaterial - IPHAN
- Artigo - "Patrimônio: é de comer? Reconhecimento da tradição leva ao registro do Queijo Artesanal de Minas"
- Lei de Proteção ao Patrimônio Imaterial do Município de São Paulo[ligação inativa]
- Museu do Patrimônio Imaterial de São Paulo[ligação inativa]
- Patrimônio cultural - Dossiês dos Bens Culturais Imateriais registrados
- UNESCO - Patrimônio Intangível Consulta: dez. 2013
- Patrimônio Imaterial (em basco).
- Texto integral da Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial: (inglês), (espanhol), (francês).
- Página oficial da UNESCO sobre Patrimônio Cultural Imaterial: (inglês), (francês), (espanhol).
- Projetos de Patrimônio Cultural Imaterial (em basco).