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Perícope da Adúltera

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Pericope Adulterae.
Por Nicolas Poussin (1653), no Louvre, em Paris.

A Perícope da Adúltera (em latim: Pericope Adulterae) é um episódio bíblico que se encontra no Evangelho segundo João (João 7:53 até João 8:1–11).

Trata-se de uma perícope muito conhecida e polêmica a respeito de uma mulher que seria julgada por ter sido surpreendida em ato de adultério. Embora não seja dissonante do restante do texto, a maioria dos acadêmicos[1][2] concorda que a passagem não faz parte do texto original do evangelho de João.[3] Alguns exegetas identificam a mulher adúltera como Maria Madalena, porém não há nenhuma base histórica ou evangélica para confirmar esta identificação.

Existe agora um amplo consenso acadêmico de que a passagem é uma Interpolação posterior adicionada após os primeiros manuscritos conhecidos do Evangelho de João. No entanto, a maioria dos estudiosos acredita que era uma história bem conhecida que circulava na tradição oral sobre Jesus, que em algum momento foi adicionada na margem de um manuscrito. [4]

A passagem

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Segundo a Tradução Brasileira da Bíblia, o texto da Perícope é:

Cada um foi para sua casa; mas Jesus foi para o monte das Oliveiras. De madrugada voltou ao templo, e todo o povo ia ter com ele; e Jesus, sentando-se, o ensinava. Os escribas e os fariseus trouxeram uma mulher apanhada em adultério, puseram-na no meio de todos e disseram a Jesus: 'Mestre, esta mulher tem sido apanhada em flagrante adultério. Moisés nos ordenou na Lei que tais mulheres sejam apedrejadas; tu, pois, que dizes?' Isto diziam, experimentando-o, para ter de que o acusar. Jesus, porém, abaixando-se, começou a escrever no chão com o dedo. Como eles insistissem na pergunta, levantou-se e disse-lhes: 'Aquele que dentre vós está sem pecado, seja o primeiro que lhe atire uma pedra'. Tornando a abaixar-se, continuou a escrever no chão. Mas ouvindo esta resposta, foram saindo um a um, começando pelos mais velhos, ficando só Jesus e a mulher no lugar em que estava. Então levantando-se Jesus, perguntou-lhe: 'Mulher, onde estão eles? ninguém te condenou?' Respondeu ela: 'Ninguém, Senhor.' Disse Jesus: 'Nem eu tampouco te condeno; vai, e não peques mais'.

Contexto e Interpretação

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Os mestres da Lei (escribas) e os fariseus levaram a Jesus uma mulher surpreendida em adultério. Pela Lei de Moisés, extraída da Torá, ela deveria ser apedrejada até a morte. De fato, a Torá previa que o ato de adultério fosse punido com a morte por apedrejamento (Levítico 20:10 e Deuteronômio 22:22), mas, à época, a pena capital só poderia ser aplicada pelos governantes romanos; nenhum judeu detinha autoridade para sentenciar alguém à morte, muito menos executar a pena.

Os escribas e os fariseus queriam colocar Jesus em uma armadilha: se fosse pela condenação, iria contra a soberania romana e, se fosse pela absolvição, contrariaria a Lei Judaica. De uma ou de outra forma, os mestres da Lei e os fariseus teriam "motivos" para acusá-lo. Jesus, com a resposta "Quem dentre vós não tiver pecado, que atire a primeira pedra'", fez com que os acusadores ficassem sem argumentos para uma acusação formal e sem moral perante a multidão que assistia à cena.

A autenticidade do texto

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Codex Sangallensis 48, com o espaço em branco sem o trecho da pericope da adultera.

Histórico de Manuscritos

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A autenticidade desta perícope carece de unanimidade entre os especialistas, quanto a pertencer a João. Alguns afirmam ter sido incluído posteriormente, ato conhecido por interpolação, não fazendo parte dos escritos originais de João. Durante o século XVI, estudiosos da Europa Ocidental — tanto Católicos quanto Protestantes — buscaram recuperar o texto grego mais correto do Novo Testamento, em vez de confiar na tradução latina da Vulgata. Nessa época, notou-se que vários manuscritos antigos contendo o Evangelho de João não continham João 7:53–8:11 e também que alguns manuscritos contendo os versículos os marcavam com sinais críticos, geralmente um lemnisco ou asterisco. Também foi notado que, no lecionário da igreja grega, a leitura do Evangelho para o Pentecostes vai de João 7:37 a 8:12, mas pula os doze versículos desta perícope.

A perícope não consta dos manuscritos mais antigos de João: os códices P66 e o P75 do século III. Também não está presente no Codex Sinaiticus nem no Codex Vaticanus, do século IV. A perícope não ocorre nos manuscritos dos Evangelhos gregos do Egito. A Perícope da Adultera não está no Papiro 66 ou no Papiro 75, ambos atribuídos ao final dos anos 100 ou início dos anos 200, nem em dois manuscritos importantes produzidos no início ou meados dos anos 300, Sinaiticus e Vaticanus. O primeiro manuscrito grego sobrevivente a conter a perícope é o diglota latino-grego Codex Bezae, produzido nos anos 400 ou 500 (mas exibindo uma forma de texto que tem afinidades com as leituras "ocidentais" usadas nos anos 100 e 200). O Codex Bezae também é o manuscrito latino sobrevivente mais antigo a contê-la.

Bruce Metzger argumentou que "Nenhum padre grego antes de Eutímio Zigabeno (século XII) comentou sobre a Perícopa da Adúltera e Eutímio declarou que as cópias mais precisas dos Evangelhos não a continham".[5] São Jerónimo, século IV, em seu trabalho de tradução da Bíblia para o latim, a vulgata latina, incluiu-a por a ter encontrado em muitos manuscritos em grego e latim.[6] Em função disso, a Pericope Adulterae tornou-se universalmente conhecida. Segundo Haydock, Santo Ambrósio afirma que essa passagem era famosa na Igreja; e Santo Agostinho também se refere a ela.[7]

Pericope Adulterae.
Por Rembrandt (1644), na National Gallery de Londres.

O bispo J. B. Lightfoot escreveu que a ausência da passagem nos manuscritos mais antigos, combinada com a ocorrência de características estilísticas atípicas de João, implicava que a passagem era uma interpolação. No entanto, ele considerou a história como história autêntica. Como resultado, com base na menção de Eusébio de Cesareia de que os escritos de Papias continham uma história "sobre uma mulher falsamente acusada diante do Senhor de muitos pecados" (HE 3.39), ele argumentou que esta seção originalmente fazia parte das Interpretações dos Ditos do Senhor de Papias e a incluiu em sua coleção de fragmentos de Papias. O teólogo alemão Walter Klaiber também apoia a afirmação de que a passagem registra um evento real, consistente com os ensinamentos de Jesus. Outros estudiosos que apoiam a historicidade da história incluem en: George Beasley-Murray , B. F. Westcott, Carl B. Bridge, Bruce M. Metzger e Gary Burge. Giuseppe Segalla afirma que "quanto à historicidade, é geralmente positiva porque o episódio é perfeitamente consistente com o perdão de Jesus como aparece nos Evangelhos Sinóticos: na verdade, esta história tem as características da tradição Sinótica". Bart D. Ehrman concorda em Misquoting Jesus , acrescentando que a passagem contém muitas palavras e frases estranhas à escrita de João. O estudioso bíblico evangélico Daniel B. Wallace concorda com Ehrman.  No entanto, Wallace acredita que se baseia num evento real.

Traduções em Português

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Atualmente, esta passagem do evangelho de João é aceita pela maioria das igrejas cristãs como inspirada e, portanto, parte do Evangelho de João.Entretanto, algumas Bíblias frisam que este texto é uma interpolação e o apresentam entre colchetes. A Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, publicadas pelas Testemunhas de Jeová não incluem o trecho em sua tradução por não fazer parte dos manuscritos originais mais antigos; a revista A sentinela, na edição de 11/2017, diz: Alguns usam João 7:53–8:11, que aparece em algumas traduções da Bíblia, para dizer que só uma pessoa sem pecado pode julgar quem cometeu adultério. Mas muitos não sabem que essa passagem não fazia parte dos escritos originais. Além disso, essa ideia vai contra a lei mosaica: "Se um homem for encontrado deitado com uma mulher que é esposa de outro homem, ambos devem morrer juntos." — Deuteronômio 22:22

Traduções

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Almeida Revista e Corrigida (ARC): Inclui o texto completo (João 7:53–8:11). Sem colchetes nem aviso crítico.

Almeida Revista e Atualizada (ARA): Inclui a perícope, com nota de rodapé explicando que os melhores manuscritos não a contêm.[8]

Nova Versão Internacional (NVI): Inclui o texto, mas com nota clara de que os manuscritos mais antigos não trazem esse trecho. [9]

Tradução Brasileira (TB): Inclui a perícope integralmente.

Bíblia de Jerusalém (BJ): Inclui o texto, mas entre colchetes e com uma nota extensa informando que os manuscritos mais antigos e confiáveis não o contêm.

Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH): Inclui a perícope, mas explica em nota que o trecho não aparece nos manuscritos antigos.

Bíblia King James Atualizada (KJA): Inclui o texto integralmente, sem nota crítica.

Tradução do Novo Mundo (TNM): Não inclui o trecho, iniciando o capitulo 8 diretamente no versículo 12. A edição de estudo traz o texto na íntegra dentro de uma nota marginal com as explicações históricas do texto.[10]

Referências

  1. «NETBible: John 7». Bible.org. Consultado em 17 de outubro de 2009  See note 139 on that page.
  2. Keith, Chris (2008). «Recent and Previous Research on the Pericope Adulterae (John 7.53—8.11)». Currents in Biblical Research. 6 (3): 377–404. doi:10.1177/1476993X07084793 
  3. 'Pericope adulterae', in FL Cross (ed.), The Oxford Dictionary of the Christian Church, (New York: Oxford University Press, 2005).
  4. Ehrman, Bart D. (1 de janeiro de 2008). Whose Word is It?: The Story Behind who Changed the New Testament and why (em inglês). [S.l.]: A&C Black. Consultado em 7 de outubro de 2025 
  5. Metzger, Bruce (1971). Daniel B. Wallace, ed. A Textual Commentary on the Greek New Testament (em inglês). Stuttgart: [s.n.] pp. 219–221. Consultado em 4 de setembro de 2011. Arquivado do original em 7 de janeiro de 2010 
  6. Lib. ii. con. Pelag. tom. 4, part 2, p. 521. Ed. Ben.
  7. «John 8 – Haydock Commentary Online» (em inglês). Consultado em 31 de dezembro de 2021 
  8. «Bíblia Online - Leia, Pesquise e Estude a Bíblia em Diversos Idiomas». Bíblia Online. Consultado em 7 de outubro de 2025 
  9. «Bíblia Online - Leia, Pesquise e Estude a Bíblia em Diversos Idiomas». Bíblia Online. Consultado em 7 de outubro de 2025 
  10. «João 7 | Bíblia on-line | Tradução do Novo Mundo». JW.ORG. Consultado em 7 de outubro de 2025 

Ligações externas

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