Performatividade de gênero
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Performatividade de gênero é um conceito apresentado pela filósofa feminista pós-estruturalista Judith Butler em seu livro de 1990, Gender Trouble. Ela argumenta que o gênero não é um traço fixo e inerente, mas uma identidade fluida construída por meio de comportamentos, gestos e ações repetidos.[1][2] Essa perspectiva se baseia em ideias da teoria dos atos de fala e sugere que a encenação consistente de comportamentos de gênero cria a ilusão de uma identidade de gênero estável.[1][2]
Ao enfatizar que o gênero é continuamente constituído por meio de normas e práticas culturalmente prescritas, Butler procura desafiar as concepções binárias tradicionais de sexo e abrir espaço para reinterpretações subversivas, onde os próprios atos que perpetuam as normas de gênero podem ser reimaginados para contestar e transformar essas normas.[2]
Teoria
[editar | editar código]Baseando-se na teoria dos atos de fala do filósofo da linguagem John L. Austin, Butler sugere que o gênero é performativo, o que significa que ele surge por meio de práticas sociais, gestos e discursos repetidos que reforçam normas de masculinidade e feminilidade.[1][2] Essa repetição cria a ilusão de uma identidade de gênero estável, mas Butler enfatiza que essas performances não são voluntárias nem fixas; ao contrário, são moldadas por expectativas culturais e podem ser subvertidas por meio de performances alternativas.[2] Outras influências incluem Friedrich Nietzsche, Michel Foucault e Jacques Derrida.[2]:581
Butler caracteriza o gênero como o efeito da atuação reiterada, que produz o efeito de um gênero estático ou normal, ocultando a contradição e a instabilidade do ato de gênero de qualquer pessoa. Esse efeito produz o que podemos considerar como "verdadeiro gênero", uma narrativa sustentada pelo "acordo coletivo tácito para realizar, produzir e sustentar gêneros discretos e polares à medida que as ficções culturais são obscurecidas pela credibilidade dessas produções – e pelas punições que não concordam em acreditar nelas".[3]:179
Na hipótese de Butler, o aspecto performativo do gênero é talvez mais óbvio na performance drag, que evidencia a falta de uma conexão linear e essencial entre sexo biológico, gênero e desejo.[1] Ainda assim, Butler entende que o drag não pode ser considerado como um exemplo de identidade subjetiva ou singular, onde "há algum 'um' que é anterior ao gênero, aquele que vai para o guarda-roupa de gênero decide com deliberação qual gênero será hoje".[4]:21 Consequentemente, o drag não deve ser considerado a expressão honesta da intenção de sue performista. Em vez disso, Butler sugere que o que é realizado "só pode ser compreendido através de referência ao que é barrado do signatário dentro do domínio da legibilidade corpórea".[4]:24
Recepção e influência
[editar | editar código]De acordo com Butler, a performance de gênero é subversiva porque é "o tipo de efeito que resiste ao cálculo", o que quer dizer que a significação é múltipla, que o sujeito é incapaz de controlá-la e, portanto, a subversão está sempre ocorrendo e é sempre imprevisível.[4]:29 Moya Lloyd sugere que o potencial político das performances de gênero pode ser avaliado em relação a atos passados semelhantes em contextos semelhantes.[5] Por outro lado, Rosalyn Diprose argumenta que, se a vontade do indivíduo e a performance individual estão sempre sujeitas ao discurso dominante de um Outro (ou Outros), o potencial transgressivo da performance se restringe à inscrição de simplesmente outro discurso dominante.[6]
Amelia Jones propõe que esse modo de ver gênero ofereceu uma maneira de ir além das teorias do olhar e do fetichismo sexual, que haviam alcançado muita proeminência no feminismo acadêmico, mas que, na década de 1980, Jones via como métodos ultrapassados de entender o status social das mulheres. Jones acredita que o poder performativo de atuar o gênero é extremamente útil como referencial, oferecendo novas maneiras de considerar imagens como encenações com sujeitos corporificados em vez de objetos inanimados para o prazer visual dos homens.[7]
Em seu estudo da história transgênero, Susan Stryker afirma que a performatividade de gênero "se tornou central para a autocompreensão de muitas pessoas transgênero" e está alinhada com o apelo pós-transexual de Sandy Stone.[8]
Ásta reconhece os pontos fortes da metafísica de sexo e gênero de Butler, mas levanta preocupações sobre o papel das restrições biológicas na construção do sexo.[9] Ela propõe uma estrutura “conferencialista”, em que tanto o sexo quanto o gênero são construídos socialmente, mas sujeitos a diferentes restrições.
Ver também
[editar | editar código]Referências
- 1 2 3 4 Borba, Rodrigo (2014). «A linguagem importa? Sobre performance, performatividade e peregrinações conceituais». Cadernos Pagu: 441–474. ISSN 0104-8333. doi:10.1590/0104-8333201400430441
- 1 2 3 4 5 6 Lloyd, Moya (2016). «Performativity and Performance». In: Disch, Lisa Jane; Hawkesworth, Mary. The Oxford Handbook of Feminist Theory. New York: Oxford University Press
- ↑ Butler, Judith (1999). Gender trouble: feminism and the subversion of identity (em inglês). New York: Routledge
- 1 2 3 Butler, Judith (1 de novembro de 1993). «Critically Queer». GLQ: A Journal of Lesbian and Gay Studies (em inglês) (1): 17–32. ISSN 1064-2684. doi:10.1215/10642684-1-1-17
- ↑ Lloyd, Moya (abril de 1999). «Performativity, Parody, Politics». Theory, Culture & Society (em inglês) (2): 195–213. ISSN 0263-2764. doi:10.1177/02632769922050476
- ↑ Diprose, Rosalyn (1994). The bodies of women: ethics, embodiment, and sexual difference. London: Routledge
- ↑ Jones, Amelia, ed. (2006). The feminism and visual culture reader. London: Routledge
- ↑ Stryker, Susan (2008). Transgender history. Berkeley: Seal Press
- ↑ Sveinsdóttir, Ásta Kristjana (2011). «The Metaphysics of Sex and Gender». In: Witt, Charlotte. Feminist Metaphysics: Explorations in the Ontology of Sex, Gender and the Self. Dordrecht: Springer Netherlands