Petrus Plancius

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Petrus Plancius
Nascimento 1552
Morte 15 de maio de 1622 (70 anos)
Amsterdã
Cidadania República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos
Ocupação astrônomo, cartógrafo, teólogo, clérigo
Religião Protestantismo

Petrus Plancius, lusitanizado como Pedro Plâncio[1] (155215 de maio de 1622) foi um teólogo, clérigo, cartógrafo e astrônomo holandês. O nome que adotou para assinar trabalhos é a forma alatinada do seu nome de batismo, Pieter Platevoet.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Nasceu em Dranouter,[2] uma pequena aldeia rural atualmente localizada no município de Heuvelland, na província belga da Flandres Ocidental. Estudou teologia na Alemanha e em Inglaterra e com 24 anos tornou-se ministro da recém-fundada Igreja Reformada Holandesa, em nome da qual fundou igrejas em Mechelen, Lovaina e Bruxelas.[2] Após a tomada de Bruxelas pelos espanhóis em 1585 e temendo a Inquisição, Plâncio fugiu da cidade e radicou-se em Amesterdã, onde desenvolveu interesse pela cartografia.

Cartografia[editar | editar código-fonte]

Foi um dos filiados fundadores da Companhia Holandesa das Índias Orientais,[3] para a qual produziu vários mapas e cartas náuticas em que adotou, de forma inovadora, a projeção de Mercator. Ganhou idêntico renome por inventar um novo método para o cálculo da longitude, do qual recebeu a patente em 1594.[4]

Cartografia Celeste[editar | editar código-fonte]

A partir dos relatos de Américo Vespúcio, Andréa Corsali e Pedro de Medina, Plâncio tentou reproduzir em 1589 num globo celeste feito em parceria com Jacob Floris van Langren[5] as constelações do Triângulo Austral e do Cruzeiro do Sul, sem, no entanto, obter êxito, uma vez que as mapeou em áreas totalmente distintas da realidade.[6] No caso particular do Cruzeiro do Sul, esta figura já havia sido descrita e esboçada de forma fidedigna - pela primeira vez - pelo Mestre João, numa carta datada de 1500, em que a denomina "crux". Não obstante, alguns investigadores atribuem-lhe autoria a, entre outros, Américo Vespúcio (em 1501 ou 1503),[7] Andréa Corsali (em 1515 ou 1516),[8][9] ou ao próprio Plâncio, (em 1589 ou 1598).[6][5]

Em 1592, Plâncio desenhou um mapa-múndi em que constavam duas pequenas representações do céu de cada um dos hemisférios com as constelações correspondentes, introduzindo a figura da Pomba,[6] que viria a ser adotada pela União Astronómica Internacional (UAI) como uma das contemporâneas 88 constelações oficiais.

Ilustração das doze novas constelações do hemisfério celeste Sul, numa edição da obra de Johann Bayer datada de 1661, reproduzindo a que foi publicada na edição original do atlas Uranometria em 1603. Na página da esquerda observam-se Doradus (em baixo, ao centro), Phoenix, Hydrus, Tucana, Grus, Indus e Pavo; na da direita, Apus (aqui identificada como Apis Indica), Triangulum Australe, Chamaeleon, Musca (aqui identificada como Apis) e Volans.

Em 1595 pediu aos navegantes holandeses Pieter Dirkszoon Keyser e Frederick de Houtman que cartografassem o céu do hemisfério sul,[10] aproveitando a viagem destes às Índias Orientais a bordo do Hollandia. Após a recolha dos dados produziu, em finais de 1597 ou princípios de 1598, um globo celeste em que, para além da correção dos erros presentes na representação do hemisfério celeste sul nas obras anteriores, introduziu doze novas figuras[11] que viriam a ser adotadas como constelações oficiais pela UAI: a Mosca,[nota 1] a Ave do Paraíso, o Camaleão, o Dourado, o Grou, a Hidra Macho, o Índio, o Pavão, a Fênix, o Triângulo Austral (corrigido), o Tucano e o Peixe Voador.

A autoria destas doze constelações mantém-se até hoje controversa: enquanto a maioria dos investigadores a atribuem aos próprios Pieter Dirkszoon Keyser e Frederick de Houtman,[13] [14][15] outros creditam-nas exclusivamente a Keyser,[16][17] enquanto ainda há quem defenda que os navegantes teriam apenas recolhido os dados, cabendo a Plâncio agrupar as estrelas e decidir que figuras ilustrariam[18] os asterismos.

Seja como for, o globo celeste de Plâncio representou-as pela primeira vez, dando-lhes suficiente notoriedade para constarem da influente obra de Johann Bayer, o atlas celeste Uranometria, publicado em 1603, que as tornou célebres para a comunidade de astrônomos posteriores.

Em 1612 (ou 1613) introduziu, num novo globo celeste, mais duas figuras que viriam a ser adotadas pela UAI como constelações oficiais, assim como a Pomba: a Girafa e o Unicórnio.[6]

Para além das que foram assimiladas na lista de 88 constelações oficiais contemporâneas, Plâncio retratou nas suas obras outras sete que se tornaram obsoletas: Polophylax[19] - o "guarda do polo" - (no mesmo mapa-múndi de 1592 em que estreara a figura da Pomba), Iordanus (o Rio Jordão), Tigris (o Rio Tigre), Apes - cuja designação viria a ser alterada por autores posteriores para Musca Borealis (a Mosca Boreal), Gallus (o Galo), Cancer Minor (o Caranguejo Menor ou Caranguejinho) e Sagitta Australe (a Flecha Austral), sendo estas seis últimas introduzidas no globo celeste de 1612.[11]

Homenagens[editar | editar código-fonte]

Descoberto em 1960, o asteroide do cinturão principal 10648 Plancius, foi batizado em sua honra.[20]

Mapas[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas

  1. Plancius representou-a como um insecto voador, mas não lhe atribuiu qualquer designação; só na obra de Frederick de Houtman, de 1603, é que esta é identificada como sendo uma Mosca. Baseando-se em dados anteriores à obra de de Houtman, Bayer nomeou-a Apis (a Abelha), mas a figura acabaria por ficar conhecida pela designação fornecida por Frederick de Houtman.[12]

Referências

  1. COIMBRA, R. O. (2000). A bandeira do Brasil: raízes histórico-culturais. (PDF). Rio de Janeiro: IBGE. p. 313 
  2. a b Website do município de Heuvelland. «Petrus Plancius: predikant én vader van de zeevaart naar Indië» (em holandês). Consultado em 27 de julho de 2013 
  3. C.J. Zandvliet. «VOC ( Verenigde Oostindische Compagnie) Maps and Drawings». Arquivo da Companhia Holandesa das Índias Orientais - projecto TANAP sob auspício da UNESCO (em inglês). Consultado em 27 de julho de 2013 
  4. Cornelius Koeman. «Flemish and Dutch Contributions to the Art of Navigation in the XVIth Century» (em inglês). Revista da Universidade de Coimbra. 496 páginas. Consultado em 29 de julho de 2013 
  5. a b L. Phil Simpson. «Guidebook to the Constellations: Telescopic Sights, Tales, and Myths» (em inglês). pp. 559–560. Consultado em 31 de julho de 2013 
  6. a b c d Felice Stoppa. «Le Constellazione di Petrus Plancius». Atlas Coelestis (em italiano). Consultado em 27 de julho de 2013 
  7. Michael E. Bakich. «The Cambridge Guide to the Constellations» (em inglês). 82 páginas. Consultado em 31 de julho de 2013 
  8. Robert Gendler, Lars Lindberg Christensen, David Mali. «Treasures of the Southern Sky» (em inglês). pp. 12–14. Consultado em 31 de julho de 2013 
  9. Ian Ridpath. «Star Tales - Crux» (em inglês). Consultado em 31 de julho de 2013 
  10. Nick Kanas (2007). «Star Maps: History, Artistry, and Cartography» (em inglês). 119 páginas. Consultado em 27 de julho de 2013 
  11. a b Ian Ridpath (1988). «Star Tales - The Constellations of Petrus Plancius» (em inglês). Consultado em 27 de julho de 2013 
  12. Ian Ridpath. «Star Tales - Musca» (em inglês). Consultado em 26 de abril de 2015 
  13. Ian Ridpath. «Star Tales - Scouting the southern sky» (em inglês). Consultado em 2 de junho de 2014 
  14. «The Dome of the Sky - The Dutch Navigators» (em inglês). Consultado em 27 de julho de 2013. Arquivado do original em 31 de agosto de 2014 
  15. David Darling. «Plancius, Petrus». The Encyclopedia of Science (em inglês). Consultado em 27 de julho de 2013 
  16. Knobel, E. B. (1917). «On Frederick de Houtman's catalogue of southern stars, and the origin of the southern constellations» (em inglês). Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. 420 páginas. Consultado em 31 de julho de 2013 
  17. Sawyer Hogg, H (1951). «Out of Old Books (Pieter Dircksz Keijser, Delineator of the Southern Constellations)» (em inglês). Reprodução do artigo original publicado no Journal of the Royal Astronomical Society of Canada. 220 páginas. Consultado em 31 de julho de 2013 
  18. Elly Dekker (1985). «An alleged case of plagiarism: Frederick de Houtman and his contribution to celestial cartography» (em inglês). Caert-Thresoor - Jornal da história da Cartografia nos Países Baixos. Consultado em 31 de julho de 2013 
  19. Ian Ridpath. «Star Tales: Polophylax» (em inglês). Consultado em 29 de julho de 2013 
  20. Arquivo do JPL da NASA. «10648 Plancius» (em inglês). Consultado em 6 de Agosto de 2013