Placenta: Histofisiologia, amadurecimento e destinos no parto

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Introdução[editar | editar código-fonte]

A placenta é um órgão materno-fetal que começa a se desenvolver à medida em que o blastocisto se implanta, o blastocisto surge por volta do 5º e 6º dia do desenvolvimento e se configura como uma esfera oca. Após a implantação do blastocisto, será estimulada a reação decidual, responsável por fazer com que o endométrio se torne um tecido cheio de nutrientes e altamente vascularizado.

Por volta do 5º e 6º mês de gestação, a placenta está completamente formada e apresenta superfícies fetais e maternas distintas. A placenta será responsável por realizar diversas funções de grande importância, dentre elas a nutrição, excreção de ureia, respiração e produção de hormônios como o beta HCG e a progesterona.[1]

Desenvolvimento[editar | editar código-fonte]

A placenta se configura como interface física entre mãe e feto. Para garantir o crescimento, o desenvolvimento e a sobrevivência intra-uterina, ela induz modificações circulatórias. O útero, por exemplo, passa a apresentar baixa resistência ao fluxo sanguíneo, baixa reatividade vasomotora e alta complacência vascular, favorecendo a oferta de substratos para o feto. [2]

A implantação do blastocisto é completada na segunda semana, quando o trofoblasto se diferencia em dois grupos celulares distintos: citotrofoblasto e sinciciotrofoblasto. É nesse período que se observa o aparecimento de cavidades isoladas no sinciciotrofoblasto, denominadas lacunas trofoblásticas. [3]

Durante a 3ª semana, o mesoderma extraembrionário se prolifera, originando as vilosidades‑tronco terciárias, que invadem as lacunas trofoblásticas, tornando‑as repletas de sangue proveniente de capilares endometriais rompidos, estabelecendo a circulação uteroplacentária primitiva.

Dessa forma, o sangue materno flui pelas lacunas, disponibilizando oxigênio e nutrientes, que passam por difusão para o embrião. É válido pontuar que o sangue oxigenado é levado por artérias endometriais espiraladas e o sangue pobre em oxigênio é removido por veias endometriais.

Aproximadamente no 12° dia, as lacunas trofoblásticas fundem-se umas às outras para originar as redes lacunares. Enquanto isso, os capilares endometriais em torno do embrião adquirem um aspecto dilatado, originando vasos terminais denominados sinusóides. Esses vasos de parede delgada sofrem erosão, permitindo com que o sangue materno flua livremente para o interior das redes lacunares.

No final da 3ª semana, é perceptível a formação de um arranjo anatômico que possibilite trocas fisiológicas entre a mãe e o embrião. Ao passo que próximo ao final da 4ª semana de desenvolvimento, já está estabelecida uma rede vascular complexa na placenta.

Durante o 4° e 5° meses, tem-se o surgimento dos cotilédones, que são pequenas áreas convexas e irregulares nas quais a placenta é segmentada devido ao crescimento dos septos placentários (deciduais). Cada cotilédone é formado por cerca de duas vilosidades-tronco, associadas a seus inúmeros ramos, permitindo a livre circulação do sangue da mãe de um cotilédone para outro. [1]

Há uma camada externa de células trofoblásticas, denominada capa citotrofoblástica, localizada entre o córion viloso e a decídua basal, pela qual passam vasos endometriais que se abrem no espaço interviloso. Este recebe sangue materno oriundo das artérias espiraladas do endométrio, que atravessam fendas da capa citotrofoblástica. Esse espaço é drenado por veias endometriais, dispostas por toda a superfície da decídua basal. [3]

Circulação Placentária Fetal[editar | editar código-fonte]

A distribuição do oxigênio no feto inicia-se a partir do espaço interviloso. Assim, as vilosidades coriônicas terminais disponibilizam uma extensa superfície que possibilita a troca de materiais através de uma membrana placentária, localizada entre as circulações fetal e materna.

Nessa perspectiva, o sangue pobre em oxigênio é transportado do feto até a placenta pelas artérias umbilicais. Próximo ao cordão umbilical, essas artérias se ramificam em artérias coriônicas, que também se ramificam novamente antes de adentrarem na vilosidade coriônica.

Dessa forma, tem-se a formação de um vasto sistema arteriocapilar-venoso dentro das vilosidades coriônicas. Esse mecanismo mantém o sangue fetal em alta proximidade com o sangue materno sem, entretanto, ocorrer misturas, o que permite a difusão de produtos metabólicos e gasosos entre as duas correntes sanguíneas. [3]

Dessa maneira, o sangue fetal rico em oxigênio dos capilares fetais segue para as veias que acompanham as artérias coriônicas até o ponto de união do cordão umbilical, onde elas se unem para dar origem à veia umbilical. Por este vaso apresentar o maior teor de oxigênio da circulação fetal, o encaminhamento do retorno venoso ao ventrículo esquerdo é o que determina a oxigenação de outros tecidos vitais [4]

Neste trajeto, ocorre mistura com o sangue não oxigenado, contudo, esta é minimizada devido a duas passagens que desaparecem após o nascimento: o forame oval e o ducto venoso. Aproximadamente metade do fluxo da veia umbilical é desviado pelo ducto venoso, circuito direto entre a veia umbilical e a veia cava inferior. Dessa forma, esse ducto de pequeno calibre é capaz de projetar, em alta velocidade para a veia cava, o sangue oxigenado que alcança o átrio direito.

Já o forame oval, abertura que estabelece o fluxo preferencial de sangue do átrio direito para o átrio esquerdo, permite com que o sangue rico em oxigênio possa ser direcionado para o ventrículo esquerdo e, consequentemente, para o miocárdio e cérebro [5]

Enquanto o sangue desoxigenado, que adentra o ventrículo direito seguiria para a circulação pulmonar. Todavia, tendo em vista que na vida intrauterina os pulmões ainda se encontram colabados, a maior parte desse sangue atravessa o ducto arterial, atingindo a aorta descendente.

Além disso, as artérias umbilicais, pobres em oxigênio e nutrientes, direcionam-se à placenta, constituindo a circulação placentária-fetal.

Circulação Placentária Materna[editar | editar código-fonte]

As artérias espiraladas apresentam fluxo sanguíneo pulsátil, o que faz com que o sangue seja lançado em jatos no espaço interviloso. A placa coriônica, que compõe uma das paredes desse espaço, recebe esse sangue, que flui em torno das vilosidades terminais, possibilitando a troca de produtos gasosos e metabólicos com o sangue fetal. Por fim, as veias endometriais são as responsáveis por transportar o sangue de volta à circulação materna.

O espaço interviloso de uma placenta madura comporta cerca de 150 mL de sangue materno, que é renovado de três a quatro vezes por minuto.[3]

Histologia[editar | editar código-fonte]

A placenta apresenta duas porções: uma porção fetal, derivada do saco coriônico, e uma porção materna, que se desenvolve a partir da decídua basal. A decídua basal, nada mais é do que uma parte do endométrio que é transformado. A porção fetal passa a se chamar córion frondoso, enquanto a porção materna, que se incorpora à parede uterina, é chamada de placa basal. [6]

O lado fetal é liso e estabelece associação com a membrana amniótica, já o lado materno é dividido em lobos. Sabendo que o componente materno é representado pela decídua, é possível estabelecer três regiões de decídua:

  1. Decídua basal: É o componente materno da placenta. Os vilos coriônicos voltados para a decídua basal serão responsáveis por formar o córion frondoso
  2. Decídua capsular: É a camada superficial. Recobre o embrião em desenvolvimento.
  3. Decídua parietal: Restante da decídua que corresponde à camada uterina não ocupada pelo feto.

O espaço interviloso, entre os componentes materno e fetal, contém sangue materno circulante.

O vilo coriônico é a estrutura básica envolvida nas trocas materno-fetais. Cada vilo é formado por um eixo de tecido conjuntivo mesenquimal e vasos sanguíneos fetais, ou seja, arteríolas e capilares.

O eixo mesenquimal possui dois tipos celulares principais:

  1. Células mesenquimais: São células que vão se diferenciar em fibroblastos que, por sua vez, estão envolvidos na síntese de vários tipos de colágenos e componentes da matriz extracelular
  2. Células de Holfbauer: São células fagocíticas que predominam no início da gravidez.

Além disso, o eixo mesenquimal é coberto pelo sinciciotrofoblasto, que é uma massa protoplasmática multinucleada que está em contato com o sangue materno no espaço interviloso e por células do citotrofoblasto, que são subjacentes ao sinciciotrofoblasto.

As células citotrofoblásticas se dividem por mitose e se diferenciam no sinciciotrofoblasto que, por sua vez, não apresenta mitose. Além disso, as células do citotrofoblasto são unidas umas às outras bem como ao sinciciotrofoblasto por desmossomos. Tanto o citotrofoblasto quanto o sinciciotrofoblasto participam da formação da barreira placentária responsável por separar os vasos fetais do sangue materno no espaço interviloso.

Após o quarto mês de gestação, os vasos sanguíneos fetais vão se tornar dilatados e passam a entrar em contato direto com a lâmina basal subepitelial. As células citotrofoblásticas diminuem em número e o sinciciotrofoblasto passa a predominar. Além disso, o tecido conjuntivo fetal do vilo deixa de ser predominante na placenta madura. [7]

Fisiologia[editar | editar código-fonte]

A placenta é responsável pela transferência de gases para o feto, papel desempenhado pelos pulmões ao nascimento. Atua também de maneira semelhante aos rins, realizando a excreção, o balanço hídrico e a manutenção fisiológica do pH fetal. Tem função endócrina, secretando os hormônios proteicos como a gonadotrofina coriônica (hCG) e esteróides como a progesterona, estradiol, estrona e estriol. O fluxo sanguíneo uterino origina-se das artérias uterinas, com mais ou menos contribuição das artérias ovarianas. [8] Além de tudo isso, ela é responsável pela transferência das imunoglobulinas maternas, que são absorvidas pelo sinciciotrofoblasto e então transportados para os capilares fetais, conferindo assim uma imunidade passiva [7]

I- Difusão de Gases, Nutrientes e Excretas[editar | editar código-fonte]

  • Difusão de oxigênio através da placenta:

O oxigênio dissolvido no sangue dos grandes sinusóides maternos passa para o sangue fetal por difusão simples, conduzido pelo gradiente de pressão de O2 criado entre eles.

Os sinusóides placentários tem a PO2 em torno de 50 mmHg, enquanto que o sangue fetal (após oxigenado pela placenta) tem a PO2 em torno de 30 mmHg. Ainda assim, o sangue fetal carrega mais oxigênio do que a demanda necessária, mais até do que o sangue materno para os seus tecidos. Isso acontece por conta de três mecanismos:

  1. Afinidade da Hb fetal: as hemácias do feto possuem uma hemoglobina específica, a hemoglobina fetal, que difere da hemoglobina materna (que pode ser HbA e HbB). Quando comparadas em um mesmo nível de pressão parcial de oxigênio (pO2), a HB fetal mostra mais afinidade pelo oxigênio do que a HB materna, carregando muito mais moléculas. Isso fica evidente quando observa-se a curva de saturação do oxigênio pela hemoglobina, pois a HB fetal satura em pO2 mais baixa do que a HB materna.
  2. Concentração de Hb: a concentração de hemoglobina no sangue fetal é aproximadamente 50% maior do que a concentração no sangue materno.
  3. Duplo efeito Bohr: quando o sangue fetal com alta concentração de dióxido de carbono entra na placenta, difunde o CO2 para o sangue materno por difusão passiva por conta do gradiente de pressão entre os dois ambientes. Isso causa um sangue fetal mais alcalino pela perda do CO2 e um sangue materno mais ácido, pelo ganho do gás. Isso intensifica a captação de oxigênio pelo sangue fetal, forçando a saída dele do sangue materno. [9]
  • Difusão de dióxido de carbono através da placenta:

Da mesma forma que no corpo materno continuamente se forma dióxido de carbono, assim também ocorre no feto. A PCO2 do sangue fetal é cerca de 2 a 3 mmHg maior do que no sangue materno placentário, gradiente pressórico suficiente para permitir a difusão adequada, porque a alta solubilidade do CO2 na membrana placentária permite que ele se difunda 20 vezes mais rápido que o oxigênio. [9]

  • Difusão de nutrientes através da placenta:

Alguns nutrientes se difundem facilmente pela membrana placentária, e são eles a glicose, os ácidos graxos, corpos cetônicos e íons potássio, sódio e cloreto. Assim como o oxigênio, os ácidos graxos se difundem facilmente, porém mais lentamente que a glicose, que é muito mais usada para o feto para a sua nutrição. A glicose vai para o feto por difusão facilitada através de transportadores das células trofoblásticas. Nos últimos estágios da gravidez, o feto usa mais glicose do que todo o corpo da mãe. [9]

  • Excreção de resíduos através da placenta:

Assim como o dióxido de carbono se difunde do sangue fetal para o sangue materno ocorre também com os produtos excretórios do feto, que são produtos nitrogenados não protéicos, como uréia, ácido úrico e creatinina. A excreção do feto depende dos gradientes de difusão pela placenta e sua permeabilidade, e como esses produtos estão em maior concentração no sangue fetal, ocorre difusão contínua para o sangue materno. O nível de uréia é ligeiramente maior, enquanto que o de creatinina é bem maior. [9]

II- Fatores Hormonais na Gravidez[editar | editar código-fonte]

  • Secreção de gonadotropina coriônica humana:

Antes da formação da placenta, as células trofoblásticas sinciciais secretam gonadotropina coriônica humana, que é responsável por estimular a liberação de progesterona e estrogênio pelo corpo lúteo, impedindo a involução do corpo e consequentemente a menstruação, permitindo que o endométrio continue a crescer e a armazenar nutrientes. À partir da décima segunda semana, a placenta já consegue liberar progesterona e estrogênio suficiente para manter a gravidez, e o corpo lúteo involui lentamente. [9]

  • Secreção de estrogênios pela placenta:

Compostos esteróides androgênicos formados pelas glândulas adrenais da mãe ou do feto, desidroepiandrosterona e 16-hidroxidesidroepiandrosterona, são transportados pelo sangue para a placenta e convertidos pelas células trofoblásticas em estrogênios (estradiol, estrona e estriol). Os estrogênios na gravidez tem como função aumentar as estruturas maternas para acompanhar o desenvolvimento do feto. Eles são responsáveis por aumentar o útero em tamanho, em sua camada muscular e vascularização. Aumenta a estrutura dos ductos das mamas maternas e o volume delas. Além disso, promove a dilatação da genitália feminina externa da mãe. No final da gravidez a secreção de estrogênio supera a de progesterona, o que promove o relaxamento dos ligamentos pélvicos da mãe, para que as articulações sacroilíacas fiquem mais maleáveis e a sínfise púbica mais elástica, o que facilita a passagem do feto pelo canal de parto. [9]

  • Secreção de progesterona pela placenta:

A progesterona é essencial para a gravidez, responsabilizando-se pela nutrição para desenvolvimento do feto, e por isso desde o princípio é secretada em grandes quantidades. Ela faz com que as células deciduais importantes para a nutrição inicial do embrião se desenvolvam no endométrio, além de contribuir com o concepto mesmo antes da implantação, quando aumenta as secreções da trompa uterina e do útero para proporcionar material nutritivo ao embrião. A secreção de progesterona ajuda o estrogênio a preparar as mamas para lactação, promovendo a deposição de nutrientes nas células glandulares. Uma importante ação da progesterona é manter o útero relaxado, evitando abortos espontâneos por contrações uterinas.[9]

  • Secreção de somatomamotropina coriônica humana:

Hormônio descoberto recentemente, cuja secreção inicia na quinta semana da gravidez, aumentando progressivamente até o parto. Estudos experimentais têm mostrado que, quando administrada em grandes quantidades, pode promover o desenvolvimento das mamas entretanto no ser humano acredita-se que essa função seja extremamente fraca. Um segundo efeito desse hormônio é promover o crescimento do feto, semelhante ao efeito do hormônio do crescimento, porém esse efeito também é fraco. No entanto esse hormônio diminui a sensibilidade à insulina e a utilização de glicose pela mãe, tornando-a mais disponível para o feto. Ao mesmo tempo promove uma mobilização aumentada de ácidos graxos dos tecidos adiposos da mãe, de modo que possa usar essa gordura como fonte alternativa. Logo, é um hormônio metabólico geral, com implicações nutricionais para feto e mãe. [9]

Amadurecimento Placentário[editar | editar código-fonte]

  • Constituição embriológica da placenta e modificações histológicas durante a gestação:

Sabendo que a placenta humana é constituída pela decídua basal (parte maternal, endométrio) e pelo córion viloso (parte fetal, sinciciotrofoblasto e citotrofoblasto). Dessa forma, pode-se afirmar que a membrana placentária é embriologicamente formada por sinciciotrofoblasto, citotrofoblasto, mesênquima das vilosidades e endotélio dos capilares fetais. Com o avanço da gravidez, a membrana placentária se torna mais delgada e ocorre uma aproximação dos capilares ao sincício. [1]

A placenta apresenta crescimento contínuo até aproximadamente 37 semanas, quando inicia um processo de envelhecimento e gradual cessação das trocas materno-fetais. As vilosidades coriais alteram-se no curso da gestação com modificações como tamanho, aspecto e quantidade do trofoblasto (maturação placentária leva a uma diminuição do espessamento trofoblástico) de um trimestre para outro [10]

  • Diferenciação histológica trimestral:

Como entre a vilosidade corial do ovo jovem e a placenta senil existem inúmeros quadros transicionais, a diferenciação entre os 3 trimestres é feita didaticamente.

Assim, no primeiro trimestre tem-se que a membrana placentária apresenta 4 camadas, sendo elas: sinciciotrofoblasto, citotrofoblasto, tecido de conexão e endotélio do capilar fetal. No segundo trimestre, o citotrofoblasto não forma mais camada contínua, o tecido conjuntivo tem sua quantidade reduzida e tanto o número quanto o tamanho dos capilares aumentam. No terceiro trimestre, com o decorrer da gestação, a membrana placentária vai se tornando mais fina e a quantidade de capilares intravilosos se aproxima do sinciciotrofoblasto. Próximo ao fim da gestação, material fibrinóide dispõe-se na superfície das vilosidades [7][10]

A placenta pode apresentar diferentes graus de maturidade, com enfoque histológico, como pode ser observado a seguir:

  1. Grau 0 = observa-se uma massa placentária homogênea e ecogênea; lâmina coriônica lisa. Entre o 1° trimestre e início do 2° trimestre; 0% de maturidade pulmonar.
  2. Grau I = presença de áreas hiperecogênicas dispersas na massa placentária; com entalhes discretos na lâmina coriônica. Identificado do 2° trimestre até o início do 3° trimestre; 66% de maturidade pulmonar.
  3. Grau II = placenta com calcificações basais e presença de entalhes mais evidentes na placa coriônica. Identificada no 3° trimestre; 88%.
  4. Grau III = placenta com áreas ecogênicas centrais e entalhes de calcificações que atingem a placa basal, definindo os cotilédones. Identificado no final do 3° trimestre; 100% de maturidade [11]
  • Avaliação placentária e classificação do grau de maturação placentária:

A avaliação placentária ocorre durante a gestação e logo após o parto. Durante a gestação são feitas periódicas avaliações ultrassonográficas em que são considerados os seguintes parâmetros: textura, grau de maturidade, localização e espessura.

Considerando o grau de maturidade, a classificação placentária baseia-se nas mudanças que ocorrem na placa coriônica, no tecido placentário e na lâmina basal, compreendendo 4 fases progressivas e relativamente distintas de sua maturação.

O grau (fase) de maturidade é mensurado pela Classificação de Grannum [12]. Criada no fim dos anos 70, essa classificação obtêm o grau de maturidade pela intensidade, quantidade e extensão de calcificação placentária. Pela ultrassonografia (USG), os 4 graus (fases) são expressos por escore que varia de 0 a III, sendo:

  1. Grau 0 = placenta homogênea sem calcificações
  2. Grau I = presença de pequenas calcificações intraplacentárias (vistas como pontos brancos no ultrassom)
  3. Grau II = calcificações na placa basal (início da formação de septos)
  4. Grau III = compartimentação da placenta pela presença de calcificações da placa basal até a placa coriônica, com formação de cotilédones [12]
  • Implicações fisiopatológicas do amadurecimento placentário:

Determinar o grau de maturação placentária é importante pelas suas implicações patológicas. Existe uma associação entre o grau de calcificação placentário e a maturação pulmonar fetal (maior a relação lecitina/esfingomielina significa maior a maturidade pulmonar). Além disso, existe a Senescência Placentária, que é a maturação placentária precoce. A calcificação precoce aumenta consideravelmente a possibilidade da Restrição de Crescimento Intra-Uterino (RCIU), causa frequente de morbidade e mortalidade perinatal. Existem valores de grau de maturidade em relação à IG que apontam a Senescência Placentária. O Grau II e o Grau III Placentários anteriores à 32a semana e à 35a semana de IG, respectivamente, indicam calcificação precoce placentária [12] [13]

A relação lecitina/esfingomielina foi o primeiro teste bioquímico a ser relatado, em 1971. Como dito anteriormente, a lecitina é o fosfolipídio mais abundante na composição do surfactante e sua concentração aumenta a partir de 28 semanas até o parto. A relação L/E descreve a alteração relativa na concentração de lecitina em relação à esfingomielina no líquido amniótico através da técnica de cromatografia. Como a concentração de esfingomielina se mantém constante no último trimestre de gestação, ela serve como um padrão com o qual a concentração de lecitina pode ser comparada. Assim, quanto maior a idade gestacional, maior a relação L/E, o que se correlaciona com a maturidade do pulmão fetal. O ponto de corte frequentemente usado para indicar maturidade pulmonar fetal é 2,0. [14]

Destinos Após o Parto[editar | editar código-fonte]

Após o nascimento do bebê, continua a acontecer algumas contrações leves a fim de expulsar a placenta. No caso do parto normal, a placenta é expulsa dentro de 30 minutos e no caso da cesária o médico é responsável por remover a placenta. [15]

  • Exames após o parto:
  1. Ectoscopia: Consiste na inspeção dos lados materno e fetal, verificando a integridade das membranas placentárias, bem como o rompimento de vasos. Além disso, há a inspeção do cordão umbilical, qual se observa o número de vasos (2 artérias e 1 veia), a presença de nós e a geléia de Wharton [10]
  2. Análise histopatológica: O exame histopatológico da placenta pode apresentar lesões morfológicas relevantes, sugerindo e/ou confirmando doenças maternas ou fetais. As principais doenças identificáveis consistem em alterações do desenvolvimento vilositário, por vezes, sugerindo etiologia genética, infecções congênitas estabelecendo sua via de transmissão (ascendente ou hematogênica) e seu agente etiológico, doenças maternas como a DHEG e diabetes, além de doenças imunológicas e neoplásicas.
  • Descarte biológico:

O descarte é feito seguindo protocolos de segurança determinados pela Anvisa (Resolução RDC nº 33/03) em relação a materiais contaminantes. Após coleta junto com os demais lixos hospitalares, de uma forma geral ocorre a incineração em aterro sanitário.

  • Necropsia e sepultamento:

A necropsia placentária se faz necessária pela relevante associação de óbitos com causas placentárias. Sendo assim, em casos de morte fetal, tanto o concepto quanto a placenta são enviados ao Serviço de Verificação de Óbito (SVO) ou Instituto Médico Legal (IML) regional. O sepultamento pode, ou não, acontecer.

  • Entrega direta à mãe:
  1. Coleta do sangue do cordão umbilical: A coleta não é obrigatória e não é normalmente feita pelo SUS (apenas em casos de doação para bancos públicos). Geralmente, é realizada no próprio hospital por laboratórios particulares de armazenagem. Após a coleta, a placenta pode ser entregue para a mãe ou descartada [16]
  2. Aspectos culturais e apego emocional: Costumes culturais ou até mesmo somente um apego emocional ao órgão têm levado muitas mulheres a enterrarem suas placentas, por acreditarem que o ato pode trazer benefícios espirituais à criança ou por desejarem que o material orgânico seja utilizado para nutrição solo.  Na população ocidental, o descarte biológico é o destino mais comum. [17]
  3. Placentofagia humana: Trata-se basicamente de uma prática que consiste na ingestão da placenta pela mãe após o parto. Ocorre de diversas formas: in natura, processadas para sucos e sopas, cozidas e até mesmo em cápsulas (algumas farmácias de manipulação fazem esse serviço através da desidratação do órgão e posterior encapsulação). De uma forma geral, muitas mulheres praticam esse ato por crerem que há um alto teor de ferro e que os hormônios presentes na placenta iriam colaborar para o bem-estar da mãe, além de prevenir problemas como a depressão pós-parto e ajudar na produção de leite e recuperação do útero. Além disso, existe uma argumentação biológica de que a placentofagia humana deveria ser uma prática natural por ser comum entre os demais mamíferos. Todavia, é necessário placentofagia humana seja desmitificada com bases científicas e que seus riscos sejam divulgados. Sobre a argumentação biológica, é preciso ressaltar que os mamíferos que comem suas placentas o fazem de forma evolutiva e instintiva para afastar os predadores que seriam atraídos pelo sangue placentário. Outra explicação é que boa parte desses mamíferos precisam da placenta para fins energéticos após a gestação [18]. A argumentação de que a placenta é uma fonte ótima de ferro não é persistente, visto que sua a ingestão oral não apresenta quantidade superior à de um bife bovino, por exemplo. Sobre os hormônios, sabe-se que sua ingestão, horas após o parto, não é efetiva pela digestão. Sobre o aumento da ejeção de leite e uma melhor regeneração uterina, observa-se que não há uma relação científica evidente [19]. O estudo feito na Faculdade de Medicina de Northwestern, em Chicago, analisou dez pesquisas sobre o tema publicadas recentemente e disse não ter encontrado evidências de que o consumo de placenta ofereça proteção contra depressão pós-parto, ou que reduza dores, dê mais energia. O American Journal of Obstetrics & Gynecology sugere que o consumo da placenta pode expor tanto a mãe quanto o bebê a infecções. Um relatório divulgado pelo Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC) mostrou que, caso não seja esterilizada apropriadamente, a placenta pode conter bactérias e vírus, inclusive HIV, zika e hepatite, propiciando a contaminação. Segundo o documento, existem relatos de bebês que já foram infectados [19] Portanto, a mãe deve ser alertada sobre os riscos conhecidos e, ainda, da presença de muitos fatores desconhecidos. Infelizmente, existe um interesse comercial importante na placentofagia. Nos Estados Unidos, encapsular placentas custa em torno de 200 a 400 dólares. A empresa Independent Placenta Encapsulation Network oferece treinamento e serviços na área. Ela cobra cerca de US$ 250 para transformar a placenta em cápsulas e US$ 40 por uma vitamina de placenta. [20] No Brasil, o valor do produto pode chegar a 1500 reais. [21]
  4. Clampeamento tardio: A prática do parto de Lotús está ligada à crença espiritual de que deixar que a placenta se desprenda naturalmente proporcionará tempo para que a transição davida intrauterina para a vida fora do útero ocorra tranquilamente. [22] Existe, também, o embasamento científico na prática desse tipo de parto, já que o clampeamento tardio do cordão (corte do cordão ocorre somente após 3 minutos da dequitação placentária) permite que no intervalo ainda ocorrerá pulsação e, portanto, nutrição do recém-nascido. De fato, existem evidências que o clampeamento tardio diminui a taxa de anemia dos bebês até um ano de idade, no entanto, como o parto de Lótus consiste em não clampear o cordão em nenhum momento, os riscos de infecção são muito altos, já que o órgão entrará em degradação e, segundo os conceituados médicos do Royal College of Obstetricians and Gynecologists, do Reino Unido, essa possível infecção do órgão pode ser extensiva ao bebê. [23]
  • A legislação brasileira sobre os destinos da placenta:

Por ser um material biológico potencialmente contaminante (pela exposição ao ambiente hospitalar) é recomendado o descarte. Profissionais da área médica e a maioria dos hospitais consideram a prática como padrão e, ao receber um pedido diferente, por muitas vezes alegam (por desinformação ou falta de hábito) que não é possível. Mas o direito de escolha da mulher é a prioridade.  

De acordo com a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS), "as instituições de saúde devem preservar o direito das mulheres em decidir sobre vestimentas (própria e do recém-nascido), sobre a alimentação, o destino da placenta, e outras práticas culturalmente significantes”.

Além disso, não há disposição expressa da lei para que haja o descarte da placenta para o lixo hospitalar, tendo de ser considerado o Art. 5º, inciso II da Constituição Federal que diz:

II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei. [24]

Referências

  1. a b c SCHOENWOLF, Gary (2016). Larsen Embriologia Humana. São Paulo: Elsevier 
  2. HG, Dixon (1967). The physiological response. of the vessels of the placental bed to normal pregnancy. [S.l.]: J Pathol Bacteriol 
  3. a b c d MOORE, Keith L (2008). Embriologia clínica. Rio de Janeiro: Elsevier 
  4. Montenegro, CAB (1994). Centralização Fetal. [S.l.]: Femina 
  5. Wladmiroff, JW (1986). Doppler ultrasound assessment of cerebral blood flow in the human fetus. [S.l.]: Br J Obstet Gynaecol 
  6. ROSS, Michael H. (2012). Atlas de Histologia Descritiva. Porto Alegre: Artmed 
  7. a b c KIERSZENBAUM, Abraham L (2008). HISTOLOGIA E BIOLOGIA CELULAR Uma Introdução à Patologia. São Paulo: Elsevier 
  8. CHAVES, Leandro Fellet Miranda et al. Fisiologia e farmacologia da placenta: efeitos da anestesia sobre o útero, placenta e feto. 2009. 9 p. Minas Gerais, 2009. Disponível em: <http://file:///C:/Users/s/Downloads/v19n3s1a04.pdf>. Acesso em: 30 maio 2018.
  9. a b c d e f g h HALL, John E. GUYTON & HALL TRATADO DE FISIOLOGIA MÉDICA. 12ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.
  10. a b c Filho Rezende. OBSTETRICIA. 12ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013.
  11. Ecografia Gestacional Básica. João Paulo Lôbo Brandã. Programa de Residência Médica em Ginecologia e Obstetrícia. HRAS – SES/DF, 2014.
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