Hiperinflação no Brasil

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Moeda de 1 real comemorativa de 25 anos do Plano Real, que trouxe estabilidade para a economia brasileira após anos de hiperinflação.

A hiperinflação no Brasil durou entre a década de 1980 e 1990, com seu ápice em março de 1990, quando o índice de inflação atingiu 80%. Após 7 planos econômicos, a hiperinflação chegou ao fim em 1994.[1][2][3] Uma hiperinflação é uma inflação que atinge níveis superiores a 50% ao mês.

Histórico[editar | editar código-fonte]

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

A inflação vinha a níveis elevados desde antes da ditadura militar brasileira (1964-1985), gerada principalmente pela expansão monetária e crise do petróleo. Ao final do regime, neste período a média de inflação anual foi de 69,89% a.a.,[4] com pico de 235% em 1985.[5]

Plano Cruzado[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Plano Cruzado

Instituído em 28 de fevereiro de 1986,[6][7] este Plano era basicamente o congelamento de preços, corte de 3 zeros na moeda com a troca do Cruzeiro pelo Cruzado (1 Cruzado = 1 000 Cruzeiros), mantendo a inflação baixa enquanto vigorava o plano. Ele acabou por causar uma escassez generalizada de todos os produtos que tiveram seus preços congelados.[8] O governo não tinha responsabilidade fiscal e, durante a vigência do plano, a base monetária do governo continuava a expandir. Em março de 86 a base monetária estava em CR$ 70.029.000,00 e, em novembro de 1986, já estava em CR$ 172.456.000,00, um aumento de 146,3%[9] na quantidade de moeda em circulação.

Plano Cruzado II[editar | editar código-fonte]

Durante a vigência do Plano Cruzado em 86 o desabastecimento de vários produtos deu origem a um mercado negro, o que levou o governo a lançar um plano de reajuste econômico em 02 de novembro de 86.[10] Os impostos das bebidas e cigarros foram reajustados e o preço de alguns produtos foram descongelados fazendo com que o preço de alguns produtos dobrasse, trazia também aumento de impostos como um aumento de 100% no IPI Além de uma lista de aumento de preços: 60% para a gasolina e o álcool; 80% para os automóveis; 25% para o açúcar; 30% para as tarifas de telefonia; 80% para as tarifas postais e 40% para a energia elétrica.[11][12]

Em 20 de fevereiro de 1987 o Governo declarou moratória da dívida, que se estendeu até setembro de 88.[13]

Plano Bresser[editar | editar código-fonte]

Luiz Carlos Bresser Pereira, a autoridade responsável pelo plano.

O Plano Bresser foi instituído em 12 de junho de 1987, através dos Decretos-Lei nº 2335/87,[14] nº 2336/87 [15] e nº 2337/87[16] durante o governo José Sarney, quando Luiz Carlos Bresser-Pereira era o Ministro da Fazenda. O plano Bresser seguiu o Plano Cruzado II, que havia fracassado na tentativa de controlar a inflação.

No dia 12 de junho, Bresser anuncia o novo plano de estabilização: congelamento, por 90 dias, de preços, salários e de câmbio, depois de realizar a conversão dos primeiros pelo pico, dos segundos pela média e do terceiro com uma desvalorização de 10%. Pretendia, com a desvalorização do câmbio, conter as importações que haviam arrebentado as contas externas no Plano Cruzado. Como os preços já tinham sido corrigidos, imaginava que não haveria pressão por reajustes. Mas não é o que acontece, até porque o impacto da desvalorização cambial passa a ser repassado, pelos empresários, aos preços. De fato, para preços e salários o Plano previa um "gatilho" baseado na média de inflação do trimestre anterior, chamado de URP (Unidade de Reajuste de Preços), mas, na prática, esse reajuste controlado acabou valendo somente para os salários.[17]

Com Bresser, o Brasil decreta nova moratória em julho, desta vez ao Clube de Paris, e propõe grandes cortes de gastos e de subsídios, com demissões de pessoal no setor público, enxugamento da máquina governamental e cortes nos investimentos públicos. Ao mesmo tempo, tenta retomar negociações externas, mas a recepção dos credores é ruim. Greves de trabalhadores e protestos empresariais (sobretudo das montadoras de automóveis: a Autolatina chega a fazer lockout por alguns dias) crescem contra o plano econômico no segundo semestre, e alguns reajustes começam a ser liberados para preços e tarifas.[18]

Plano Verão[editar | editar código-fonte]

Maílson da Nóbrega, ex-Ministro da Fazenda

O Plano Verão foi instituído em 15 de janeiro de 1989, através da medida provisória nº 32,[19] (depois convertida na Lei nº 7.730 [20]), durante o governo do presidente José Sarney, tendo sido implementado pelo Ministro da Fazenda Maílson Ferreira da Nóbrega, que havia assumido o lugar de Bresser-Pereira.

O Plano Verão modificava o índice de rendimento da caderneta de poupança, congelava preços e salários, criava uma nova moeda, o cruzado novo (inicialmente atrelada em paridade com o dólar). A lei também dispunha sobre a desindexação da economia, como estratégia de combate à inflação. Assim, foi a Obrigação do Tesouro Nacional (OTN), título público cujo variação era usada como índice de correção monetária. Assim como ocorreu no Plano Bresser, o Plano Verão também gerou grandes desajustes às cadernetas de poupança, cujas perdas chegaram a 20,37%.[21][22][23]

Prometeu-se um ajuste fiscal amplo com extinção de ministérios, demissão de servidores, privatizações e controle de despesas em regime de caixa. Graças as greves de trabalhadores pedindo por reposição salarial em abril foram autorizados os primeiros reajustes de preços e o governo concedeu reposição salarial adicional de até 13,1%, dependendo da categoria profissional. Em maio de 1989 o ágio no mercado paralelo de dólares alcançava 200%. As eleições de novembro realizaram-se sob uma inflação de 45% ao mês.[24] De fevereiro de 1986 até novembro de 1989 o Índice IPCA acumulado já era de 107.492,07%.[25][26]

Plano Collor[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Plano Collor
Zélia Cardoso de Mello foi uma das economistas que desenvolveu o Plano Collor.

O plano Collor, idealizado e lançado pelo presidente da república em vigor, Fernando Collor de Melo, entrou em vigor por Medida Provisória ,[27] o que significa que não foi debatido pelo Congresso Nacional, não foi citado durante sua campanha eleitoral e pegou todos de surpresa em 16 de março de 1990 com um pronunciamento do próprio Collor explicando o plano. As principais medidas foram: Preços deveriam voltar aos valores de 12 de março de 90, mudança da denominação da moeda de Cruzados Novos para Cruzeiros sem corte de zeros, confisco das poupanças de quem tivesse valores acima de 50.000 Cruzeiros, Inicio do processo de privatização das estatais, reforma administrativa com o fechamento de ministérios, autarquias e empresas públicas, demissão de funcionários públicos, abertura do mercado brasileiro ao exterior com a extinção de subsídios do governo e flutuação cambial sobre controle do governo.[28]

O governo pretendia devolver o confisco das poupanças em 18 meses com correção de 6% ao ano, tal fato nunca ocorreu e as pessoas tiveram que entrar na justiça para reaver o seu dinheiro, o Plano Collor foi um fracasso embora tivesse conseguido diminuir a inflação no primeiro mês, do inicio da vigência do Plano Collor até pouco antes do Plano Collor II o IPCA acumulado já estava em 605,77%[29] e a quantidade de dinheiro em circulação aumentara cerca de 1.206,96% no mesmo período.[30] Somente no Ano de 1990 a base monetária sofreu um aumento de 270,37% para cobrir o déficit que beirava 6,9% do PIB.[31]

Foram privatizadas 18 empresas atuantes no setor primário da economia, com ênfase no setor siderúrgico. Foi gerada uma receita de 4 bilhões de dólares.[32]

Plano Collor II[editar | editar código-fonte]

Foi um novo conjunto de medidas em 31 de janeiro de 1991, tinha como objetivo o mesmo do plano anterior, combater a inflação e forçar o ajuste das contas públicas e desindexar a economia acelerando o processo de abertura econômica.[33] juntamente com congelamento de preços, uma regra para atualização dos salários e reajuste dos alugueis com base na atualização dos salários, criação da TR, ampliação do IOF, e um cronograma de redução de tarifas de importação.

Em maio de 1991 a ministra da economia foi substituída, durante fevereiro e maio o IPCA acumulado foi de 52,39%[34]

Plano Real[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Plano Real
Gráfico do IPCA entre janeiro de 1994 e dezembro de 1995

Em 23 de julho de 1993 haveria mais um simples corte de zeros na moeda (1000:1) surgindo assim o Cruzeiro Real, em 10 meses o meio circulante da nova moeda seria inflacionado em 3752% e o IPCA no período seria de 5.265,99%.[35]

Todos os preços passariam a ser cotados em URV para apagar a memória inflacionária que causava a inflação inercial, a URV tinha um valor que representava a cotação de fechamento do dólar no dia anterior, houve então uma "dolarização" completa da economia, pois os preços estavam cotados em "dólar", bastando converter o valor dos produtos em URV pela cotação da URV com o Cruzeiro Real para se obter o valor em Cruzeiro Real.[36]

No dia da transição, o valor de 1 URV estava cotado em CR$ 2750,00 - Houve então uma conversão de 1:1 da URV para o Real, representando 2750 cruzeiros reais para cada 1 real, criando-se assim o Real.[36][37]

Principais medidas:

  • Corte de despesas e aumento de 5.5 p.p em todos os impostos federais;
  • Desindexação da economia, ajustes de preços anualizados, sem congelamento;
  • Redução de impostos de importação e abertura da economia;
  • Privatizações[37]

Após a implantação do Plano Real, a inflação estabilizou-se. Em 1999, como parte do tripé macroeconômico, foi criado o regime de metas de inflação, que tem por objetivo fazer com que a inflação oscile dentro de uma faixa estabelecida pelo CMN.[38][39]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. «Hiperinflação - causas e consequências para a Economia». InfoEscola 
  2. «Memorial da Democracia - Memorial da Democracia». Memorial da Democracia. Consultado em 8 de setembro de 2018 
  3. Digital, CacauLimão Comunicação. «Hiperinflação - o que é, causas, efeitos, hiperinflação no Brasil». www.suapesquisa.com. Consultado em 8 de setembro de 2018 
  4. Munhoz, Dercio Garcia (1997). «Inflação brasileira: os ensinamentos desde a crise dos anos 30». Revista de Economia Contemporânea. 1 (1). ISSN 1980-5527 
  5. «Inflação e dívida pública explodiram no Brasil ao final da ditadura militar». www.r7.com. Consultado em 8 de setembro de 2018 
  6. «Plano Cruzado - José Sarney». José Sarney. 30 de agosto de 2011 
  7. «Del2283». www.planalto.gov.br. Consultado em 20 de outubro de 2018 
  8. «Plano Cruzado». InfoEscola 
  9. Sistema gerenciador de Séries Temporais do Banco Central do Brasil, série cód. 1788, BM - Base monetária restrita (saldo em final de período). https://www3.bcb.gov.br/sgspub/consultarvalores/telaCvsSelecionarSeries.paint
  10. «Plano Cruzado II - José Sarney». José Sarney. 31 de agosto de 2011 
  11. Educacao, Portal. «Portal Educação - Artigo». www.portaleducacao.com.br. Consultado em 11 de setembro de 2018 
  12. «A experiência amarga do Cruzado». Valor Econômico. Consultado em 11 de setembro de 2018 
  13. «Moratória - José Sarney». José Sarney. 26 de agosto de 2011 
  14. Decreto-Lei nº 2.335, de 12 de junho de 1987. Dispõe sobre o congelamento de preços e aluguéis, reajustes mensais de salários e vencimentos, institui a Unidade de Referência de Preços (URP) e dá outras providências.
  15. Decreto-Lei nº 2.336, de 15 de junho de 1987. Altera a redação de dispositivos do Decreto-lei nº 2.335, de 12 de junho de 1987.
  16. Decreto-Lei nº 2.337, de 18 de junho de 1987. Altera os artigos 13 e 14 do Decreto-lei nº 2.335, de 12 de junho de 1987, e dá outras providências.
  17. Educacao, Portal. «Portal Educação - Artigo». www.portaleducacao.com.br. Consultado em 19 de setembro de 2018 
  18. Cardoso, Renato Fragelli. «Plano Bresser». Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil 
  19. Medida provisória nº 32, de 15 de janeiro de 1989. Institui o cruzado novo, determina congelamento de preços, estabelece regras de desindexação da economia e dá outras providências.
  20. Lei nº 7.730, de 31 de janeiro de 1989. Conversão da MPV nº 32, de 1989. Institui o cruzado novo, determina congelamento de preços, estabelece regras de desindexação da economia e dá outras providências.
  21. Depois do Bresser, é hora de reaver perdas do Plano Verão. Uol, 1º de junho de 2007.
  22. Justiça manda banco pagar diferenças relativas ao Plano Verão. Por Marina Diana. UOL, 4 de dezembro de 2007.
  23. Perdas de poupadores com Plano Verão chegam a R$ 70 bi. Por Marina Diana. 20 de junho de 2007.
  24. Cardoso, Renato Fragelli. «Plano Verão». Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil 
  25. Sistema Gerenciador de Séries Temporais - BACEN; série 433 - Índice nacional de preços ao consumidor-amplo (IPCA) - Var. % mensal
  26. Calculadora do Cidadão do Banco Central do Brasil, Calculo do IPCA acumulado de 02/1986 até 11/1989 - disponível em https://www3.bcb.gov.br/CALCIDADAO/publico/corrigirPorIndice.do?method=corrigirPorIndice
  27. «174». www.planalto.gov.br. Consultado em 19 de setembro de 2018 
  28. «Plano Collor: principais medidas, consequências econômicas e sociais.». Toda Matéria 
  29. Calculadora do Cidadão do Banco Central do Brasil, Calculo do IPCA acumulado de 03/1990 até 01/1991 - disponível em https://www3.bcb.gov.br/CALCIDADAO/publico/corrigirPorIndice.do?method=corrigirPorIndice
  30. Sistema gerenciador de Séries Temporais do Banco Central do Brasil, série cód. 1788, BM - Base monetária restrita (saldo em final de período) de 01/02/1990 a 31/01/1990. https://www3.bcb.gov.br/sgspub/consultarvalores/telaCvsSelecionarSeries.paint
  31. BASE MONETÁRIA E INFLAÇÃO NO BRASIL NA DÉCADA DE 90. (ROCHA, Nelcileia Quixabeira) - Graduada em Ciências Econômicas pela Unigoiás. Disponível em: http://sinop.unemat.br/site_antigo/prof/foto_p_downloads/fot_9299base_monetyyia_e_inflayyo_no_byasil_na_dycada_de_90__abt-08_nelcileia_pdf.%20art-08_nelcileia.pdf
  32. «Privatizações no Brasil. Os casos de Privatizações no Brasil - Mundo Educação». Mundo Educação. Consultado em 19 de setembro de 2018 
  33. Educacao, Portal. «Portal Educação - Artigo». www.portaleducacao.com.br. Consultado em 25 de outubro de 2018 
  34. Calculadora do Cidadão do Banco Central do Brasil, Calculo do IPCA acumulado de 02/1991 até 05/1991 - disponível em https://www3.bcb.gov.br/CALCIDADAO/publico/corrigirPorIndice.do?method=corrigirPorIndice
  35. Calculadora do Cidadão do Banco Central do Brasil, Calculo do IPCA acumulado de 07/1993 até 07/1994 - disponível em https://www3.bcb.gov.br/CALCIDADAO/publico/corrigirPorIndice.do?method=corrigirPorIndice
  36. a b «O que foi o Plano Real?». Politize!. 3 de outubro de 2017. Consultado em 14 de abril de 2019 
  37. a b «Plano Real». InfoEscola. Consultado em 14 de abril de 2019 
  38. «Inflação: você entende o que ela significa?». Politize!. 28 de outubro de 2015. Consultado em 14 de abril de 2019 
  39. Ferrari Filho, Fernando; Paula, Luiz Fernando de; Arestis, Philip (2009). «A nova política monetária : uma análise do regime de metas de inflação no Brasil». ISSN 0104-0618 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]