Politburo do Partido Comunista da União Soviética
Politburo do Partido Comunista da União Soviética Политическое бюро Центрального комитета Коммунистической партии Советского Союза | |
|---|---|
| Órgão de facto governante da União Soviética | |
Emblema do PCUS | |
| História | |
| Fundação | 10 de outubro de 1917 (inicial) 25 de março de 1919 (restabelecido) |
| Dissolução | 6 de novembro de 1991 |
| Liderança | |
Eleito por | |
Responsável perante | |
| Assentos | Variado |
| Local de reunião | |
| Senado do Kremlin, Moscou, RSFS da Rússia[1][2] | |
| Este artigo faz parte de uma série sobre a |
| Política da União Soviética |
|---|
O Politburo do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética,[a] abreviado como Politburo,[b] foi, de facto, a mais alta autoridade executiva do Partido Comunista da União Soviética (PCUS). Embora eleito pelo Comitê Central e formalmente responsável perante ele, na prática o Politburo funcionou como o órgão dirigente da Rússia Soviética e da União Soviética desde sua criação, em 1919, até a dissolução do partido, em 1991. Os membros plenos e os membros candidatos (sem direito a voto) ocupavam algumas das posições mais poderosas da hierarquia soviética, frequentemente acumulando altos cargos estatais. Suas funções, normalmente desempenhadas em reuniões semanais, incluíam formular a política estatal, emitir diretrizes e ratificar nomeações.
O Politburo foi originalmente criado como um pequeno grupo de dirigentes bolcheviques pouco antes da Revolução de Outubro de 1917 e foi restabelecido em 1919 para decidir questões urgentes durante a Guerra Civil Russa. Funcionava segundo os princípios do centralismo democrático, embora, na prática, o poder tenha se tornado cada vez mais centralizado nas mãos de poucos. Sob Josef Stalin, secretário-geral do partido de 1922 a 1952, o Politburo transformou-se em um instrumento de ditadura pessoal. O domínio de Stalin sobre o órgão era tamanho que suas sessões frequentemente se tornavam meramente formais e, durante o Grande Expurgo, entre 1936 e 1938, nem mesmo os membros do Politburo ficaram imunes à perseguição. O órgão recebeu o nome de Presidium entre 1952 e 1966. Após a morte de Stalin, em 1953, a autoridade do Politburo tornou-se mais coletiva sob os dirigentes Nikita Khrushchov e Leonid Brejnev. Durante a era Brejnev, de 1964 a 1982, o Politburo aumentou de tamanho e adquiriu caráter cada vez mais burocrático. Como secretário-geral a partir de 1985, Mikhail Gorbatchov tentou reformar as funções do Politburo durante a perestroika, transferindo poder das estruturas partidárias para as instituições estatais. O Politburo foi oficialmente dissolvido após a proibição do PCUS, no fim de 1991.
História
[editar | editar código]Antecedentes
[editar | editar código]Em 18 de agosto de 1917, o principal dirigente bolchevique, Lenin, criou um birô político — conhecido inicialmente como Composição Restrita e, depois de 23 de outubro de 1917, como Birô Político — especificamente para dirigir a Revolução de Outubro, com apenas sete membros (Lenin, Leon Trótski, Grigori Zinoviev, Lev Kamenev, Grigori Sokolnikov, Josef Stalin e Andrei Búbnov). Esse organismo precursor, porém, não sobreviveu ao acontecimento; o Comitê Central continuou exercendo as funções políticas. Contudo, por razões práticas, geralmente menos da metade dos membros comparecia às reuniões regulares do Comitê Central nesse período, embora fossem eles que decidissem todas as questões fundamentais.
O VIII Congresso do Partido, em 1919, formalizou essa realidade e restabeleceu o que posteriormente se tornaria o verdadeiro centro do poder político na União Soviética. Determinou que o Comitê Central nomeasse um Politburo de cinco membros para decidir questões urgentes demais para aguardar uma deliberação do Comitê Central completo. Os membros originais do Politburo eram Lenin, Trótski, Stalin, Kamenev e Nikolai Krestinski.
Primeiros anos: 1919–1934
[editar | editar código]O sistema soviético baseava-se no sistema concebido por Lenin, frequentemente denominado leninismo.[3] Alguns historiadores e cientistas políticos atribuem a Lenin a evolução do sistema político soviético após sua morte.[3] Outros, como Leonard Schapiro, sustentam que o próprio sistema evoluiu de um sistema democrático intrapartidário para um sistema monolítico em 1921, com a criação da Comissão de Controle, a proibição de facções e o poder do Comitê Central de expulsar membros considerados não qualificados.[4] Essas regras foram implementadas para reforçar a disciplina partidária. Contudo, sob Lenin e nos primeiros anos após sua morte, o partido continuou tentando estabelecer procedimentos democráticos em seu interior.[5] Por exemplo, em 1929, importantes membros do partido começaram a criticar o aparelho partidário, representado pelo Secretariado chefiado por Stalin, por exercer controle excessivo sobre as decisões relativas a pessoal.[5] Lenin tratou de questões desse tipo em 1923, nos artigos "Como devemos reorganizar a Inspeção Operária e Camponesa" e "Melhor menos, mas melhor".[5] Neles, Lenin escreveu sobre seu plano de transformar as reuniões conjuntas do Comitê Central e da Comissão de Controle no "parlamento" do partido.[5] As reuniões conjuntas dos dois órgãos responsabilizariam o Politburo e, ao mesmo tempo, protegeriam o Politburo contra o faccionalismo.[5] Admitindo que barreiras organizacionais poderiam ser insuficientes para proteger o partido de uma ditadura pessoal, Lenin reconheceu a importância dos indivíduos.[5] O seu testamento tentou resolver essa crise reduzindo os poderes tanto de Stalin quanto de Leon Trótski.[5]
Embora alguns de seus contemporâneos acusassem Lenin de criar uma ditadura pessoal dentro do partido, ele rebateu afirmando que, como qualquer outro, só poderia implementar políticas persuadindo o partido.[4] Isso ocorreu em várias ocasiões, como em 1917, quando ameaçou deixar o partido caso este não apoiasse a Revolução de Outubro, quando persuadiu o partido a assinar o Tratado de Brest-Litovski ou com a introdução da Nova Política Econômica (NEP).[4] Lenin, conhecido por sua atuação faccional antes da tomada do poder pelos bolcheviques, apoiou a promoção ao Politburo de pessoas com as quais havia divergido anteriormente em questões importantes; Trótski e Lenin haviam travado vários anos de intensas polêmicas entre si, enquanto Grigori Zinoviev e Lev Kamenev se opuseram à resolução do Comitê Central que iniciou a Revolução de Outubro.[6]
De 1917 até meados da década de 1920, os congressos eram realizados anualmente, o Comitê Central reunia-se pelo menos uma vez por mês e o Politburo, uma vez por semana.[7] Com a consolidação do poder de Josef Stalin, a frequência das reuniões formais diminuiu.[7] Em meados da década de 1930, o Comitê Central reunia-se apenas uma vez por mês, e o Politburo, no máximo, uma vez a cada três semanas.[7] O Politburo foi criado e funcionava dentro da estrutura do centralismo democrático (isto é, um sistema no qual os órgãos superiores são responsáveis perante os inferiores e cada membro está subordinado às decisões do partido).[8] A natureza do centralismo democrático havia mudado até 1929, e a liberdade de expressão, anteriormente tolerada dentro do partido, foi substituída por uma unidade monolítica.[8] Isso foi alcançado com a derrota, por Stalin, de facções rivais como a Oposição de Esquerda e a Oposição de Direita.[8] Em geral, considera-se que, sob Stalin, os poderes do Politburo foram reduzidos em comparação aos do secretário-geral.[3]
Stalin derrotou a Oposição de Esquerda liderada por Trótski aliando-se aos direitistas dentro do Politburo: Nikolai Bukharin, Alexei Rikov e Mikhail Tomsky.[9] Após derrotar a Oposição de Esquerda, Stalin começou a atacar os direitistas, conhecidos como Oposição de Direita, por meio de seus apoiadores no Politburo, no Comitê Central e na Comissão de Controle.[10] Stalin e seus aliados apoiavam uma interpretação não democrática de Que Fazer?, de Lenin.[10] Ao longo do fim da década de 1920, o membro do Politburo Lazar Kaganovich, aliado de Stalin, elaborou e defendeu um regulamento organizacional do partido que reduzia a democracia intrapartidária em favor da hierarquia e do centralismo.[10] Com a derrota das outras facções, essas interpretações tornaram-se lei partidária.[10] Para fortalecer o sistema de tomada de decisões centralizada, Stalin nomeou seus aliados para altos cargos fora do Politburo. Por exemplo, Viatcheslav Molotov sucedeu Rikov como presidente do Conselho de Comissários do Povo em 1930, reduzindo a possibilidade de formação de outro centro independente de poder centralizado que pudesse ameaçar Stalin e o Politburo, o Secretariado e o Orgburo.[11]
Durante esse período, o cargo de secretário-geral tornou-se predominante.[10] O Politburo, nominalmente responsável perante o Comitê Central e o Congresso do Partido, tornou-se responsável perante o secretário-geral.[10] O secretário-geral, chefe formal do Secretariado e do Orgburo, "passou a exercer enorme peso na tomada de decisões".[10] O Secretariado e o Orgburo eram responsáveis pelas nomeações de pessoal em todo o partido e, assim, foram utilizados como uma máquina por Stalin e seus aliados para promover pessoas de pensamento semelhante.[10] Molotov e Kaganovich desempenharam papel fundamental no fortalecimento da função do Secretariado e do Orgburo nos assuntos partidários.[10]
Anos de Stalin: 1934–1953
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O 17.º Politburo foi eleito na primeira sessão plenária do 17.º Comitê Central, após o XVII Congresso.[12] Externamente, o Politburo permaneceu unido, mas em 4 de fevereiro Sergo Ordjonikidze, o comissário do povo para a Indústria Pesada, recusou-se a aceitar as metas de crescimento econômico projetadas por Stalin, afirmando que a maioria do Politburo apoiava sua posição.[12] Serguei Kirov, que havia recusado uma oferta para substituir Stalin como secretário-geral antes do XVII Congresso, opôs-se a muitas das políticas repressivas de Stalin e tentou moderá-las durante todo o ano de 1934.[13] Diversos estudiosos interpretaram a franqueza de Ordjonikidze e Kirov como o surgimento de uma facção stalinista moderada dentro do partido.[14] Em 1.º de dezembro de 1934, Kirov foi morto a tiros — permanece desconhecido se foi vítima de um agressor isolado ou morto por ordem de Stalin.[14] Pouco depois, em 21 de janeiro de 1935, Valerian Kuibyshev morreu de causas naturais e, um mês depois, Anastas Mikoyan e Vlas Tchubar foram eleitos membros plenos do Politburo.[14] Andrei Jdanov, primeiro-secretário do Comitê da Cidade de Leningrado e membro do Secretariado, e Robert Eikhe, primeiro-secretário do Comitê Distrital da Sibéria e da Sibéria Ocidental, foram eleitos membros candidatos do Politburo.[14]
O ano de 1936 marcou o início do Grande Expurgo, uma purga em escala nacional de elementos considerados antissocialistas por Stalin.[15] As primeiras vítimas do expurgo foram membros e dirigentes de organizações econômicas.[15] Nem todos no Politburo concordavam com os expurgos ou com sua extensão.[15] Ordjonikidze ridicularizou o expurgo e tentou salvar funcionários que trabalhavam no Comissariado do Povo para a Indústria Pesada.[15] Stalin esperava que Ordjonikidze apoiasse os expurgos, ao menos oficialmente, mas, em vez disso, ele redigiu um discurso condenando-os.[15] Em 18 de fevereiro de 1937, Ordjonikidze foi encontrado morto em sua casa, tendo cometido suicídio.[15] No plenário do Comitê Central de fevereiro de 1937, Stalin, Molotov, Jdanov e Nikolai Iejov começaram a acusar altos funcionários de comportamento antissocialista, mas encontraram oposição.[15] Pavel Postyshev, membro candidato do Politburo e primeiro-secretário do Partido Comunista da Ucrânia, ao ouvir a acusação de que um membro do Comitê Central ucraniano era antissocialista, respondeu: "Não acredito nisso."[15] Quando Iejov propôs matar Bukharin e Rikov, Postyshev, juntamente com Stanislav Kossior e Grigori Petrovski, opôs-se à medida, propondo, em vez disso, que fossem entregues aos tribunais.[15] Molotov e Kliment Vorochilov apoiaram um compromisso articulado por Stalin, que entregou Bukharin e Rikov à NKVD.[15] Apesar dessa oposição, Stalin e seus colaboradores mais próximos começaram a expurgar funcionários em todo o país.[16] Em maio de 1937, Jānis Rudzutaks tornou-se o primeiro membro do Politburo a ser expurgado.[16] Em 1938, outros quatro membros do Politburo foram expurgados: Tchubar, que telefonou pessoalmente a Stalin chorando e tentando assegurar sua inocência; Kossior, que confessou crimes antissocialistas depois que sua filha foi estuprada diante dele; Postyshev; e Eikhe.[16] Petrovski, em contraste, teve mais sorte: em vez de ser expurgado, não foi reeleito para o Politburo no XVIII Congresso.[16] Os expurgos de Rudzutaks, Eikhe e Kossior demonstraram o poder crescente de Stalin; o Politburo nem sequer foi informado da decisão.[16] Postyshev foi expurgado por "excesso de zelo na perseguição de pessoas".[16]
Deveres e responsabilidades
[editar | editar código]Estatuto
[editar | editar código]O Politburo era o mais alto órgão do partido quando o Congresso do Partido e o Comitê Central não estavam reunidos.[17] O Politburo, juntamente com o Secretariado e, até 1952, o Birô Organizacional (Orgburo), era um dos três órgãos permanentes do partido.[18] O secretário-geral, dirigente do partido, atuava ex officio como presidente do Politburo, embora nenhuma regra formal determinasse essa função.[17] Ao longo da existência da URSS, foram eleitos 28 politburos.[17]
Processo decisório
[editar | editar código]Arkady Shevchenko, como muitos especialistas técnicos soviéticos, certa vez participou da parte de uma reunião do Politburo relacionada à sua área de especialização e frequentemente preparava seu superior, Andrei Gromiko, para as reuniões. Ele descreveu o estilo de trabalho das reuniões semanais do Politburo durante a era Brejnev como "calmo, ordenado e metódico. Embora uma pauta seja preparada, não há chamada de quórum nem outra forma de procedimento parlamentar".[19] As memórias de Shevchenko deixam claro que a tensa luta política que frequentemente podia ocorrer entre membros do Politburo normalmente não se dava abertamente durante as reuniões, mas pelas costas dos rivais. Na prática, o centralismo democrático do leninismo soviético frequentemente seguia um estilo de consentimento unânime em vez de voto majoritário. Esse estilo de tomada de decisão por consenso tinha raízes não apenas na época do Grande Terror, também conhecida como Iejovschina, mas igualmente na cultura de tomada coletiva de decisões cuidadosamente cultivada por Brejnev. Shevchenko afirmou:[19] "Enquanto o Politburo examinava o item pelo qual eu era responsável, sentei-me com Kuznetsov, Kornienko e [Vasily] Makarov, atrás de Gromiko, à longa mesa no Kremlin. Brejnev perguntou se todos os membros do Politburo haviam recebido a tempo os projetos de documentos soviético-americanos e se os haviam estudado. A maioria dos membros assentiu silenciosamente com a cabeça. 'Posso considerar que o projeto foi aprovado?', perguntou Brejnev. Ninguém falou. 'O projeto está aprovado', disse Brejnev após mais alguns instantes de silêncio. Makarov colocou a mão em meu ombro e sussurrou: 'Certo, Arkady, é isso. Pode ir.'"[19]
Ainda assim, houve ocasiões em que o secretário-geral sobrepujou todos os demais membros ao deixar clara sua opinião e sugerir que a dissidência não seria tolerada. Mikhail Smirtyukov recordou uma dessas reuniões do Politburo. Enquanto Brejnev estava de férias, Mikhail Suslov, que detestava a ideia de existir uma loja de departamentos (GUM) diante do Mausoléu de Lenin, na Praça Vermelha, tentou transformar a GUM em uma sala de exposições e museu dedicado à história soviética e comunista.
Depois de tomada a decisão, Brejnev foi imediatamente informado. Quando voltou das férias, antes da primeira reunião do Politburo, disse: "Algum idiota aqui inventou um plano para fechar a GUM e abrir uma espécie de gabinete de curiosidades ali." Depois de todos se sentarem, perguntou: "Bem, a questão da GUM foi resolvida?" Todos, inclusive Suslov, assentiram com a cabeça. O problema foi encerrado de uma vez por todas, sem discussão.[20]
Relação com o Secretariado
[editar | editar código]Membros
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Eleição
[editar | editar código]Para ser eleito para o Politburo, um membro precisava integrar o Comitê Central.[21] O Comitê Central elegia formalmente o Politburo após um Congresso do Partido.[21] Os membros do Comitê Central recebiam uma lista predeterminada de candidatos ao Politburo, com apenas um candidato para cada vaga; por essa razão, a eleição do Politburo normalmente era aprovada por unanimidade.[21] Quanto maior o poder do secretário-geral do PCUS, maior era a probabilidade de a composição do Politburo ser aprovada sem dissidência significativa.[21]
O artigo 25 do estatuto do partido dizia pouco ou nada sobre a relação efetiva entre o Politburo e o Comitê Central.[21] Até 1961, o artigo 25 estabelecia, com várias alterações, que o Comitê Central "forma" ou "organiza" o Politburo.[21] Somente em 1961, sob Nikita Khrushchov, o estatuto foi alterado para estabelecer que o Politburo seria nomeado por meio de "eleições secretas".[21] O estatuto alterado determinava que pelo menos um terço do Politburo, assim como do Comitê Central, deveria deixar o cargo em cada eleição do Politburo e que nenhum membro poderia ser eleito para mais de três mandatos.[21] O iniciador dessas mudanças, Khrushchov, secretário-geral do PCUS, havia servido no Politburo por 22 anos.[21] Em vez de deixar o cargo, Khrushchov criou uma regra segundo a qual membros "que gozassem de grande autoridade e possuíssem capacidade excepcional" poderiam servir por mais de três mandatos caso recebessem mais de 75% dos votos de aprovação do Comitê Central nas eleições.[21] Essas emendas foram removidas do estatuto sob Leonid Brejnev, e o artigo 25 passou a estabelecer: "Na eleição de todos os órgãos partidários, desde a organização partidária primária até o Comitê Central do PCUS, deve ser observado o princípio da substituição sistemática de pessoal e da continuidade da liderança."[22] O período Brejnev, em completo contraste com a emenda de Khrushchov, apresentou a maior continuidade na composição do Politburo em toda a sua história.[23] O artigo 25 do estatuto permaneceu inalterado sob as lideranças sucessivas de Iúri Andropov, Konstantin Chernenko e Mikhail Gorbatchov.[23]
Entre 1919 e 1990, 42 membros que serviram como candidatos não foram promovidos à condição de membros plenos do Politburo.[24] Da mesma forma, 32 membros plenos do Politburo nunca haviam servido como membros candidatos.[24] Seis membros que haviam servido como membros plenos foram rebaixados à condição de candidatos durante a existência do Politburo.[25]
Cargos
[editar | editar código]Servir no Politburo era uma função de tempo parcial, e seus membros ocupavam simultaneamente cargos nas administrações partidária, estatal, sindical, de segurança ou militar, ou em várias delas ao mesmo tempo.[26] Até a década de 1950, a maioria dos membros ocupava cargos estatais, mas isso mudou no XX Congresso, realizado em 1956, quando 47% dos membros do Politburo trabalhavam no aparelho partidário central e outros 47% na administração estatal. Do XX Congresso até o XXVIII Congresso, a parcela dos membros do Politburo que servia no aparelho partidário central aumentou, enquanto a dos que serviam na administração estatal diminuiu.[27] A maioria dos membros do Politburo ocupava importantes cargos centrais; a maior proporção de funcionários republicanos no Politburo ocorreu no XXII Congresso, realizado em 1961, quando 50% dos membros exerciam cargos no nível republicano.[28]
Historicamente, funcionários dos órgãos de segurança tiveram pouca presença no Politburo.[29] De 1953 a 1973, nenhum funcionário que representasse o setor de segurança atuou como membro pleno do Politburo; os dois últimos haviam sido Lavrenti Beria e Semyon Ignatiev.[29] Essa tradição terminou com a promoção de Iúri Andropov, presidente da KGB, a membro pleno, depois de ter servido como membro candidato desde 1967.[29] Alexander Shelepin havia servido como presidente da KGB, mas foi eleito para o Politburo em razão de seu trabalho no Komsomol,[29] enquanto Eduard Shevardnadze, que havia sido ministro do Interior da Geórgia até 1972, tornou-se membro candidato do Politburo por seu trabalho como primeiro-secretário do Partido Comunista da Geórgia.[29] De modo semelhante, em 1973, o ministro da Defesa Andrei Grechko foi nomeado para o Politburo.[29] Contudo, ao contrário do setor de segurança, o setor militar possuía representantes no Politburo desde o 8.º Politburo, em 1919.[29] Entre os ministros da Defesa que serviram no Politburo estavam Leon Trótski, Mikhail Frunze, Kliment Vorochilov, Nikolai Bulganin, Gueorgui Júkov e Dmitri Ustinov, entre outros.[29] Da mesma forma, vários dirigentes importantes do Politburo haviam participado da Revolução Russa de 1917, da Guerra Civil Russa ou da Segunda Guerra Mundial.[30]
Etnia, idade e sexo
[editar | editar código]Os eslavos étnicos dominaram o Politburo desde sua criação, em 1919.[31] Isso não surpreende, pois as três repúblicas mais populosas da União Soviética eram de maioria étnica eslava: Bielorrússia, Ucrânia e Rússia.[31] De 1919 a 1991, 89 membros do Politburo eram russos, correspondendo a 68%.[32] Em um distante segundo lugar estavam os ucranianos, com 11 membros, ou 8%.[31] Em terceiro lugar estavam, empatados, judeus étnicos e georgianos, com quatro membros cada, ou 3%.[31] Para comparação, segundo os censos populacionais soviéticos, durante esses anos a União Soviética tinha uma composição russa entre 51%, no censo de 1989, e 58%, no censo de 1939; ucraniana entre 15%, em 1989, e 21%, em 1926; georgiana entre 1,2%, em 1926, e 1,4%, em 1989; e judaica entre 0,5%, em 1989, e 1,8%, em 1926. Em geral, na primeira metade da existência do Politburo houve maior representação étnica do que na segunda metade.[31] Somente no 28.º Politburo cada república passou a ter um representante no órgão.[33] O Politburo nunca tentou corrigir seu desequilíbrio étnico. Em vez disso, a União Soviética, no nível central, foi governada principalmente por russos.[34]
Apesar da retórica ideológica sobre igualdade entre os sexos, o Politburo passou a ser composto em sua grande maioria por homens.[35] Apenas quatro mulheres serviram no Politburo: Elena Stassova, Yekaterina Furtseva, Alexandra Biryukova e Galina Semenova.[36] Furtseva, Biryukova e Semenova chegaram ao Politburo sob a liderança de dirigentes partidários reformistas: Nikita Khrushchov e Mikhail Gorbatchov.[37]
A idade média do Politburo era de 39 anos em 1919 e continuou aumentando de forma mais ou menos constante até 1985.[37] Isso ocorria porque o Comitê Central tratava a renovação do Politburo como responsabilidade do próprio Politburo.[37] Os membros do Politburo normalmente escolhiam sucessores com idade semelhante à sua, o que resultou no estabelecimento da gerontocracia da era Brejnev.[37] Embora a idade tenha aumentado gradualmente durante a liderança de Khrushchov, houve substituição de membros; por exemplo, 70% dos integrantes eleitos para o Politburo em 1956 perderam seus assentos em 1961.[38] Em contraste, todos os membros do Politburo eleitos em 1966 foram reeleitos em 1971.[38] Ainda mais preocupante, 12 dos 19 membros eleitos em 1966 foram reeleitos em 1981. Quando Brejnev morreu, em 1982, a idade mediana do Politburo era de 70 anos.[38] Esse envelhecimento finalmente foi interrompido sob Gorbatchov.[37] A partir de 1985, a idade dos membros do Politburo diminuiu continuamente.[38]
Origem e educação
[editar | editar código]Cinquenta e nove por cento dos membros do Politburo, tanto candidatos quanto plenos, eram de origem rural, enquanto 41% eram de origem urbana.[39] Os primeiros membros do Politburo provinham predominantemente de áreas urbanas.[40] Por exemplo, no 9.º Politburo, dois de oito membros, Trótski e Mikhail Kalinin, haviam nascido em áreas rurais.[40] A partir da década de 1930, a maioria dos membros do Politburo tinha pai que trabalhava como camponês ou operário.[41] Isso é incomum, considerando-se que seria de esperar um aumento da representação da intelligentsia à medida que a União Soviética se tornava mais desenvolvida.[41] A partir da década de 1960, a maioria dos novos membros tinha origem operária, como esperado.[41] O que é incomum, contudo, é que de 1975 a 1981 ocorreu um aumento repentino do número de pessoas de origem camponesa.[41] Ao se considerar a primeira profissão, a maioria dos membros havia trabalhado como operários, mas grande parte deles cursou posteriormente o ensino superior, com a maioria escolhendo engenharia.[41] Quarenta e três por cento dos membros do Politburo obtiveram credenciais de ensino superior durante a vida, enquanto, em um próximo segundo lugar, 32% receberam formação em engenharia técnica.[42]
Ver também
[editar | editar código]Notas
[editar | editar código]- ↑ russo: Политическое бюро Центрального комитета Коммунистической партии Советского Союза, tr. Politicheskoye byuro Tsentral'nogo komiteta Kommunisticheskoy partii Sovetskogo Soyuza; IPA: [pəlʲɪˈtʲitɕɪskəjɪ bʲʊˈro tsɨnˈtralʲnəvə kəmʲɪˈtʲetə kəmʊnʲɪˈsʲtʲitɕɪskəj ˈpartʲɪ(j)ɪ sɐˈvʲetskəvə sɐˈjuzə]
- ↑ russo: Политбюро; IPA: [pɐˌlʲidbʲʊˈro] (ⓘ).
Referências
[editar | editar código]- ↑ «Сенатский дворец - место работы президента и вручения наград». Putidorogi-nn.ru. Consultado em 27 de janeiro de 2018. Cópia arquivada em 15 de dezembro de 2025
- ↑ «ГЛАВНЫЙ КОРПУС КРЕМЛЯ». The VVM Library. Consultado em 27 de janeiro de 2018. Arquivado do original em 28 de janeiro de 2018
- 1 2 3 Rees 2004, p. 3.
- 1 2 3 Rees 2004, p. 4.
- 1 2 3 4 5 6 7 Rees 2004, p. 5.
- ↑ Rees 2004, p. 6.
- 1 2 3 Wheatcroft 2004, p. 85.
- 1 2 3 Rees 2004, p. 2.
- ↑ Rees 2004, pp. 6–7.
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Rees 2004, p. 7.
- ↑ Rees 2004, p. 8.
- 1 2 Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, p. 30.
- ↑ Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, pp. 30–31.
- 1 2 3 4 Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, p. 31.
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, p. 32.
- 1 2 3 4 5 6 Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, p. 33.
- 1 2 3 Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, p. 85.
- ↑ Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, pp. 85–87.
- 1 2 3 Shevchenko 1985, pp. 207–208.
- ↑ Thelman, Joseph (dezembro de 2012). «The Man in Galoshes». Jew Observer. Consultado em 28 de fevereiro de 2021
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, p. 87.
- ↑ Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, pp. 87–88.
- 1 2 Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, p. 88.
- 1 2 Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, p. 140.
- ↑ Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, p. 141.
- ↑ Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, p. 152.
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- ↑ Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, pp. 155–156.
- 1 2 3 4 5 Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, p. 136.
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- ↑ Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, pp. 139–140.
- ↑ Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, p. 128.
- ↑ Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, pp. 129 & 161.
- 1 2 3 4 5 Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, p. 129.
- 1 2 3 4 Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, p. 131.
- ↑ Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, p. 143.
- 1 2 Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, p. 145.
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- ↑ Lowenhardt, van Ree & Ozinga 1992, p. 149.
Bibliografia
[editar | editar código]- Lowenhardt, John; van Ree, Erik; Ozinga, James (1992). The Rise and Fall of the Soviet Politburo. [S.l.]: St. Martin's Press. ISBN 0312047843
- Rees, E. A., ed. (2004). «Introduction» (PDF). The Nature of Stalin's Dictatorship: The Politburo, 1924–1953. [S.l.]: Routledge. pp. 1–18. ISBN 1403904014
- Shevchenko, Arkady (1985). Breaking with Moscow. [S.l.]: Knopf. ISBN 978-0394520551. OCLC 11680691
- Wheatcroft, Stephen G. (2004). «From Team-Stalin to Degenerate Tyranny» (PDF). In: Rees, E. A. The Nature of Stalin's Dictatorship: The Politburo, 1924–1953. [S.l.]: Routledge. pp. 79–107. ISBN 1403904014
Leitura adicional
[editar | editar código]- Brown, Archie (1996). The Gorbachev Factor. [S.l.]: Oxford University Press. ISBN 0192880527
- Bialer, Seweryn (2001). Stalin's Successors: Leadership, Stability, and Change in the Soviet Union. [S.l.]: Cambridge University Press. ISBN 0521289068
Ligações externas
[editar | editar código]- Liderança do PCUS — lista completa de membros plenos e candidatos do Presidium, incluindo as datas de participação no órgão e o ano de morte ou execução.
- Sucessão do poder na URSS, do Dean Peter Krogh Foreign Affairs Archives.