Pornificação

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Pornificação, também referida como cultura erótica e cultura vulgar, denota a intrusão do caráter e dos conteúdos da indústria do sexo na cultura popular do Ocidente (música, televisão, filmes realizados nos Estados Unidos da América) e a sexualização da cultura ocidental.[1] Pornificação — particularmente ao sexualizar a imagem da mulher — é dita que demonstra "como o poder patriarcal opera no campo da representação de gênero".[2] Em Women in Popular Culture, Marion Meyers arrazoa que a representação da mulher na sociedade moderna é primariamente influenciada pela "integração da pornografia e a resultante hipersexualização de adultas e adolescentes, e a comoditização destas imagens para um mercado global".[3]

Este fenômeno tem sido debatido por autores como Marian Meyers e Kath Woodward. Pornificação também é presente nas discussões sobre pós-feminismo realizadas por Ariel Levy[4] e Natasha Walter.[5]

Pesquisa[editar | editar código-fonte]

O National Resource Center on Domestic Violence, programa focado em violência doméstica e estabelecido com subsídio estatal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, produziu documento intitulado "Pornografia e Violência Sexual" (tradução literal), divulgado em 2004. Os autores Robert Jensen e Debbie Okrina afirmam que a "pornografia comercial nos Estados Unidos da América é, ao mesmo tempo, cada vez mais normalizada e mais depreciativa para as mulheres" e que "não é controverso argumentar que a pornografia pode prover um manual de treinamento para assediadores e agressores sexuais". Os autores indicam que esta conclusão provê apoio às feministas anti-pornografia, que nas décadas de 1970 e 1980, denunciaram os malefícios que a pornografia gera às adultas e crianças que foram agredidas sexualmente por homens consumidores de pornografia, "vivendo em uma cultura onde a pornografia reforça a subordinação da mulher, para então sexualizar este mesmo estado".[6]

Experimento no campo da psicologia, feita pelo Dartmouth College com 1,228 participantes entre 12 e 14 anos de idade (18 a 20 anos de idade ao fim da pesquisa), identificou que "adolescentes expostos a filmes com mais conteúdo sexual iniciam sua vida sexual com menos idade, além de terem mais parceiros sexuais e serem menos propensos a usarem preservativos com parceiros de sexo casual". Para este trabalho houve análise de conteúdo em filmes de maior bilheteria entre 1950 e 2006, onde foram classificados pela quantidade de segundos de conteúdo sexual e pela exposição das cenas, como beijo de língua ou relação sexual. A equipe de pesquisadores encontrou conteúdo sexual em 84% destes filmes;[nota 1] dentre os últimos filmes lançados, a maioria não encenava sexo seguro e pouco mencionava o uso de contracepção. O autor, Ross O'Hara, sugere que pais restrinjam o acesso de seus filhos a filmes com conteúdo sexual, especialmente quando crianças.[7]

Adolescentes que são expostas a conteúdo sexual por meio da televisão são mais propensas à precocidade sexual (que por sua vez aumenta as chances de gravidez na adolescência e infecções sexualmente transmissíveis), à perda da virgindade, e a se comportarem como se fossem mais velhas que sua idade atual — uma adolescente de 12 anos com altos níveis de exposição age como uma adolescente de 15 anos que foi pouco exposta. A adolescente estadunidense média visualiza 3 horas de programação televisiva por dia, assistindo o sexo ser frequentemente representado como uma atividade casual sem risco ou consequência. Ademais, a investigação verificou que o discurso ou diálogo sexual produz o mesmo efeito que cenas explícitas.[8]

Sociologia[editar | editar código-fonte]

Sob a teoria sociológica do interacionismo simbólico, se pode estipular que o poder é um símbolo comunicado pela pornografia, especialmente na variante violenta, onde as atrizes são retratadas como se estivessem contentes, o que pode persuadir espectadores que seria aceitável cometer violência sexual contra mulheres.[9]

Já à luz da teoria dos roteiros sexuais (que seriam guiões, resultantes de elaborada aprendizagem prévia e que ensinam as regras do comportamento sexual), a sensação produzida pelas revistas induz comportamento socialmente aprendido após exposição repetida, pois tratam a aparência feminina como objeto de destaque, e as mulheres inconscientemente concebem que precisam mostrar-se de determinado modo para obter consorte.[10]

Efeitos sobre a comunicação social[editar | editar código-fonte]

Revistas frequentemente representam sexo de maneira indireta; a publicidade retrata o sexo sem a necessidade de termos e imagens explícitas. Esta situação pode ser prejudicial para as psiques das pessoas, especialmente mulheres. Tais revistas acabam por exibir mulheres com pouco vestuário e/ou em posições sensuais, e este conteúdo tem a capacidade de transmitir às leitoras que estas não possuem qualidade, principalmente seus corpos. Um dos efeitos colaterais deletérios é a alteração nos padrões alimentares, como o uso de anorexígenos/medicação anti-obesidade, e a prática de restringir calorias ingeridas em 1,200 (ou menos) por dia.[11]

O livro Fifty Shades of Grey, lançado em 2011, descreve detalhadamente o sadomasoquismo e outras parafilias praticadas pelas personagens.[12] Vendeu cerca de 31 milhões de unidades em todo o mundo e foi adaptado para filme.[13] O grupo de vigilância anti-pornografia estadunidense National Center on Sexual Exploitation declarou que a classificação etária emitida pela Motion Picture Association of America para este filme, "R – Restricted" (menores de 17 anos apenas acompanhados de pais ou guardiões), "severamente solapa a temática violenta do filme além de não informar adequadamente aos pais ou protetores sobre o conteúdo exibido", e que a MPAA estava encorajando a violência sexual ao permitir a veiculação do filme sem a classificação "NC-17 – Adults Only" (apenas para maiores de 18 anos de idade).[14][15]

Neil Marshall, diretor do episódio "Blackwater" — segunda temporada da telessérie Game of Thrones — relembra que foi repetidamente urgido a adicionar mais cenas de nudez total durante as filmagens. Marshall conta que o produtor lhe disse "(...) todos os outros na série são do lado do drama. Eu simbolizo o lado pervertido da audiência", uma experiência que o diretor descreveu como "deveras surreal" por ter acontecido no cenário de uma grande rede produtora,[16] a estadunidense Home Box Office.

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Notas

  1. Percentual por classificação etária:
    • 68% dos filmes "G – General Audiences" (livres);
    • 82% dos filmes "PG – Parental Guidance Suggested" (com restrições);
    • 85% dos filmes "PG-13 – Parents Strongly Cautioned" (não recomendados para menores de 13 anos)

Referências

  1. McNair, Brian (2009), «From porno-chic to porno-fear: the return of the repressed (Abstract)», in: Attwood, Feona, Mainstreaming Sex: The Sexualisation of Western Culture, ISBN 978-1-84511-827-3, Londres: I.B. Tauris, pp. 110–130. 
  2. Woodward, Kath (2011), «Gendered bodies: gendered representations», in: Woodward, Kath, The Short Guide to Gender, ISBN 978-1-84742-763-2, Bristol: Policy Press, p. 85. 
  3. Meyers, Marian (maio de 2008). Women in Popular Culture: Representation and Meaning. [S.l.]: Hampton Press. Cópia arquivada em 23 de junho de 2018 
  4. Levy, Ariel (2006). Female Chauvinist Pigs: Women and the Rise of Raunch Culture. Nova Iorque: Free Press. ISBN 9780743284288 
  5. Walter, Natasha (2010). Living dolls: the return of sexism. Londres: Virago Press. ISBN 9781844084845 
  6. Jensen, Robert; Okrina, Debbie (julho de 2004). «Pornography and Sexual Violence». National Resource Center on Domestic Violence. Cópia arquivada em 23 de dezembro de 2018 
  7. O'Hara, Ross (17 de julho de 2012). «Exposure to Sexual Content in Popular Movies Predicts Sexual Behavior in Adolescence». Association for Psychological Science. Cópia arquivada em 23 de dezembro de 2018 
  8. Collins, Rebecca L.; Elliott, Marc N.; Berry, Sandra H.; Kanouse, David E.; Kunkel, Dale; Hunter, Sarah B.; Miu, Angela. Does watching sex on television influence teens’ sexual activity?. [S.l.]: RAND Corporation. Cópia arquivada em 15 de dezembro de 2018 
  9. Gossett, Jennifer Lynn; Byrne, Sarah (1 de outubro de 2002). «"Click Here": a content analysis of internet rape sites» 5 ed. SAGE Publishing. Gender & Society. 16: 689–709. doi:10.1177/089124302236992. 
  10. Hyde, Janet S.; DeLamater, John (2003). Understanding human sexuality 8 ed. Nova Iorque: McGraw-Hill. ISBN 9780072494716 
  11. Thomsen, Steven R.; Weber, Michelle M.; Brown, Lora B. (22 de março de 2002). «The relationship between reading beauty and fashion magazines and the use of pathogenic dieting methods among adolescent females» 145 ed. Libra Publishers. Adolescence. 37: 1–18. PMID 12003283. Cópia arquivada em 23 de junho de 2018. 
  12. James, E.L. (2012). Fifty Shades of Grey. Nova Iorque: Vintage Books. ISBN 9780872723269 
  13. Grinberg, Emanuella (13 de julho de 2012). «Explaining Fifty Shades wild success». CNN 
  14. Zuckerman, Esther (14 de janeiro de 2015). «Morality in Media Criticizes R-rating for Fifty Shades of Grey». Time. Cópia arquivada em 13 de março de 2016 
  15. Gardner, Josh (13 de janeiro de 2015). «Morality group blasts R rating for 'Fifty Shades of Grey' and says film is so violent Motion Picture Association should have made it NC-17». Daily Mail. Cópia arquivada em 4 de março de 2016 
  16. Plumb, Ali (1 de junho de 2012). «Neil Marshall Game Of Thrones Podcast: On directing 'Blackwater' and more». Empire. Cópia arquivada em 5 de setembro de 2017