A Primavera (Botticelli)

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A Primavera
Autor Sandro Botticelli
Data 1482
Técnica têmpera sobre madeira
Dimensões 203 cm  × 314 cm 
Localização Galeria Uffizi, Florença

A Primavera, também conhecido como Alegoria da Primavera, é um quadro do pintor renascentista Sandro Botticelli. A pintura utiliza a técnica de têmpera sobre madeira. Pintado cerca de 1482, o quadro é descrito na revista "Cultura e Valores" (2009) como "um dos quadros mais populares na arte ocidental". É também, segundo a publicação "Botticelli, Primavera" (1998), uma das pinturas mais faladas, e mais controversas do mundo".[1] Enquanto a maioria dos críticos concordam que a pintura, retrata um grupo de figuras mitológicas num jardim (alegoria para o crescimento exuberante da Primavera), outros sentidos também foram dados ao quadro. Entre eles, o trabalho é por vezes citado para ilustrar o ideal de amor neoplatónico.

A história da pintura não é muito conhecida, porém, parece ter sido encomendada por um membro da família Medici. É provável que Botticelli se tenha inspirado nas odes de Poliziano para realizar esta obra. As outras fontes são da Antiguidade: os Faustos de Ovídio e De rerum natura de Lucrécio.[2] Desde 1919 que a pintura faz parte da colecção da Galeria Uffizi em Florença, Itália.

Composição[editar | editar código-fonte]

A obra, A Primavera, possui inúmeros detalhes que podem ser revelados em uma Descrição Pré-iconográfica, o primeiro ato para análise de uma obra de acordo com Panofsky4. Esse tipo de descrição revela que a obra possui nove personagens distribuídos por toda a extensão do quadro. Ao centro da obra, soberana a olhar o espectador, está uma mulher em pé, com o corpo levemente em “S”, segurando um forte manto vermelho. Sobre ela, um personagem que remete à um cupido, com o corpo infantil, asas que o suspendem no ar e olhos vendados, apontando para um grupo de três mulheres. Essas três mulheres de pele e cabelos claros dançam vestidas transparentemente. A esquerda da obra, o personagem de um jovem (quase fora da composição por seu olhar e suas ações indiferentes ao resto da obra) chama atenção ao lado das personagens femininas por seu manto vermelho nesta composição de cores claras. O jovem tem uma espada na cintura e uma das mãos erguidas que alcança uma fruta. Depois que o olho do espectador segue este ciclo, volta-se para o lado direito da obra, em que o tema Primavera parece alcançar seu auge. Neste espaço, o olhar segue da primeira à última figura e volta da última para a primeira, buscando compreender a narrativa da obra. Neste grupo, uma mulher floridamente vestida, espalha flores e atrás dela, uma jovem, também vestida transparentemente foge dos braços e do sopro de um ser azulado com asas.

Na obra, o chão verde escuro é muito florido e o cenário dos acontecimentos parece ser um bosque com muitas árvores dando frutos alaranjados. Há diferentes flores, diferentes caules de árvores e diferentes folhas. Há algumas entradas de luz, mas duas delas, atrás da personagem central chamam atenção pela sua forma, que ora parecem olhos, ora parecem pulmões. Os personagens destacam-se pela suavidade das cores, contrastando com o escuro do fundo e do chão. As figuras estão quase todas na vertical, com exceção do cupido, que está na horizontal, e de duas do grupo a direita que estão em diagonal, mas amparadas pelas verticais das outras personagens.

"Palas e o Centauro" (Botticelli, 1482), foi proposta como "peça companheira" para a Primavera. Pintura exposta também em Uffizi.[3]

Temas[editar | editar código-fonte]

Várias interpretações do quadro foram definidas, mas é geralmente aceite o caracterizado por "Cunningham e Reich (2009)", "uma elaborada alegoria mitológica da fertilidade florescente do mundo." Elena Capretti em Botticelli (2002) sugere que a interpretação é feita da seguinte forma:

A leitura da imagem é da direita para a esquerda: Zefiros, o vento cortante de Março, sequestra e possui a ninfa Clóris, a quem mais tarde se casa e a transforma em divindade, torna-se a deusa da Primavera, portadora da vida eterna, espalhando rosas pelo chão.

Juliano de Médici pode ter sido o modelo para Mercúrio[4]

Vénus preside o jardim, as graças que a acompanham (e alvo do Cupido) usam jóias com as cores da família Médici, enquanto o caduceu de Mercúrio mantém o jardim seguro de nuvens ameaçadoras. As identificações básicas de caracteres é amplamente adaptada, mas outros nomes são usados às vezes para as mulheres à direita. De acordo com Botticelli (1901), a mulher de vestido florido é Primavera (a sua personificação), cujo companheiro é Flora. Flores primaveris saem da boca de Flora em contacto com o Deus do Vento.

Além de seu significado evidente, a pintura tem sido interpretada como uma ilustração do amor neoplatónico popularizado entre os Medicis e seus seguidores por Marsilio Ficino.[3] Nesta interpretação, tal como estabelecido em Sandro Botticelli, 1444-1445 -1510 (2000), o amor carnal natural representada por a figura de Zefiros à direita, é objecto de renúncia pela figura central das três Graças, que virou as costas para a cena despreocupada com a ameaça (cupido) que paira sobre ela. A preocupação dela está em Mercúrio, que mesmo ele olha despreocupado para além da tela, ignorando-a.

Origens[editar | editar código-fonte]

A origem da pintura é um pouco obscura. Pode ter sido criada em resposta a um pedido em 1477 de Lorenzo de Medici,[5] ou pode ter sido encomendado por Lorenzo um pouco mais tarde, ou pelo seu primo Lorenzo di Pierfrancesco de Medici.[6][7] Outra teoria sugere que Lorenzo encomendou o retrato para celebrar o nascimento de seu sobrinho, Júlio di Juliano de Médici (que um dia se tornaria Papa), mas mudou de ideia após o assassinato do pai de Júlio, seu irmão Juliano, tendo assim oferecido como um presente de casamento para Lorenzo di Pierfrancesco de Medici, que se casou em 1482.[8]

O quadro em geral foi inspirado por uma descrição do poeta Ovídio sobre a chegada da Primavera (Fasti, Livro 5, 2 de Maio), embora os detalhes podem ter sido derivadas de um poema de Poliziano.[9] Como o poema de Poliziano, "Rústico", foi publicado em 1483 e que a pintura é geralmente dita de ter sido concluído por volta de 1482, alguns estudiosos têm argumentado que a influência foi revertida. Outra fonte de inspiração para a pintura parece ter sido Lucrécio no poema "Natura Rerum De". Tem sido proposto que o modelo de Vénus foi Simonetta Vespucci, esposa de Marco Vespucci e, talvez, a amante de Juliano de Médici, que se diz ter sido ele próprio o modelo para Mercúrio.[4]

História[editar | editar código-fonte]

Independentemente da veracidade da sua origem e inspiração, a pintura foi inventariado na colecção de Lorenzo di Pierfrancesco de Medici, em 1499. Em 1919, foi movido para a Galeria Uffizi, em Florença. Durante a campanha italiana na Segunda Guerra Mundial, a imagem foi transferida para o Castelo de Montegufoni, cerca de dez milhas a sudoeste de Florença, para protegê-lo dos bombardeamentos. Foi devolvido para a Galeria Uffizi, onde permanece até hoje. Em 1982, a pintura foi restaurada.[10] O trabalho tem escurecido consideravelmente ao longo do tempo.[9]

Galeria[editar | editar código-fonte]

Alguns detalhes de "A Primavera":

Referências

  1. Fossi (1998), p. 5.
  2. Barbara Deimling, Botticelli, Taschen, 2004, pp. 39-43.
  3. a b Deimling (2000), p. 45.
  4. a b Heyl (1912), p. 89-90.
  5. Mattern (2005), p. 22.
  6. Brown (2010), pp. 103-104.
  7. Deimling (2000), p. 39.
  8. Capretti (2002), p. 48.
  9. a b Steinmann (1901), p. 80.
  10. Connolly (2004), p. 44.


Leitura adicional[editar | editar código-fonte]

  • Brown, Alison (2010). The Return of Lucretius to Renaissance Florence. Harvard University Press. ISBN 9780674050327.
  • Capretti, Elena (1 January 2002). Botticelli. Giunti Editore Firenze Italy. ISBN 9788809214330.
  • Cheney, Liana (1985). Quattrocento Neoplatonism and Medici humanism in Botticelli's mythological paintings. University Press of America.
  • Connolly, Sean (October 2004). Botticelli. Gareth Stevens. ISBN 9780836856484.
  • Cunningham, Lawrence S.; John J. Reich (16 January 2009). Culture & Values, Volume II: A Survey of the Humanities with Readings. Cengage Learning. ISBN 9780495569268.
  • Deimling, Barbara (1 May 2000). Sandro Botticelli, 1444/45-1510. Taschen. ISBN 9783822859926.
  • Fossi, Gloria (1998). Botticelli. Primavera. (Inglese ed.). Giunti Editore Firenze Italy. ISBN 9788809214590.
  • Heyl, Charles Christian (1912). The art of the Uffizi Palace and the Florence Academy. L.C. Page. R
  • Lucretius. On the Nature of Things at Project Gutenberg
  • Mattern, Joanne (January 2005). Sandro Botticelli. ABDO Group. ISBN 9781591978398.
  • Patterson, Annabel M. (1987). Pastoral and ideology: Virgil to Valéry. University of California Press. ISBN 9780520058620.
  • Phythian, John Ernest (1907). Trees in nature, myth and art. Methuen & co.
  • Servadio, Gaia (2005). Renaissance Woman. I.B.Tauris. ISBN 9781850434214.
  • Steinmann, Ernst (1901). Botticelli. Velhagen & Klasing.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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