Problema do cálculo econômico

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

O problema do cálculo econômico é uma crítica ao uso de uma economia planejada em substituição ao mercado na alocação dos fatores de produção.[1]. Foi formulado por Ludwig von Mises em 1920 e posteriormente expandido por Friedrich von Hayek.[2] Atualmente, o debate perpassa pelo uso da computação para resolver o problema. Paul Cockshott e Allin Cottrell argumentaram que o uso de tecnologia computacional agora simplifica o cálculo econômico e permite que o planejamento central seja implementado e mantido.[3] Leigh Phillips e Michal Rozworski lançaram um livro em 2019 que argumenta que corporações multinacionais como Walmart e Amazon já operam economias centralmente planejadas maiores que a União Soviética, afirmando que o problema de cálculo econômico é superável.[4][5]

Teoria[editar | editar código-fonte]

Em seu primeiro artigo, Mises descreveu a natureza do sistema de preços sob o capitalismo e descreveu como os valores subjetivos individuais são traduzidos na informação objetiva necessária para a alocação racional de recursos na sociedade. Ele argumentou que o planejamento da economia necessariamente leva a uma alocação irracional e ineficiente de recursos, o que não ocorreria nas trocas de mercado pois os preços iriam refletir a oferta e a demanda de recursos, trabalho e produtos.[6] Mises e Hayek argumentaram que o cálculo econômico só é possível por meio de informações fornecidas por meio dos preços de mercado e que os métodos burocráticos ou tecnocráticos de alocação carecem de métodos para alocar racionalmente os recursos. A análise de Mises centrou-se na teoria dos preços, enquanto Hayek fez uma análise mais detalhada da informação e do empreendedorismo. No artigo de 1920, Mises argumentou que os sistemas de preços nas economias socialistas eram necessariamente deficientes porque se uma entidade pública possuísse todos os meios de produção, nenhum preço racional poderia ser obtido para bens de capital, visto que eram apenas transferências internas de bens e não "objetos de troca ", ao contrário dos bens finais. Portanto, eles não tinham preços e o sistema seria necessariamente irracional, pois os planejadores centrais não saberiam como alocar os recursos disponíveis de forma eficiente.[6]

A solução de Lange-Lerner[editar | editar código-fonte]

Mais tarde, o economista romeno Abba Lerner e o polonês Oskar Lange rebateram a segunda conclusão de Mises ao construir um modelo em que havia a formação de preços sem mercado. Essa contra-argumentação, cujo modelo ficou conhecido como terceira via, estimulou fortemente o debate.

A solução Lange-Lerner apareceu em um ensaio de Lange e em dois ensaios de Lerner. Normalmente é encarada como uma corrente que apresenta uma conciliação entre capitalismo de livre mercado e socialismo democrático, entretanto, alguns defensores da terceira via vêem-na como algo além do capitalismo e do socialismo - tal afirmação deriva da concepção alternativa de terceira via como "centrismo radical".[7]

A crítica de Hayek à solução de Lange-Lerner[editar | editar código-fonte]

Em 1944, Friedrich Hayek agregou outra dimensão ao debate em seu O Caminho da Servidão. Ele defendeu que, na prática, o planejamento central jamais poderia ter informações suficientes para tomar uma decisão racional. Em sua opinião, não há nada superior ao sistema de preços.

Os seguidores de Hayek alegam que esquema Lange-Lerner seria estático, Hayek entende como sendo uma falha já que a economia é dinâmica. O conhecimento técnico, os recursos e as informações são considerados dados no sistema. Hayek argumentou que o conhecimento é disperso na sociedade e a sua utilização racional é levada a efeito por cada indivíduo traçando seus próprios planos segundo circunstâncias personalíssimas e intransferíveis. O mercado coordena esses planos espontaneamente, sobretudo por intermédio do sistema de preços, de forma muito mais racional e útil do que um planejamento central poderia esperar fazer. O planejamento central implica a supressão dos planos individuais. Os indivíduos tornam-se instrumentos do planejador central, mas esse não pode ter jamais a esperança de coordenar a produção racionalmente. O estado de equilíbrio é uma quimera que não tem lugar no mundo real, dinâmico por natureza, e o conhecimento, as oportunidades e a informação nunca estão "dados". Ao contrário, estão sendo incessantemente criados e ampliados através das iniciativas individuais e suas interações.

O sistema de preços tem como verdadeiro papel transmitir informação. É maravilhoso como, em um caso de escassez de um determinado bem, sem que ninguém tenha que dar uma ordem, e talvez com apenas um punhado de indivíduos conhecendo as causas, dezenas de milhares de pessoas cuja identidade não se poderia determinar em meses de pesquisa, começam a utilizar esse material com mais cuidado, ou seja, a mover-se na direção correta.
 
Friedrich Hayek.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. MISES, Ludwig von. O cálculo econômico no sistema socialista.
  2. Hayek, Friedrich August von (1 de dezembro de 2015). «O Cálculo Socialista I::». MISES: Interdisciplinary Journal of Philosophy, Law and Economics. pp. 367–385. doi:10.30800/mises.2015.v3.773. Consultado em 10 de fevereiro de 2021 
  3. «Towards a New Socialism». ricardo.ecn.wfu.edu. Consultado em 10 de fevereiro de 2021 
  4. Phillips, Leigh; Rozworski, Michal (5 de março de 2019). «The People's Republic of Walmart: How the World's Biggest Corporations are Laying the Foundation for Socialism» (em inglês). Verso Books. Consultado em 10 de fevereiro de 2021 
  5. Leonardo, Regis, (12 de dezembro de 2019). «Mecanismos Integrados para planificação econômica no século XXI: perspectivas alternativas ao sistema de preços e burocracia corporativa.». Consultado em 27 de fevereiro de 2021 
  6. a b kanopiadmin (18 de agosto de 2014). «Economic Calculation in the Socialist Commonwealth». Mises Institute (em inglês). Consultado em 10 de fevereiro de 2021 
  7. «Terceira Via - Política». InfoEscola. Consultado em 10 de fevereiro de 2021