Processos de Moscou

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
A prisão Luebjankan em Moscou, onde os acusados foram condenados e executados. Em primeiro plano, a pedra memorial das vítimas da opressão política na União Soviética.

Os Processos de Moscou ou Processos de Moscovo é como ficaram conhecidos uma série de julgamentos dos opositores de Josef Stalin ocorridos entre 1936 e 1938 na União Soviética, durante o Grande Expurgo.

Esse processo resultou na execução de todos os membros do Comitê Central do Partido Bolchevique (à exceção do próprio Stálin), além de vários proeminentes militantes,[1] inclusive dois dos membros da "troika" que governou a URSS entre 1923 e 1925, Grigori Zinoviev e Lev Kamenev.

Esses processos ficaram famosos pelas "confissões" arrancadas dos acusados sob tortura, coerção e chantagem.[2] Sob estes métodos, a maioria dos acusados "confessou" conspirar contra a Revolução de Outubro.

Condenados[editar | editar código-fonte]

Os processos culminaram com a execução de vários membros do Partido Bolchevique, consideradas figuras importantes por alguns historiadores durante a Revolução de Outubro embora não exista um consenso entre todos. Entre eles:

  • Lev Kamenev - Membro do Comitê Central do Partido Bolchevique. Um dos membros da troika que governou a URSS entre 1923 e 1925. Condenado à morte.[3] Durante seu julgamento, confessou: "Servimos à causa fascista, organizamos a contra-revolução, tomamos posição contra o socialismo. Foi esse o caminho que seguimos, foi esse o abismo de desprezível traição em que caímos..."[4]
  • Grigori Zinoviev - Membro do Comitê Central do partido desde 1907 e seu secretário em 1934. Membro do Bureau Político de 1919 a 1926. Presidente da Internacional Comunista de 1919 a 1926. Membro da troika. Condenado à morte e executado em 1936.[3] Durante seu julgamento, confessou: "Confesso minha culpa, como principal responsável pela organização do assassínio de Kirov... O trotskismo é uma variante do fascismo e o zinovievismo é uma variante do troskismo..."[4]
  • Leon Sedov - Filho de Leon Trótski. Acusado e condenado nos Processos de Moscou, foi assassinado em Paris por um agente de Stálin.[3]
  • Joseph Pianisky - Social-democrata em 1896, agente do Iskra em 1901, bolchevique em 1903. Foi membro do Comitê de Moscou do partido, da Comissão Central de Controle e do Comitê Central. Preso em 1937, desapareceu "misteriosamente" na prisão.[3]
  • Nikolai Krestinski - Membro do Comitê Central em 1917 e seu secretário de 1919 a 1921. Condenado à morte e executado. Por 24 horas negou as "confissões" feitas no inquérito.[3]
  • Ivar Smilga - Membro do Comitê Central desde 1911. Preso, desapareceu durante a grande purga.[3]
  • Nicolas Muralov - Dirigente do Soviete de Moscou em 1917. Condenado à morte e fuzilado. Durante seu julgamento, declarou: "Não culpo a ninguém, eu mesmo sou o culpado. Esta é minha dificuldade, meu problema, minha desgraça..."[4]
  • Nikolai Bukharin - Membro do Comitê Central e do Bureau Político. Lenin o chamou de "filho querido do partido" em seu testamento. Preso, condenado à morte e executado.[3] Durante seu julgamento, declarou: "Esta não é a minha autodefesa. É a minha auto-acusação..."[4]

A explicação para as declarações absurdas das vítimas foi dada por Nikita Kruschev: "Naquele tempo, as confissões das vítimas causaram assombro e mistificação. Hoje, o mistério desapareceu. Eles eram espancados, torturados, esmagados até a submissão. A fórmula era simples: bater, bater e tornar a bater".[4]

Legado[editar | editar código-fonte]

Todos os membros sobreviventes da era de Lênin, exceto Stalin e Trotsky, foram julgados. No final do julgamento, Stalin prendera e executara quase todos os bolcheviques vivos importantes da Revolução. Dos 1.966 delegados ao congresso do partido em 1934, 1.108 foram presos. Dos 139 membros do Comitê Central, 98 foram presos. Três dos cinco marechais soviéticos (Alexander Ilyich Yegorov, Vasily Blyukher, Tukhachevsky) e vários milhares de oficiais do Exército Vermelho foram presos ou fuzilados. O principal acusado, Leon Trotsky, estava vivendo no exílio no exterior, mas ele ainda não sobreviveu ao desejo de Stalin de tê-lo morto e foi assassinado por um agente soviético no México em 1940.

Enquanto o Discurso Secreto de Khrushchev denunciava o culto e os expurgos da personalidade de Stalin já em 1956, a reabilitação dos bolcheviques antigos prosseguia a passos lentos. Nikolai Bukharin e outros 19 réus foram oficialmente completamente reabilitados em fevereiro de 1988. Yagoda, que estava profundamente envolvido no grande expurgo como chefe da NKVD, não foi incluído. Em maio de 1988, foi anunciada a reabilitação de Zinoviev, Kamenev, Radek e co-réus.

Após a morte de Stalin, Nikita Khrushchev repudiou os julgamentos em um discurso no Vigésimo Congresso do Partido Comunista Russo:[5]

A comissão se familiarizou com uma grande quantidade de materiais nos arquivos do NKVD e com outros documentos e estabeleceu muitos fatos relativos à fabricação de casos contra comunistas, a flagrantes abusos que resultaram na morte de pessoas inocentes. Tornou-se aparente que muitos partidos e pessoas que foram marcados em 1937-38 como 'inimigos', na verdade nunca foram inimigos ou espiões, mas eram comunistas honestos ... Eles não foram capazes de suportar torturas bárbaras.[6]

Sabe-se agora que as confissões foram dadas somente após grande pressão psicológica e tortura ter sido aplicada aos réus. Dos relatos do ex-oficial da GPU Alexander Orlov e outros, os métodos usados para extrair as confissões são conhecidos: espancamentos repetidos, tortura, fazer prisioneiros ficarem sem dormir por dias a fio e ameaças de prender e executar as famílias dos prisioneiros. Por exemplo, o filho adolescente de Kamenev foi preso e acusado de terrorismo. Depois de meses de interrogatório, os réus foram levados ao desespero e à exaustão.[7]

O historiador britânico Alan Bullock menciona que os Processos de Moscou atendenderam plenamente as necessidades de Stalin, tanto psicológica quanto politicamente. Do ponto de vista psicológico, reduzia o medo de conspirações e satisfazia sua vingança, que, segundo Bullock, "permanece sempre forte em um personagem no qual não havia lugar para generosidade ou arrependimento". Do ponto de vista político, os processos "dificultaram o trabalho de qualquer tipo de oposição e pensamento independente, e assim abriram caminho para um exercício de poder autocrático completo".[8]

Reabilitação[editar | editar código-fonte]

O Politburo do Partido Comunista da União Soviética criou em 28 de setembro de 1987 uma comissão especial que funcionou inicialmente presidida por Mikhail Solomentsev, e a partir de outubro de 1988 por Alexander Nikolaevich Yakovlev. Ela examinou os casos dos julgamentos de Moscou e de muitas outras vítimas do stalinismo completando seu trabalho em julho de 1990 com a reabilitação de mais de um milhão de cidadãos soviéticos.[9]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Tragtenberg, Maurício - Reflexões sobre o Socialismo - São Paulo, Editora Moderna, 1986, página 46
  2. Schwartzman, Simon - Ciência, Universidade e Ideologia: a Política do Conhecimento - Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1980 - Capítulo 7
  3. a b c d e f g h i j Revista Teoria e Debate número 7 (jul/ago/set 1989) - Disponível em [1]
  4. a b c d e Branco, Frederico (1973). Biblioteca de história — Grandes personagens de todos os tempos — Stalin. Rio de Janeiro: Editora Três. pp. 130 — 143 
  5. Khrushchev, Nikita (25 de fevereiro de 1956). «Speech to 20th Congress of the C.P.S.U.». Sub Archive of Soviet Government Documents. Marxists.org. Consultado em 27 de maio de 2018. 
  6. Khruschev, Nikita, XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (1956)
  7. Orlov, Alexander (1954). The secret history of Stalin's crimes. [S.l.]: Jarrolds. 368 páginas 
  8. Bullock, Alan (1991). Hitler en Stalin : parallelle levens. Amsterdam: Agon. pp. 547 (citado). ISBN 905157097X 
  9. Schützler, Horst (1990). Schauprozesse unter Stalin 1932–1952. Berlin - Germany: Dietz Verlag. ISBN 978-3320016005 
Ícone de esboço Este artigo sobre História ou um(a) historiador(a) é um esboço relacionado ao Projeto História. Você pode ajudar a Wikipédia expandindo-o.