Quatrocentão

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Cripta da Catedral da Sé de São Paulo, local onde se encontram os restos mortais do cacique Tibiriçá, antepassado de muitos quatrocentões.

Quatrocentão (feminino: quatrocentona) é um termo cunhado em meados do século XX, em torno da celebração dos quatrocentos anos de fundação da cidade de São Paulo, Brasil, em 25 de janeiro de 1954, o Quarto Centenário. Designa a elite paulista tradicional, ou seja, a aristocracia e oligarquia paulista. A maioria das famílias quatrocentonas têm origem portuguesa, entre algumas famílias de origem espanhola, francesa, belga e flamenga também.[1] Tendo muitas dessas famílias origem na fidalguia e na baixa e média nobreza europeia. O termo quatrocentão designa os chamados paulistas de quatrocentos anos.[2] No passado, os quatrocentões eram referidos como "primeiros povoadores" e "nobreza da terra".[3]

Muitos quatrocentões são descendentes do português João Ramalho (1493-1580), que casou-se com a índia Bartira, filha do poderoso cacique Martim Afonso Tibiriçá, o primeiro índio a ser catequizado pelo então padre José de Anchieta (depois canonizado como São José de Anchieta), sendo Tibiriçá o cacique dos guaianases, que dominavam a região de São Paulo juntamente com os tupis e os carijós, sendo estes últimos chefiados por um irmão do cacique Tibiriçá, o cacique Piquerobi; e do também português António Rodrigues (1465), que casou-se com uma filha do cacique Piquerobi; ou do Caramuru ou do Adão Pernambucano.

Os quatrocentões são os descendentes dos bandeirantes e dos colonizadores pioneiros, fundadores de São Vicente (em 1532), de São Paulo (em 1554) e demais vilas quinhentistas paulistas, e que sentaram poderosas raízes econômicas e sociais. Constituindo-se nos grandes responsáveis pelo desenvolvimento social, econômico, urbano e cultural dessas cidades e de outras tantas do estado de São Paulo, por mais de trezentos anos, desde a fundação das primeiras cidades, no século XVI. Os bandeirantes e os povoadores pioneiros - ancestrais dos quatrocentões -, foram os grandes responsáveis pela expansão do Império Português na América do Sul. Também foram os descobridores do ouro em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, sendo os grandes responsáveis pelo chamado ciclo do ouro do Brasil, que durou todo o século XVII e quase todo o século XVIII. Por séculos, desde quase o descobrimento do Brasil, eles desbravaram o atual território brasileiro de norte a sul, de leste a oeste, em busca de metais preciosos (especialmente ouro e prata), pedras preciosas e indígenas para escravização; fundando diversas cidades por onde passavam. Contribuíram, em grande parte, para a expansão territorial do Brasil além dos limites impostos pelo Tratado de Tordesilhas, ocupando os territórios adentrados.[4][5][6][7]

Até hoje alguns quatrocentões têm um papel importante no desenvolvimento do estado de São Paulo e do Brasil. No entanto, desde a depressão de 1929, quando muitos deles perderam suas fortunas, e o período posterior à Revolução de 1932, quando os mesmos perderam muito poder político, as famílias quatrocentonas decaíram apenas do ponto de vista econômico e político, sem nunca, todavia, deixarem de ser a elite paulista tradicional.

Descendem dos chamados barões do café - os grandes cafeicultores proprietários de imensas fazendas -, e também dos paulistas detentores dos títulos nobiliárquicos da nobreza do Império do Brasil, de barão (baronesa), visconde (viscondessa), conde (condessa), marquês (marquesa), e outros, e o eram por terem sido outorgados por decreto imperial (durante o Império do Brasil (1822-1889). Títulos por outorga papal foram conferidos aos que fizeram considerável doação monetária à Igreja Católica ou destinaram fortunas em instituições de caridade, como D. Maria Angélica de Sousa Queirós Aguiar de Barros, uma paulista quatrocentona, que foi agraciada com o título de baronesa, pela Santa Sé, por seu trabalho de benemerência junto à Associação das Damas de Caridade de São Vicente de Paulo.[8][9][10]

Muitos, também, por muito tempo dominaram o sistema bancário do estado de São Paulo e do Brasil. Por sua vez, as famílias tradicionais paulistas tiveram seu apogeu político nacional durante a República Velha (1889-1930), com a política do Café com Leite (São Paulo/Minas Gerais (1898-1930), período em que se alternaram políticos do Partido Republicano Paulista e do Partido Republicano Mineiro na Presidência da República. No entanto, muitos quatrocentões se posicionam e se posicionavam a favor da monarquia constitucional vigente durante o Império do Brasil (1822-1889), tendo algumas famílias quatrocentonas, quando do exílio da família imperial, enviado muitas cartas à Sua Majestade Imperial o senhor Dom Pedro II, imperador do Brasil, e a demais membros da família imperial brasileira. Também, o atual chefe da Casa Imperial do Brasil (imperador do Brasil de jure), Dom Luís Gastão de Orléans e Bragança, residente na cidade de São Paulo, têm ligações de amizade com algumas famílias quatrocentonas, tais como os Nogueira da Gama, sendo o professor e jurista Alcebíades Delamare Nogueira da Gama seu padrinho de crisma. Para além disso, Dom Luís tem cunhadas quatrocentonas, como a ex-consorte do Príncipe D. Eudes Maria Rainier de Orléans e Bragança, Ana Maria de Moraes Barros, filha de Luís de Moraes Barros e D. Maria do Carmo de Cerqueira César Moraes Barros; e a consorte do Príncipe Dom Pedro de Alcântara Henrique de Orléans e Bragança, Maria de Fátima de Andrada Baptista de Oliveira de Lacerda Rocha, filha de Orlando de Lacerda Rocha e D. Sílvia Maria de Andrada Baptista de Oliveira. Os príncipes que se desejam casar com quem não pertence a uma família dinástica ou principesca, precisam renunciar aos seus direitos de sucessão ao trono brasileiro.

Brasão de armas da cidade de São Paulo, com referência aos bandeirantes e à riqueza produzida pelo café no século XIX e início do século XX.

Dentre os bandeirantes de que descendem, Antônio Raposo Tavares - dito o Velho -, Manuel de Campos Bicudo, Bartolomeu Bueno da Silva - o Anhanguera -, Nicolau Barreto, Francisco Pedroso Xavier, Antônio Pedroso de Barros, Valentim Pedroso de Barros, Antônio Pedroso de Alvarenga, Manuel Preto, Matias Cardoso de Almeida, Belchior Dias Carneiro, Fernão de Camargo - dito o Tigre ou o Jaguaretê -, Fernão Dias Pais Leme, Jerônimo de Camargo, Pascoal Moreira Cabral, Bartolomeu Bueno de Siqueira, Lourenço Castanho Taques, Lourenço Castanho Taques, o Moço (filho do anterior), Antônio Rodrigues Arzão, Brás Rodrigues de Arzão, Mateus Nunes de Siqueira, Sebastião Preto, Estêvão Ribeiro Baião Parente, Pedro Vaz de Barros, Brás Esteves Leme, Francisco Bueno, Henrique da Cunha Gago, Bartolomeu da Cunha Gago, Antônio da Cunha Gago, Mateus Luís Grou, Gabriel de Lara, Antônio Dias de Oliveira, Roque Barreto, Domingos Jorge Velho, Manuel de Borba Gato, João de Borba Gato, Sebastião Pais de Barros, Bartolomeu Pais de Abreu, Domingos Fernandes, Baltasar Fernandes, Francisco Dias Velho, Manuel Lourenço de Andrade, Salvador Fernandes Furtado, José Ortiz de Camargo, Baltazar de Godoy, entre outros.

A condição de quatrocentão se opõe à dos novos ricos, burgueses descendentes de imigrantes inicialmente pobres, alguns dos quais também bem sucedidos nos negócios a partir dos anos 1880 mais ou menos, como o terceiro rei do café, o prussiano Francisco Schmidt (1850-1924), e o quinto rei do café, o italiano Geremia Lunardelli (1885-1962).

A maioria, entretanto, hoje em dia tem poder aquisitivo de classe média alta. Tendo aqueles que preservam suas fortunas, como os Souza Aranha Setúbal, do banco Itaú, os Simonsen e os Silveira Mello, entre outros. Também, com o tempo, diversos quatrocentões casaram-se com descendentes enriquecidos de imigrantes italianos, alemães, franceses, poloneses e libaneses que teriam imigrado para o Brasil em fins do Império brasileiro (1822-1889) em busca de melhores condições de vida, ainda que de início tenha havido muita rejeição entre os quatrocentões para com estes imigrantes outrora pobres, muitos dos quais vieram por contrato para trabalharem como colonos das fazendas, carentes de mão de obra após a abolição da escravatura (1888).

Entre essas famílias tradicionais fundadoras de São Paulo de Piratininga (em 1554) e demais vilas quinhentistas paulistas, destacam-se, entre outros: os Leme, Prado, Almeida, Castro, Monteiro de Castro, Almeida Prado, Silva Prado, Castro Prado, Cardoso de Almeida, Pinheiro Guimarães, Furquim, Castanho, Almeida Castanho, Freitas, Cunha Gago, Dias, Botelho, Arruda, Arruda Botelho, Afonso Gaia, Rendon, Moraes Antas, Fernandes Reis, Fernandes Gonçalves Reis, Fernandes Povoadores, Gama, Nogueira da Gama, Cobra, Nogueira Cobra, Ataliba Nogueira, Grou, Pires, Camargo, Pimenta, Pires de Camargo, Pimenta Camargo, Camargo Penteado, Penteado de Camargo, Bueno da Ribeira, Penteado, d'Horta, Godói, Bueno, Cubas, Oliveira Horta, Jorge Velho, Silva Telles, Garcia Velho, Souza Aranha, Raposo Góes, Raposo Tavares, Félix, Arzão, Raposo, Alcântara Machado, Sarmento, Bicudo, Moreira, Oliveira Dias, Campos Bicudo, Rego, Mello, Mello Rego, Oliveira Mello, Silveira Mello, Pompeu (também citado como Pompeo), Toledo Piza, Toledo Ribas, Pompeu de Toledo, Taques Pompeu, Pompeu de Almeida, Silva Leme, Furtado, Vaz Guedes, Arias, Aguirre, Sodré, Freitas Valle, Toledo, Preto, Rodrigues Lopes, Saavedra, Taques, Borges, Mattoso, Nunes de Siqueira, Siqueira Mendonça, Campos, Pires de Ávila, Dutra Machado, Maciel, Jorge, Morato, Andrade, Rocha Pimentel, Lacerda, Cerqueira, Borges da Fonte, Borges de Cerqueira, Cerqueira César, Barros, Pacheco, Gama, Gato, Guedes de Souza, Guedes de Andrade, Martins Bonilha, Mesquita, Veiga, Pedroso, Paes, Cabral, Silva Rudge, Costa Cabral, Rudge Ramos, Baião, Cordeiro Paiva, Paes Leme, Paes de Barros, Dias Chaves, Pedroso Barros, Canto, Andrada, Ribeiro de Andrada, Pimentel, Ferraz, Queirós, Borba Gato, Souza Queiroz, Ribeiro, Garcia Leal, Gonçalves Figueira, Carrasco, Parente, Borba, Junqueira, Ortiz, Lara, Caldeira, Pinto, Pinto Caldeira, Caldeira Brant, Piva de Albuquerque, Souza Campos, Mello Franco, Mello e Oliveira, Albuquerque, Campos Vergueiro, Lemos, Abreu, Domingues, Vergueiro, Cardoso, Quadros, Rocha, Ramos, Branco, Vaz, Leite, Mendonça, Teixeira, Oliveira, Alvarenga, Amaral, Rodrigues, Xavier Monteiro, Corrêa, Aguiar, Cordeiro, Barreto, Tenorio, Guerra, Aranha, Ramalho, Roiz, Telles, etc.[11]

Os paulistas quatrocentões residentes na cidade de São Paulo mantiveram o costume de enterrar seus mortos em jazigos de suas famílias, do Cemitério da Consolação, utilizando-se abundantemente de arte tumular.

Cornélio Pires, em seu livro Conversas ao Pé do Fogo, sugere que alguns dos descendentes dos "primeiros povoadores, fidalgos ou nobres empobrecidos" com indígenas, como alguns dos descendentes de João Ramalho com Bartira (filha do cacique Tibiriçá), descendentes estes que em vez de viverem como europeus permaneceram como indígenas - os chamados caboclos -, também se orgulhavam da sua ascendência:

[12]

A origem[editar | editar código-fonte]

A miscigenação entre portugueses e índios aconteceu desde o início do Brasil colônia (1530-1815). Em 4 de abril de 1755, D. José I, Rei de Portugal, e, portanto, soberano das colônias do ultramar português, assinou um decreto real autorizando o casamento de portugueses com índios, porém, desde a fundação de São Paulo, João Ramalho já estabelecera larga descendência com diversas índias, especialmente com Bartira (filha do cacique Tibiriçá), cujos descendentes se entrelaçaram com as primeiras famílias lusas habitantes de São Paulo.[11]

O termo quatrocentão designa as antigas e tradicionais famílias de São Paulo, descendentes dos bandeirantes e primeiros colonizadores, distinguindo-as dos chamados novos-ricos, descendentes de imigrantes de diversas nacionalidades, relativamente recém-chegados (pois chegaram em fins do Império do Brasil (1822-1889), que ensaiavam formar uma nova categoria social.

Apesar da globalização e cosmopolitismo, o quatrocentão permanece como lembrança dos bandeirantes e povoadores pioneiros, especialmente os descendentes de Bartira e João Ramalho, com descendência provada através de livros de assentos de batismos e de casamentos paroquiais de São Paulo guardados no arquivo da Cúria da Arquidiocese de São Paulo, de inventários e testamentos depositados no Arquivo Público do Estado de São Paulo e dos livros de genealogia, especialmente os de Pedro Taques de Almeida Paes Leme e os de Luís Gonzaga da Silva Leme, e suas atualizações feitas por Marta Maria Amato.

O resgate do bandeirismo no século XX[editar | editar código-fonte]

O orgulho autêntico dessas famílias pioneiras foi renovado com a publicação, no início do século XX, da obra Genealogia Paulistana, de Luís Gonzaga da Silva Leme, e, durante a Revolução de 1932, quando as cédulas levavam as efígies dos bandeirantes e outros símbolos paulistas.

Em 1939, foi criado o Instituto Genealógico Brasileiro, pelo coronel Salvador de Moya Rufo.

Por ocasião do Quarto Centenário, em 1954, foram reeditadas obras que falavam da antiga Vila de São Paulo de Piratininga e foram lançadas obras inéditas.

Entre as principais obras que retratavam os bandeirantes, encontram-se: São Paulo nos primeiros anos, São Paulo no século XVI, e São Paulo seiscentista e História Geral das Bandeiras Paulistas, em 11 volumes, de Afonso d'Escragnolle Taunay (filho do visconde de Taunay); No tempo dos bandeirantes, de Belmonte; O Bandeirismo Paulista e o Recuo do Meridiano e Raça de Gigantes - A Civilização no Planalto Paulista, de Alfredo Ellis Júnior; e Vida e morte do bandeirante, de José de Alcântara Machado.

Os imigrantes e a miscigenação[editar | editar código-fonte]

A elite paulista e paulistana tradicional inicialmente tentou singularizar-se, separando-se dos imigrantes através de escolas e clubes destinados àqueles que, anos mais tarde, teriam seus descendentes classificados como quatrocentões. A despeito do seu esforço, essa chamada elite paulista e paulistana tradicional acabou por miscigenar-se aos imigrantes.[13]

No início do século XX, tinham o Club Athletico Paulistano, o Jockey Club de São Paulo, a Sociedade Hípica Paulista, o Automóvel Clube de São Paulo e o Velódromo de São Paulo. Aos poucos os estrangeiros começaram a ser recebidos, embora com reservas, nesses clubes fechados, frequentados exclusivamente pelas antigas e tradicionais famílias de São Paulo.

Mas os imigrantes criaram seus próprios clubes, como o Germânia (atual Esporte Clube Pinheiros) dos alemães; o Palestra Itália (atual Palmeiras) e o Juventus dos italianos; o Corinthians dos imigrantes e estrangeiros em geral (não importando a sua origem), e o São Paulo Athletic Club e o Nacional dos ingleses. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o Germânia e o Palestra Itália se viram forçados a mudar seus nomes.

O grande número de imigrantes na capital paulista assustava o homem do interior, incluindo o caipira. Cornélio Pires recolheu, em seu livro Sambas e Cateretês, uma modinha, de 1911, de Dino Cipriano, que descreve a impressão que o homem do interior tinha da capital paulista:

[14]

Segundo Raymundo Faoro, em seu livro Os donos do poder, no início do século XX, muitos dos novos-ricos, habitantes da cidade de São Paulo, principalmente os de origem italiana ou japonesa, tinham sido colonos nas grandes fazendas de café dos quatrocentões. Outros, de origem árabe, trabalhavam na incipiente indústria e no comércio.

A peça teatral Os ossos do barão, de Jorge Andrade, ele mesmo amargurado por ser afetado pessoalmente pela queda financeira familiar, retrata os conflitos do período em que a miscigenação se inicia. A ação se passa no momento em que as famílias tradicionais paulistas são afetadas pela queda da Bolsa de Nova York, em 1929, que derrubou os preços do café. Os fazendeiros paulistas, chamados barões do café - nem sempre tendo o título legítimo de barão -, não encontrando compradores para sua produção, empobrecidos, veem-se obrigados a vender algumas de suas fazendas. Em muitos casos, elas foram compradas por antigos empregados. Na peça de Jorge Andrade, a filha de um fazendeiro casa-se com um filho de colonos italianos, ex-empregados de seu pai. O rapaz, apesar de ter estudado e obtido um diploma de "doutor", não tinha pedigree e só consegue ser recebido pela alta sociedade através do casamento com moça das famílias quatrocentonas, que aceitava o consórcio para dourar o brasão.[15]

Os conflitos gerados pela gradual miscigenação entre a aristocracia paulistana antiga e a emergente classe dos descendentes de italianos foram mostrados também pelo dramaturgo e contista Antônio de Alcântara Machado, um quatrocentão, que na obra Brás, Bexiga e Barra Funda, "uma coletânea de contos publicada em 1928, trata do quotidiano dos imigrantes italianos e dos ítalo-descendentes na cidade", mostrando "as impressões duma São Paulo imersa na experiência da imigração, que então vinha modificando os trejeitos da cidade".

Há muitos exemplos reais de casos, como o de Yolanda Penteado, de tradicional família paulistana, desquitada de um rapaz da tradicional família Silva Telles, e não havendo divórcio em sua época, se uniu a Ciccilo Matarazzo, romance este retratado com certa liberdade, do ponto vista histórico, na minissérie Um só Coração, de Maria Adelaide Amaral, exibida na TV Globo.

Outro exemplo é o de Fábio da Silva Prado, aristocrata paulistano da tradicional família Silva Prado, que se casou com Renata Crespi, filha do conde Rodolfo Crespi - imigrante italiano que faria uma fortuna bilionária no Brasil -, dono da maior tecelagem de São Paulo, o Cotonifício Crespi, numa época em que os tradicionais paulistas só se casavam com moças de tradicionais famílias brasileiras, especialmente de tradicionais famílias paulistas - muitas dessas famílias aparentadas entre si.

Vê-se, portanto, que a eventual fortuna de um imigrante não transformava seus filhos automaticamente em bons-partidos, do ponto de vista dos patriarcas tradicionais de São Paulo. Pelo contrário, os jovens tinham que enfrentar suas famílias, para conseguir unir-se em casamentos, sendo recebidos com reservas.

Assim como os Crespi, também o conde Francesco Matarazzo, imigrante italiano que chegou ao Brasil em 1881, construiu um império industrial - o maior complexo industrial da América Latina do início do século XX - e, por algumas décadas, na cidade de São Paulo, a palavra "matarazzo" era usada como sinônimo de milionário. Muitas outras famílias de imigrantes, aos poucos, mesclaram-se à alta sociedade tradicional.[16] A interação social ente alguns quatrocentões e os imigrantes se dava nas matinês do Cine República, nos chás da tarde da Confeitaria Vienense e nos passeios pela recém-inaugurada Avenida Paulista.[17][18] Um exemplo da integração dos Matarazzo com outros imigrantes e com famílias de tradição é Eduardo Matarazzo Suplicy, que descende de Maria Leme do Prado e Tomé Rodrigues Nogueira do Ó, tronco dos Nogueira do Sul de Minas Gerais, de cuja família pertencem Pedro Calmon, Oswald de Andrade, Roberto Simonsen, Mário Henrique Simonsen e o marquês de Baependi; e que se casou com Marta Teresa Smith de Vasconcellos - mais conhecida como Marta Suplicy -, neta, bisneta e trineta dos barões de Vasconcellos, e bisneta do conde Alessandro Siciliano.

Perpetuando a lembrança dos tradicionais, as ruas da cidade foram batizadas com os nomes de paulistas ilustres. Mas hoje, ao lado dos sobrenomes tradicionais, como Cerqueira César, Macedo e Duarte, veem-se ruas com nomes italianos, árabes e japoneses. No bairro do Morumbi, por exemplo, ao lado da avenida Dona Maria Mesquita da Motta e Silva e das ruas Ribeiro Lisboa e Silveira Sampaio, ficam as ruas Dr. Chibata Miyakoshi e Oagy Kalile. Na mesma região encontram-se as ruas Dr. José Gustavo Busch (de origem inglesa) e Brigadeiro Armando Trompowsky, filho de uma imigrante polonesa.

Mesmo consequência da globalização e sinal do cosmopolitismo da metrópole paulista, o termo quatrocentão mantém seu significado de cidadão pertencente à família antiga, poderosa e tradicional. Por outro lado, nem todos os quatrocentões, descendentes das famílias que nos séculos XVI, XVII, XVIII, XIX e início do século XX, detinham o poder político e econômico, podem ser considerados, hoje, como membros da chamada elite econômica e política, já que muitas dessas famílias decaíram do ponto de vista do poder econômico e político.[19]

Referências

  1. [1]
  2. Trigo, Maria Helena Bueno (1 de janeiro de 2001). Os paulistas de quatrocentos anos: ser e parecer. [S.l.]: Annablume. ISBN 9788574192055 
  3. Nizza da Silva, Maria Beatriz (2005). Ser nobre na colônia (I ed.). S. Paulo - SP: Editora UNESP. p. 132.
  4. «Um Governo de Engonços: Metrópole e Sertanistas na Expansão dos Domínios Portugueses aos Sertões do Cuiabá (1721-1728)» 
  5. [Relatos Sertanistas, Afonso Taunay, Ed. da Universidade de São Paulo]
  6. «Os bandeirantes descobrem o ouro» 
  7. «Bandeirantes, História do Brasil.» 
  8. «Associação Das Damas de Caridade de São Vicente de Paulo». Arquidiocese de São Paulo (em inglês) 
  9. «Avenida Angélica. Definição, fotos e vídeos». Conhecimento Geral. 15 de julho de 2016 
  10. «Justiça Federal de Primeiro Grau em São Paulo». www.jfsp.jus.br. Consultado em 15 de março de 2017 
  11. a b SILVA LEME, Luís Gonzaga da, Genealogia paulistana, 9 volumes, Editora Duprat e Cia., 1901 e seguintes.
  12. PIRES, Cornélio, Conversas ao Pé do Fogo, Imesp, edição fac-símile, São Paulo, 1986
  13. «Folha de S.Paulo - Família: Primeiros colonizadores têm milhões de descendentes espalhados no país - 28/11/2003». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 14 de março de 2017 
  14. PIRES, Cornélio, Sambas e Cateretês, Editora Unitas Ltda., São Paulo, 1932
  15. «Bis!: Conheça a história de 'Os Ossos do Barão', maior sucesso do TBC». redeglobo.globo.com 
  16. Cavalcanti é a maior família brasileira, ItaliaOggi.com.br
  17. São Paulo, 450 anos e 15 gerações de paulistanos
  18. «Folha de S.Paulo - Família: Primeiros colonizadores têm milhões de descendentes espalhados no país - 28/11/2003». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 14 de março de 2017 
  19. «Folha Online - Treinamento - Aqui jaz São Paulo». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 25 de março de 2017 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • CARVALHO FRANCO, Francisco de Assis, Dicionário de Bandeirantes e Sertanistas do Brasil, Editora Itatiaia Limitada - Editora da Universidade de São Paulo, 1989.
  • BARATA, Carlos Eduardo de Almeida; BUENO, Antônio Henrique da Cunha (1999-2001). Dicionário das famílias brasileiras. Rio de Janeiro: [s.n.] 5251 páginas. LCCN 99885494. OCLC 45118700. OL 141924M 
  • ELLIS JÚNIOR, Alfredo, O Bandeirismo Paulista e o Recuo do Meridiano, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1934.
  • ELLIS JÚNIOR, Alfredo,Raça de Gigantes - A Civilização no Planalto Paulista, Editora Hélios Limitada, São Paulo, 1926.
  • PAES LEME, Pedro Taques de Almeida, Nobiliarquia Paulistana Histórica e Genealógica, 3 volumes, Editora Itatiaia Limitada - Editora da Universidade de São Paulo, 1980.
  • RIBEIRO, Laerte M. Magno, 20 gerações de João Ramalho e Bartyra, Grafic Editora Ltda., São Paulo, 1989.
  • SILVA LEME, Luís Gonzaga da, Genealogia paulistana, 9 volumes, Editora Duprat e Cia., 1901 e seguintes.
  • TAUNAY, Afonso d'Escragnolle, História geral das bandeiras paulistas, 11 volumes, São Paulo, Typ. Ideal, 1924-1950.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]