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Que Fazer?

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Nota: Este artigo é sobre a novela de Tchernichevski; para o livro de Lênin, consulte Que Fazer? (Lênin).
Что делать?
O Que Fazer?
Capa de 1905
Autor(es)Nikolai Gavrilovitch Tchernichevski
IdiomaRusso
País Rússia
GêneroCrítica social, novela
Lançamento1863

O Que Fazer? foi escrito em 1862 por Nikolai Tchernichevski durante sua prisão na Fortaleza de Pedro e Paulo, em São Petersburgo.[1] Publicada originalmente em 1863, a obra rapidamente se tornou um dos textos mais influentes do pensamento radical russo do século XIX. Sua combinação de enredo didático, utopia social e moral revolucionária marcou um ponto de inflexão na literatura russa: o romance deixou de ser apenas forma estética e passou a atuar como instrumento de transformação política e moral.

A trama, centrada em Vera Pavlovna, apresenta o ideal do “homem novo” — racional, disciplinado e devotado à regeneração social — em oposição à figura desencantada do “homem supérfluo”, que dominava a geração anterior de escritores como Turguêniev. Segundo Orlando Figes, “O Que Fazer?” pode ser lido como “uma resposta ideológica e moral a Pais e Filhos”, e sua publicação foi “um dos maiores erros da censura czarista, pois converteu mais homens à causa revolucionária do que todas as obras de Marx e Engels juntas”.[2]

O romance exerceu influência direta sobre o pensamento e a prática política do século XX: Lênin, Plekhanov, Kropotkin e Rosa Luxemburgo reconheceram ter sido profundamente marcados pela obra, e o próprio Lênin adotou seu título para o tratado político de 1902.

Contexto histórico e influências

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A segunda metade do século XIX na Rússia foi marcada por intensas transformações sociais e intelectuais. O país, ainda sob a autocracia czarista, começava a abrir-se à influência das ideias ocidentais — à técnica, à filosofia moderna e às correntes políticas do liberalismo e do socialismo —, mas permanecia preso a uma estrutura social agrária e hierarquizada, sustentada na nobreza e na servidão.[3]

Nesse contexto contraditório, formou-se uma nova geração de intelectuais e estudantes — muitos oriundos das universidades de Moscou e São Petersburgo — que viam na razão humana o novo princípio organizador da história. Inspirados pelo pensamento científico e materialista europeu, esses grupos fundaram sociedades secretas e círculos revolucionários que pregavam a reconstrução total da Rússia, muitas vezes por meio da violência política.[4]

Foi nesse ambiente que surgiu Tchernichevski, figura central do radicalismo russo. Sua influência ultrapassou a literatura: ele sistematizou uma filosofia materialista e utilitarista em ensaios como O princípio antropológico na filosofia (1861), nos quais defendia que toda moralidade deriva das leis naturais e das condições materiais da existência.[5] Publicado em 1863, O Que Fazer? foi escrito por Tchernichevski durante sua prisão na Fortaleza de São Pedro e São Paulo, e pode ser lido como uma resposta ideológica e moral a Pais e Filhos de Ivan Turguêniev, publicado no ano anterior.[6] Enquanto Turguêniev apresentava o ceticismo e o desencanto de uma geração de “homens supérfluos”, Tchernichevski propunha o modelo oposto — o “homem novo”, racional e ascético, capaz de regenerar a sociedade. O contraste entre ambas as obras marcou um ponto de inflexão na literatura russa, convertendo o romance em instrumento de formulação política.

Além disso, segundo o biógrafo Eddy Trèves, Tchernichevski foi influenciado pelo pensamento utópico de Charles Fourier, especialmente pelos tratados Traité du libre arbitre e Traité de l’unité universelle, cujas concepções de harmonia social e de transformação integral do homem repercutem no ideal comunitário apresentado no “segundo sonho de Vera Pavlovna”.[7] Essa perspectiva, que desloca a razão do plano transcendental para o plano sensível, é vista por intérpretes como o ponto de viragem do racionalismo russo em direção ao imanentismo e ao niilismo revolucionário.

O romance começa com a notícia de um suicídio: um homem teria se matado com um tiro na ponte Liteiny, em 11 de julho de 1856. Em seguida, a narrativa recua para acompanhar Vera Pávlovna, que, em uma casa de veraneio na Ilha de Pedra (Kamenny Ostrov), recebe a trágica notícia da morte do marido.

A história passa então a relatar a juventude de Vera, criada em uma casa na rua Gorokhovaya, e seu primeiro pretendente — o vulgar oficial Storechnikov. Contrariando os pais, ela o rejeita e escolhe casar-se com o estudante de medicina Lopukhóv. O casamento lhe permite sair do lar paterno e mudar-se para uma modesta casa de madeira de um só andar, na 5ª linha da Ilha Vassílievski, entre as avenidas Média e Pequena. Lá, o casal institui novos costumes: ninguém beija as mãos de ninguém, e cada um dorme em seu próprio quarto.

Cinco meses após o casamento, Vera decide fundar uma oficina de costura para confeccionar vestidos femininos e passa a atender encomendas em casa. Para ampliar a clientela, conta com a ajuda de uma conhecida francesa, Julie Le-Tellier, do círculo de Storechnikov. A iniciativa prospera rapidamente: Vera distribui de modo justo os lucros entre as costureiras, e o número de funcionárias cresce, em cinco anos, de três para vinte. Com o tempo, as mulheres passam a viver juntas em um mesmo apartamento, com mesa comum e horários regulados de trabalho e descanso. A comunidade, contudo, não é ascética — as costureiras podem se casar, frequentar o teatro e passear nos arredores.

Nesse período, o amigo de Lopukhóv, o médico Kirsánov, apaixona-se por Vera. Ele mesmo já se afastara de uma antiga amante, Kriukóva. A doença de Lopukhóv faz com que Kirsánov visite cada vez mais o casal. Três anos depois do casamento, Vera sente esfriar o afeto pelo marido e se descobre apaixonada por Kirsánov. Honesta e avessa à mentira, confessa ao marido, por meio de um sonho que tivera, que deixou de amá-lo. Ainda assim, reconhece a dívida moral que tem com ele. Para libertar a esposa, Lopukhóv decide “sair de cena”: viaja a Riazã e encena o próprio suicídio — o mesmo evento com que o romance se inicia.

Um mês depois, Vera casa-se com Kirsánov e muda-se para a rua Serguéievskaia, próxima ao lado de Viborg, onde o novo marido trabalha. Cansada dos negócios da costura, ela se interessa pela medicina.

Mais tarde, Vera abre uma loja na avenida Névski, com o letreiro Au bon travail. Magasin des nouveautés. Kirsánov torna-se um professor reconhecido e ajuda a curar Iekaterina Polózova, diagnosticada com atrophia nervorum (“esgotamento nervoso”). O pai de Iekaterina conhece então um agente comercial norte-americano, Charles Beaumont, que compra suas ações e se casa com a filha. Logo se revela, porém, que Beaumont é, na verdade, Lopukhóv, que nunca se matou, mas emigrara para os Estados Unidos, onde reconstruíra a vida. Os Beaumonts voltam à Rússia e passam a morar perto dos Kirsánov, com quem mantêm uma amizade próxima, repleta de piqueniques e passeios de trenó.

Temas filosóficos e políticos

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O livro, mais do que um romance, é uma obra de instrução de doutrinas políticas, estruturada como um manual de moral revolucionária.[8] A figura de Rakhmetov, o asceta revolucionário, encarna o ideal do homem do futuro: disciplinado, racional, desprovido de paixões e inteiramente devotado à reorganização científica da sociedade. A literatura, aqui, tem uma função pedagógica: modelar consciências e instruir o leitor quanto ao modo “correto” de viver.

Orlando Figes descreve Rakhmetov como um “Titã monolítico” que renuncia a toda alegria da vida, “dormindo sobre uma tábua de pregos e treinando o corpo e a mente até dominar o conhecimento da Humanidade”.[9] Segundo o historiador, esse personagem exerceu fascínio profundo sobre gerações de revolucionários, fornecendo o arquétipo do militante puro, ascético e devotado à causa — figura que influenciaria diretamente Lênin e o ethos do bolchevismo.

Essa concepção coincide com a formulação estética de Gueórgui Plekhanov, segundo a qual a arte deve “reproduzir a vida e ajuizar de seus fenômenos”.[10] Assim, a arte assume uma função social: ensinar o que é a vida e como transformá-la. O resultado é a conversão da literatura em instrumento de difusão de ideias políticas.

Há uma antropologia implícita em O Que Fazer?: o ser humano é matéria organizada, e a moral é o resultado do equilíbrio racional dos interesses naturais — o “egoísmo racional”. A virtude é uma forma esclarecida de utilidade social. Essa visão antropológica define também a liberdade, que é entendida como o produto de uma estrutura social justa. Como observa Copleston, o ideal do autor é o de uma comunidade racional e autossuficiente, onde o amor e o trabalho se subordinam ao cálculo da utilidade.[11] O indivíduo deve ser dissolvido no coletivo; o amor, dessexualizado e convertido em função econômica; e o ascetismo cristão é substituído pelo ascetismo revolucionário. No romance, o sofrimento é descrito não como experiência religiosa, mas como meio de regeneração social.

O niilismo russo do século XIX não se originou de um simples sentimento destrutivo, mas de uma forma secularizada do ideal cristão de regeneração. A ideia de salvação, antes espiritual, foi deslocada para o plano histórico e político. Intelectuais como Herzen, Dobroliúbov, Pisarev e o próprio Tchernichevski acreditavam que a ciência e a razão poderiam refazer o homem e a sociedade, substituindo a graça pela técnica e pela organização social racional.[12] Essa ética do cálculo substitui a teleologia clássica por um pragmatismo imanente: o bem deixa de ser aquilo que aperfeiçoa a natureza humana e passa a ser aquilo que maximiza a eficiência social. O episódio conhecido como “segundo sonho de Vera Pavlovna” ilustra o ideal utópico do romance: uma sociedade socialista onde todos vivem em harmonia racional. O trecho expressa a tentativa de fundar uma moral imanente, na qual o bem se realiza pela organização racional das condições materiais.

A influência de Ludwig Feuerbach, do positivismo francês e do utilitarismo ocidental deu base a essa ética materialista. Segundo os intérpretes materialistas da época, a religião era frequentemente entendida como forma de alienação; a moral, como convenção social; e a liberdade, como produto das condições materiais. Segundo Lukács, o “novo homem” concebido por Tchernichevski age conforme um “egoísmo racional”: resolve conflitos morais de forma calculada, sem referência a princípios transcendentais.[13]

Primeira Tradução do Romance para o Português

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Em 2015, o professor da Universidade de São Paulo, Angelo Segrillo, publicou a primeira tradução para o português do romance "O Que Fazer?".[14][1][2]

Impacto e Recepção

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O Que Fazer? foi publicado originalmente na primavera de 1863, em três números sucessivos da revista Sovremennik, o mesmo periódico em que Tchernichevski havia divulgado suas ideias democráticas e revolucionárias antes da prisão.[15] A obra foi imediatamente censurada e o texto integral só pôde circular oficialmente em 1905, sendo até então reproduzido clandestinamente em cópias manuscritas. Essa difusão subterrânea, longe de reduzir o alcance do romance, contribuiu para ampliar seu prestígio entre os meios revolucionários.

Diversos críticos consideram O Que Fazer? uma obra decisiva na transformação da literatura russa em meio de militância ideológica.[16] Joseph Frank observou que “o romance de Tchernichevski, muito mais do que o Capital de Marx, forneceu a dinâmica emocional que acabou por alimentar a Revolução Russa”.[17]

A influência de O Que Fazer? foi imediata e profunda. O romance inspirou gerações de jovens revolucionários que viam nele uma verdadeira “catequese política”.[18] Vladimir Lênin, Georgi Plekhanov, Piotr Kropotkin, Alexandra Kollontai, Rosa Luxemburgo e até o escritor sueco August Strindberg declararam-se profundamente impressionados pela obra.[19]

O personagem Rakhmetov tornou-se modelo do “revolucionário profissional”, ideal retomado por Serguei Nechaev em seu Catecismo do Revolucionário (1869), onde a abnegação pessoal e o fanatismo moral são elevados à condição de dever.[20]

A crítica histórica identifica uma linha contínua entre Tchernichevski, Nechaev e Bakunin: a razão transformada em instrumento de fanatismo político. O assassinato do czar Alexandre II, em 1881, simbolizou a culminação desse processo — a fé na redenção pela destruição, núcleo do niilismo russo.[21]

O fim do século XIX e o início do XX testemunharam o colapso moral e político do regime czarista. O escândalo de Rasputin — cuja influência sobre Nicolau II e a imperatriz Alexandra é amplamente documentada — tornou-se símbolo da decadência espiritual da autocracia.[22] O descrédito do regime abriu caminho para a difusão das ideias revolucionárias, agora amadurecidas em direção ao marxismo.

O romance foi também alvo de polêmica e ironia. Fiódor Dostoiévski ridicularizou o utilitarismo e o utopismo de Tchernichevski em Memórias do Subsolo (1864) e, de modo mais amplo, em Os Demônios (1872). Liev Tolstói respondeu ao mesmo idealismo racionalista com seu próprio O Que Fazer? (1886), baseado em princípios de responsabilidade moral e religiosa.

Nos anos 1930, O Que Fazer? e seu autor foram ironizados por Vladimir Nabokov no romance O Dom (Дар), em que o protagonista-scritor Fiódor Godunov-Tcherdyntsev escreve uma biografia paródica de Tchernychevski e da gênese de sua obra.[23] Essa releitura modernista marcou o fim da aura revolucionária do romance, reinterpretado pela literatura do século XX como documento histórico e sintoma de uma época de fervor ideológico.

Outros autores, como André Gide (Les caves du Vatican) e Tony Kushner (Slavs!), fizeram referências explícitas ou paródicas à obra, e alguns críticos identificam ecos dela até em Ayn Rand, cuja formação intelectual se deu no contexto do radicalismo russo.[24]

Vladimir Lênin leu O Que Fazer? na juventude e reconheceu ter sido profundamente marcado pela obra. Décadas depois, seu tratado político de 1902 recebeu o mesmo título (Что делать? / O Que Fazer?), reinterpretando o ascetismo moral de Tchernichevski em termos de disciplina partidária e centralismo político.[25] Nesse sentido, o projeto de regeneração racional do homem, iniciado como ideal literário, encontrou sua realização histórica no totalitarismo do século XX. Durante o período soviético, O Que Fazer? foi oficialmente consagrado como clássico da literatura russa, e Tchernichevski foi celebrado como um dos “precursores da Revolução”.[26][27]

No século XXI, o romance voltou a ser mencionado em contextos políticos contemporâneos: em 2024, o secretário-geral do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping, evocou O Que Fazer? durante a 16ª cúpula dos BRICS, como referência simbólica à necessidade de “reforma moral e racional do Estado”.[28]

Veja também

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Referências

  1. Middlebury Academics. «Dostoevsky's - Notes from Underground» (em inglês). Consultado em 27 de novembro de 2012 
  2. FIGES, Orlando. A tragédia de um povo. Rio de Janeiro: Record, 2007.
  3. VENTURI, Franco. Roots of Revolution: A History of the Populist and Socialist Movements in Nineteenth Century Russia. University of Chicago Press, 1983.
  4. WALICKI, Andrzej. A History of Russian Thought: From the Enlightenment to Marxism. Stanford University Press, 1979.
  5. TCHERNICHEVSKI, Nikolai. “O princípio antropológico na filosofia”, 1861.
  6. FIGES, Orlando. A tragédia de um povo. Rio de Janeiro: Record, 2007.
  7. TRÈVES, Eddy. “Charles Fourier (1772–1837)”. In: L’Homme et la société, nº 26, 1972, p. 241–247.
  8. CARPEAUX, Otto Maria. História da Literatura Ocidental, vol. 6. Rio de Janeiro: Alhambra, 1964.
  9. FIGES, Orlando. A tragédia de um povo. Rio de Janeiro: Record, 2007.
  10. PLEKHANOV, G. Art and Social Life. Foreign Languages Publishing House, 1964.
  11. COPLESTON, Frederick. A History of Philosophy, vol. 9. London: Continuum, 1994.
  12. FRANK, Joseph. Dostoevsky: The Seeds of Revolt, 1821–1849. Princeton University Press, 1992.
  13. LUKÁCS, György. O que é realismo? São Paulo: Boitempo, 2017.
  14. Tchenichevski, Nikolai (2015). O Que Fazer? (Trad. Angelo Segrillo). Curitiba: Editora Primas 
  15. I. Ambrogio, Introduzione a N. G. Černyševskij, Che fare?, Pordenone, Edizioni Studio Tesi, 1977, p. IX.
  16. CARPEAUX, Otto Maria. História da Literatura Ocidental, vol. 6. Alhambra, 1964.
  17. FRANK, Joseph, apud Martin Amis, Koba the Dread, Miramax, 2002, p. 27.
  18. VENTURI, Franco. Roots of Revolution. University of Chicago Press, 1983.
  19. Myrdal, Jan. 1986. Ord och avsikt.
  20. NECHAEV, Sergei. Catecismo do Revolucionário, 1869.
  21. WALICKI, Andrzej. A History of Russian Thought. Stanford University Press, 1979.
  22. KERENSKY, Alexander. The Catastrophe: Kerensky’s Memoirs of Russia’s Revolution. D. Appleton, 1927.
  23. «Чернышевский в романе В. Набокова «Дар» (К предыстории вопроса)». Consultado em 10 maio 2025  line feed character character in |título= at position 13 (ajuda)
  24. Sciabarra, Chris Matthew. Ayn Rand: The Russian Radical. Penn State Press, 2010, p. 28.
  25. LÊNIN, Vladimir. O Que Fazer?. 1902.
  26. Chernets, L. V. Н. Г.: Биобиблиографическая справка. In: Русские писатели. Биобиблиографический словарь, t. 2. Moscou: Просвещение, 1990.
  27. Plekhanov, Georgi. Н.Г.Чернышевский. In: Библиотека научного социализма, t. 4, 1910.
  28. Garnaut, John; Chetwin, Sam (15 de dezembro de 2024). «This Unreadable Russian Novel Drives Xi's Struggle Against America». The New York Times (em inglês). Consultado em 15 de dezembro de 2024. Cópia arquivada em 15 de dezembro de 2024