Quilombo de Cruz Sena

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Quilombo de Cruz Sena localizado na Serra do Santo Antônio e fazenda do mesmo nome, no atual município de Conceição de Macabu, Estado do Rio de Janeiro, quando este era freguesia do município de Macaé. Sua formação se deu entre 1869 e 1870, sua extinção ocorreu em 1875, de forma pacífica.

Topônimo[editar | editar código-fonte]

A denominação do quilombo está relacionado ao nome do proprietário da Fazenda Santo Antônio, Manuel da Cruz Sena, responsável pela formação e extinção do mesmo, além de parte principal na polêmica gerada pela dissolução pacífica do núcleo quilombola.

Histórico[editar | editar código-fonte]

A Fazenda[editar | editar código-fonte]

Em 1869, a Fazenda Santo Antônio, uma das maiores e mais produtivas da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Macabu, foi vendida ao Sr. Manuel da Cruz Sena. Os motivos da venda não foram financeiros. A venda estava relacionada a dois fatores noticiados na imprensa da época: as constantes e violentas epidemias de malária e febre amarela e, a possibilidade do antigo proprietário investir numa nova e mais bem localizada propriedade rural.

A Santo Antônio possuía cerca de 4.000 hectares, era bem servida de rios e córregos, um deles, o rio São Pedro, navegável por pranchas e canoas. Entretanto, os mesmos rios citados como qualificadores da fazenda, eram cercados de pântanos, onde grassavam a malária e a febre amarela. Nesses pântanos plantava-se, em pequena escala, arroz, colhia-se tabebuia para fazer esteiras e cestos e, era área de pesca e caça. Uma outra parte da fazenda era constituída de morros em forma de “meias laranjas”, onde se via grandes áreas cultivadas com mandioca, milho, feijão, banana, café, sisal e, algumas capoeiras e florestas nativas.

Quase um terço da propriedade era constituído de serras cujas altitudes variavam de 400 a 700 metros. Essas eram quase todas cobertas de florestas nativas, que, em alguns casos, serviam para extração madeireira. Em alguns trechos, mais próximos da sede da fazenda, as serras eram usadas na produção de café, banana e feijão.

Cruz Sena[editar | editar código-fonte]

Manuel da Cruz Sena não era membro tradicional da aristocracia fluminense, era um emergente, alguém que fizera fortuna com o comércio, e, vinha, há alguns anos, aplicando parte de seus ganhos em fazendas negociadas por bons preços, como a Santo Antônio e, a da Conceição, localizada em Capivari, que foi sua primeira aquisição, e, bem menor que a de Macabu.

O comércio que enriqueceu Cruz Sena foi, a princípio, enquanto era jovem, o tráfico oceânico de escravos, depois de 1850, o tráfico interno e outros negócios envolvendo compras e vendas de cativos. Era um nome ligado também ao comércio de café e outros gêneros agrícolas.

Formação do Quilombo[editar | editar código-fonte]

Chegando a fazenda, Cruz Sena encontrou um plantel de 50 escravos, dos quais muitos africanos, e, vários com famílias constituídas, inclusive possuidores de pequenas glebas onde cultivavam roçados e até faziam algum comércio. Dez escravos, ou um quinto do plantel, eram jovens demais ou muito velhos para o trabalho. Cruz Sena concluiu que teria de agir, e agir rápido, se quisesse recuperar o investimento na fazenda. Como homem de negócios, só enxergava a possibilidade de lucro. Como comerciante de escravos, não gostava da afinidade familiar e social que reinava na senzala.

Não tardou para o novo proprietário impor sua forma de ser e trabalhar na Santo Antônio: aumentou a jornada de trabalho, ampliando o número de horas e dias trabalhados; proibiu o cultivo de roças e comércio praticado pelos cativos; proibiu a circulação pelas fazendas vizinhas; pôs fim as festas, batuques e rituais afro-brasileiros. Complicando ainda mais as relações com seu plantel, Cruz Sena renovou parte dele, vendendo ou remanejando para sua outra propriedade treze escravos, três mulheres, cinco velhos e cinco crianças, o que, tornou a situação insustentável, pois algumas famílias foram desfeitas.

Para fazer valer tudo isso, contratou um feitor que se tornaria famoso nos anos seguintes: José Caetano Pires, um português, truculento, violento, que no futuro não muito distante entraria para o rol dos criminosos célebres de Macabu, com a alcunha de Pires da Bertioga. A vida dos escravos mudou radicalmente com as medidas de Cruz Sena, deteriorou-se de fato. Mas foi a presença do Pires da Bertioga, castigando-os sistematicamente, que agiu como catalisador do movimento rebelde que se formou posteriormente.

Em meados de 1870, menos de um ano após adquirir a fazenda, 39 dos 42 escravos fugiram para as serras próximas da fazenda, construindo ranchos, plantando roças, assaltando os paióis, as plantações e, até mesmo a casa-grande da fazenda. O quilombo estava sediado a poucos minutos da senzala, uma afronta que um ex-traficante como Cruz Sena e um personagem contundente como Pires da Bertioga não poderiam aceitar.

Em setembro de 1870 foi organizado um ataque ao quilombo, facilmente rechaçado pelos negros, que já havia aquela altura dos fatos, roubado armas e munições na própria fazenda. Embora não haja notícias de feridos, Cruz Sena deu-se por vencido, constatando que o número de escravos foragidos e o conhecimento que tinham da região eram fatores favoráveis aos quilombolas.

No ano seguinte Pires da Bertioga deixou o emprego, indo trabalhar para um vizinho de Cruz Sena, o Barão da Póvoa de Varzim, proprietário da Fazenda da Bertioga, de onde o feitor tiraria parte do seu apelido e muito da sua fama de facínora.

A crise[editar | editar código-fonte]

Manuel da Cruz Sena, assistindo à deterioração de sua propriedade, apelou para a autoridade local, o também fazendeiro, mas seu rival político, o subdelegado da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Macabu, Manuel da Silva Tavares, proprietário da Fazenda São Manuel, ao pé da Serra de Santa Catarina e vizinho do delegado de Macaé, o tenente coronel Luís Gomes Amado de Aguiar, proprietário da Fazenda da Palióca. A rivalidade vinha do fato de ambos pertencerem a facções rivais que existiam no Partido Conservador na região de Macaé.

O subdelegado nada fez, provavelmente pela falta de recursos, talvez, por richa política com Cruz Sena, muito provavelmente por não concordar com as atitudes do fazendeiro, que numa região com larga tradição de crimes praticados por escravos, revoltas de escravos e formação de quilombos, era suscitar os cativos à guerra contra seus senhores. Era provocação em demasia, que naquelas paragens do Vale do Macabu, sem a proteção eficiente das autoridades e da guarda nacional, não poderia acabar bem.

O subdelegado telegrafou ao delegado de Macaé, que foi áspero em sua resposta, alegando que com vinte praças sem experiência em combate, não poderia fazer nada. O próprio Cruz Sena deve ter recorrido ao delegado e muito provavelmente a câmara municipal, no entanto, por razões diversas, não lhes deram ouvidos.

A fazenda Santo Antônio havia praticamente mudado de mãos, os quilombolas já viviam fora das florestas, em novos ranchos, plantando e usufruindo dos plantios que já existiam na fazenda. Qualquer tentativa de aproximação não amistosa era repelida à bala.

Em 1874, um sitiante e meeiro, sem expressão social, Antonio Leocádio, foi morto por um grupo de estranhos que atacaram sua casa tentando roubar-lhe. Na época desconfiou-se e, mesmo sem confirmação, culpou-se o escravos rebeldes da Santo Antônio. Fato ou boato foi o estopim para que Cruz Sena, diante da inércia, má vontade, ou da incapacidade das autoridades locais, apelasse ao chefe de Polícia da Província, o Dr. Luís de Holanda de Cavalcante e Albuquerque.

Após algumas comunicações prévias com o delegado de Macaé, o chefe de Polícia da Província solicitou que este agisse da maneira mais rápida possível no sentido de resolver a questão do quilombo.

Dono de um invejável plantel de escravos, numa propriedade em que famílias de cativos viviam fora das senzalas, em seus ranchos, de onde retiravam parte do sustento e ainda havia excedente comercial, o coronel Amado, como era mais conhecido o delegado de Macaé, sabia que os erros partiram de Cruz Sena e, que em suas mãos estava a responsabilidade perante toda uma leva de fazendeiros, de, se interpretar a lei ao pé da letra, premiando o culpado, atiçaria novas revoltas, abrindo precedentes para que os escravos não confiassem mais em seus senhores. Ou, buscasse uma saída alternativa, que liquidasse o quilombo, sem prejuízo para as partes: senhor e escravos.

Amado saiu-se pela tangente. Conhecedor que era de todos e, sabendo de antemão que alguns senhores e sitiantes da região tinham negócios e relações sociais com os quilombolas, tratou de promover negociações visando acabar com o caso.

Negociou, via intermediário, inicialmente, com os líderes do quilombo, chegando a uma proposta que envolvia a rendição, a entrega voluntária na delegacia de Macaé e, posteriormente, a venda destes, em família, para outros senhores. A seguir, numa etapa mais demorada e de maiores dificuldades, convenceu Cruz Sena a aceitar a rendição e a venda de seus escravos.

O chefe de Polícia da Província foi avisado por Amado, que justificou seu ato de buscar a negociação como forma de evitar gastos, mortes e um processo jurídico prolongado. Ao Dr. Luís de Holanda, o que interessava era a praticidade da solução, de tal feita que, sem muito questionar os meios, deu carta branca ao delegado de Macaé.

Num prazo de duas semanas, aos casais ou em pares, 34 dos 39 escravos da Santo Antônio se apresentaram ao delegado, ficando, como combinado, detidos em Macaé. Os cinco quilombolas que faltavam não estavam na Santo Antônio, haviam viajado até a Fazenda da Conceição, na Freguesia de Capivari, também de Cruz Sena. Eram escravos que pertenciam há mais tempo ao fazendeiro e, como haviam vindo desta propriedade, para lá retornaram no intuito de encontrar-se com os membros de um quilombo que lá se formara.

Quando tudo parecia caminhar para o encerramento, Manuel da Cruz Sena resolveu mudar de idéia, exigindo do delegado a devolução imediata de seus escravos. Embora fosse um direito do fazendeiro reaver seus cativos que estavam detidos em Macaé, o tenente coronel Luís Gomes Amado de Aguiar, Cavaleiro da Ordem da Rosa, atuante político do partido Conservador e, como já foi dito grande proprietário rural e de escravos em Macabu, sabia que a decisão de devolver os detidos era muito perigosa.

Se houvesse a devolução a Cruz Sena, o destino da região de Macabu, onde a população escrava era igual à população livre seria uma incógnita. Se novos quilombos e rebeliões surgissem, o único canal de solução seria o da luta armada – solução esta que, no passado, já havia custado muito aos fazendeiros da região. Isso, sem contar a própria palavra que o delegado havia empenhado neste caso.

Político experiente, vendo-se num impasse, o coronel Amado optou por não decidir sozinho, imediatamente entrou em contato com seu superior, Dr. Luís de Holanda, expondo-lhes os fatos novos e se posicionando contrário a Cruz Sena. O chefe de Polícia da Província, por sua vez, mantendo os princípios da autoridade e da tranqüilidade pública, deu total apoio à decisão do delegado de Macaé. Estava selado o destino do Quilombo de Cruz Sena: o acordo seria cumprido, como fora combinado previamente.

Manuel da Cruz Sena, por sua vez tentou mobilizar seus pares. Em visitas sucessivas percorreu algumas fazendas da região pedindo apoio para reaver seus escravos. Por mais incrível que possa parecer, apesar de estar lidando com proprietários de escravos como ele, foi mal sucedido. Os fatos e as forças do subdelegado de Macabu e do delegado de Macaé, acabaram prevalecendo. Cruz Sena estava, enfim, derrotado.

Desiludido, Manuel da Cruz Sena, contratou os serviços de outro negociante de escravos, José Manuel Fernandes Guaraciaba, para vender seus escravos, em família, como combinado. Guaraciaba, além de vender os escravos – ele próprio comprou alguns – acabou por adquirir a Fazenda Santo Antônio, que naquela altura dos fatos necessitava ser refeita, o que despenderia muita energia e recursos, coisas que, ao que tudo indica, Cruz Sena já não estava mais disposto a ceder.

Os cinco escravos que restavam e, estavam foragidos na outra fazenda de Cruz Sena, escaparam de um ataque que o fazendeiro ordenou ao quilombo de lá. Retornaram a Santo Antônio e, sabedores dos novos fatos, dirigiram-se a Macaé, onde se apresentaram à delegacia. Também foram vendidos, por ironia, ao Sr. Guaraciaba, para compor o novo plantel de 35 escravos da Fazenda Santo Antônio.

Referências

  • GOMES, Marcelo Abreu. ABC de Macabu - dicionário de topônimos e curiosidades. Conceição de Macabu. Gráfica Macuco, 2004.
  • GOMES, Marcelo Abreu. Macabu - a história até 1900. Conceição de Macabu. Gráfica Macuco, 1997.
  • GOMES, Marcelo Abreu. Geografia Física de Conceição de Macabu. Conceição de Macabu. Gráfica e Editora Poema, 1998.