Racismo estrutural

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Racismo estrutural é a formalização de um conjunto de práticas institucionais, históricas, culturais e interpessoais dentro de uma sociedade que frequentemente coloca um grupo social ou étnico em uma posição melhor para ter sucesso e ao mesmo tempo prejudica outros grupos de modo consistente e constante causando disparidades que se desenvolvem entre os grupos ao longo de um período de tempo.[1][2] O racismo social também foi chamado de racismo estrutural, porque, segundo Carl E. James, a sociedade é estruturada de maneira a excluir um número substancial de minorias da participação em instituições sociais.[3] Por muito tempo imperceptível, essa forma de racismo tende a ser de tamanha dificuldade de percepção tendo em vista um conjunto de praticas, hábitos, situações e falas enraizadas em nossa cultura, promovendo direta ou indiretamente, a segregação e preconceito racial.

O think tank Aspen Institute define o racismo estrutural como: “Um sistema no qual políticas públicas, práticas institucionais, representações e outras normas funcionam de várias maneiras, muitas vezes reforçando, para perpetuar desigualdade de grupos raciais identificando dimensões de nossa história e cultura que permitem privilégios associados à “brancura” e desvantagens associadas à “cor” para suportar e adaptar ao longo do tempo. O racismo estrutural não é algo que poucas pessoas ou instituições optam praticar mas uma característica dos sistemas sociais, econômicos e políticos em que todos nós existimos.”[4]

O termo foi desenvolvido em parte para ajudar as pessoas que trabalham em prol da equidade racial a enfatizar a ideia de que o racismo na sociedade é um sistema, com uma estrutura clara e com múltiplos componentes.[5]

Brasil[editar | editar código-fonte]

O racismo brasileiro, entretanto, não é apenas uma reação à igualdade legal entre os diversos cidadãos, que se instalava com o fim da escravidão; foi também o modo como as grandes elites, principalmente aquelas localizadas no nordeste, reagiam às desigualdades regionais crescentes aonde se reestruturavam no desenvolvimento de suas sociedades ao longo dos anos.

O autor e diretor-presidente do Instituto Luiz Gama, Silvio Luiz de Almeida, em seu livro Racismo Estrutural (2018) afirma que o racismo não é um ato ou um conjunto de atos e tampouco se resume a um fenômeno restrito às práticas institucionais; é, sobretudo, um processo histórico e político em que as condições de subalternidade mostram de forma clara, as classes subalternas sendo uma parte da sociedade que é submetida às margens pela classe dominante/hegemônica, encontrando-se nas mãos da exploração e opressão constantes. Ressaltar a atualidade do conceito “subalterno” implica evidenciar as várias formas que submetem os indivíduos na sociedade moderna, inclusive e principalmente as inconscientes, permitindo identificar nas mais variadas formas que ela assume na contemporaneidade,[6] entretanto ao considerar o racismo parte das classes subalternas como parte da estrutura não exime a responsabilidade das pessoas em combater o racismo:

[...] pensar o racismo como parte da estrutura não retira a responsabilidade individual sobre a prática de condutas racistas e não é um álibi para racistas. Pelo contrário: entender que o racismo é estrutural, e não um ato isolado de um indivíduo ou de um grupo, nos torna ainda mais responsável pelo combate ao racismo e aos racistas.
— Silvio Luiz de Almeida em O que é racismo estrutural?[7]

Para Almeida, há três concepções do racismo, o racismo individual, que trata o racismo como uma atitude do indivíduo que pode ter um problema psicológico, comportamental etc, o racismo institucional, que considera o racismo apenas o resultado de um mau funcionamento das instituições; e por fim o racismo estrutural que tem o racismo como normalidade, funcionando tanto como uma ideologia quanto como uma prática de naturalização da desigualdade.[8]

Para empresas e instituições, Almeida recomenda "adotar políticas antidiscriminatórias permanentes e instituir mecanismos que estabeleçam questionamentos às práticas sociais vigentes nas empresas. Elas não são obrigadas a reproduzir o mundo como ele é. Elas podem melhorá-lo, ofertando coisas que concorrentes não ofertam. Isso só acontece se forem capazes de mudar a forma como estabelecem o relacionamento com o público e suas campanhas de publicidade."[9]

Distribuição de Renda[editar | editar código-fonte]

Trabalhos realizados por economistas interessados na temática da discriminação focalizam a comparação entre grupos combinados de raça e gênero: mulheres brancas, mulheres negras, homens brancos e homens negros. Mattos e Machado utilizam cross sections empilhadas para analisar a presença de discriminação por sexo e cor no Brasil. O estudo usa uma técnica de decomposição e define a discriminação na ótica tradicional da teoria de capital humano, como o diferencial de rendimento que não pode ser atribuído às discrepâncias de habilidades (resumidas pelo diferencial de escolaridade). Ao comparar a desigualdade de renda de cor, no âmbito do mesmo sexo, o estudo constata que, além do diferencial associado à discriminação, uma parte significativa, em especial para os homens, deve-se à deficiência na dotação do atributo de qualificação. Já na comparação da desigualdade entre homens e mulheres da mesma cor, o trabalho constata uma redução do diferencial de sexo de rendimentos entre 1987 e 2001, sendo que o que ainda se mantém da desigualdade se deve somente a fatores associados à discriminação. A investigação conclui que "a desigualdade de rendimento do trabalho no Brasil é ainda uma questão de sexo e, sobretudo, de cor".

Promoção do Racismo Estrutural Por Analise de Crédito[editar | editar código-fonte]

Em 27 de junho de 2020 o Serasa anunciou um novo método de analise de crédito que leva em consideração o endereço da residência do analisado.[10] Como demonstra os estudos feitos pela doutora em ciências sociais Mariana Panta da Universidade Paulista, pessoas pretas e pardas estão segregadas por regiões, e ocupam sempre as áreas mais pobres devido a herança escravagista do Brasil.[11] O algoritmo usado pelo Serasa também analisa que tipo de trabalho a pessoa exerce e não somente suas dívidas, renda e histórico de pagamento,[10] pessoas pretas e pardas tem menos acesso a trabalhos em melhores empresas, pois tem menos acesso a área nobre urbana onde estão empresas de renome.[11] Mesmo sem este tipo de analise, o Serasa teve um crescimento em 2019 de 6% o que foi muito acima em comparação ao PIB do Brasil conforme demostra os dados do site da empresa.[12] Assim como também bancos e empresas financeiras cresceram 18% com lucro de R$81,5 bilhões em 2019.[13] Mesmo estudos e dados demonstrando que a melhor maneira de sair de uma crise, ou de fortalecer a economia é dar dinheiro as pessoas mais pobres,[14][15] as analises de créditos do Serasa promovem o racismo estrutural.[16][11][10] Apesar das declarações mais contundentes serem expressas em junho de 2020, já haviam inúmeros relatos de racismo estrutural praticado pela empresa.[16]

Estados Unidos[editar | editar código-fonte]

George M. Fredrickson escreveu que o racismo social está profundamente enraizado na cultura norte-americana e que, no século 18, o racismo social já havia surgido com o objetivo de manter uma sociedade dominada por brancos.[17] e que "o racismo social não requer uma ideologia para sustentá-lo enquanto for dado como certo".[18] Ao olhar especificamente para o racismo estrutural nos Estados Unidos da América, é a formalização de práticas que frequentemente coloca brancos ou caucasianos em uma posição de vantagem e, ao mesmo tempo, é constantemente prejudicial para pessoas de cor, como afro-americanos, hispânicos , nativos americanos, do Pacífico, asiáticos e do Oriente Médio. Essa posição de vantagem geralmente envolve: mais oportunidades para ocupar posições de poder; privilégio, privilégio branco e tratamento superior por parte das instituições. Isso resulta em desigualdades raciais entre brancos e outros grupos étnicos que frequentemente seguem se manifestando como questões de pobreza ou disparidades de saúde entre os grupos. Embora o racismo estrutural frequentemente se manifeste como pobreza ou disparidades em saúde, na verdade inclui toda a estrutura da supremacia branca que permeia os Estados Unidos, incluindo partes culturais, políticas, históricas e socioeconômicas da sociedade; portanto, pode-se ver que o racismo estrutural existe dentro e em torno de todos os níveis da sociedade e permite a formalização do racismo estrutural, mantendo-o em todos os níveis da sociedade.[19]

Nos anos de 1910 as mudanças gestadas nos Estados Unidos, deram inicio quando os primeiros cientistas sociais negros americanos, seguindo Franz Boas, desvincularam-se da armadilha da definição biológica de "raça", que explicitava a condição social dos negros a partir da hipótese de sua inferioridade inata, para enfatizarem, analisarem e discutirem a heterogeneidade social, política e cultural do meio negro, concentrando-se na ideia de que a discriminação racial era o principal impase para o progresso social, político e cultural dos negros naquele país, entre outros paradigmas de raça constatados em Boas significava afirmar que as diferenças raciais (biológicas), ainda que não totalmente negadas, não poderiam ser responsabilizadas nem pela falta de integração do negro nas sociedades americanas nem pelo seu desempenho inferior em relação ao branco. Os fatores explicam que o mais importantes para ambos os fenômenos seriam, ao contrário, o preconceito, a discriminação e a segregação raciais. Segundo Herskovits a explicação pela "cultural, pose der um fator condicionante paras as dificuldades de integração de determinados indivíduos em sociedade.[20]

Referências

  1. Steven D. Soifer; Joseph B. McNeely; Cathy L. Costa; Nancy Pickering-Bernheim (11 de dezembro de 2014). Community Economic Development in Social Work. [S.l.]: Columbia University Press. pp. 451–452. ISBN 978-0-231-50857-5 
  2. Lawrence, Keith; Keleher, Terry (2004). «Chronic Disparity: Strong and Pervasive Evidence of Racial Inequalities» (PDF). Poverty Outcomes. 24 páginas. Consultado em 28 de novembro de 2018 
  3. James, Carl E. (8 de fevereiro de 1996). Perspectives on Racism and the Human Services Sector: A Case for Change 2nd Revised ed. [S.l.]: University of Toronto Press. p. 27 
  4. Glossary for Understanding the Dismantling Structural, Racism/Promoting Racial Equity Analysis, Aspen Institute
  5. Structural Racism, Racial Equity Tools
  6. rb (15 de janeiro de 2020). «As classes subalternas e as funções dos intelectuais orgânicos: uma filosofia marxista na…». Medium (em inglês). Consultado em 3 de novembro de 2020 
  7. Silvio Almeida (10 de julho de 2019). Racismo Estrutural. [S.l.]: Pólen Livros. p. 46. ISBN 978-85-98349-91-6 
  8. NONAKA, A.; SANTOS, E.; ZUFFO, L.; CRUZ, R. Entrevista com Silvio de Almeida. Humanidades em diálogo, v. 9, n. 1, p. 19-37, 1 fev. 2019. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.1982-7547.hd.2019.154260
  9. Breiller Pires, “Comerciais como o da Perdigão evidenciam o racismo estrutural”, El País, 28/11/2018
  10. a b c «Novas regras podem te deixar sem crédito por seu trabalho, endereço e idade». economia.uol.com.br. Consultado em 27 de junho de 2020 
  11. a b c Panta, Mariana (4 de setembro de 2019). «População negra e o direito à cidade». Revista Arquivo Nacional. Consultado em 27 de junho de 2020 
  12. «Experian divulga resultados financeiros do primeiro semestre do ano fiscal». Serasa Experian. 13 de novembro de 2019. Consultado em 27 de junho de 2020 
  13. «Lucro dos maiores bancos do Brasil cresce 18% em 2019 e soma R$ 81,5 bilhões». G1. Consultado em 27 de junho de 2020 
  14. «Bilionários do setorde tecnologia embarcamno movimento da rendabásica universal». Época Negócios. Consultado em 27 de junho de 2020 
  15. Guimarães, Ligia (20 de março de 2020). «Pesquisador de Princeton sugere plano urgente para proteger trabalhadores mais pobres: 'Governo dá sinais de despreparo'». BBC News Brasil 
  16. a b «32% dos empreendedores negros já tiveram crédito negado sem explicação». Folha de S.Paulo. 20 de janeiro de 2020. Consultado em 27 de junho de 2020 
  17. Ray, George B. (1 May 2009). Language and Interracial Communication in the U. S.: Speaking in Black and White. [S.l.]: Peter Lang. p. 7. ISBN 978-0820462455  Verifique data em: |data= (ajuda)
  18. Fredrickson, George M. (30 June 1988). The Arrogance of Race: Historical Perspectives on Slavery, Racism and Social Inequality. [S.l.]: Wesleyan University Press. p. 202. ISBN 978-0819562173  Verifique data em: |data= (ajuda)
  19. Lawrence, Keith; Keleher, Terry (2004). «Chronic Disparity: Strong and Pervasive Evidence of Racial Inequalities» (PDF). Poverty Outcomes. 24 páginas. Consultado em 28 de novembro de 2018 
  20. Guimarães, Antonio Sérgio Alfredo (00/2004). «Preconceito de cor e racismo no Brasil». Revista de Antropologia (1): 9–43. ISSN 0034-7701. doi:10.1590/S0034-77012004000100001. Consultado em 3 de novembro de 2020  Verifique data em: |data= (ajuda)

Bibliografia[editar | editar código-fonte]