Rastislau da Morávia

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Rastislau da Morávia
Duque da Morávia
Bratislava Devin Socha krala Rastislava.jpg
Estátua de Rastislau por Ľudmila Cvengrošová
Reinado 846870
Antecessor(a) Moimir I
Sucessor(a) Zuentibaldo I
Dinastia Casa de Moimir
Morte 870
Pai Boso-Hosdius (?)

Rastislau, Rostislau, Rastislav ou Rostislav (em latim: Rastiz - em grego: Rasisthlabos[1]), também conhecido como São Rastislau, foi o segundo monarca conhecido da Grande Morávia, reinando entre 846 e 870.[2][3] Embora ele tenha começado seu reinado como vassalo de Luís, o Germânico, rei da Frância Oriental, ele consolidou seu governo a ponto de, depois de 855, conseguir repelir diversos ataques francos.[4] Por iniciativa sua, dois irmãos, Cirilo e Metódio, enviados pelo imperador bizantino Miguel III em 863, traduziram os mais importantes livros litúrgicos cristãos para o antigo eslavônico eclesiástico.[5]

Rastislau foi deposto pelo sobrinho Zuentibaldo I, que o entregou para os francos.[6]

Primeiros anos[editar | editar código-fonte]

De acordo com os "Anais de Fulda", Rastislau era um sobrinho de Moimir I, o primeiro monarca conhecido da Morávia.[7][8] Nada se sabe sobre sua vida antes de 846[a], mas é possível que ele tenha servido como refém para seu tio na corte de Luís, o Germânico.[7] O rei franco invadiu a Morávia neste ano, depôs Moimir I e instalou Rastislau como o novo duque.[9] É provável que ele já fosse cristão quando acedeu ao trono e não há dúvidas de que ele foi batizado no máximo até esta data, pois o batismo era uma das condições impostas pelo rei franco pelo apoio.[9][10]

Rumando para a independência[editar | editar código-fonte]

Grande Morávia sob Rastislau (870) em verde. A linha verde marca o limite máximo da expansão sob Zuentibaldo I (894).

Nos primeiros oito anos do reinado de Rastislau não houve relato de revoltas morávias, o que sugere que Rastislau permaneceu fiel a Luís.[7] Neste período, Rastislau parece ter conseguido ampliar seus domínios para o oriente, estabelecendo uma nova fronteira com o Primeiro Império Búlgaro.[11] De acordo com os "Annales Bertiniani", em 853, Carlos, o Calvo, rei da Frância Ocidental, subornou os búlgaros para que, aliados aos "eslavos" (aparentemente os morávios), atacassem o reino de Luís, o Germano.[12] No decorrer do ataque búlgaro-morávio, Luís depôs o prefeito do Marquesado da Panônia, Ratpot, que imediatamente se aliou a Rastislau,[12][13] o que sugere que o duque morávio já se sentia confiante o suficiente para desafiar seu senhor franco.[14]

Em 855, o rei franco oriental juntou um enorme exército para invadir a Morávia.[15][16] Porém, o atacasse fracassou perante as muralhas de uma das fortalezas que Rastislau (talvez Mikulčice, atualmente na República Checa) parece ter construído nos anos anteriores.[17] Despreparado para um cerco prolongado, o rei foi forçado a recuar[18] e, conforme o fazia, seu exército conseguiu derrotar uma grande força morávia.[18] Apesar disso, o exército de Rastislau seguiu os francos e saqueou diversas propriedades inimigas às margens do Danúbio.[19][20]

No ano seguinte, Luís, o Germânico, entregou o comando dos marquesados a sudeste de seu reino ao filho, Carlomano, que foi encarregado de defendê-los dos morávios.[21] De acordo com os "Anais de Fulda", Carlomano liderou uma nova expedição contra Rastislau em 858, mas sua campanha fracassou também, aumentando ainda mais a ousadia do duque morávio.[21] No futuro, ambos seriam aliados contra o pai de Carlomano.[22]

Karlmann, filho de Luís, rei da Alemanha, se aliou com Rastiz, o pequeno rei (regulus) dos wends e desertou do pai. Com a ajuda de Rastiz, ele usurpou uma considerável porção do reino do pai, chegando até o rio Inn.
 
Anais de St-Bertin (ano 861)[23].

Pribina, o duque eslavo da Panônia Inferior, morreu lutando contra os morávios em 861, o que sugere que Carlomano também havia concedido esta província a Rastislau.[24][25] Como resposta à revolta aberta do filho e Rastislau, Luís negociou uma contra-aliança com Bóris I da Bulgária.[26] Ele fingiu estar se preparando para atacar a Morávia, mas, no último momento, marchou contra Carlomano que, pego desprevenido, foi obrigado a se render.[26]

Missão dos santos Cirilo e Metódio[editar | editar código-fonte]

São Rastislau
Rastislau num ícone moderno
Morte 870
Veneração por Igreja Ortodoxa Tcheca e Eslovaca
Canonização 1994
Gloriole.svg Portal dos Santos

Para aumentar sua capacidade de manobra, Rastislau tentou impedir as atividades dos missionários franceses em seu reino.[13] Para iss,o por volta de 862, ele primeiro tentou contatar a Santa Sé.[27] Sem sucesso, ele então pediu por "professores" em Constantinopla para poder formar sacerdotes morávios.[27] Sua embaixada na capital bizantina enfatizou também a necessidade de que estes "professores" fossem capazes de falar a língua eslava.[28]

O pedido de Rastislau foi atendido quando Constantino (Cirilo) e Metódio, dois irmãos que haviam aprendido o dialeto eslavo falado em Tessalônica chegaram com uns poucos discípulos na Morávia em 863.[13][29] Os dois logo se dedicaram à tarefa para a qual foram enviados utilizado o eslavônico para ensinar e para a missa e Constantino chegou mesmo a inventar um alfabeto para os eslavos.[27] O clero francês logo percebeu que as atividades dos dois irmãos bizantinos representava uma ameaça às suas atividades,[30] mas, como os dois estavam sob a proteção de Rastislau, Luís, o Germânico, enviou Salomão I, o bispo de Constance, para Roma, onde ele relatou como a Diocese de Passau teria sido "fragmentada e arruinada" pela deserção dos morávios.[31]

O rei franco estava também planejando lançar uma grande campanha contra Rastislau com o apoio de Bóris I da Bulgária.[32] Embora ele tenha desistido de participar no último minuto, a nova campanha foi um sucesso.[33] Em agosto de 864, Luís invadiu a Morávia depois de cruzar o Danúbio para cercar civitas Dowina (identificada, embora não unanimemente com o Castelo de Devín na Eslováquia).[34][35] O rei aparentemente pegou Rastislau de surpresa e o aprisionou na fortaleza.[35] Incapaz de escapar, Rastislau se rendeu, entregou diversos altos nobres como reféns e fez um novo juramento de lealdade.[35]

A camapanha do rei, porém, não resultou na subjugação completa de Rastislau.[36] Em 865, de acordo com os "Anais de St-Bertin", Luís enviou seus exércitos contra os wends (eslavos) e, segundo os "Anais de Fulda", Werner, um conde da Panônia Superior, foi convocado no mesmo ano perante o rei e acusado de conspirar com Rastislau.[37][38] No final de 866, Constantino e Metódio partiram para Veneza, onde foram persuadidos pelos emissários do papa a irem para Roma.[39] Lá, o papa Adriano II aprovou as traduções eslavônicas das Escrituras, consagrando seus discípulos eslavos como sacerdotes e chegou mesmo a permitir que eles cantassem a liturgia eslava nas igrejas de Roma.[40]

Anos finais[editar | editar código-fonte]

No início de 868, o filho de Luís, o Germânico, Carlomano, conseguiu duas vitórias contra Rastislau, retornando carregado de espólios.[41] Em agosto, o próprio rei planejava invadir novamente a Morávia, mas ficou doente de repente.[41] O filho mais novo do rei, Carlos, o Gordo, tomou a frente da invasão e, invadindo o reino de Rastislau, incendiou todas as fortalezas que encontrou depois de derrotar as forças enviadas contra ele.[42] Nesta época, de acordo com os "Anais de Fulda", Rastislau, que havia concedido sua "velha cidade" para o sobrinho, Zuentibaldo, passou a governar a partir de sua "fortaleza indescritível", que pode ser idenficada como sendo Mikulčice (na República Checa).[41] Em 869, o papa Adriano II, que estava decidido a reviver a Diocese da Ilíria, consagrou Metódio como arcebispo de Sírmio (Sremska Mitrovica, Sérvia) e legado papal de todos os eslavos, incluindo os territórios de Rastislau, Zuentibaldo e do filho de Pribina, Kocel.[30][43]

Zuentibaldo, neste ínterim, começou a negociar com Carlomano sem o conhecimento de Rastislau e aceitou a suserania dele sobre si e sobre seu reino.[44] Rastislau ficou "fora de si de raiva" quando soube da traição do sobrinho e armou para assassiná-lo num banquete.[45] Avisado, Zuentibaldo conseguiu escapar fingindo ter faltado para ir caçar com falcões.[45] Quando Rastislau enviou soldados para cacá-lo, Zuentibaldo capturou-o e o enviou, acorrentado, para Carlomano.[46]

Rastislau foi enviado sob pesada guarda para Regensburg enquanto Carlomano invadia a Morávia e subjugava todos os seus castelos.[47] Em Regensburgo, Luís, o Germânico, recebeu Rastislau acorrentado com pesados grilhões[48] para ser julgado por uma assembleia de francos, bávaros e eslavos. Ele foi condenado à morte por traição, mas o rei comutou sua a pena para cegamento e prisão.[49] Rastislau morreu na prisão.[50][51]


Devoção[editar | editar código-fonte]

O duque Rastislau foi canonizado pela Igreja Ortodoxa Tcheco-Eslovaca em Prešov em 1994.[52]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Precedido por:
Moimir I
Duque da Morávia
846–870
Sucedido por:
Zuentibaldo I

Notas[editar | editar código-fonte]

[a] ^ O historiador eslovaco Stanislav J. Kirschbaum defende que Rastislsav era o príncipe de Nitra antes disso.[53]

Referências

  1. Havlík, 2013, p. 362.
  2. Spiesz et al. 2006, p. 20.
  3. Goldberg 2006, p. 138.
  4. Spiesz et al. 2006, pp. 20-21.
  5. Spiesz et al. 2006, p. 22.
  6. Spiesz et al. 2006, p. 21.
  7. a b c Goldberg 2006, p. 140.
  8. Reuter 1992, p. 25.
  9. a b Bowlus 1994, p. 104.
  10. Vlasto 1970, p. 24.
  11. Kirschbaum 2005, pp. 26-27.
  12. a b Goldberg 2006, p. 242.
  13. a b c Kirschbaum 2005, p. 27.
  14. Goldberg 2006, p. 243.
  15. Goldberg 2006, pp. 243-244.
  16. Bowlus 1994, p. 115.
  17. Goldberg 2006, pp. 244-245.
  18. a b Goldberg 2006, p. 245.
  19. Goldberg 2006, p. 246.
  20. Reuter 1992, p. 37.
  21. a b Bowlus 1994, p. 119.
  22. Goldberg 2006, p. 266.
  23. Nelson 1991, pp. 94., 262.
  24. Goldberg 2006, pp. 266-267.
  25. Bowlus 1994, p. 125.
  26. a b Goldberg 2006, p. 269.
  27. a b c Sommer et al. 2007, p. 222.
  28. Vlasto 1970, pp. 27-28.
  29. Barford 2001, pp. 109-110.
  30. a b Kirschbaum 2005, p. 31.
  31. Goldberg 2006, pp. 271-272.
  32. Goldberg 2006, p. 271.
  33. Goldberg 2006, p. 272.
  34. Bowlus 1994, p. 140.
  35. a b c Goldberg 2006, p. 273.
  36. Bowlus 1994, p. 154.
  37. Bowlus 1994, pp. 154-155.
  38. Goldberg 2006, p. 275.
  39. Goldberg 2006, pp. 280-281.
  40. Spiesz et al. 2006, p. 23.
  41. a b c Goldberg 2006, p. 284.
  42. Bowlus 1994, p. 161.
  43. Goldberg 2006, p. 282.
  44. Bowlus 1994, p. 164.
  45. a b Goldberg 2006, p. 286.
  46. Goldberg 2006, pp. 286-288.
  47. Goldberg 2006, p. 288.
  48. Goldberg 2006, pp. 299-300.
  49. Goldberg 2006, p. 300.
  50. Kirschbaum 2005, p. 238.
  51. Reuter 1992, p. 64.
  52. Maříková-Kubková, Jana. «7». The Slavs, Great Moravia and Us: Canonisation of Prince Rastislav (em inglês). [S.l.]: Academia.edu. p. 75. Consultado em 31 de outubro de 2013 
  53. Kirschbaum 2005, p. 26.; Kirschbaum 2007, pp. xxiv., 207., 238.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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  • Barford, P. M. (2001). The Early Slavs: Culture and Society in Early Medieval Eastern Europe. Cornell University Press. ISBN 0-8014-3977-9.
  • Bowlus, Charles R. (1994). Franks, Moravians and Magyars: The Struggle for the Middle Danube, 788–907. University of Pennsylvania Press. ISBN 0-8122-3276-3.
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  • Kirschbaum, Stanislav J. (2007). Historical Dictionary of Slovakia. Scarecrow Press, Inc. ISBN 978-0-8108-5535-9.
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  • Vlasto, A. P. (1970). The Entry of the Slavs into Christendom: An Introduction to the Medieval History of the Slavs. Cambridge University Press. ISBN 0-521-07459-2.