Rebelião Satsuma

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Rebelião Satsuma
西南戦争
SaigoWithOfficers.jpg
Saigō Takamori (sentado, em uniforme ocidental), rodeado por seus oficiais, em roupas tradicionais. Artigo no Le Monde Illustré, 1877.
Data 29 de janeiro de 1877 - 24 de setembro de 1877
Local Kyūshū, Japão
Desfecho Vitória imperial
Beligerantes
Flag of Japan (1870-1999).svg Império do Japão Japanese Crest maru ni jyuji.svg Domínio de Satsuma
Comandantes
Imperador Meiji
Príncipe Arisugawa Taruhito
Kawamura Sumiyoshi
Yamagata Aritomo
Saigō Takamori
Forças
70 000 20 000
Baixas
~ 6 278 mortos
~ 9 523 feridos
~ 20 000 entre mortos e feitos prisioneiros

A Rebelião Satsuma (西南戦争, Seinan Sensō (Guerra do Sudoeste)?), foi uma revolta dos ex-samurais do Domínio de Satsuma contra o governo Meiji de 29 de janeiro de 1877 até 24 de setembro de 1877, onze anos após o início da Era Meiji. Foi a última e mais séria de uma série de revoltas contra o novo governo.

Precedentes[editar | editar código-fonte]

Embora o Domínio de Satsuma tivesse sido instrumental na restauração Meiji e na guerra Boshin, e embora vários homens de Satsuma houvessem atingido posições influentes no novo governo Meiji, uma insatisfação crescente existia com a direção que o país estava tomando. A modernização do país significava a abolição do status social privilegiado da classe samurai, e havia afetado sua posição financeira. As mudanças rápidas e significativas na cultura japonesa, nas vestes e na sociedade parecia a muitos samurais uma traição da porção joi (“Expelir os Bárbaros”) da justificação Sonnō jōi usada para derrubar o shogunato Tokugawa.

Saigō Takamori, um dos principais líderes Satsuma no governo Meiji que havia inicialmente apoiado as reformas, estava preocupado principalmente com o aumento da corrupção política (o slogan de seu movimento rebelde era "新政厚徳", "Novo governo, Alta moral"). Saigō era um forte proponente da guerra com a Coreia no debate Seikanron de 1873. A certa altura, propôs visitar a Coreia pessoalmente e provocar uma casus belli em comportando-se de maneira tão insultuosa que os coreanos seriam forçados a matá-lo. Uma guerra iria não apenas propiciar o fortalecimento das forças armadas japonesas, mas restauraria aos samurai sua raison d'etre ("razão de ser"). Quando o plano foi rejeitado, Saigō pediu demissão de todas as suas posições governamentais em protesto e retornou para sua cidade natal de Kagoshima, ato copiado por vários outros ex-samurais de Satsuma na polícia e forças armadas.

Oficias do Exército Imperial Japonês da guarnição Kumamoto, que resistiram o cerco de Saigō Takamori, 1877

Para ajudar na manutenção e emprego destes homens Saigō estabeleceu em 1874 uma academia particular em Kagoshima. Logo estabeleceram-se 132 ramos desta academia por todo o departamento. O “treinamento” propiciado não era apenas acadêmico: embora ensinassem-se os clássicos chineses, todos os estudantes tinham que participar em treinamento no uso de armas e instrução em tática militar. Dava-se ênfase às tradições do bushido. Saigō também iniciou uma escola de artilharia. As escolas pareciam mais do que qualquer coisa organizações políticas paramilitares, e elas contavam com o apoio do governo de Satsuma, que apontava samurai descontentes para cargos políticos, onde passaram a dominar o governo de Kagoshima. O apoio a Saigō era tão forte que Satsuma separou-se efetivamente do governo central no final de 1876.

Prelúdio[editar | editar código-fonte]

Notícias sobre as academias de Saigō foram recebidas com preocupação considerável em Tóquio. O governo havia apenas acabado de lidar com várias pequenas mas violentas revoltas de samurai em Kyūshū, e o prospeto de samurai Satsuma numerosos e agressivos, sendo comandados em batalha pelo popular e famoso Saigō era alarmante.

Tropas imperiais embarcando em Yokohama para lutar a Rebelião Satsuma em 1877.
Cavalaria imperial embarcando em Yokohama para lutar a Rebelião Satsuma em 1877.

Em dezembro de 1876, o governo Meiji mandou um oficial da polícia chamado Nakahara Hisao e outros 57 homens para investigar as indicações de atividades subversivas. Estes homens foram capturados e confessaram sob tortura que eram espiões que haviam sido mandados para assassinar Saigō. Embora Nakahara tenha posteriormente repudiado esta confissão, ela era tida como verdadeira em Satsuma e foi usada como justificativa pelos samurai de que uma rebelião era necessária para “proteger Saigō”.

Temendo uma rebelião, o governo Meiji mandou um navio de guerra a Kagoshima para remover as armas acumuladas no arsenal de Kagoshima a 30 de janeiro de 1877. Ironicamente, isto provocou um conflito aberto, embora as tensões já estivessem extremamente altas com a eliminação dos impostos do arroz dos samurai em 1877. Chocados pela tática do governo, 50 estudantes da academia de Saigō atacaram o arsenal Somuta e levaram as armas embora. Ao longo dos próximos três dias, mais de 1000 estudantes atacaram as docas navais e outros arsenais.

Em vista deste fait accompli ("fato consumado"), o grandemente desapontado Saigō foi relutantemente persuadido a abandonar sua semi-aposentadoria e liderar a rebelião contra o governo central.

Em fevereiro de 1877, o governo Meiji mandou Hayashi Tomoyuki, um oficial do Ministério do Interior com o Almirante Kawamura Sumiyoshi no navio de guerra Takao para analisar a situação. O governador de Satsuma, Oyama Tsunayoshi, explicou que o levante era em resposta à tentativa do governo de assassinar Saigō, e pediu que o Almirante Kawamura (primo de Saigō) viesse em terra para ajudar a acalmar a situação. Após a saída de Oyama, a flotilha de navios pequenos com vários homens armados tentaram abordar o Takao à força, mas foram repelidos. No dia seguinte, Hayashi declarou a Oyama que ele não podia permitir que Kawamura fosse à terra enquanto a situação estivesse tão incerta, e o ataque ao Takao constituía um caso de lese-majestade. Ao retornar a Kobe a 12 de fevereiro, Hayashi encontrou-se com o General Yamagata Aritomo e Ito Hirobumi, e decidiu-se que o Exército Imperial Japonês teria que ser mandado à Kagoshima para evitar que a revolta se espalha-se para outras áreas do país simpatizantes de Saigō. No mesmo dia, Saigō reuniu-se com seus tenentes Kirino Toshiaki e Shinohara Kunimoto e anunciou sua intenção de marchar até Tóquio para fazer perguntas ao governo. Rejeitando um grande número de voluntários, ele não tentou contactar nenhum outro domínio para suporte, e nenhuma tropa foi deixada em Kagoshima para proteger sua base contra um ataque. Para adicionar ao ar de legalidade Saigō vestiu seu uniforme do exército. Marchando para o norte seu exército foi obstruído pela maior nevasca em Satsuma em mais de 50 anos.

A guerra do sudoeste[editar | editar código-fonte]

Cerco ao Castelo Kumamoto[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Cerco ao Castelo Kumamoto

A vanguarda Satsuma entrou no Departamento Kumamoto a 14 de fevereiro de 1877. O Comandante do castelo Kumamoto, o Major General Tani Tateki tinha 3.800 soldados e 600 policiais à sua disposição. Entretanto a maior parte de sua guarnição vinha de Kyūshū, e porque vários dos oficiais eram de Kagoshima, suas lealdades eram questionáveis. Ao invés de arriscar deserções Tani decidiu ficar na defensiva.

A 19 de fevereiro os primeiros tiros da guerra foram disparados quando os defensores do castelo Kumamoto abriram fogo contra unidades Satsuma tentando forçar sua entrada no castelo. O castelo Kumamoto, construído em 1598, estava entre os mais fortes do Japão. Saigō estava confiante que suas forças seriam um oponente mais do que à altura contra os conscritos camponeses de Tani, que estava, além disso, com a moral baixa devido à recente Rebelião Shimpuren.

A 22 de fevereiro o exército principal de Satsuma chegou e atacou o castelo Kumamoto num movimento em pinça. A luta estendeu-se pela noite. As forças imperiais recuaram e o Major Nogi Maresuke do décimo-quarto regimento Kokura perdeu as cores regimentais em batalha acirrada. Entretanto, apesar dos sucessos, o exército Satsuma não conseguiu tomar o castelo e começou a dar-se conta de que o exército conscrito não era tão ineficaz quanto inicialmente assumido. Após dois dias de ataques infrutíferos, as forças Satsuma cavaram o solo congelado ao redor do castelo e tentaram fazer com que a guarnição passasse fome num prolongado cerco. A situação era especialmente delicada para os defensores devido ao fato de que seus estoques de comida e munição haviam sido destruídos por um incêndio logo antes do início da rebelião.

Durante o cerco, muitos ex-samurai Kumamoto agruparam-se sobre a bandeira de Saigō, aumentando suas forças para aproximadamente 20.000 homens. Neste interim, a 9 de março Saigō, Kirino e Shinohara perderam suas posições e títulos na corte apesar de Saigō continuamente dizer que não era um “traidor” mas que apenas queria livrar o Imperador Meiji da influência prejudicial de conselheiros corruptos e incapazes.

Na noite de 8 de abril, uma força do castelo Kumamoto montou um grupo de assalto, forçando a abertura das linhas Satsuma e permitindo que os suprimentos desesperadamente necessários chegassem à guarnição. O Exército Imperial principal, sob o General Kuroda Kiyotaka com a assistência do General Yamakawa Hiroshi chegaram a Kumamoto a 12 de abril, fazendo com que as forças Satsuma, agora em absoluta minoria, fugissem.

Batalha de Tabaruzaka[editar | editar código-fonte]

Batalha de Tabaruzaka: Tropas imperiais a esquerda e rebeldes samurais a direita.

Em 4 de março o General Yamagata do Exército Imperial foi ordenado que atacasse diretamente as forças inimigas em Tabaruzaka, que guardavam a entrada a Kumamoto, que resultou em uma batalha de oito dias. Tabaruzaka foi detido por mais de 15 mil samurais de Satsuma, Kumamoto e Hitoyoshi contra a 9.ª Brigada de Infantaria (com 90 mil homens).

No auge da batalha, Saigō escreveu uma carta ao Príncipe Arisugawa, falando mais uma vez sobre suas intenções de ir a Tóquio. Na sua carta ele dizia que não estava comprometido com a rebelião e queria um fim pacifico. Mas o governo se recusava a negociar.

Para poder isolar Saigō de sua base, uma frota de três navios imperiais, 500 policiais e várias companhias de infantaria que desembarcaram em Kagoshima em 8 de março tomaram controle do arsenal de Satsuma e prenderam seu governador.

Yamagata também lançou um destacamento com duas brigadas de infantaria e 1200 policias atrás das linhas inimigas para atacar o inimigo pela retaguarda na baía de Yatsushiro. As tropas imperiais saíram com poucas baixas dessa incursão e então prosseguiram avançando até Miyanohara em 19 de março. Depois de receber reforços, as forças imperiais, agora totalizando 4 mil homens, atacaram mais uma vez pela retaguarda do exercito de Satsuma, forçando-os a recuar.

Tabaruzaka foi uma das campanhas mais intensas da guerra. As forças imperiais saíram vitoriosas mas pesadas baixas foram sofridas por ambos os beligerantes, com perdas estimadas em mais de 4 mil mortos ou feridos para cada lado.

Retirada de Kumamoto[editar | editar código-fonte]

Depois de fracassar em tomar Kumamoto, Saigō levou seus homens a uma marcha de sete dias até Hitoyoshi. A moral estava baixa e sem nenhuma estratégia planejada, as forças de Satsuma esperavam a próxima ofensiva do exército imperial. Contudo, as forças imperiais também estavam cansadas e as ofensivas foram suspensas até a chegada de reforços. Quando a ofensiva recomeçou, Saigō retrocedeu até Miyazaki, deixando vários samurais para trás nas montanhas a fim de conduzir ataques de guerilla. Em 24 de julho, o Exército Imperial forçou Saigō a se retirar de Miyakonojō e depois tomou Nobeoka. Tropas imperiais desembarcaram em Ōita e em Saiki flanqueando o exército de Saigō pelo norte. Contudo as forças de Satsuma conseguiram furar o bloqueio e escapar. Em 17 de agosto, o exército de Satsuma fora reduzido a 3 mil combatentes e havia perdido boa parte de suas armas de fogo e artilharia.

Os rebeldes sobreviventes recuraram até os montes de Enodake e logo se renderam. Determinado a não deixar os rebeldes escaparem, Yamagata enviou um grande exército que superava as forças de Satsuma em 7 para 1. As forças remanescentes de Saigō se renderam, e outros cometeram seppuku (suicídio samurai). Contudo, Saigō queimou seus papéis e uniforme do exército em 19 de agosto e fugiu para Kagoshima com alguns poucos soldados restantes que ainda lhe eram leais. Apesar das tentativas de Yamagata nos dias seguintes, Saigō e seus últimos 500 homens chegaram a Kagoshima em 1 de setembro e logo atacariam Shiroyama diretamente.

Batalha de Shiroyama[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Batalha de Shiroyama
Batalha de Shiroyama

Saigō e seus samurais remanescentes foram forçados a recuar até Kagoshima onde o último confronto, a Batalha de Shiroyama, seria travado contra as Forças Imperiais sob o comando do General Yamagata Aritomo e dos fuzileiros do Almirante Kawamura Sumiyoshi, sobrepujando assim as forças de Saigō em 60 para 1. Contudo, Yamagata estava determinado a não dar chances ao adversário. As tropas imperiais passaram dias construindo trincheiras e fortificações para evitar uma fuga. Cinco navios de guerra de Kagoshima também chegaram para aumentar o poder de fogo de Yamagata e então começou a bombardear as posições inimigas.

Fortificações do Exército Imperial Japonês nos arredores de Shiroyama, foto de 1877.

Depois que Saigō rejeitou a oferta de rendição, Yamagata ordenou um ataque maciço as posições inimigas em 24 de setembro de 1877. No dia seguinte apenas 40 rebeldes ainda viviam. Saigō estava mortalmente ferido. A lenda diz que um dos seus mais leais seguidores, Beppu Shinsuke agiu como kaishakunin e o ajudou a cometer o seppuku antes que ele fosse capturado. Contudo, provas negam isso dizendo que Saigō morreu efetivamente devido a um ferimento de bala no peito; depois a sua cabeça foi cortada por Beppu, a fim de preservar a sua dignidade.

Depois da morte de Saigō, Beppu e seus últimos samurais pegaram em armas e avançaram sobre as bem fortificadas posições imperiais em um ataque visivelmente suicida. Depois dessas mortes, a rebelião Satsuma finalmente chegava a um fim.

Consequências[editar | editar código-fonte]

Soldados do Exército Imperial Japonês durante a Rebelião Satsuma.

Financeiramente, esmagar a Rebelião Satsuma foi extremamente custoso para o governo. A rebelião também marcou o fim da classe Samurai e o surgimento do novo Exército Imperial Japonês formado de conscritos independente da classe social, o que provou ser muito eficiente. Saigō Takamori foi rotulado como um herói trágico pelo povo e, em 22 de fevereiro de 1889, o Imperador Meiji perdoou Saigō postumamente.

Referências[editar | editar código-fonte]

Livros[editar | editar código-fonte]

  • Buck, James Harold (1979). Satsuma Rebellion: An Episode of Modern Japanese History University Publications of America [S.l.] ISBN 0-89093-259-X. 
  • Craig, T. (1999). Remembering Aizu: The Testament of Shiba Goro U of Hawai'i Press [S.l.] ISBN 0-8248-2157-2. 
  • Gordon, Andrew (2003). A Modern History of Japan: From Tokugawa Times to the Present Oxford University Press [S.l.] ISBN 0195110617. 
  • Henshall, K. (2001). A History of Japan: From Stone Age to Superpower (New York City, NY: St. Martin's Press). ISBN 0-312-23370-1. 
  • Keane, Donald (2005). Emperor Of Japan: Meiji And His World, 1852-1912 Columbia University Press [S.l.] ISBN 0-231-12341-8. 
  • Mounsley, Augustus H (1979). Satsuma Rebellion: An Episode of Modern Japanese History University Publications of America [S.l.] ISBN 0-89093-259-X. 
  • Perrin, Noel (1979). Giving up the gun (Boston: David R. Godine). ISBN 0879237732. 
  • Ravina, Mark (2004). The Last Samurai : The Life and Battles of Saigō Takamori Wiley [S.l.] ISBN 0-471-08970-2. 

And also The Sun Rises by Christopher Nicole is loosely based on the events of the Satsuma Rebellion.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]