Reino de Judá

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Reino de Judá
Kingdom of Israel 1020 map-pt.svg
931 a.C. – 587 a.C. Blank.png
Localização de Judá
Mapa da região no século IX a.C.
Continente Ásia
Região Oriente Médio
Capital Jerusalém
Língua oficial Hebraico
Religião Judaísmo
Politeísmo Cananeu
Governo Monarquia
Período histórico Idade do Ferro Levantina
 • 931 a.C. Revolta de Jeroboão
 • 587 a.C. Cerco de Jerusalém (587 a.C.)
Atualmente parte de  Israel
 Palestina

O Reino de Judá (em hebraico: מַמְלֶכֶת יְהוּדָה, Mamlekhet Yehuda), limitava-se ao norte com o Reino de Israel, a oeste com a inquieta região costeira da Filístia, ao sul com o deserto de Negueve, e a leste com o rio Jordão e o mar Morto e o Reino de Moabe. Era uma região alta, geograficamente isolada por colinas de montanhas ao oeste, o mar Morto a leste e pelo deserto de Negueve ao sul. Sua capital era Jerusalém, onde encontrava-se o Templo de Jerusalém, o qual segundo a Bíblia, teria sido erigido por ordem do rei Salomão para abrigar a Arca da Aliança (ou Arca do Pacto). Segundo a Estela de Tel Dã, o Reino de Judá realmente existiu, em alguma forma, pelo menos em meados do século IX a.C.,[1][2][3] mas faz pouco para mostrar até que ponto.

Após a divisão do reino, no quinto ano do reinado do rei Roboão, o faraó Sisaque I invadiu o território dos hebreus e transformou o Reino de Judá num estado tributário. Esse fato evidenciado no relato bíblico (II Crônicas 12.2) e comprovado por inscrições egípcias. (Inscrição mural sobre Sisaque I no Templo de Carnaque e a estela de Megido). Devido à sua posição estratégica às portas da península do [Sinai] e acesso ao Baixo Egito, foi utilizada pelo faraó como um Estado tampão, o que lhe pouparia de usar seus próprios exércitos para defender esta fronteira.

O Reino de Judá entrou em conflitos com os reinos de Moabe, Amom e os filisteus. A Bíblia afirma que o Reino de Judá permaneceu, de maneira geral, fiel à sua fé em Deus (Javé ou Jeová), enquanto que Israel setentrional tornara-se fortemente influenciado pela cultura cananeia e pela religião fenícia. O culto a Hashem e preservação da linhagem real davídica do qual deveria vir o prometido Messias, de acordo com os profetas do Antigo Testamento, a justificativa para a misericórdia de Deus sobre o Reino de Judá, ao passo que o politeísmo do Reino de Israel teria sido responsável por sua ira sobre seus governantes (enquanto o Reino de Judá permaneceu sob a dinastia dos descendentes do rei David, o Reino de Israel passou por várias dinastias e golpes de Estado).

A arqueologia vem demonstrando que, durante os séculos IX e VIII a.C., Judá não passava de uma região atrasada, predominantemente rural, prejudicado pelo isolamento geográfico e com uma população politeísta formada principalmente por pastores nômades e mencionado por fontes estrangeiras pela primeira vez apenas em 750 a.C., dois séculos após a formação do Reino de Israel. Este, por outro lado, localizado numa região mais privilegiada para a agricultura e rota de comércio entre os portos fenícios e os estados mesopotâmicos, gozou de grande desenvolvimento anterior, durante os séculos IX e VIII a.C., estendendo suas fronteiras entre os territórios arameus ao norte da Galileia, instalando palácios em diversas partes do reino e formando um poderoso exército. [4]

O Reino de Judá viu o perigo das potências estrangeiras emergentes quando a capital de Israel, Samaria foi tomada pelo rei assírio Sargão II, em 722 a.C., o que o levou a buscar prestar vassalagem junto à Assíria. Ironicamente, a destruição do reino do norte pelos assírios causou um grande florescimento do reino de Judá, ao sul. A população cresceu enormemente, alimentada pelos refugiados hebreus do norte e Jerusalém, antes uma pequena cidade de um reino pobre e isolado no sul, tornou-se o grande centro de influência entre todos os hebreus. Mais tarde, devido à recusa do rei Ezequias em continuar pagando tributos à Assíria, o rei Senaqueribe invadiu o Reino de Judá e sitiou Jerusalém, mas sem a conquistar. Segundo a Bíblia, o seu exército foi "subitamente destruído por obra de Deus". Os registros assírios em Nínive e os trabalhos arqueológicos realizados na região apontam para uma situação diferente. Embora Jerusalém tenha sido apenas saqueada e poupada da devastação e do terrorismo de estado praticados pelos assírios contra populações rebeldes, outras cidades do reino de Judá, como a rica Laquis, na região oeste do reino, não contaram com a mesma sorte e foram pilhadas, com seus moradores assassinados ou escravizados. [5] O rei Senaqueribe, ao encerrar sua campanha na Palestina, concedeu ao reino de Judá um saldo considerado como desastroso, incluindo a redução de um terço da população do reino e a perda da rica região do Sefelá, produtora de cereais, transferida pelos assírios aos seus vassalos filisteus.

Lista dos reis[editar | editar código-fonte]

Para esta época, a maioria dos historiadores segue as cronologias estabelecidas por William Foxwell Albright ou Edwin R. Thiele, ou a nova cronologia de Gershon Galil. Além destas tem também a cronologia de Steve Rudd[6].Todas elas são indicadas no quadro. Todas as datas são a.C. (Antes de Cristo).

Datas de Steve Rudd Datas de Albright Datas de Thiele Datas de Galil Nome comum/ Nome biblico Tradução alternativa Nome Hebraico Notas
931-914 a.C. 922–915 a.C. 931–913 a.C. 931–914 a.C. Roboão Reoboão רחבעם בן-שלמה מלך יהודה
Rehav’am ben Shlomoh
 
914-911 a.C. 915–913 a.C. 913–911 a.C. 914–911 a.C. Abias Abião
Abiam
אבים בן-רחבעם מלך יהודה
’Aviyam ben Rehav’am
 
911-870 a.C. 913–873 a.C. 911–870 a.C. 911–870 a.C. Asa   אסא בן-אבים מלך יהודה
’Asa ben ’Aviyam
 
872-848 a.C. 873–849 a.C. 870–848 a.C. 870–845 a.C. Josafá Josafat
Jeosafá
יהושפט בן-אסא מלך יהודה
Yehoshafat ben ’Asa
Co-Reinou com Asa por dois anos
853-841 a.C. 849–842 a.C. 848–841 a.C. 851–843 a.C. Jorão Jeorão יהורם בן-יהושפט מלך יהודה
Yehoram ben Yehoshafat
Co-Reinou com Josafá por cinco anos, foi assassinado
841 a.C. 842–842 a.C. 841–841 a.C. 843–842 a.C. Acazias Ocozias אחזיהו בן-יהורם מלך יהודה
’Ahazyahu ben Yehoram
Morto por Jeú, Rei de Israel
841-835 a.C. 842–837 a.C. 841–835 a.C. 842–835 a.C. Atália   עתליה בת-עמרי מלכת יהודה
‘Atalyah bat ‘Omri
Assassinada
835-796 a.C. 837–800 a.C. 835–796 a.C. 842–802 a.C. Joás Jeoás יהואש בן-אחזיהו מלך יהודה
Yehoash ben ’Ahazyahu
Assassinado
796-767 a.C. 800–783 a.C. 796–767 a.C. 805–776 a.C. Amassias Amazias אמציה בן-יהואש מלך יהודה
’Amatzyah ben Yehoash
Assassinado
790-739 a.C. 783–742 a.C. 767–740 a.C. 788–736 a.C. Uzias Ozias
Azarias
עזיה בן-אמציה מלך יהודה
‘Uziyah ben ’Amatzyah


עזריה בן-אמציה מלך יהודה
‘Azaryah ben ’Amatzyah

 
750-735 a.C. 742–735 a.C. 740–732 a.C. 758–742 a.C. Jotão Jotam יותם בן-עזיה מלך יהודה
Yotam ben ‘Uziyah
 
735-715 a.C. 735–715 a.C. 732–716 a.C. 742–726 a.C. Acaz   אחז בן-יותם מלך יהודה
’Ahaz ben Yotam
 
728-686 a.C. 715–687 a.C. 716–687 a.C. 726–697 a.C. Ezequias   חזקיה בן-אחז מלך יהודה
Hizqiyah ben ’Ahaz
 
696-642 a.C. 687–642 a.C. 687–643 a.C. 697–642 a.C. Manassés   מנשה בן-חזקיה מלך יהודה
Menasheh ben Hizqiyah
 
642-640 a.C. 642–640 a.C. 643–641 a.C. 642–640 a.C. Amom Amon אמון בן-מנשה מלך יהודה
’Amon ben Menasheh
Assassinado
640-609 a.C. 640–609 a.C. 641–609 a.C. 640–609 a.C. Josias   יאשיהו בן-אמון מלך יהודה
Yo’shiyahu ben ’Amon
Morreu em batalha
609-609 a.C. 609 a.C. 609 a.C. 609 a.C. Joacaz Jeoacaz יהואחז בן-יאשיהו מלך יהודה
Yeho’ahaz ben Yo’shiyahu
אחז בן-יאשיהו מלך יהודה
’Ahaz ben Yo’shiyahu
Deposto pelo faraó Neco II.
609-598 a.C. 609–598 a.C. 609–598 a.C. 609–598 a.C. Joaquim Jeoaquim יהויקים בן-יאשיהו מלך יהודה
Yehoyaqim ben Yo’shiyahu
 
598-597 a.C. 598 598 598–597 a.C. Jeconias Jeoaquin יהויכין בן-יהויקים מלך יהודה
Yehoyakhin ben Yehoyaqim
יכניהו בן-יהויקים מלך יהודה
Yekhonyahu ben Yehoyaqim
Deposto pelos Babilónios.
597-587 a.C. 597–587 a.C. 597–586 a.C. 597–586 a.C. Zedequias Sedecias
Matanias
צדקיהו בן-יהויכין מלך יהודה
Tzidqiyahu ben Yo’shiyahu
Ultimo Rei de Judá. Deposto e levado para o exílio.

A queda do Reino de Judá[editar | editar código-fonte]

Levante ca. 830 a.C.

De acordo com o Antigo Testamento, Manassés, rei de Judá, teria feito o que é mau aos olhos de Deus, e por causa de suas obras, todo o Reino de Judá estava condenado ao exílio e à escravidão. Isso deve-se ao fato de Manassés ter permitido o culto politeísta das populações rurais do reino, o que não foi visto com bons olhos pelos sacerdotes do Templo de Jerusalém, os quais defendiam um culto único a Hashem e a extinção completa dos cultos a outras divindades. Segundo registros assírios e achados arqueológicos, Manassés herdou de Ezequias um reino bastante combalido devido à campanha militar do rei Senaqueribe da Assíria, então a maior potência econômica e militar do Oriente Médio, empreendida contra aquele pequeno reino durante o reinado anterior, o que tornou extremamente árdua a tarefa em converter e destruir imagens. Manassés, sabendo das consequências e da impossibilidade em enfrentar de frente a potência assíria, buscou estreitar relações com essa nação, entrando de vez na rota do comércio árabe fomentado pelos assírios.

Durante o reinado de Josias, Rei de Judá, o faraó Necao II, aliado do já decadente Império Assírio, empreendendo uma guerra contra os exércitos de Babilônia chega até a região. Assim, em 609 a.C., trava-se a Batalha de Megido. O Rei de Judá entra em batalha para deter o exército egípcio do faraó Necao II, mas acaba por ser morto. Seu filho Joacaz é levado prisioneiro após três meses de reinado, e o Reino de Judá se torna tributário do Egito. Necao II impôs a coroação do irmão de Joacaz, Eliaquim, e mudou-lhe o nome para Joaquim. Em 605 a.C., trava-se a Batalha de Carquemis com a derrota definitiva de Necao II.

A leste, a Assíria sofreu um rápido declínio, e em poucos anos seu território foi absorvido pela Babilônia. Nabucodonosor II, Rei da Babilônia, empreendeu uma campanha militar contra Judá. Enfrentando pouca resistência, conseguiu entrar em Jerusalém, em 597 a.C., e levou consigo utensílios do templo e o próprio rei Joaquim como prisioneiro. Em seu lugar, estabeleceu o filho de Joaquim, como Rei de Judá. Jeconias, com 18 anos de idade, teve o mesmo destino de seu pai três meses e 10 dias depois de sua coroação. Nabucodonosor então colocou sobre o trono o irmão de Joaquim, Zedequias.

Governando como vassalo da Babilônia, o Rei Zedequias manteve-se no poder por 11 anos, quando então rebelou-se contra Nabucodonosor, provavelmente ao recusar-se pagar tributo. Foi o suficiente para que invadisse Jerusalém, matasse seus habitantes, despojasse o templo de todos os seus bens de valor e ateasse fogo a ele. O Reino de Judá deixou assim de existir.

O destino de Judá[editar | editar código-fonte]

No território de Judá permaneceram apenas os mais pobres. Todo o restante do povo que sobreviveu ao ataque de Nabucodonosor II foi levado às cidades do reino da Babilônia. O período do Cativeiro Babilônico estimulou entre o povo de Judá um sentimento de identidade racial e religiosa indissolúvel. O relato bíblico deste período entre a conquista de Jerusalém e a conquista da Babilônia por Ciro II é onde inicialmente se utiliza de forma consistente o termo "judeu" identificando o povo de Judá, ou aqueles da mesma etnia e seguidores da mesma religião deste povo. A nação judaica sobreviveu para retornar à Palestina e repovoar a província persa de Judá (Yehud), mais tarde denominada Judeia pelos Romanos.

A história de Judá após o Cativeiro Babilônico passou a ser a mesma do próprio povo judeu, até os dias de hoje.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Grabbe, Lester L. (28 de abril de 2007). Ahab Agonistes: The Rise and Fall of the Omri Dynasty. [S.l.]: Bloomsbury Publishing USA. ISBN 9780567251718 
  2. Cline, Eric H. (28 de setembro de 2009). Biblical Archaeology: A Very Short Introduction. [S.l.]: Oxford University Press. ISBN 9780199711628 
  3. Mykytiuk, Lawrence J. (1 de janeiro de 2004). Identifying Biblical Persons in Northwest Semitic Inscriptions of 1200-539 B.C.E. [S.l.]: Society of Biblical Lit. ISBN 9781589830622 
  4. Finkelstein, Israel; Silberman, Neil Asher (2001). The Bible Unearthed: Archaeology's New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts
  5. Finkelstein & Silberman 2001, The Bible Unearthed: Archaeology's New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts.
  6. «Bible Chronology of Kings of Judah, Israel Solved! divided kingdom 931 - 587 BC». www.bible.ca. Consultado em 2 de julho de 2022 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Finkelstein, Israel; Silberman, Neil A. The Bible Unearthed: Archaeology's New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts.
  • Friedman, Richard Elliott. Who Wrote The Bible