Religiões afro-brasileiras

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Terreiro da Casa Branca, em Salvador (BA), um dos templos de candomblé mais antigos do Brasil em atividade, fundado no século XVIII

As religiões afro-brasileiras são aquelas originadas da cultura de diversos povos africanos trazidos como escravos ao Brasil, ao longo dos séculos XVI e XIX. Tendo um importante papel na preservação das tradições culturais dos diferentes grupos étnicos negros (afro-brasileiros), há também, atualmente, um grande número de brancos e outros grupos étnicos que aderem a tais religiões, em especial o candomblé e a umbanda.[1]

Várias religiões afro-brasileiras possuem, em maior ou menor grau, influências de religiões vindas da Europa (Catolicismo, Kardecismo) ou dos povos ameríndios (religiões indígenas). Além disso, elas recebem diversas denominações regionais (ver abaixo).[2]

História[editar | editar código-fonte]

Em quatros séculos de tráfico negreiro, cerca de 3,5 milhões de africanos aportaram no Brasil na condição de escravos, o equivalente a 37% do total do continente americano.[3] Eles eram de diversas etnias: iorubás, fons, mahis, hauçás, éwés, ashantis, congos, quimbundos, umbundos, macuas, lundas e diversos outros povos, cada qual com sua própria religião e cosmogonia.

As religiões afro-brasileiras formaram-se em diferentes regiões e estados do Brasil e em diferentes momentos da nossa história. Por isso, elas adotam não só diferentes formas rituais e diferentes versões mitológicas derivadas de tradições africanas diversificadas, como também adotam nome próprio diferente.

Além disso, as religiões tradicionais africanas, bem como o islamismo dos chamados malês (como os mahis e hauçás) entraram em contato e absorveram maiores ou menores quantidades de elementos de religiões indígenas, do Catolicismo e, mais recentemente, da Doutrina Espírita.

Entretanto, podem ser estabelecidas duas linhas principais de religiões africanas que tiveram maior influência no Brasil:[4]

  • as religiões dos negros bantos, vindos do sul e oeste da África (Angola, República Democrática do Congo, Moçambique), que originaram diferentes cerimônias celebradas especialmente no Rio de Janeiro (como o candomblé bantu, e a umbanda). São também elementos folclóricos bantos, por exemplo, as festas de bumba-meu-boi, lutas de capoeira, jogos de dança, e o samba;
  • as religiões dos negros iorubás (nagôs) e daomeanos (jejes), originados do leste africano (em especial a Nigéria), cuja influência é predominante no Nordeste brasileiro, com os candomblés bahianos (como o candomblé ketu e o candomblé jeje).

A organização das religiões negras no Brasil deu-se bastante recentemente. Quando, nas últimas décadas do século XIX, no período final da escravidão, os africanos trazidos em levas para o Brasil foram assentados nas cidades, eles puderam viver em maior contato uns com os outros, num processo de interação e liberdade de movimentos que antes não conheciam. A fixação urbana dos escravos forneceu as condições favoráveis à sobrevivência de algumas tradições religiosas africanas, com o aparecimento de grupos de culto organizados.

Estatísticas[editar | editar código-fonte]

Segundo dados do censo oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2010, apenas 0,3% da população brasileira se declarou como adepta de religiões de origem afro. A Região Sul é a que apresenta a maior população relativa (0,6%), enquanto as regiões Norte e Centro-Oeste apresentaram as menores (0,1%).

O censo revelou ainda uma forte concentração de afro-religiosos em municípios do sul do Rio Grande do Sul, na fronteira com o Uruguai, bem como na zona pantaneira do Mato Grosso do Sul, nas zonas metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro, no Triângulo Mineiro, no Recôncavo Baiano e nas proximidades da cidade de Codó (Maranhão). Nesses locais, o percentual varia de de 0,6% a 5,9% dos habitantes destes municípios, índices muito acima da média nacional.[5]

Os cinco estados com a maior proporção de afro-religiosos são o Rio de Janeiro (1,61% ), Rio Grande do Sul (0,94%), São Paulo (0,42%), Bahia (0,33%) e Mato Grosso do Sul (0,26%). [6]

Características[editar | editar código-fonte]

Crenças[editar | editar código-fonte]

No tocante especificamente ao Candomblé, crê-se na sobrevivência da alma após a morte física (os Eguns), e na existência de espíritos ancestrais que, caso divinizados (os Orixás, cultuados coletivamente), não materializam; caso não divinizados (os Egungun), materializam em vestes próprias para estarem em contacto com os seus descendentes (os vivos), cantando, falando, dando conselhos e auxiliando espiritualmente a sua comunidade. Observa-se que o conceito de "materialização" no Candomblé, é diferente do de "incorporação" na Umbanda ou na Doutrina Espírita.

Em princípio os Orixás só se apresentam nas festas e obrigações para dançar e serem homenageados. Não dão consulta ao público assistente, mas podem eventualmente falar com membros da família ou da casa para deixar algum recado para o filho. O normal é os Orixás se expressarem através do jogo de Ifá, (oráculo) e merindilogun.

Dependendo da nação ou linha de candomblé, os candomblés tradicionais não fazem a princípio contato com espíritos através da incorporação para consultas, é possível mas não é aceito.

Já o candomblé de caboclo tem uma ligação muito forte com caboclos e exus que incorporam para dar consultas, os caboclos são diferentes da Umbanda.

E existem os candomblés cujos pais de santo eram da Umbanda e passaram para o candomblé que cultuam paralelamente os Orixás e os guias de umbanda.

No candomblé, todo e qualquer espírito deve ser afastado principalmente na hora da iniciação, para não correr o risco de um deles incorporar na pessoa e se passar por orixá, o Iyawo recolhido é monitorado dia e noite, recorrendo-se ao Ifá ou jogo de búzios para detectar a sua presença. A cerimónia só ocorre quando este confirma a ausência de Eguns no ambiente de recolhimento.

Afastam todo e qualquer espírito (egun), ou almas penadas, forças negativas, influências negativas trazidas por pessoas de fora da comunidade. Acredita-se que pessoas trazem consigo boas e más influências, bons e maus acompanhantes (espíritos), através do jogo de Ifá poderá se determinar se essas influências são de nascimento Odu, de destino ou adquiridas de alguma forma.

Os espíritos são cultuados, nas casas de candomblé, em uma casa em separado, sendo homenageados diariamente uma vez que, como Exu, são considerados protetores da comunidade.

Existem orixás que já viveram na terra, como Xangô, Oyá, Ogun, Oxossi. Viveram e morreram. Os que teriam feito parte da criação do mundo teriam se retirado para o Orun, caso de Obatalá e outros chamados Orixá funfun (branco).

Existem as árvores sagradas, que são as mesmas das religiões tradicionais africanas, onde os orixás são cultuados pela comunidade, como é o caso de Iroko, Apaoká, Akoko, e também os orixás individuais de cada pessoa, que são parte do Orixá em si e a ligação da pessoa iniciada com o orixá divinizado.

Ou sejaː numa pessoa que é de Xangô, seu orixá individual seria uma parte daquele Xangô divinizado com todas as suas características ou, como chamam, arquétipo.

Existe muita discussão sobre o assunto: uns dizem que o orixá pessoal é uma manifestação de dentro para fora, do Eu de cada um ligado ao orixá divinizado; outros dizem ser uma incorporação, mas isso é rejeitado por muitos membros do candomblé, que justificam que nem o culto aos Egungun é de incorporação e sim de materialização. Espíritos (Eguns) são despachados (afastados) antes de toda cerimônia ou iniciação do candomblé.

Iniciação[editar | editar código-fonte]

Foto antiga de um ritual de candomblé bantu

Nas religiões afro-brasileiras, vários termos são usados para designar iniciação.

Cada uma das religiões tem seus termos próprios, iniciação, feitura, feitura de santo, raspar santo, são mais usados nos terreiros de candomblé, Candomblé de Caboclo, Cabula, Omoloko, Tambor-de-mina, Xangô do Nordeste, Xambá, no Batuque usa-se o termo fazer a cabeça ou feitura. No Culto de Ifá e no Culto aos Egungun usam o termo iniciação porém os preceitos são diferentes das outras religiões.

No candomblé o período de iniciação é de no mínimo sete anos, se inserem os rituais de passagem, que indicam os vários procedimentos dentro de um período de reclusão que geralmente é de 21 dias (podendo chegar a 30 dias dependendo da região), o aprendizado de rezas, cantigas, línguas sagradas, uso das folhas (folhas sagradas), catulagem, raspagem, pintura, imposição do adoxú e apresentação pública, é individual e faz parte dos preceitos de cada pessoa que entra para a religião dos orixás.

No candomblé Jeje, a iniciação ao culto dos voduns é complexa e longa, de no mínimo sete anos, o período de reclusão pode chegar a durar um ano, que pode envolver longas caminhadas a santuários e mercados, dentro do convento ou terreiro hunkpame, onde os neófitos são submetidos a uma dura rotina de danças, preces, aprendizagem de línguas sagradas e votos de segredo e obediência.

A princípio, nessas cerimônias, tem que haver o desprendimento total, na iniciação deve-se morrer para renascer com outro nome para uma nova vida, no candomblé Ketu o Orunkó do Orixá (só dito em público no dia do nome), no Candomblé bantu além do nome do Nkisi (jamais revelado), tem a dijína pelo qual será chamado o iniciado pelo resto da vida.

Quando uma pessoa iniciada morre é feito o desligamento do Egum, Nvumbe na cerimônia fúnebre e no Axexê, conhecido pelos nomes de sirrum e zerim, que varia dependendo do grau iniciático do morto.

Sincretismo[editar | editar código-fonte]

O orixá Obaluaiyê (acima) é frequentemente sincretizado com São Lázaro nos candomblés ketu e angola e ambos são associados ao vodum sapatá no candomblé jeje e no tambor-de-mina.

Uma característica muito presente nas religiões afro-brasileiras é o sincretismo religioso. Herkowitz (1958, apud HURBON, 1987) utiliza o conceito de reinterpretação para explicar esse fenômeno, ''o processo pelo qual antigas significações são atribuídas a novos elementos ou novos valores, o que muda a significação cultural das formas antigas". A reinterpretação se faz em função do quadro cultural preexistente e das novas reorientações que ele se dá em presença de situações novas.

No caso da escravidão africana nas Américas, "as antigas significações" se referem à bagagem cultural do povos africanos traficados, que tiveram de se adaptar às "situações novas", ou seja, a negação de suas culturas em terras americanas e a imposição do catolicismo ou do protestantismo, dependendo da região.

Roger Bastide não nega o conceito de reinterpretação de Herkowitz, mas defende que a reinterpretação também está ligada às estruturas e mobilidades sociais. Defende que o fenômeno da reinterpretação está em parte condicionado pela discriminação entre classes sociais e em parte condicionado pela discriminação racial dentro da Igreja (como ocorreu no Brasil). Distingue ainda a aculturação material (com suporte nos conteúdos culturais em contato, onde está inserido o sincretismo religioso) e a aculturação formal (baseada na mudança de mentalidade).[7]

Essas, entre outras hipóteses, explicam como foi possível no Brasil a existência, por exemplo, do culto a Ogum (orixá guerreiro dos iorubás) "disfarçado" de reverência ao guerreiro católico São Jorge da Capadócia. Ou ainda, a correlação entre os santos gêmeos São Cosme e São Damião e os os ibêjis, orixás gêmeos dos iorubás.[8]

Orixás e santos católicos[editar | editar código-fonte]

O sincretismo dos orixás com os santos católicos pode variar entre Umbanda e Candomblé, bem como de região para região ou de templo para templo.[9]

Orixá Santo católico [9]
Oxalá Deus Pai

Jesus Cristo (em especial, Senhor do Bonfim)

Xangô Moisés

Santo Antônio

São Jerônimo

São João Batista

São José

São Judas Tadeu

São Pedro

Ogum Santo Antônio

São Jorge

Oxóssi São Jorge

São Sebastião

Oxum Nossa Senhora Aparecida

Nossa Senhora das Cabeças

Nossa Senhora da Conceição

Nossa Senhora de Fátima

Nossa Senhora de Lourdes

Nossa Senhora de Nazaré

Iansã Santa Bárbara

Santa Catarina

Santa Joana D'Arc

Nanã Sant'Ana
Iemanjá Nossa Senhora das Candeias

Nossa Senhora da Conceição

Nossa Senhora da Glória

Nossa Senhora dos Navegantes

Obaluaê/Omulu São Lázaro

São Roque

Exu Santo Antônio

São Miguel Arcanjo[10]

Oxumaré São Bartolomeu
Obá Santa Joana D'Arc
Ibejis São Cosme e Damião

São Crispim e Crispiniano

Tempo São Lourenço
Ossaim São Benedito
Euá Nossa Senhora das Neves

Santa Luzia

Orunmilá Nenhum[nota 1]

Principais religiões[editar | editar código-fonte]

As religiões afro-brasileiras, possuem diferentes influências e denominações regionais. Dentre as religiões com influência principal das culturas "sudanesas", isto é, dos povos iorubás ("nagôs") e daomeanos ("jejês"), estão:[12]

Entre as religiões com influência dos povos bantos (quimbundos), estão:[13]

Enfim, outras religiões afro-brasileiras:

Babaçuê[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Babaçuê

O babaçuê é uma religião presente no estado especialmente no Pará, mas também no Amazonas e no Maranhão. De tradição jeje-nagô, possui fortes elementos indígenas. Está intimamente ligada ao tambor-de-mina e ao terecô do Maranhão. "Babaçuê" possivelmente é uma corruptela de "Bárbara Soeira", nome pelo qual o terecô maranhense também é conhecido.

No início do século XX, pesquisadores de visibilidade nacional davam notícias vagas sobre um tipo de culto na Amazônia denominado "batuque" ou "babaçuê", que teria se curvado às tradições ameríndias, ou seja, à pajelança (CAMPELO, Marilu; DE LUCA, Taíssa; apud Carneiro, 1964).[14]

As danças rituais constituem a parte mais externa e pública do culto. Através das danças, toques e cânticos, as entidades são homenageados, invocadas e se apossam dos iniciados e assim participam dos ritos. Os cânticos do babaçuê recebem o nome genérico de doutrina.

Como o tambor-de-mina e o terecô, o babaçuê se baseia na tradição jeje (fon) de culto aos voduns. Porém, também é realizado o culto aos orixás (tradição nagô), em especial Iansã (orixá dos ventos e protetora das mulheres, sincretizada com Santa Bárbara) e Xangô (orixá dos raios e da justiça, protetor dos homens). Além de voduns e orixás, cultuam-se os "caboclos" ou "encantados", ou seja, os espíritos dos ancestrais indígenas. Narra Carneiro (2014):

[...] Alvarenga inicia seus registros sobre babassuê ou pajelança em Belém, tomando como base o pajé Sátiro Ferreira de Barros, ele 'tinha 43 anos. Nascido em Belém do Pará, no ano de 1895, era negro e filho de João Batista de Oliveira e Maria Teodora de Barros, ambos paraenses da capital. Disse que não trabalhava, vivia do babassuê e que era chefe do terreiro Babau Mataitá.
ALVARENGA, 1950, p.21.

Segundo o relato de Alvarenga (1950), Sátiro afirmava que em Belém existiam três linhas de culto africanas: a cambinda, trazidas pelos primeiros que chegaram à cidade; a nagô, que veio depois; e a jeje que chamava o batuque pelo nome de "tambô di mina" (p. 22). A autora segue durante toda a sua obra descrevendo atividades realizadas por Sátiro em sua casa, e chama atenção em seu texto para o fato de que na pajelança de Sátiro, o pajé negro, não haver uso ou referência à pena e ao maracá. Ela procura destacar que, mesmo invocando espíritos como o de Japetequara (um velho índio que mora nos matos da Ilha do Marajó), Sátiro cultua os voduns jeje, "entidades trazidas pelos escravos africanos do antigo reino do Daomé".

Esse registro das atividades de Sátiro nos permite perceber que as práticas de pajelança no Pará apresentavam um outro elemento marcante, além da hegemonia da figura do índio pajé e do caboclo pajé, há o negro pajé que introduz na configuração da pajelança amazônica elementos africanos. Alvarenga (1950) parece querer estabelecer que a pajelança amazônica seria o resultado da amalgamação de religiões de origem africana e de cultos praticados pelos índios da região. A pajelança, chamada de babassuê por Sátiro, seria o exemplo concreto de uma religião primitivamente brasileira: o babassuê. Nessa prática se teria a base de todas as crenças brasileiras, construída com a predominância de elementos negros e índios"[15].

Batuque[editar | editar código-fonte]

Festa de Ibeji - Sociedade Beneficente Africana São Gerônimo - Porto Alegre.
Ver artigo principal: Batuque (religião)

Batuque é uma religião afro-brasileira de culto aos orixás, encontrada principalmente no estado do Rio Grande do Sul, de onde se estendeu para estados e países vizinhos tais como Uruguai e Argentina. O Batuque é fruto dos povos oriundos de regiões onde hoje se situam Nigéria e o Benim. Hoje, o Batuque possui centenas de casas e inúmeros praticantes e adeptos.

A estruturação do batuque no estado do Rio Grande do Sul deu-se no início do século XIX, entre os anos de 1833 e 1859. Tudo indica que os primeiros terreiros foram fundados na região de Rio Grande e Pelotas. Tem-se notícias, em jornais desta região, matérias sobre cultos de origem africana datadas de abril de 1878, (Jornal do Comércio, Pelotas).[16]

No batuque, o culto é feito exclusivamente aos orixás, sendo o Bará o primeiro a ser homenageado antes de qualquer outro pois este é o orixá da comunicação e encontra-se seu assentamento em todos os terreiros. Os principais orixás cultuados são: Bará, Ogum, Oyá-Iansã, Xangô, Ibêji, Odé, Otim, Obá, Osanhã, Xapanã, Oxum, Iemanjá, Nanã, Oxalá e Orunmilá. E há também divindades que nem todas as casas cultuam como, Gama (ligada ao culto de Xapanã), Zina, Zambirá e Xanguin (qualidade rara de Bará). Apesar de muitas destas divindades serem originariamente voduns (como Xapanã e Zambirá), sabe-se que os iorubás cultuavam tais voduns como orixás, assim como Jonhson registra em seu livro “The History of the Yorubas”, publicado em 1895. Os seguidores do Batuque se identificam com a nação nagô (iorubá).

Apesar de se assemelhar muito ao candomblé ketu, o batuque possui seus próprios rituais para feitura e desligamento, jogos de búzios, cozinha ritualística, assentamentos, paramentação, ferramentas de cada divindade, orins, disposição dos orixás dentro do quarto de santo e divindades que são cultuadas dentro do templo e fora dele.[17]

Candomblé[editar | editar código-fonte]

Representação de Chibinda Ilunga, ancestral mítico do povo chokwê e divindade do candomblé de Angola.
Ver artigo principal: Candomblé

Surgido na Bahia em meados do século XIX, é religião de matriz africana das mais difundidas no Brasil. O termo é uma junção do termo quimbundo candombe (dança com atabaques) com o termo iorubá ilê (casa): "casa da dança com atabaques". A religião tem por base o culto às forças da natureza, sendo chamada de animista.

Como os africanos escravizados eram provenientes de diversas povos e regiões, suas as religiosidades evoluíram na forma de diversas tradições: são as chamadas de "nações do candomblé", que se distinguem entre si principalmente pelas divindades veneradas, os atabaques, os cânticos e a língua litúrgica usada nos rituais. Existem cinco nações do candomblé mais conhecidas:

No candomblé, como nas religiões tradicionais africanas, acredita-se em um Deus Supremo que criou o mundo, chamado Olorum (tradição nagô), Mawu (tradição jeje) ou Nzambi (tradição angola). Em seguida, essa divindade suprema se afastou, deixando sua criação funcionando por meio das forças da natureza por Ele criadas, as quais são chamadas orixás na tradição nagô, voduns na tradição jeje e minkisi na tradição angola. O que se busca é a interferência concreta de Deus "neste mundo" mediante a invocação das forças sagradas da natureza.

A cada orixá, vodun ou nkisi cabe reger e controlar as forças da natureza assim como certos aspectos da vida humana e social. Cada um, além de ter funções distintas e poderes específicos condizentes com seus traços de personalidade, conta também com símbolos particulares, como as roupas, as cores das roupas e das contas, determinados objetos, adereços, batidas de atabaque e canções características, bebidas e alimentos, sem falar dos animais sacrificiais próprios de cada divindade. E cada orixá, vodun ou nkisi tem ainda uma saudação dirigido somente a ele.

A relação entre cada indivíduo e seu "santo" particular que se estabelece o que é certo ou errado. Para um adepto do candomblé, a definição do que é bom e do que é mau nunca é abstrata, mas sempre relativa a uma pessoa concreta com seu orixá (igualmente voduns e minkisi), pois cada cada está relacionado a uma série de tabus específicos, os chamados ewó ou quizila. O que o devoto não pode fazer é quebrar os tabus de seu orixá, mas aquilo que é proibido para um orixá não é necessariamente proibido para outro.[1]

Umbanda[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Umbanda

De todas as religiões afro-brasileiras, a mais próxima da Doutrina Espírita é um segmento (linha) da umbanda denominado de "umbanda branca", e que não tem nenhuma ligação com o candomblé, o xambá, o xangô do Recife ou o batuque. Embora popularmente se acredite que estas últimas sejam um tipo de "espiritismo", na realidade trata-se de religiões iniciáticas animistas, que não partilham nenhum dos ensinamentos relacionados com a Doutrina Espírita. Entretanto, outros segmentos da umbanda podem ter algumas semelhanças com a Doutrina Espírita, mas também com o candomblé por causa da figura dos orixás.

Na umbanda e quimbanda, não incluem os ritos de passagem, nem feitura de santo propriamente dita, uma vez que não incorporam orixás, incorporam os Falangeiros de Orixás. Usa-se o termo fazer a cabeça, onde pode existir a catulagem e pintura, porém a cabeça não é raspada completamente, e não tem imposição do adoxú. A reclusão, nesses casos, é de três a sete dias, é feita a instrução esotérica, aprendizado das rezas e pontos riscados e cantados, e é feita a apresentação pública.

Xambá[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Xambá

O xambá é uma religião de origem africana ativa em Olinda, em Pernambuco.[18] O povo Xambá ou Tchambá habitava a região norte da região de Ashanti e também a região do Planalto de Adamawa.[19]

Notas

  1. Não é considerado como sendo um orixá, portanto não é sincretizado com os santos católicos.[11]

Referências

  1. a b GAARDER; HELLERN; NOTAKER, Jostein; Victor; Henry (2000). O Livro das Religiões. São Paulo: Cia das Letras. 292 páginas  link.
  2. Silva (2005), p. 98.
  3. CHIAVENATO, Júlio José (1999). O Negro no Brasil: Da senzala à abolição. São Paulo: Moderna. pp. p.122 
  4. Rosenfeld (1993), p. 52.
  5. «Censo Demográfico 2010: Características Gerais da População, Religião e Pessoas com Deficiência» (PDF). 2010. p. p. 92 e 97  |nome1= sem |sobrenome1= em Authors list (ajuda)
  6. NERI, Marcelo (2011). «Novo Mapa das Religiões» (PDF). Fundação Getúlio Vargas. p. 37. Consultado em 21 de maio de 2017. 
  7. HURBON, Laënnec (1987). O Deus da Resistência Negra: o Vodu Haitiano. São Paulo, Porto Príncipe (Haiti): Paulinas. p. 95-97 
  8. BRAICK, MOTA, Patrícia, Mírian (2007). História: das Cavernas ao Terceiro Milênio. São Paulo: Moderna 
  9. a b Barbosa Júnior, Ademir (2014). O Livro Essencial da Umbanda. São Paulo: Universo dos Livros. ISBN 978-85-7930-744-7 
  10. «29 de setembro comemoramos o "Dia de São Miguel Arcanjo"». Raízes Espirituais. 29 de setembro de 2012. Consultado em 5 de fevereiro de 2018.. Cópia arquivada em 5 de fevereiro de 2018 
  11. Raposo, Leonardo. «Orunmilá. O quase orixá». Portal Giras de Umbanda. Consultado em 5 de fevereiro de 2018.. Cópia arquivada em 5 de fevereiro de 2018 
  12. Silva (2005), p. 98.
  13. Silva (2005), p. 98.
  14. CAMPELO; DE LUCA, Marilu; Taíssa (1 de junho de 2007). «As duas africanidades estabelecidas no Pará» (PDF). Revista Aulas: Universidade Federal de Campinas. Consultado em 21 de maio de 2017. 
  15. CORDEIRO;, Maria Audirene de Souza (3 de junho de 2014). «Pajelança e Babassuê: as faces do Xamanismo amazônico no final do século XIX» (PDF). 29ª Reunião Brasileira de Antropologia (Natal/RN, 2014). p. 11. Consultado em 21 de maio de 2017. 
  16. Religiões Afro-Brasileiras do Rio Grande do Sul: Passado e Presente
  17. «O Batuque do Rio Grande do Sul – Uma religião de Orixás». Candomblé. 26 de outubro de 2016. Consultado em 4 de junho de 2017. 
  18. Mãe Carmem Prisco (21 de dezembro de 2012). «As religiões de matriz africana e a escola». Ação Educativa. Consultado em 27 de maio de 2017. 
  19. «Terreiro Xambá - Portão do Gelo». www.xamba.com.br. Consultado em 27 de maio de 2017. 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • BASTIDE, R. The African religions of Brazil: Toward a sociology of the interpenetration of civilizations. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1978. link. [Ed. original: Les religions africaines au Brésil, PUF, 1960; As religiões africanas no Brasil, 1971.]
  • CARNEIRO, A. Os mitos africanos no Brasil: ciência do folclore. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1937. link.
  • CAROSO, Carlos; BACELAR, Jeferson (Orgs.). Faces da tradição afro-brasileira: religiosidade, sincretismo, anti-sincretismo, reafricanização, práticas terapêuticas, etnobotânica e comida. Rio de Janeiro: Pallas; Salvador: CEAO, 1999.
  • COSTA, V.; GOMES, F. (org.). Religiões Negras no Brasil: da Escravidão à Pós-emancipação. São Paulo: Selo Negro, 2016. link.
  • FERRETTI, M.; FERRETTI, S. (coord.). Diversidade religiosa afro-brasileira: denominações menos pesquisadas. 21ª Reunião da Associação Brasileira de Antropologia, Vitória, ES, 1998. link.
  • JENSEN, T. G. Discursos sobre as religiões afro-brasileiras: da desafricanização para a reafricanização. Rev. Estud. Relig., v. 1, n. 1, p. 1-21, 2001. link.
  • PRANDI, R. Modernidade com feitiçaria: candomblé e umbanda no Brasil do século XX. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 2(1): 49-74, 1990. link.
  • PRANDI, Reginaldo. Herdeiras do Axé: sociologia das religiões afro-brasileiras. São Paulo: Hucitec, 1996.
  • PRANDI, R. Referências sociais das religiões afro-brasileiras: sincretismo, branqueamento, africanização. Horiz. antropol., Porto Alegre, v. 4, n. 8, p. 151-167, 1998. link.
  • PRANDI, R. As religiões afro-brasileiras e seus seguidores. Civitas, Revista de Ciências Sociais, vol. 3, n. 1, pp. 15–34, Porto Alegre, PUC-RS, junho de 2003. link.
  • RIBEIRO, R. I. "Representação das religiões de matriz africana e identidade étnico-religiosa no Brasil. Macumba? Isso é coisa de preto!" In: PAIVA, G. J.; ZANGARI, W. (org.). A Representação na Religião: Perspectivas Psicológicas. São Paulo, Loyola, 2004, pp. 147-160. link.
  • RIVAS NETO, Francisco. Escolas das religiões afro-brasileiras: tradição oral e diversidade. São Paulo: Arché, 2012.
  • ROSENFELD, Anatol. Macumba. In: Negro, macumba e futebol. São Paulo: Perspectiva, 1993. pp. 49-71.
  • SILVA, Vagner Gonçalves da. Candomblé e Umbanda – caminhos da devoção brasileira. São Paulo: Selo Negro Edições, 2005. link.
  • VALENTE, Waldemar. Sincretismo religioso afro-brasileiro. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1955. link.
  • VATIN, Xavier. Rites et musiques de possession à Bahia. Paris: L'Harmattan, 2005. link.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]